São Paulo: Terra de quem tem fôlego*

by Fernando Brengel

Nasci na Rua Barata Ribeiro, que desemboca na Praça 14 Bis, Bela Vista, Centro de São Paulo. Ao lado o bairro do Bixiga. Território de Adoniran Barbosa, Agostinho dos Santos, Vai-Vai. No apartamento acima do meu morava Benito di Paula. Minha rua era frequentada por Wilson Simonal e pelo pessoal da TV Record dos anos 60 e 70. Barata Ribeiro da minha infância. Bela Vista dos meus sonhos. São Paulo do meu coração. Aqui nasci, dessa vida me despedirei desse ponto do planeta. Uma existência, que agora, em luzes e cores esmaecidas, lembram-me de uma infância feliz, de uma existência bela e repleta das recordações integrantes de minha história. A Copa de 70. O Homem pisando na lua. A Guerra Fria. Os senhores de terno. As meninas do pensionato. Os jogos de taco. Os primeiros bailinhos – as primeiras e inexplicáveis ereções, quando corpos e testosterona em formação apontavam para um feliz porvir. Os amigos da rua. A família reunida. Os Natais em que Papai Noel não aparecia, mas deixava presentes – alguns não funcionavam direito como o Pega-Pega Troll. Os embates de rojão nas Festas Juninas – sim, a gente mirava o rojão um no outro, mas a uma boa distância, ufa!. O drible, o único da minha vida, no malandro do bairro, que não gostou e saiu atrás de mim para me socar. A Praça Roosevelt, em que ficava o Porto Seguro, minha escola. A Offner, que nasceu na Barata Ribeiro. 5 da tarde, aquele cheiro de chocolate a inundar a rua e fazer garotos como eu salivarem. Meus avós, pais e tia, meus parentes. O Zé do 45, dono da maior discoteca do pedaço. O bairro repleto de imigrantes italianos, mas também de outras tantas nacionalidades; de migrantes de todo o país; de gente que aprendeu a amar São Paulo como é. De enxergá-la em sua essência. De com ela se relacionar por inteiro. De amá-la de alma. De dizer: viva os 470 anos de Sampa! Que nada tem de “túmulo do samba” – Vinícius, você falou bobagem Poetinha; sem problemas, te amo mesmo assim. São Paulo é samba, rock, blues, pagode, MPB, punk e do que mais vier. São Paulo recebe e faz questão que aqui fiquem baianos, peruanos, alagoanos, franceses, portugueses, espanhóis, sul-americanos, paraibanos, alemães, riograndenses e toda a gente, preta, branca, amarela e vermelha; hétero, homo, bi, tri, poli, trans; esquerda, direita, centro ou muito pelo contrário; altos, baixos, gordos, magros e quem mais venha a ser o que é e o que será. São Paulo, te amo! 470 anos são só para começar. Porque aqui é Terra de quem tem fôlego como esse texto, que de um fôlego só não diz tudo, mas resume um pouco do meu grande amor por você, minha eterna cidade.

* Hoje, aniversário de São Paulo, Fernando Brengel nos brinda com esse belíssimo texto que, muito feliz e agradecido tenho a honra de publicar neste blog. Grato, Brother!