Caminhantes noturnos

foto: Valdo Resende

No início da madrugada, o carro deslizando com velocidade sobre o asfalto, as construções às margens da estrada tornaram-se o que, ultimamente, as pessoas chamam gatilho. Prefiro escrever que acionaram lembranças, despertaram memórias. Tentei em vão visualizar a escola onde lecionei, assim como a empresa em que trabalhou um grande amigo. Já haviam ficado para trás.

Entramos em um trecho em que, seguramente, eu não passava há oito, dez anos. Os versos da canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil tornados realidade: “Tudo ainda é tal e qual, e no entanto nada é igual”. A capital São Paulo, gigante que nunca dorme, é o cenário de milhões e milhões de histórias. Sou um cisco irrelevante, incapaz de acordar a cidade. Mas ali estão as minhas lembranças, testemunhas do que vivi.

Houve um dia em que, após passar em um concurso, saí de Santo André, no ABC, em direção à Rua Dr. Vila Nova, na Vila Buarque. Uma imensa chuva provocara enchente e o trânsito, parado, me impedia atravessar um trecho da Avenida do Estado. Eu não conhecia a cidade e, preocupado em chegar no horário a tempo de realizar a entrevista de admissão, resolvi contornar a enchente tendo como rumo os edifícios centrais, o norte correto dado pela torre do antigo Banespa, hoje sede e propriedade privada.

Próximos de entrar no elevado sobre o Rio Tamanduateí percebi, que a fábrica da Arno não está ali, onde sempre esteve. Quando será que fechou? Ainda existe tal marca? Também, há séculos não careço comprar eletrodomésticos. Ficou para trás a fábrica, também ficou no passado a gravadora de discos que me encantava por saber que Ângela Maria, Elza Soares e Miltinho gravaram discos ali, em qual prédio mesmo? O da esquina, próxima da igreja horrorosa e caça níquel do outro lado da avenida, tão cheia de luzes quanto uma padaria.

Senti vontade de voltar ao Ipiranga, passar pela Avenida Nazaré e chegar ao antigo Instituto de Artes, onde estudei. Mas já descemos do viaduto sobre o rio e evito olhar para o quartel, prestando atenção na Estação do Metrô Pedro II. Sinto-me a caminho de casa. Entramos no trecho da Radial Leste que ligará com o Elevado João Goulart, o Minhocão. Durante quarenta anos passei por essas avenidas e ruas, praças e parques. Estou a caminho de casa.

Meus companheiros de viagem ignoram meus pensamentos, conversam sobre os benefícios do alho, cru, em pedaços. O chá é bom, mas perde um pouco a potência e retarda o efeito curativo. Chá de alho! O motorista segue atento ao tráfego e ignora a entrada para meu antigo lar. É rápido e já passamos em frente ao Teatro Oficina. Meu destino deixa de ser minha casa para ser meu trabalho. O carro faz parte do trajeto que percorri nos últimos anos antes de me aposentar.

Sob o elevado, em um semáforo fechado da Avenida Amaral Gurgel, percebo ainda os resquícios de noites efervescentes da década de 80. Passava por ali em direção ao CPT de Antunes Filho, andava de um lado para o outro para cobrir eventos das boates da região para a revista em que escrevi, onde vi os primeiros shows de sexo explícito, presenciei uma briga tenebrosa no Bar Quadrado, em frente ao Bar Redondo em madrugada como esta, em que atravessamos a cidade rumo ao lar dos nossos hóspedes.

Nosso destino é a Avenida Barão de Limeira, que conheci em relações de trabalho com a Folha de São Paulo. Chegamos ao destino. Despedidas rápidas, pois é tarde e o domingo já está prestes a receber os primeiros raios de sol. O frio é intenso e eu quero voltar para casa, a de agora, no litoral onde a temperatura mesmo fria é sempre mais amena que na Capital.

Estou cansado. A noite foi intensa e todas as lembranças que vieram à tona misturaram-se a flashs de outras histórias, muitas pessoas, vários lugares. Se acionadas com tempo sei que estão todas dentro de mim. Alguns deslizes e falharão as datas corretas, os nomes completos. Um ou outro detalhe se perdeu, talvez com hipnose seja resgatado, mas se foi perdido que fique por lá. Importa o que emergiu, o que está quente, pleno de vida dentro de mim.

Ah, São Paulo! Só um momento, só pequenas lembranças de um ser comum. Quantas outras em seus milhões de habitantes? Outras tantas em viajantes, já distantes. Volto à Caetano para afirmar que o “errante navegante, quem jamais te esqueceria”. São Paulo não é a minha terra. É a maior parte da minha vida!  De tantos outros que, trafegando madrugada adentro por suas ruas e avenidas, se derretem de amor e gratidão, até mesmo pelo emprego perdido por não chegar à tempo por conta de uma enchente.

São Paulo, 09/08/2025. Para meus companheiros de viagem, Patrícia Remondini, André Manzoni e Flávio Monteiro. O título desta crônica refere música d’Os Mutantes (Arnaldo Batista e Rita Lee). Os alhos, ruinzinhos, estavam expostos no supermercado. Não comprei.

Fernanda Torres, uma melhor.

Fernanda Torres em Ainda estou aqui. Foto divulgação.

A iminência de um Oscar para Fernanda Torres tem causado barulho por aí. A campanha levada em frente pela atriz é parte do negócio – sim, o filme “Ainda Estou aqui”, de Walter Salles, carece de retorno financeiro – e evidencia mais que o habitual trabalho de produtores e artistas na busca da visibilidade e de conquistas para garantir novos investimentos.

Um trabalho insano, se considerarmos as distâncias geográficas percorridas semanalmente pela atriz. A gente nunca sabe onde Fernanda está. Isso implica em horas de cansativos voos, mudanças climáticas absurdas e, como se não bastasse cabelo e maquiagem no eterno tira e põe, há que se manter o astral e o bom humor. Fernanda tem tirado de letra e, tudo indica, angariado afetos por onde passa. Não há como resistir à espontaneidade, ao sorriso franco, à elegância sem ostentação, ao rosto limpo e sem os procedimentos que causam ruídos estéticos em algumas de suas concorrentes do momento.

Antunes Filho, também da categoria “um melhor”, no caso, diretor de teatro, afirmava sobre a absoluta necessidade de conhecimento e inteligência para atores e atrizes. Fernanda Torres (que poderia ser apenas bem articulada, a origem lhe facilitaria o trânsito no meio artístico) confirma a premissa de Antunes e mais: domina a linguagem escrita em textos inteligentes em carreira literária paralela, domina idiomas como o inglês e o italiano e esbanja repertório sobre o que faz e sobre o mundo em que vive. E, para coroar toda essa gama de talentos, é das raras atrizes que transitam com inegável competência entre o drama e a comédia.

O mundo está conhecendo Fernanda Torres. Já deveria ter dado atenção similar quando ela, jovem, foi melhor atriz em Cannes. Naquele momento, 1986, a Rede Globo não liberou a atriz das gravações de Selva de Pedra e ela não esteve no festival em que foi premiada. Certamente a visibilidade obtida com a Palma de Ouro teria sido outra. Pelo sim, pelo não, Fernanda Torres abandonou as novelas. Abdicou do destino de “mocinha” ou “vilã” e seguiu os passos da mãe ao tomar as rédeas da própria carreira, iniciada anos antes no teatro quando registrou êxitos como em Rei Lear.

Logo depois da novela vieram as peças Orlando, The flash and crash days e, entre outras, 5 x comédia (1996), que marca o encontro profissional entre a atriz e Luiz Fernando Guimarães, com quem contracenou em Os Normais. Em 2001 o Brasil conheceu Vani, e Fernanda Torres se tornou definitivamente uma atriz popular. Amada e respeitada pela imensa capacidade de, literalmente, se jogar na personagem. O casal cometia insanidades, extrapolava neuroses, se metia em confusões imensas e o público ria, como riu anos depois, 2011, quando Fernanda se tornou Fátima, formando dupla impagável com Andréa Beltrão.

O filme do Walter Salles que catapultou Fernanda Torres ao estrelato mundial é certamente um marco do cinema nacional e da carreira da atriz. Mas os fãs não se esquecem, entre outras, da Carula, de Marvada Carne, ou da Maria, de O que é isso companheiro. Há uma hierarquia entre essas personagens e Eunice Paiva? Certamente que sim, principalmente sendo Eunice personagem real, de importância histórica ao enfrentar a ditadura militar. Fernanda Torres foi a caipira ingênua, a urbana neurótica, a suburbana desinibida e atirada e por aí caminhou, sempre com um grau de humanidade que leva o público a se identificar, a se apaixonar. Ao se deparar com Eunice, Fernanda não economizou ao mostrar, em minúcias, a grande mulher que Eunice foi. Isso é trabalho de atriz. Melhor atriz. Uma melhor que, em dado momento divide com a mãe, Eunice já doente. Dona Fernanda, uma melhor.

Fernanda Torres em A casa dos Budas Ditosos. Foto Luciana Prezia/divulgação.

Enfim, quis escrever este texto antes do Globo de Ouro, antes do Oscar. Prêmios são bons porque reconhecem publicamente a atuação profissional de artistas. Mas, em qualquer instância, com ou sem prêmios há os melhores. Não comparativamente. Os melhores pelo fato de serem os melhores no que fazem. Tão melhores quanto Fernanda Torres, que já alertou para todo mundo baixar a bola. Um pouco de bom senso e a gente pode se balizar pelo prêmio que não veio para Fernanda Montenegro. Se vier para a filha, melhor, se não vier, ambas estão nesta categoria, são as melhores. A tal Gwyneth Paltrow não está. Cate Blanchett e Meryl Streep estão. O tempo e os filmes garantem quem é melhor.

Quero concluir este registro sobre meu afeto por Fernanda Torres relembrando quando a vi, menina, no final da peça estrelada por Fernanda Montenegro “As Lágrimas amargas de Petro Von Kant”. Enquanto a mãe nos atendia nos camarins, ela se despediu educadamente anunciando que ia para o hotel. Era só uma menina se despedindo da mãe que estava trabalhando. Depois a vi no palco, já dona do ofício, deixando para registrar por último “A casa dos Budas Ditosos”, quando literalmente passei mal de tanto rir. Como não amar quem nos faz rir tanto e tão gostoso quanto Fernanda Torres? Eunice Paiva é um grande personagem por si, mostrado ao mundo por uma melhor atriz. A melhor atriz, Fernanda! Sem sobrenome, pois as duas Fernandas de “Ainda estou aqui” são as melhores.

Notas:

As lágrimas amargas de Petra Von Kant – 1982, Peça de Rainer Werner Fassbinder, direção de Celso Nunes. É desta peça que Fernanda Torres viralizou com um meme: “minha mãe deitada no chão, bêbada, apaixonada pela Renata Sorrah. Pensei: minha mãe é muito louca”.

– 5 x Comédia, (1996), adaptação de Marcus Alvisi e direção de Hamilton Vaz Pereira, Marcus Alvisi, Mauro Rasi, Pedro Cardoso.

– A casa dos Budas Ditosos (2003), baseado no livro de João Ubaldo Ribeiro, direção de Domingos de Oliveira.

– A Marvada Carne (1985), de André Klotzel.

– Em Cannes, o filme foi “Eu sei que vou te amar” (1986), de Arnaldo Jabor.

– O que é isso companheiro (1997), baseado no livro de Fernando Gabeira, dir. de Bruno Barreto.

– Orlando (1989), baseado na biografia de Virginia Woolf dir. Bia Lessa

– Rei Lear (1983), de W. Shakespeare, direção de Celso Nunes.

– The flash and crash days (1991) de Gerald Thomas.

Neide Marcondes, que uniu arte e ensino

Neide Marcondes de Faria

“Estudem. Dominem o conhecimento e não abaixem a cabeça para ninguém!” Essa frase está entre as que guardei como norteadores para minha vida. O saber é forma eficaz de enfrentar o mundo e a autora da frase foi minha professora de História da Arte, Neide Antônia Marcondes de Faria. Livre docente da Unesp, professora doutora, autora, artista, Neide exerceu inúmeras atividades em que o conhecimento esteve à frente, base sólida.

No Instituto de Artes da Unesp, onde a conheci, tinha uma presença notável. Com delicadeza, sem nunca perder a determinação, transitou pela graduação e pós-graduação onde trabalhou para que seus alunos seguissem em frente, programando atividades dentro e fora da escola, indicando exposições, novos livros e cursos. Estabeleceu, com suas atividades, uma forma de atuação que tempos depois, percebi, passei a utilizar como professor.

Primeiro dia de aula, Neide apresentava a bibliografia, os motivos de utilizar um ou outro autor, os capítulos pertinentes a cada aula programada para cobrir o conteúdo da disciplina. Depois, reservava sempre um tempo para discutir os textos indicados e, perspicaz, não se deixava levar pela malandragem de alguns. “Por que você está dizendo isso? Não, você não leu o texto! Por favor, leia e depois volte a se pronunciar”. Recordo o vexame da pessoa, servindo de alerta para todos os demais. Os textos estavam lá, era só ler; esse é o trabalho do aluno.

Em um dado momento foi marcado um dia de estudos fora do campus. Os carros de quem os tinha, mais um fusca da professora, foram cheios de gente para a chácara onde mantinha seu ateliê, em Itapecerica da Serra. Mostrou-nos suas experiências plásticas, parte de sua biblioteca, as lembranças de viagem pertinentes ao nosso conteúdo. Egito, Grécia, Florença, Paris… Os principais sítios arqueológicos, museus e obras mais importantes deveriam ser visitados. Anos depois, no mestrado, quando me foi concedido bolsa ela não hesitou: Se você quiser ser mestre, vá estudar fora. Obediente, fui.

Ao relatar fatos pessoais busco ressaltar a professora que tive. Volto às primeiras aulas de História da Arte, quando ela nos deu aulas sobre a Grécia. Ela sempre dialogava com todos os alunos, e aquela aula foi pertinente para aplicar o método maiêutico, aquele do Sócrates, perguntando, perguntando, indo sempre mais a fundo no diálogo com o interlocutor. Quando o assunto chegou nos trágicos, procurei responder ao que ela perguntava.

Eu estudava teatro à fundo, estava naquele momento trabalhando com o diretor Antunes Filho, o assunto rendeu. Em um determinado momento ela deixou a lousa e caminhou até se sentar a meu lado, último da fila. Ao final do nosso longo diálogo, ela se dirigiu aos meus colegas: “Quando a gente encontra quem sabe mais, deve ceder o lugar, ouvir a pessoa.” Em seguida me convidou para falar sobre o Teatro Grego para as outras turmas, seus alunos. Assim me tornei seu monitor, tendo-a como orientadora em atividades da graduação e pós-graduação.

Outro momento marcante do nosso encontro, haveria um concurso para a cadeira de teatro no interior de Minas Gerais. “Quero que você faça. Mesmo que não passe, é para experiência. Você precisa saber como é que funciona”.  Indo além, me encaminhou para aulas particulares com o Professor Alexandre Luiz Mate. O docente avaliou, percebeu lacunas no meu conhecimento e fui beneficiado com as melhores aulas de teatro que tive até então. Fiquei empolgado, a professora sabia onde estava. Me pediu, antes que eu partisse para as provas, que ao chegar anotasse os nomes dos meus concorrentes e ligasse, passando-os para ela. No dia seguinte ao telefonema com minhas informações, ela retornou: “Esse concurso é para efetivação de fulano de tal. Mas, faça o que falta com o mesmo empenho. O que conta aqui é essa experiência”.

Neide Marcondes na Faculdade de Belas Artes de Lisboa.: Entre a Arte e o Ensino.

Na medida em que revolvo lembranças, a Professora Doutora Neide Antônia Marcondes de Faria ganha vulto. Através dela conheci e me tornei amigo do musicólogo Régis Duprat. Por indicação dela à Professora Dirce Ceribelli montei, de João Cabral de Melo Neto, o Auto do Frade. Dela recebi, e guardo com orgulho, uma carta de apresentação que me abriu portas profissionais.

Caminhamos por mundos distintos. Atuando em universidade privada fui professor de História da Arte. Em cada aula, em cada disciplina correlata, foram os autores e as aulas da minha professora a base que me permitiu, sem modéstia, o respeito e a admiração dos meus pares. Com tristeza recebi a notícia do falecimento de Neide, no dia 5 passado. Seu legado permanecerá nos livros publicados, nos trabalhos e artigos acadêmicos, mas sobretudo e principalmente nas ações de seus alunos, discípulos que levaram a outros e outros o conhecimento e a postura da grande mestra.

Aos familiares e amigos, meus sentimentos.

Notas:

1 – Entre os trabalhos de Neide Marcondes estão: (Des)Velar a Arte; O Partido Arquitetônico Rural no Século XIX; À Procura do Castelo dos Faria; Uma Guerrilheira (o)culta. Também participou das publicações: Cidades Histórias Mutações Desafios e Labirintos e Nós – Imagem Ibérica em Terras da América.

2 – As fotos acima foram copiadas da página do Instagram da professora.

O Zé e o José, nosso Teatro

A morte inesperada e dolorosa de Zé Celso nos entristeceu. O pessoal do Oficina, familiares e amigos trataram de realizar um ritual funerário digno do artista. A primeira coisa que me veio a cabeça foi querer um velório assim! Cheio de música e dança!  A vontade não é inédita, posto que surgiu quando, adolescente, assisti ao filme O Enterro da Cafetina (Alberto Pieralisi, 1971). Um velório festivo para o retorno dessa longa viagem que é a vida.

Zé Celso caminhava sempre pelo bairro Bela Vista e o encontrei mais vezes no supermercado da Rua Pedroso do que no teatro. Sempre gentil e delicado, sorridente e atencioso para com as pessoas. Aparentemente discreto, nos detalhes é que se percebia o dionisíaco diretor e ator do Oficina, de quem comecei a ouvir falar desde aqui, de Uberaba, nas primeiras leituras sobre o teatro brasileiro. Os Pequenos Burgueses, O Rei da Vela! As Bacantes. Aí me mudei para São Paulo, onde o Teatro Oficina é parte do cotidiano da cidade e do pessoal de teatro.

No início dos anos 80, creio que exatamente em 82, o Teatro Oficina promoveu uma mostra com grupos da cidade e do grande São Paulo. Uzyna Uzona! De Santo André participou o Grupo Caroço, com Os Pintores. Texto e direção deste que vos escreve. Foi a única vez que estive profissionalmente no Oficina. Acanhado tabaréu, nunca tive a verve “louca, alucinada e criança” para explodir nos palcos de Zé Celso. Meu destino foi parar no território de outro Zé, o Antunes Filho.

Conheci o trabalho de Antunes Filho no palco ao ver a montagem de Esperando Godot. Logo depois, o diretor criou Macunaíma, um divisor no teatro nacional. Anos depois, 1984, fui trabalhar no CPT – Centro de Pesquisa Teatral, do Sesc, com o diretor a quem, para provocar, um colega chamava de Zezinho. José Alves Antunes Filho. Adaptei-me ao jeito do encenador disciplinado, mergulhado em livros e leitura. Foram tempos de profunda imersão no fazer teatro, quando Antunes me parecia o próprio Téspis na lendária expressão “Eu sou o Teatro!”.

Dois mestres do teatro. Dois nortes. Parecidos e diferentes. Em comum, a paixão pelo palco, este visto de modos absolutamente distintos e, por isso mesmo, enriquecedores. No que a linguagem expressa, e a interpretação me permite, esses dois indivíduos revelam modos de ser ao assumir a forma de ser identificados. Zé Celso Martinez Correa, o Zé Celso, cujo Zé denota irreverência, alegria, e José Alves Antunes Filho, o Antunes Filho denotando um distanciamento em favor do trabalho artístico, o ser exigente, uma de suas características.

Um imenso privilégio tê-los conhecido: O Zé Celso e o Antunes Filho. Dois homens e um teatro, o melhor teatro. Evoé!

Sapos, tapas e um golpe

Foto Oficial Presidenta Dilma Rousseff. Foto: Roberto Stuckert Filho.

Creio que a maioria das pessoas tenha sofrido algum tipo de injustiça no decorrer de suas vidas. No mínimo não tiveram seus direitos respeitados ou tiveram que aturar aquela situação popularmente conhecida como engolir sapos. Tipo quando você tem que aturar um funcionário relapso – para ficar no razoável – para conseguir o serviço pelo qual o sujeito é pago para realizar.

Injustiças quando ali, na intimidade do sujeito, levam a um tipo de digestão onde o afetado deve lidar com suas frustrações sem interferências de outros. Uns rogam pragas, outros sonham cenas de assassinatos, há quem se prepara para algum tipo de revide e, entre várias outras possibilidades, há o famoso deixa para lá. Todavia, há as injustiças públicas. Difíceis de engolir, difíceis de esquecer.

Guardo de Antunes Filho o ensinamento de que “o primeiro tapa é o que vale, é o que entra para a história.” Dizia o diretor que, em situações adversas, perante um inimigo, um desafeto, na hora de uma briga, o importante era desferir o primeiro tapa. Um grande e sonoro tapa na cara! Na sequência o autor do tapa pode apanhar muito, mas o primeiro tapa é o que entrará para a história. Teatralmente é maravilhoso! Na vida real…

Nem uma necessidade mal atendida, nem uma bofetada recebida em público. O que me leva a escrever é algo muito pior; verdades e situações impostas a outros que, injustas, ficam por isso mesmo e a vítima não engole um sapo, mas uma saparia por toda a vida e, quiçá, após a morte. Um exemplo que me incomoda há anos: Publicaram que Michael Jackson fazia tratamentos para ficar branco. Um escândalo somado a outras situações vividas pelo artista. Ele afirmava ter vitiligo, mas… os tabloides e similares sensacionalistas duvidavam. Quando Michael morreu e, tempos depois, foi publicado os resultados da autópsia, constava lá, com absoluta clareza: o falecido tinha vitiligo. Pouco foi alardeado sobre tal fato.

Estamos em setembro. Desde fevereiro se sabe o resultado de um inquérito que vinha sendo feito pelo Ministério Público Federal, mas que foi revelado só agora. Movido contra Dilma Rousseff a partir de 2015, tornou popular a expressão “pedaladas fiscais” e foi usado para o impeachment que a tirou da presidência em 2016. Taí um sapo do tamanho do mundo imposto a uma mulher que, conforme o MPF, agiu conforme as práticas vigentes e, assim sendo, não havia motivos para a destituição da presidenta.

Dilma Rousseff, ao longo desses seis anos, manteve-se altiva, encarando “de frente” a tudo e a todos com firmeza. Se chorou, o quanto sofreu, ficou na vida privada da mulher vítima do machismo, da misoginia, da injustiça. Invariavelmente com serenidade, sorrisos reservados, calma, Dilma comenta tanto a tortura sofrida no período da ditadura quanto o golpe sofrido em 2016 com a postura de quem sabe o que é e de onde está. “A justiça foi feita”, declarou sobre o recente resultado.

Justiça seria reconduzir Dilma ao cargo impondo o imenso sapo a quem de direito. Um ou vários tapas aos que movidos por interesses escusos manipularam a opinião pública contra a primeira mulher a ocupar a presidência do país. Parece que vai ficar por isso mesmo e como ocorreu com a “revolução de 1964”, que foi um golpe, o impeachment de Dilma entra para a história como aquilo que foi: um golpe! Pedido de desculpas é pouco. Qualquer recompensa, por maior que seja, nunca será suficiente. Ao imbróglio de um inquérito transformado em impeachment resta o registro para a história: Foi golpe!

Duas Lauras. Uma, Laurinda!

Um filme de 1944, Laura foi o título e personagem interpretada por Gene Tierney. Belíssima! Em música há uma Laura, feita pelo Braguinha, outra, pelo Antônio Carlos & Jocafi e, entre outras, a Lady, que o Roberto Carlos fez para a própria mãe. Agora me pergunto se Laura, a Pausini, gravou alguma canção com o próprio nome tal qual outras cantoras o fizeram. Chega de prolegômenos, vamos às Lauras que me motivam a escrever este texto.

Há uma Laura que reverenciarei enquanto for vivo, tiver memória, for capaz de pensar. Foi minha mãe! E a outra conhecida Laura está, como minha mãe, com 95 anos. Essa outra Laura, nasceu Laurinda. Laurinda de Jesus! Lindo nome e, até onde me dou conta, a dona faz jus a este e ao que escolheu como nome artístico: Laura Cardoso.

Longe de mim comparar mamãe com a grande atriz! Mas gosto da ideia de ver Laura Cardoso, além de grande atriz, também grande mãe, avó, mulher! Não necessariamente nessa ordem, embora tenho cá comigo que ela primeiro se define como atriz. Sorte nossa! Colocando a profissão em primeiro plano, Dona Laura Cardoso vem nos brindando com papeis memoráveis, presença marcante pelo trabalho impecável.

Antes de citar alguns trabalhos quero enfatizar a mulher que percebo: carreira que comprova seriedade incomum para com a profissão; ética que a coloca entre as pessoas confiáveis só com a presença física: paixão pelo ofício que a faz assumir-se como é, sem subterfúgios, sem recursos que não a própria expressão, o uso do próprio corpo e voz. Dona Laura Cardoso chega aos 95 anos com um rosto absolutamente humano que pode ser a face de uma avozinha, de uma prostituta, uma víbora, uma santa, uma milionária ou uma pobre camponesa.

Dos trabalhos televisivos quero lembrar dois. A Viagem e Mulheres de Areia, ambas originais de Ivani Ribeiro. Optei por esses por Dona Laura, nesses trabalhos, mostrar faces distintas de uma mesma personagem.

Como Dona Guiomar, em A Viagem, a atriz foi a simpática sogra que, obsidiada, transforma-se em megera intragável, até conseguir livrar-se do espírito vilão, interpretado por Guilherme Fontes. Com a delicadeza e sofisticada simplicidade, a atriz se transformava seguindo o que o outro exigia.

Em Mulheres de Areia o trabalho de Dona Laura Cardoso foi tão ou mais sútil e, por isso mesmo, rico em nuances. Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, deixava evidente uma aparente proteção à vilã Raquel em detrimento da outra filha, personagens de Glória Pires. Cúmplice chantageada por Raquel, Isaura mostra o amor pela outra filha por não gostar de ouvir o que Raquel dizia de Ruth. E a novela tomou outro rumo.

Há muitos e grandes trabalhos da atriz em novelas, especiais, programas de humor. Todavia, foi no teatro que tive a oportunidade de ver um dos trabalhos que ficariam entre os melhores que presenciei. Já a conhecia de outras montagens, me apaixonando quando a vi em “Vem buscar-me que ainda sou teu”, dirigida por Gabriel Vilela no texto de Carlos Alberto Soffredini, em 1990. Todavia, três anos depois, viria o momento preferido.

Vereda da Salvação, de Jorge Andrade, já havia sido montada em 1964 pelo diretor Antunes Filho, no TBC – Teatro Brasileiro de Comédia, que retomou o texto em 1993, com Laura Cardoso e Luís Melo encabeçando o elenco do Teatro Sesc Anchieta. Texto que continua caindo como luva para a realidade brasileira, Vereda da Salvação tem como temas centrais a desigualdade social, a falta de liberdade e a religião enquanto fenômeno que leva indivíduos para rumos extremos.

Na personagem Dolor estão faces distintas de uma mulher sofrida que ficam evidenciadas através da atuação de Dona Laura. A personagem vivia o drama, baseado em fato ocorrido em Minas Gerais, de um grupo de agricultores em conflito com latifundiários e, ao mesmo tempo, nas mãos de um líder fanático, papel de Luís Melo. Em dado momento, a personagem de Laura dizia coisas, aqui extraídas do texto original, de Jorge Andrade, que dão uma ideia do estofo necessário para que uma atriz faça tal personagem:

– Estou cansada, Joaquim. Quero parar.

– Escuta uma coisa, meu filho: sem filho a gente não pode melhorar. Filho é que é riqueza de pobre. Eles dá despesa quando miúdo, mas ajuda bastante quando cresce.

– Pra todo lado que a gente vai… tem sempre alguma coisa pondo desordem na vida, Ana.

– Meus olho e meu corpo deitou mais água na terra que as nuvem do céu…

– Pode atirar, corja do demônio!

É possível que outras atrizes interpretem tal personagem. Poucas com a verdade dessa senhora, a aniversariante que presto singela homenagem. 95 anos e um rosto marcado de histórias, cheio de jovialidade e vida. Dona Laura costuma dizer em entrevistas que é preciso muito estudo, muita entrega para realizar um bom trabalho. Que uma atriz não carece de nada além da própria capacidade expressiva e esta vem através do estudo, do ensaio, do trabalho. Ostenta uma carreira que comprova o resultado de dedicação, esforço, entrega.

Essas Lauras! Fortes, generosas, inesquecíveis. Hoje lembro muitas Lauras, feliz por poder recordar e associar as duas mais queridas. Minha mãe e Laura Cardoso, a quem desejo tudo o que há de melhor que alguém possa ter.

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Nota: as fotos que ilustram esse texto foram colhidas no Instagram e em páginas que homenageiam a atriz.

São Paulo, 42 anos!

Eulindo, pronto pra ser feliz!

A cidade faz 467, eu sei! Todavia ela “nasceu minha” quando após atravessar bairros distantes o ônibus tomou a Marginal Tietê. Estava amanhecendo e o sol inundava outdoors coloridos, informando para o jovem ansioso uma prévia do que estava por vir: peças de teatro, shows, lançamentos imobiliários, novos carros, liquidações. Janela aberta, o cheiro era péssimo, o movimento intenso e a cidade… São Paulo é linda! A cidade que escolhi para crescer.

O Terminal Rodoviário da Luz era de um colorido de gosto muito duvidoso, mas só pude atentar para isso mais tarde. Um taxi me levou para a Avenida Paulista, meu primeiro endereço na cidade. Nada ruim para um migrante, desses milhões que buscam a cidade para melhorar de vida. O quarto que ocupei ficava de frente para a avenida. Aprendi a conhecer o barulho de pneus sobre asfalto molhado e a contabilizar o tempo em que os coletores levavam para recolher os resíduos que, na época, eram chamados de lixo mesmo.

O emprego veio rapidamente, graças ao movimento intenso da Rua 25 de Março onde não trabalhei, mas sim na paralela, Rua Abdo Schahin, em uma imensa atacadista de tecidos. Guardo os gritos de “pega ladrão” e a memória de um gatuno descendo a Rua Constituição, materializando um milagre de equilíbrio ao não cair na íngreme ladeira. Conheci hábitos estranhos de solidariedade quando proprietários de lojas desciam as portas por UM MINUTO em protesto político de ocasião e, do meu patrão, recordo a primeira vez que lamentei profundamente não ter um gravador em mãos. Quando a Secretaria de Trânsito colocou placas impedindo estacionamento em frente à empresa, ele ligou para um certo Paulo: “- Escuta aqui, moleque! Quem te colocou aí fui eu!”. Alguns minutos depois voltaram tudo ao que era antes.

Frequentei o primeiro curso universitário no Mosteiro de São Bento. Desde então apaixonado pelos sinos, pelos cânticos gregorianos e também pela lembrança de comer salgado em bar fechado pelos órgãos oficiais. Estavam usando ração de cachorro no recheio de pasteis. Também guardo do largo de São Bento uma briga terrível de gangues de meninos, mostrando toda a violência que a vida nas ruas produz. Depois, na mesma praça, aprendi a panfletar com Francisco Milani, e a correr da polícia que, na região, tem por hábito dar bordoadas em trabalhadores informais (ainda hoje!),

O objetivo era fazer teatro e os ensaios eram em Santo André. Isso significava tomar um trem lotado, comendo qualquer gororoba durante o trajeto. Estreei na capital direto no Teatro Oficina, hoje vizinho aqui de casa. Uma mostra teatral com inúmeros grupos, perdida no tempo, guardada na minha história pessoal. Reviravolta brutal no que eu pensava sobre a profissão veio com a peça Macunaíma, Antunes Filho dirigindo o Grupo Pau Brasil, em apresentação no Theatro Municipal de São Paulo. Voltei para minha casa completamente abalado e a única certeza diante do maravilhoso espetáculo: eu não sabia fazer teatro. Tempos depois, quem diria, estava eu como assistente de Antunes, na última versão da peça que rodou meio-mundo.

A tentação em contar, rever tudo o que a cidade me propiciou, é imensa. Vou saltar para aposentadoria que desfruto após décadas de trabalho na cidade. Nessa condição, quando muitos retornam para a terra natal, minha opção é viver aqui. O tempo me fez paulistano e sinto-me moldado para viver em São Paulo. Poderia aqui enumerar amplas possibilidades de consumo, outras tantas relativas à arte, cultura, saúde, educação… Não se trata disso ou daquilo, mas do todo. Da cidade que é São Paulo e que, após 42 anos por aqui, posso afirmar com tranquilidade: Não conheço quase nada, mas daquilo que sei e que tenho por meu não abro mão.

Parabéns, São Paulo! Parabéns paulistanos! Parabéns aos imigrantes que, tomando a capital, cuidam e a amam com toda a intensidade que a “minha cidade” merece.