Desaparecidos

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Foto: Flávio Monteiro

Giba desapareceu. Saiu de casa na sexta-feira para passar o final de semana conosco em São Paulo e na segunda, quando ligaram do trabalho questionando a ausência do funcionário é que o caos foi instaurado. Onde estaria? Com quem? Qual o motivo de ter mudado o destino? Após vários telefonemas aos amigos mais próximos ficou constatado o desaparecimento do rapaz.

Naquele momento todos os conhecidos saíram buscando informações. Polícia acionada, hospitais, necrotérios e até uma vidente nos informou que ele estava vivo. Desaparecido. Uma foto de alguém assassinado estampou a página de jornal. Incrível semelhança que, felizmente, não se confirmou. O corpo era de outro. Giba continuava sumido, sem dar qualquer sinal de vida.

Recordo D. Noêmia, pura tristeza, supremo desespero. A morte já lhe levara uma filha e agora o caçula desaparecia. Só fazia chorar, gemer profundo, dolorido. A pergunta atroz que ninguém respondia: onde Giba está? Onde foi? Porque não volta? O que aconteceu? Está vivo? Morto?

Provavelmente as perguntas sem resposta são o que de pior pode vir a acontecer com gente que espera aqueles que desapareceram.

“Quem é essa mulher,

Que canta sempre esse estribilho

Só queria embalar meu filho

Que mora na escuridão do mar…”

Naquele momento descobri o terror de não saber respostas fundamentais sobre aqueles pelos quais temos afeição. Os dias se arrastaram e as notícias não chegavam, aumentando a dor, o desespero e, qual doença tenebrosa, aumentando a dúvida, a desesperança. O mais cruel seria ver o tempo passar sem respostas.

O desaparecimento do submarino argentino fez-me lembrar a história, as sensações todas que vivenciamos e, fundamentalmente, presenciamos. Jamais vou esquecer o olhar daquela mãe, o semblante de infinito sofrimento aguardando notícias do filho. O sofrimento do pai, da irmã, dos amigos.

Cada um dos 44 tripulantes do “San Juan” tem alguém querido que, neste momento, busca equilibrar-se entre a dor e a esperança, por mais absurda que esta possa parecer. Não conheci nenhum dos tripulantes; também não conheço parentes e entes queridos. Conheço um pouco o que é esperar por notícias; o não saber de alguém querido.

“Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar…”

O Giba da minha história voltou. Hoje, João Gilberto é pai de um menino e segue tranquilo sua trajetória interrompida naqueles dias em que ficara perdido em meio à Serra do Mar. Familiares e amigos tiveram a alegria de revê-lo. E sem saber do final dessa tragédia submarina, escrevo em solidariedade aos que ficaram. Escrevo, que é minha forma de rezar pelos que se foram tanto quanto pelos que aqui estão.

A “Angélica” dos versos de Chico Buarque acima transcritos não teve respostas, não vivenciou reencontros. Outras tantas pelo mundo também não. Dezenas de mães, esposas e filhos da tripulação do submarino argentino ficarão eternamente se perguntando o que foi? Como foi? Por que teve que ser assim?

As autoridades tentarão responder; é quase certo que encontrarão razões, motivos e, provavelmente, consequências provocarão mudanças de regras, alterações de procedimentos. No entanto, aqueles que esperam pelos seus desaparecidos querem respostas, mesmos as mais difíceis e doloridas.

Que todos fiquem em paz.

Até mais!

As cinzas e os homens

O escritor e o médium

A imprensa noticiou a possibilidade de divisão das cinzas de Gabriel García Márquez entre México e Colômbia. Os dois países reivindicam a “posse” dos restos mortais do autor de “Cem Anos de Solidão”. Também não duvido de que a Argentina entre na briga, já que foi lá que um editor acreditou na viabilidade da obra e publicou o êxito maior do autor colombiano. Fiquei pensando se partiriam o corpo ao meio caso o escritor não tivesse sido cremado, ou em três partes; quem ficaria com os membros, ou o tronco, ou a cabeça? O que diria Gabriel García Márquez de tudo isso? Ah, os seres humanos!

Recordei a pinimba entre duas cidades mineiras, Uberaba e Pedro Leopoldo, sobre o legado de Chico Xavier. Os ânimos de ambas as cidades ficaram exaltados, simultaneamente velados, na disputa pela herança do médium. Uberaba constrói um memorial e , por lá, virou museu a casa onde Chico morou. Pedro Leopoldo transformou em memorial a casa onde Chico nasceu; lá estão expostos todos os livros psicografados pelo médium e centenas de biografias do mesmo. Quando as prefeituras tratam do assunto é preponderante nas avaliações e ponderações das mesmas o potencial turístico, ou seja, a possibilidade de levantar grana em cima da lembrança de Chico Xavier.

Quem deve ficar com as cinzas de Gabriel García Márquez? Qual cidade merece os rendimentos sobre a memória de Chico Xavier?  Não sei. Essas discussões são inevitáveis já que os principais envolvidos, até onde eu saiba, não deixaram nenhuma instrução ou registro de decisão sobre essas questões. O que é certo é que o escritor nunca voltou para a Colômbia, mesmo com uma doença letal, e nem Chico, também doente, manifestou desejo de retornar para a cidade onde nasceu.

Tudo ficaria mais simples se planejássemos também nossa pós-morte. Não estou dizendo aqui dos meros interesses materiais – testamento, seguro de vida e similares – mas, além desses, também dos interesses afetivos e até mesmo religiosos. Como os egípcios! Qual razão para não pensar em nosso túmulo e no local onde queremos o mesmo? Registrar o tipo de funeral que pretendemos evitaria especulações e discussões sobre imagens, flores, velas e rituais funerários. Escolher a foto – para os túmulos que levarão fotos – e o epitáfio para a lápide. Como seria o anúncio do velório, da missa de sétimo dia? Havendo cerimônia religiosa, como seria esta, que imagem e qual texto estariam naqueles pequenos folhetos de lembrança e pedido de oração?

Vivemos preferencialmente ignorando a morte seja como algo definitivo ou como término da passagem pelo planeta. Vivemos a ilusão da eternidade, do infinito, entrando em parafuso perante uma doença qualquer. Ignoramos a marcha do tempo e negamos os sinais deste, às vezes de forma absurdamente radical; adotamos plásticas e outras práticas que deformam ou expõem a precariedade humana perante o tempo. A morte vem, inexorável, e os primeiros legados são os dilemas para os sobreviventes próximos. Com qual roupa vestir o defunto? Quais os rituais religiosos? O que fazer com os cacarecos todos? Afinal, ninguém discute o que fazer com joias e saldo bancário; mas e as cartas, os álbuns de retratos, as lembranças de viagem?

Conheço pessoas que são categóricas quando este tipo de assunto é abordado: “- Não é problema meu”, brincam, fugindo do assunto. Há outras que não revelam testamento; garantem com isso um melhor tratamento dos possíveis herdeiros. Todavia, me parece, a maioria das pessoas morre deixando um monte de situações para que outros solucionem; exemplo claro disso são as disputas como essas, envolvendo Gabriel García Márquez e Chico Xavier e milhares de outras, de pessoas comuns, mas que também deixaram coisas e cinzas.

Decisões e desejos de futuros defuntos, penso eu, devem ser discretas, íntimas, para pequenos círculos. De qualquer forma seria engraçado ver socialites disputando nas “caras” da vida as cerimônias mais sofisticadas para si mesmas; mas, insisto que é melhor que sejam discretas, sem grandes alardes. O máximo que permito publicar sobre meu fim, que espero esteja bem distante e que seja bem suave, tomo emprestado de um poeta maior:

… Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

(Fernando Pessoa – em “O guardador de rebanhos”)

Até mais!

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Os Andes e os 60 anos da conquista do Everest

Um dia estivemos nos Andes, hoje sonho com o Everest
Um dia estivemos nos Andes, hoje sonho com o Everest

Chove. Ainda por cima, faz frio! Sobra ler o que normalmente é deixado para depois. Por isso descobri que a primeira escalada ao topo do Everest completa 60anos. Em 1953 o neo-zelandês Edmund Hillary e o nepalês Sherpa Tenzing Norgay capitalizaram o feito. Dois indivíduos entraram para a história que registra, na real, mais 300 pessoas que fizeram parte da expedição.

Depois que atingiram o topo do mundo os alpinistas olharam a paisagem, sentiram-se mais próximos de Deus e desceram. Com esse grande feito a humanidade descobriu que é possível chegar ao pico do Everest, embora ninguém tenha se interessado em morar por lá. Falta ar e o frio é insuportável. Fala-se que para conseguir tal façanha, além de excelentes pulmões, é preciso ter força de vontade. E grana, muita grana.

Os alpinistas costumam dizer que se sentem mais próximos de Deus nesses lugares. Não sei até que ponto eles conseguem esse encontro ao vencer os 8.848m de altura do monte, na fronteira do Nepal com a China. O certo é que os aventureiros deixam 50 toneladas de lixo por ano ao longo do trajeto. Gostaria muito de saber o que Deus pensa dessa gente que adora a natureza, celebra e prega a união com a mesma, infestando-a de lixo.

Recentemente um japonês, Yuichiro Miura, comemorou e foi ovacionado por seus conterrâneos ao alcançar o topo do Everest aos 80 anos. Bravo! Tai uma boa ocupação para minha velhice: escalar o Everest, atravessar os Andes e ou acampar no Saara. Pode ser que eu consiga, embora conviva com um pulmão precário, já que surgem equipamentos sempre melhores.

Para os grandes alpinistas, escalar o Everest tem se tornado fato banal. “Qualquer um” pode conseguir isso. Está registrado no “O Tempo”, simpático jornal mineiro: “Em um único dia em 2012, 234 escaladores atingiram o pico”. Chegando lá, os pobres aventureiros tiveram que esperar duas horas e meia, numa humilhante fila, para chegar ao cume. Como não sou grande alpinista, não me incomoda dividir as glórias com mais duas, três centenas de pessoas. E como pretendo fazer isso na velhice tempo é que não me faltará; poderei permanecer duas ou mais horas na fila do pico…

A ponte que já foi trilha e o Condor sobrevoando as montanhas
A ponte que já foi trilha e o Condor sobrevoando as montanhas

Chove. Faz muito frio e estou em um confortável e aquecido quarto. Na real, não tenho a menor vontade de deixar esse aconchegante ambiente para enfrentar o calor exasperante do Saara, a falta de ar no alto do Everest. Acontece que um dia, sem programar absolutamente o que me esperava saí para um passeio, para “ver” os Andes. Descobri que era uma incursão pelo local e ao avançar mais de 180 km cordilheira adentro, chegando próximo à fronteira do Chile, experimentei na pele o fascínio desses lugares maravilhosos.

Êxtase é a melhor palavra que encontro para definir a visão da Cordilheira dos Andes. Majestosa é outra. O que é visão passa a ser contato, incursão, imersão. De repente o chão apresenta pequenos pedaços de gelo, neve, e isso vai crescendo até que nada da terra é visto. Tudo é branco, cinza gelado, fosco, aparentemente metálico, lítico e as palavras somem ante o rio teimoso que corta a paisagem; a imaginação vai até onde a memória conhece e vem o pensamento dos primeiros que por ali passaram, de outros que – incrível! – construíram uma estrada de ferro na região. O gelo milenar tornou-se ponte, a trilha foi percorrida por Incas, as informações não cessam o encantamento.

O veículo parou para que colocassem correntes nas rodas, que evitam deslizamento. Mas esse veio e escorregar sobre uma camada de gelo é assustador e apavorante. Saímos todos bem e até mesmo a chegada de uma tempestade não afetou o ânimo. Pareceu-nos óbvio, parte do “pacote”; como estar nos Andes e não viver a experiência de uma tempestade de neve? Abreviou-nos o passeio e não fomos além. Voltamos pela mesma estrada, paralela ao rio e, em certo ponto, à estrada de ferro.

O rio irriga o deserto que antecede a cordilheira. Mãos humanas conduziram as águas geladas para fazendas onde se produz uvas e, em conseqüência, alguns dos melhores vinhos do continente. Recordo Mendonza, a cidade, com muito carinho e tenho essa região da Argentina como um dos locais guardados “no lado esquerdo do peito”.  Por toda a cidade há uma possibilidade de visão dos Andes. Toda aquela neve em infinitas tonalidades entre o branco e o cinza, com partes opacas e outras tão brilhantes quanto o gelo pode ser. Recordo ter pensado na grandiosidade de Deus. O ser humano vai ter que dar um duro danado para acabar com tanta beleza, mesmo com 50 ou mais toneladas de lixo, a triste marca no Everest.

Orgulho-me de não ter deixado um único papel de bala em solo andino. Não tenho vontade de subir ao local mais alto da cordilheira, nem mesmo sei qual é o ponto mais alto. Há quem goste, quem curta. Bastou-me a beleza que, de tão deslumbrante, colocou o frio, o vento, o gelo, tudo o mais em plano secundário. Por isso espero voltar e rever o que mão nenhuma consegue realizar; o que foto e pintura nenhuma conseguem fixar. Não quero a vaidade de dizer que fui ao topo do mundo, nem que resisti ao calor de uma noite no Saara. Ver já seria muito bom; sem sujar o ambiente, melhor ainda. E não importa a “banalidade” da ação, mas a experiência da visão de locais cuja autoria só pode ser atribuída a Deus. Quem quer ir comigo?

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Bom feriado para todos.

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Nota: A edição de hoje do jornal “O Tempo” (Belo Horizonte, 30/05/2013)  trouxe a matéria sobre os 60 anos da coquista do Everest. A matéria não está assinada, mas o ótimo texto inspirou-me a escrever este post.

Nota 2: Na primeira foto, da esquerda para a direita, Diego Cardoso Flavio, Agus Gelfo, Flávio Monteiro e eu.