D. Dirce, Mário de Andrade e a vida queer

Foto by Flávio Monteiro

Essa mania de classificar os seres vivos… É certo que D. Dirce, prima distante de minha mãe, não tinha a menor ideia do que seja a taxonomia. E se chegou a conhecer algum Aristóteles, provavelmente deve ter sido um vizinho de nome que não veio de nenhum santo. No entanto, D. Dirce era bamba em reconhecer uma imensa gama de seres animais e vegetais. Coisas que lhe foram úteis nessa vida.

Nascida na região do Bacuri, hoje Pioneiros, nas imediações de São Joaquim da Barra – SP, certamente aprendeu com a mãe, D. Palmira, a reconhecer todo e qualquer animal que transitava pelos campos. Reconhecia insetos malévolos como o barbeiro e distinguia aranhas peçonhentas de outras, inofensivas, por exemplo. Dentre a imensa gama de aves tinha a receita certa para cada uma e sabia realçar o sabor com temperos de próprio cultivo.

O conhecimento dos vegetais pode ter começado com as ervas aromáticas, ou com legumes e verduras cultivados na horta, onde se guardava espaço para plantas de uso medicinal. Boldo, erva cidreira, alecrim, carqueja, arruda… Havia em algumas dessas poderes místicos, que D. Palmira sempre usava em suas benzeções. Outras ervas, não cultiváveis facilmente, precisavam ser colhidas no mato.

Um dia cheguei arfando em Uberaba. O pulmão todo tomado por uma pneumonia. Sabendo da minha chegada, D. Dirce entrou em cena. “Vou no mato caçar assa-peixe. Ele vai ficar bom logo”. Contaminado pelo conhecimento escolar, não tinha ideia da planta anti-inflamatória e expectorante. Dia seguinte ela voltou com um imenso galho da planta, um tanto seca e judiada. “Tão acabando com tudo. Só tem lavoura, sem deixar que o mato cresça. Como vamos fazer pra ter remédio?” sentenciou a mulher.

Extrair o sumo de assa-peixe foi trabalho árduo e paciente da minha irmã, Walcenis. O gosto é insuportável e para disfarçar e fazer o doente engolir sem reclamar demais, misturou-se ao sumo o suco de beterraba e laranja. A beberagem pareceu magia: beber e voltar a respirar. Uma das amigas mais próximas de minha mãe – mantiveram amizade por décadas! –, D. Dirce faleceu alguns meses antes. E com ela, que não deixou livro escrito, foram-se os critérios para cultivar e reconhecer plantas, as melhores maneiras de tratar animais tornando esses o alimento necessário para a família.

Conhecer, distinguir, classificar… Muito, mas muito tempo depois de Aristóteles ter dividido os animais em “com sangue” e “sem sangue”, Lineu (Karl von Linné) elaborou um sistema baseado na estrutura. Nós, seres humanos, fomos classificados como Mammalia, do latim, significa que somos mamíferos: temos mamas! D. Dirce amamentou nove filhos. Hoje em dia mamas são aumentadas em academia ou com silicone, visando autoestima e sedução, atitude de classificação temporária, já que o tempo se encarregará de impor a força da gravidade para todos nós, com ou sem peitões.

Ocupada em cuidar da imensa família, D. Dirce não teve muito tempo para especular os porquês de certas coisas. Diante de situações de pessoas, por exemplo, com “sensibilidade queer”, ela fecharia o assunto com uma frase curta e certeira; “é da natureza delas!”. Acontece que o mundo não é simples assim, e tem mais tempo para se ocupar de certas coisas do que D. Dirce. Daí a gente contar com a exposição “Duas Vidas”, no MASP – SP, onde Mário de Andrade tem exposta essa questão.

Mário de Andrade, muita gente sabe, não classificou animais nem plantas. Mas o que ele distinguiu e classificou na cultura! O cara devia se alimentar de poesia, de romances, e para isso sacou que deveria entender de música, folclore, pintura, arquitetura. Num mundo interessado em lucro, ter um sujeito preocupado em preservar conhecimento e em criar e manter uma biblioteca que chegou aos 17 mil volumes é muito estranho! O cara não se casou, nem teve filhos. Estranhíssimo! Queer! Que vida é essa, particular? A pública era notória. “Duas vidas!”

O material de divulgação do evento justifica o nome da exposição, a partir de carta de Mário de Andrade escrita ao poeta Manoel Bandeira. Na carta, Mário escreve: “toda vida tem duas vidas, a social e a particular”. Os aspectos particulares da vida do poeta e escritor passaram para domínio público após 70 anos de sua morte. Creio que ele gostaria de ter sua correspondência analisada, estudada, do contrário teria queimado tudo. Pelas cartas sabemos o que pensou via diálogo com seus pares, com amigos, com autoridades. E deve ter sofrido por ser indivíduo de “outra natureza”, para manter neste texto a perspectiva de D. Dirce.

Por outro lado, especular e expor particularidades da pessoa Mario de Andrade é contribuir numa luta forte e constante, para que o ser humano seja o que sente que é. Que o homem “estranho” pode ser da envergadura, profundidade e importância irrefutável de um Mário de Andrade. Ninguém tem que ser e se identificar a partir da imposição de outro, da sociedade. Que venham mais exposições, e que tenhamos quantas classificações forem necessárias para nos aprofundarmos sobre o universo humano. O irônico é que quanto mais letras entrarem no sistema LGBTQIAPN+, mais claro ficara o quanto nos distinguimos dos outros animais: somos humanos!

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Flyer da exposição:

O que é arte mesmo?

arte

Todo radicalismo é, no mínimo, chato. É tenebroso, doentio, prepotente, soberbo, orgulhoso e, a história registra, também é assassino. E burro! Irritantemente burro. Ultimamente temos presenciado radicalismos da direita – o que implica haver outro, o da esquerda. Ambos teimam em impor modo de ver, sentir e viver aos outros. Radicais são donos da verdade, embora nem sempre se saiba o que é a verdade.

Temos agora um imenso contingente de pessoas alçadas à categoria de críticos de arte, com posições assentadas em moral, bons costumes, religiões e ninguém, mas ninguém mesmo, citando Tatarkiewicz (A Grande Teoria) ou, então, Pareyson (A teoria da formatividade in Os Problemas da Estética). Isto pra citar dois, entre os grandes teóricos. Exposição, peça de teatro, um quadro, foram vítimas de uma censura ilícita (já que não há censura no país) e entre os argumentos vem o costumeiro atentado ao pudor assentado na conclusão de que “Isto não é arte”.

Seria pedir pouco ao receptor de denúncias que conceituasse a dita cuja, já que, acatando acusações e determinando a suspensão de eventos ou a retirada de objetos expostos, juízes e delegados devem, no mínimo, saber sobre o que estão agindo; portanto, sabem o que é arte e, assim sendo, quem poderá dizer que temos profissionais despreparados?

Venho lecionando há mais de duas décadas em universidades e nunca encontrei alunos que soubessem conceituar arte. Ok, lá é um lugar para se aprender. No entanto, é de se estranhar que o indivíduo passe por oito, dez anos de escola e entre na universidade sem a capacidade de conceituar sobre algo que está presente no cotidiano de todo mundo. Todos falam de arte, todos reconhecem produtos e manifestações artísticas, mas o que é arte mesmo?

Profissionais de medicina têm agido sobre o rosto de muitas pessoas, em procedimentos de estética duvidosa, mas ninguém questionou se isto é medicina ou não. E quando morre-se de calor em construções já condenadas à ação de aparelhos de ar condicionado não se questiona se tal local é ou não obra de engenharia. Outros exemplos são possíveis, mas creio que medicina e engenharia são um bom mote para indagar sobre motivos que levam indivíduos a discutir arte, principalmente aqueles que confundem arte com entretenimento.

Sobre a pecha de “arte” e “artistas” há muita coisa por aí, feita inclusive por gente que gaguejaria quando questionada sobre a imitação e a mimese em Platão e Aristóteles. O que diriam os moralistas de plantão sobre o paradigma formalista de Clive Bell ou com que prazer orientariam suas falas com base no que Collingwood escreveu (The Principles of Arts).

Creio que os radicalistas que andam se manifestando por aí não querem saber de Platão, Tatarkiewicz, Bell, Collingwood, Pareyson… Querem é impor sua ignorância e sua interpretação de mundo sobre os demais. Querem que todos vejam a lascívia que está na mente deles, a pornografia, a zoofilia; uma moral que é boa pra manchete de jornal e pra alardear uma preocupação com o que outro deve ver e fazer.

Tenho estudado arte ao longo de toda a minha vida. Não sou teórico, sou estudioso. Acredito profundamente a arte como elemento questionador que propõe reflexão e que, quando julga, deixa de ser arte. Não vou, neste post, publicar as definições de arte aceitas pela comunidade acadêmica e que têm norteado meu trabalho profissional. Vou sim, questionar os críticos de plantão, moralistas de ocasião, donos da verdade: O que é arte mesmo? Conceitue!

Até mais!