Os amigos do meu pai

 

papai e joão
Bino, o meu pai, e João Eurípedes Sabino

Recentemente conheci João Eurípedes Sabino, presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. A ideia do encontro partiu de Marta Zednik, quando em visita ao Arquivo Público de Uberaba. Um dia intenso. Depois de muitos anos estive na plataforma da antiga estação da Mogiana, hoje sede do Arquivo e, em seguida, fiquei frente a frente com o autor de uma bela homenagem ao meu saudoso pai, que publiquei aqui (clique para conhecer ou reler o texto).

Final de tarde. A sede da Academia está em um casarão na Rua Dr. Lauro Borges, de onde se vê os fundos e toda a lateral da majestosa Paróquia de São Domingos. O sol desce lentamente e inúmeras maritacas se acomodam em árvore no fundo da Igreja; o barulho é imenso, como se as pequenas aves comentassem o dia, ao mesmo tempo procurando aproximação de algum afeto, dando um “chega pra lá” em desafetos… Logo estarão silenciosas, mas enquanto executam a costumeira sinfonia somos recebidos pelo amigo do meu pai.

João Eurípedes Sabino, como autêntico mineiro, nos recebe cerimoniosamente. Com calma e delicadeza nos leva até uma pequena sala de estar, oferece-nos um confeito e, antes de qualquer coisa, silenciosamente me observa para, em seguida, dizer a frase que é sonho de todo e qualquer filho: “- Como você se parece com seu pai! É como se eu estivesse conversando com o Bino”. De leitor agradecido torno-me amigo e, posso afirmar, minha irmã Walcenis, acompanhando-me na visita, sentiu o mesmo.

Walcenis, eu e João
Um registro do nosso encontro.

Papai fez muitos amigos. Felisbino Francisco Rodrigues de Resende fez poucos conhecidos, mas o Bino… Com o apelido era identificado praticamente em todos os cantos da cidade. Eu gostava muito de desembarcar na rodoviária e, ao tomar taxi, dizia o endereço complementando “sou filho do Bino”; aí, não precisava dizer exatamente onde era minha casa. O motorista, como João Eurípedes Sabino, tinha praticado tiro ao alvo que tornou papai conhecido.

É o próprio João que recorda locais onde papai trabalhou. Durante uma fase da vida ele colocou a barraca de tiro em quermesses e praças da cidade. Depois, construiu um parque de diversões – sim, meu pai construiu um parque inteiro, brinquedo a brinquedo, no quintal da minha casa – com o qual percorreu todos os bairros de Uberaba e de algumas cidades da região. Depois, já próximo da aposentadoria, vendeu o parque e voltou a trabalhar só com a barraca de tiro, permanecendo vários anos instalado no bairro da Abadia.

João Eurípedes escreveu: “Bino, autêntico amigo das crianças”. Provavelmente João não sabe que meu pai presenteava toda criança que aparecia em casa com um estilingue. Tinha sempre o material necessário e, quando a visita chegava, papai ia até a oficina para fazer o brinquedo, quando não o tinha pronto. Mas penso que meu pai soube fazer e manter amigos, vide as homenagens recebidas pela comunidade do bairro Boa Vista (Veja a Turma do Campinho) ou por toda a cidade (Veja a Rua do Bino). A prova maior da longevidade das amizades do Bino esteve ali, em momento de rara emoção, no encontro que tivemos com o João, amigo de tantas décadas.

O dia dos pais próximo e eu pensando em meu pai. Antes de terminar a visita, João Eurípedes levou-nos a conhecer todas as dependências da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Falou-nos do Padre Prata, que um dia chamei de Pratinha, conversamos sobre Décio Bragança, com quem aprendi a gostar de literatura, e lembramos momentos da vida de Mário Palmério, homenageado no busto defronte ao casarão. Trocamos lembranças, fizemos fotos e João me incumbiu de uma tarefa, referindo-se ao artigo publicado em 03 de Junho de 2005, no Jornal da Manhã, de Uberaba: – O que fazer com esses três amigos? Como dar continuidade a essa história?

Ah, meu caro João Eurípedes Sabino! Tarefa difícil, ao mesmo tempo adorável. Prometo buscar, cada vez mais, parecer-me com meu pai. Sobretudo quero fazer amigos, tantos quanto ele os fez. E quando eu tiver algum obstáculo nesse intento, se por acaso encontrar alguma dificuldade intransponível, voltarei à Uberaba e te pedirei socorro, pois em você vi muito do mineiro que meu pai foi e outro tanto dessa qualidade rara que é fazer amigos.

Feliz dia dos pais, meu pai!

Feliz dia dos pais, João Eurípedes Sabino!

Até mais.

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“O Tíutio”, o nosso jornal

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Basta olhar para a imagem e o tempo, já distante, reaviva o cheiro de álcool e tinta característicos da impressão via mimeografo. Mesmo com todas as andanças, mudanças daqui e dali, ainda tenho um exemplar. É “O Tíutio” de número quatro, o jornal do Movimento de Jovens da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, lá em Uberaba, MG.

Nosso grupo, lá no Bairro Boa Vista, começou com o trabalho de outros jovens, do então chamado Movimento Mundo Novo, cujos participantes eram de outras paróquias da cidade. Estimulados pelos Padres Somascos continuamos o trabalho. Esses já estavam na paróquia desde a década anterior e guardo, com muito carinho, muito do que aprendi com o Padre Nicola Rudge, a quem chamávamos Padre Nicolau ( Com ele descobri a arte do renascimento, aprendi xadrez enquanto ouvia música erudita, em especial, a ópera italiana).

A turma de acólitos (os populares coroinhas) criado pelo Pe. Nicolau caminhou naturalmente para o grupo de jovens, assim como as meninas do grupo que nas novenas, anualmente, coroava as imagens de Maria. Outros padres, Líbero Zappone e Américo Veccia, passaram a trabalhar conosco. Américo, o Tíutio que deu título ao jornal, tinha foco em ações da pastoral vocacional e Pe. Líbero, a quem chamávamos Coronel, era o Vigário de então.

O Coronel justificava o título com “ordens” variadas. “– Vocês irão tocar violão na missa daqui a um mês!” Fátima Borges e eu, obedientes, corremos para ter aulas e no tempo exigido estávamos, trêmulos, executando acordes para que nossos amigos cantassem.  Outra ordem, mexeu com todo o grupo, cerca de 50 pessoas: “- Na próxima quermesse vocês serão os festeiros!”.  Uma revolução. Em toda a história da paróquia as quermesses eram feitas por casais experientes do bairro, com domínio e prática daquele tipo de evento. O grupo topou o desafio e fez um belo trabalho.

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O jornal – faz tempo! – não sei como surgiu, mas está no exemplar que guardo menção à grande colaboração do “Coronel”. A redação está assim descrita: “Valdo, Inimar, Luiz Albino e Ronaldo. Os desenhos foram a cargo de: Gerson”. Os assuntos? Um texto reflexivo de abertura, algumas piadas e muita brincadeira com algumas pessoas participantes do grupo. O número, último do ano de 1975, registra nome e endereço de 46 integrantes.

Já tínhamos sinais de que as coisas mudariam. Fátima Borges, por exemplo, já havia ido de mudança com a família para Goiânia. Logo eu também viria embora. E dos que constam desse velho jornal mimeografado, lamento algumas erdas irreparáveis: Ronaldo Feliciano de Assis, meu querido amigo, faleceu. Também falecidos: João Cardoso Borges e Maria Catarina Souto. Talvez outros, não sei. Muitos integrantes permaneceram lá no bairro, formaram família, os filhos já crescidos, certamente há avós entre esses jovens do Tíutio. Outros foram pra outras cidades, outros estados. E o tempo passou.

Foi em uma dessas arrumações de final/começo de ano que mostrei ao Agostinho Hermes, meu irmão Gugu, o jornal de quando éramos jovens e ele, na época menino, era acólito cuja atuação está registrada nas fotos de casamento de minha irmã Walderez. Ele impediu-me de jogar fora o velho exemplar, assim como também o texto da primeira homilia que fiz, sob as ordens do Coronel, tendo como tema a Parábola do Semeador. – É história, Vavá! Tem que registrar no blog. E aqui está.

Nosso país anda feio! Os anos de 1970 também foram difíceis: estávamos lá! Semeando esperança e nos preparando para seguir em frente. Até onde percebo, via redes sociais, ou papos pessoais, continuamos na luta. A fé pode não ser a mesma, assim como os ideais foram mudando com o tempo, mas ouso afirmar: – Somos gente do bem. E aprendemos boa parte do que somos lá, ao lado dos padres.

Os Somascos ensinaram-nos a fazer reuniões, organizar eventos, discutir textos, planejar ações de integração, discussão. Entre muitas atividades, creio, que a principal foi a discussão e interpretação de textos. Da Bíblia, dos livros de formação e de letras de canções, notícias de jornal, poesias. Um aprendizado informal, mas que certamente norteia a vida de todos aqueles que viveram intensamente aqueles anos.

Meu carinho aos padres e para todos os meus companheiros de grupo, para quem vai este texto. Meus sentimentos aos familiares por aqueles que partiram.

Terminarei registrando todos os nomes citados no jornal; um encontro virtual para lembrar tempos em que sonhávamos grande e, quem sabe, não seja este um pequeno estímulo para continuar a sonhar. No mínimo, um bocado de histórias para lembrar.

Ajair dos Reis Farias Pinto, Alcides Delfino Camilo, Anivaldo Santana, Antonio Sebastião de Souza, Antonio Sergio Manzan, Ariadina Aparecida Borges, Célio Heli Batista, Daniel Lázaro das Neves, Delcio José Matos, Dulcelane dos Santos Loureiro, Eleusa de Fátima Ramos, Getúlio de Oliveira, Gilberto dos Reis Mota, Haidee Maria Fialho, Inimar Eurípedes Santana, João Cardoso Borges, José Geraldo de Oliveira, José Humberto da Silveira, Lúcia Helena Ribeiro, Luiz Albino Gonçalves, Marco Antonio Britto, Maria Amélia Cruz, Maria Aparecida Souto, Maria Bernadete Camilo, Maria Bernadete da Silveira, Maria Catarina Souto, Maria das Graças, Maria das Graças Silveira, Maria Lucia Souto, Maria Natividade Ramos, Marilene Alves, Marilene Justino, Marina Alves Rocha, Marisa Helena Alves, Marluce Aparecida Justino, Marluce Helena de Souza, Marta Aparecida Camilo, Paulo Roberto da Silveira, Pedro Bernardino da Silveira, Pedro Delfino Camilo Filho, Ronaldo Feliciano de Assis, Shirley de Matos, Silvia Gonçalves, Tania Cristina Melo Oliveira, Valdo Vinagreiro Resende, Vanildo Portela de Jesus.

Até mais!

Presépios, para um Natal feliz

 

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Ronaldo, Inimar, Marquito são os anjos. Anivaldo e Terezinha, os pais. Daniel, o menino Jesus.

Neste, como em muitos anos repete-se o ritual. O natal se torna visível nas diversas manifestações imateriais como folias, cantatas, missas ou através de elementos materiais: guirlandas,  árvores, ou um presépio… Eu gosto de presépio tanto quanto gosto de quem o criou, São Francisco de Assis; o Santo queria representar as condições do nascimento do menino Jesus.

O presépio mais encantador da minha infância foi, sem dúvida, um que foi construído pelo “Senhor Fumaça”, um artesão de mão cheia que, durante o dia, trabalhando em uma cerâmica, lá mesmo, aproveitando-se de sobras de materiais e do forno local, criou toda uma representação de Belém.  A sala na casa de D. Castorina era toda ocupada pelo presépio criado pelo marido (Essa casa, antes ocupada por meus pais, foi onde nasci!).

Presépio bem tradicional, aquele era composto por imensa gruta e, dentro desta, cabanas, palacetes, casas de diferentes tipos, todas em cerâmica. Estrelas, luzes coloridas. Animais domésticos, selvagens. Grupos de viajantes, caravanas e, entre essas, aquela que conduzia os magos para visitar o Salvador prometido. Das pequenas traquitanas criadas pelo “Senhor Fumaça” é nítida a lembrança de um monjolo que, abastecido por pingos de água exercia sua função de moagem de grãos. Crianças, entre uma brincadeira e outra, corríamos céleres em intervalos de tempo precisos para ver o objeto em movimento.

Jovem, atuante na mesma paróquia do Bairro Boa Vista, e já envolvido com teatro, chegou a minha vez de conduzir uma representação; um presépio vivo de lembrança muito especial. Na foto acima meu irmão caçula, Daniel, com cerca de nove meses de vida, foi o menino Jesus sobre a manjedoura. José e Maria (Anivaldo e Terezinha) cuidam da criança, protegidos por três jovens anjos (Ronaldo, Inimar e Marquito).  Nada de excepcional, exceto a lembrança de um momento nosso; feito com seriedade, reverência e, certamente, fé.

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Não sei há quanto tempo monto o presépio em minha casa. Gosto de realizar pequenas mudanças, alterar a composição da montagem e assim, em cada ano, fica diferente e sempre igual. Meu presépio tem, fundamentalmente, a função de me conduzir aos primeiros natais com minha família, ou na casa da Tia Olinda, em Ribeirão Preto, ou ainda na casa de meus avós, em Campinas. Ato familiar, as comemorações de natal reforçam minha fé no novo, naquilo que devo percorrer mesmo com perdas dolorosas pelo caminho. Meu lastro são as lembranças, reforçadas e reconstruídas em cada dezembro.

Feliz Natal pra todos!

Quatro cidades do Pontal de Minas

quatro cidades
Da esquerda para a direita, Canápolis, Ituiutaba, Monte Alegre de Minas e Prata.

Penso mapas como grafias que materializam nosso belo e imenso planeta e, dentro deste, a concretização abstrata de algum lugar, alguma cidade.  Desde sempre olho para o mapa do Brasil e meu olhar é atraído primeiramente para Uberaba; lá fica a cidade onde nasci e onde estão meus familiares. O ponto que significa Uberaba é a própria cidade e também é o signo precioso que, magicamente, guarda as pessoas que amo.

Os mapas, disponíveis para todos,tornam-se objetos particulares. Estabelecer um roteiro sobre um mapa é, com certeza, a primeira etapa de uma viagem. Visualizamos possibilidades e sentimos crescer expectativas imaginando o caminho, o tempo que levaremos de um ponto a outro. Outro passatempo é refazer trajetos, tracejar sobre um mapa os caminhos já percorridos nesse mundão de Deus. Um mapa ainda é sempre um meio de registro de nossos avanços, novas conquistas, outros lugares que passam de simples ponto a significado ímpar em nossas vidas.

Há pouco tempo que quatro cidades entraram para o meu mapa pessoal. Não que essas não existissem. Apenas não as conhecia e nem havia estabelecido qualquer relação mais próxima. Ouço os nomes de Canápolis, Ituiutaba, Monte Alegre de Minas e Prata desde criança. Canápolis, por exemplo, é a segunda rua paralela à Avenida Elias Cruvinel, no meu querido bairro Boa Vista, em Uberaba. Passava sempre por lá. Ituiutaba, meu amigo Victor Olszenski sempre recorda, é a terra de Moacyr Franco, o querido cantor e humorista.  Monte Alegre sempre esteve em assuntos e lembranças de meu pai e Prata, mais que uma cidade, é a referência de uma grande família em Uberaba que teve, entre seus membros, minha inesquecível professora Maria Ignez Prata.

Com o projeto ARTE NA COMUNIDADE 2 essas cidades entraram intensamente no meu cotidiano. Fui com meu irmão Agostinho conhecer todas elas, iniciando uma profunda pesquisa que prosseguiu por livros, jornais e sites. Voltei em cada uma delas na companhia de Sonia Kavantan e agora estamos ultimando preparativos para o lançamento do projeto, marcado para abril próximo.

Canápolis é a mais jovem das quatro cidades. Sinto nela uma vocação para as artes, para manifestações culturais diversas. Ituiutaba tem perfil de metrópole e já demonstra isso em seu comércio intenso e diversificado; suas ruas são movimentadas e suas praças, arborizadas, são receptivas e acolhedoras. Monte Alegre tem histórias incríveis, criadas por imaginação fértil; mas são aspectos da história real que testemunham a importância estratégica da cidade, local por onde passou tropas do exército brasileiro que lutaram na Guerra do Paraguai. Prata é a mais antiga de todas. O Triangulo Mineiro começou com Araxá, Uberaba e depois veio o município do Prata. Desde tiveram origem várias outras cidades e, ainda assim, continua sendo, em extensão territorial, o maior município da região.

Contaremos muito sobre essas cidades nas “Histórias do Pontal de Minas”, evento que é parte do projeto ARTE NA COMUNIDADE 2. Quatro pequenas montagens celebram os contadores de histórias, ao mesmo tempo em que pretende incentivar aos mais novos esse gostoso hábito do mineiro contador de causos. A abertura do projeto será em praça pública, prosseguindo nas escolas do município que serão os locais onde efetivamente concretizaremos o objetivo primordial do projeto que é facilitar ARTE NA COMUNIDADE. Após as incursões nas escolas ocorrerão novas apresentações públicas, em cada uma das cidades, encerrando o projeto.  Oportunamente voltarei aqui para registrar os detalhes de datas e horários dos eventos em cada uma das cidades. Por enquanto estamos indo fundo na história, nas pessoas e nos mapas de cada um desses locais. Vamos descobrindo locais, conhecendo melhor outros, acrescentando informações necessárias ao bom êxito das nossas ações para que possamos apresentar um trabalho digno dessas simpáticas cidades.

Boa semana para todos.

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 Nota: O ARTE NA COMUNIDADE 2 tem o patrocínio da ALUPAR e foi aprovado pela Lei Rouanet.

Duas irmãs, as primeiras

Imagine que em um dia, já perdido no tempo, recebo um telefonema de Goiânia: “- Oi, você vai ser tio!” Alguns anos transcorridos e estou em um carro rumo à UNICAMP acompanhando a mãe e o bebê, agora mocinha, levando esta para residir na cidade universitária. Este pode ser um fato que dimensiona bem minha amizade com Fátima Borges, a mãe. O tal telefonema chegou porque a amizade vinha de longe, muito longe.

Com Fafa, sempre!

Crescemos em Uberaba, no bairro Boa Vista, e nos aproximamos já na infância. Os tempos eram outros, de uma rigidez absurda determinando meninos de um lado, meninas de outro. Fátima Borges, daqui para a frente só Fafá, começou no teatro primeiro que eu, encenando as peças preparadas por uma moça chamada Isabel, a Belinha. Essa é, efetivamente, a lembrança que ficou não como a primeira, mas viva recordação de como tudo começou.

Comecei em teatro por outras vias, com minha irmã Waldênia levando-me ao TEU – Teatro Experimental de Uberaba. Eram momentos muito legais de festivais de música, de teatro, e minha irmã, começando a universidade, frequentava cineclubes, sessões de teatro. Eu acompanhava e ia tomando gosto pela coisa.

Com Waldenia, todo o tempo!

Um salto no tempo e estou com Fafá no grupo de jovens da Paróquia de Nossa Senhora das Graças. Vivíamos entre os Padres Somascos: Nicolau, Líbero, Américo, Pedro, Enzo… Italianos que nos ensinaram muitas coisas: Um deles, Líbero, gostava de propor desafios. Um desses foi que o grupo de jovens deveria realizar a quermesse, algo restrito aos mais velhos. Lembro-me ao lado de Fafá, visitando os jornais da cidade para divulgar nosso primeiro grande evento. Desse período, marcante e determinante para nossas vidas, Padre Líbero desafiou-nos a tocar violão acompanhando a missa. Vivíamos brincando de fazer barulho com o instrumento. E lá fomos nós, fazer aulas de violão e, poucos meses após, responder positivamente ao desafio do pároco.

Dei meus primeiros passos em teatro no grupo paroquial. Foi minha irmã Waldênia quem me colocou em contato com um livro de Constantin Stanislavski, o grande diretor  teatral  russo, criador do melhor método de estudo para atores. A música foi para plano secundário, um componente entre as montagens teatrais que realizei. Para Fafá, a música tornou-se fundamental e ela, já distante do nosso cotidiano, foi cantar na noite de Goiânia. Enquanto minha amiga cantava em bares e eventos, da capital goiana e região, passei a residir em São Paulo e comecei a trabalhar por aqui.

Será que ela sabe que eu guardo o panfleto?

Na minha bagagem para São Paulo, aprendidos com Waldênia, trouxe os versos de Fernando Pessoa, romances de Fernando Sabino e Autran Dourado e outros livros de Stanislavski. Foi uma boa base para enfrentar a vida. Outro tanto de tempo, convidado pela produtora Sonia Kavantan, montei uma peça infanto-juvenil, “A História de Lampião Jr e Maria Bonitinha”, texto de Januária Cristina Alves. Nessa peça voltava a trabalhar com Fafá, chegando de Goiânia para morar em Santo André, no ABC. O teatro da infância, a música na juventude; Fafá interpretou e cantou, lindamente, sob minha direção.

No presente Waldênia ensina-me outras coisas que ela aprendeu sendo mãe, agora avó. Gostaria de ser tranquilo como ela, de manter frieza em situações complicadas e de saber deixar de lado quem não vale nossas preocupações. Ainda aprenderei. Com Fafá a amizade continua, com uma cumplicidade que não tem tamanho e com um afeto cada vez mais sólido. Cada um no seu canto, sempre juntos. Concretamente juntos também no trabalho: Fátima Borges é a revisora do nosso livro “UM PROFISSIONAL PARA 2020”.

Família que minha irmã formou. Os filhos lindos puxaram “Eulindo”

Deus me deu três irmãs de sangue que amo muito. Únicas em personalidade, em modo de ser e viver. E também fui abençoado com grandes amizades. Tenho mais de uma dezena de melhores amigas. Melhores sim, todas elas; no mais puro sentido do que seja melhor. Não há escala de importância. Há um imensurável amor. No entanto, tudo tem um começo. Waldênia é a primeira lá de casa, a primogênita. Fafá é a primeira grande amiga na minha vida. As duas são aniversariantes neste 15 de setembro. Duas mulheres, irmãs que a vida me deu. Feliz aniversário, meninas!

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Até mais!

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Robin Gibb, os Bee Gees e os grandes afetos!

Desde sexta-feira, com a notícia de que Robin Gibb, dos Bee Gees, está em coma, fiquei pensando no grupo que povoou minha adolescência com belas canções. Na manhã de sábado fiquei ouvindo um disco antigo, agora em cd, que guardo com muito carinho, com as minhas músicas preferidas da banda.

Sem condições de escrever algo da forma como gostaria, resolvi resgatar um texto publicado anteriormente. É uma sincera homenagem ao cantor e compositor que batalha contra um câncer e,através desta lembrança, meu grande desejo de que ele tenha dias melhores.

Bee Gees e os grandes afetos

Sabe-se lá como é que começa um grande afeto. Quando a gente percebe, pinta e, às vezes, fica. Será que vai acontecer com o Lucas, meu sobrinho, que tem apenas nove anos? Ninguém explica o motivo que leva o garotinho (normalmente um “anjinho”, tipo demolidor!) a parar para ouvir e cantar BEE GEES! 

Eu não era tão criança, quanto o Luquinha é hoje; já era adolescente. Todavia, naquela época, aquilo que eu vivia e sentia, eu denominava amor.

When I was small, and Christmas trees were tall,

We used to love while others used to play.

Don’t ask me why, but time has passed us by… 

No final da década de 60 “rolava” bailinhos caseiros nas tardes de domingo do bairro Boa Vista, e provavelmente, em toda Uberaba. A gente chamava esses encontros de “brincadeira”. E aí, brincava-se de dançar, de namorar… Todo mundo arrumadinho, cuidando de cada detalhe do que hoje se diz “produção”. Dançava-se juntinho, coisa rara hoje em dia. Então tinha que estar cheiroso, pra chegar bem pertinho da menina.

Where are you

Cherry red, sweeter than the honeycomb

Sweeter still when we’re alone

Cherry red, my cherry red…

Nas primeiras vezes, convidar uma garota para dançar era uma tortura. A primeira etapa a ser vencida era: – E se ela disser não? Se para os garotos era difícil tomar a atitude de convidar, para as meninas era um medo semelhante; o de não serem chamadas. A segunda etapa, tão delicada quanto a primeira, era entrar em sincronia. Se a gente não acertasse o passo com a garota, dançando, não adiantaria mais nada. A lenda dizia – Não vai dar certo! É batata!

I started a joke

Which started the whole world crying

Oh had I only seen

That the joke was on me…

Naquela época eu não me preocupava com as origens dos BEE GEES. Nem em classificar a música deles em qualquer categoria. Eram melodias agradáveis, que falavam de amor e era o que bastava. A gente identificava a música pelos primeiros acordes e saía, à cata da garota (sempre de olho em alguma!), antes que um idiota(O outro, sempre um idiota!) tomasse a dianteira.

Minhas irmãs dançaram com seus primeiros namorados nessas festinhas; meu irmão, com uma grande paixão. Só uma de minhas irmãs, a caçula, veio a casar-se com um namorado dessas tardes dominicais. Acho que toda a nossa geração paquerou, flertou e namorou ao som dos BEE GEES. Eu não saí do esquema.

This world has lost it’s glory,

Let’s start a brand new story, now my love

Right now there’ll be no other time

And I can show you all my love…

O casal apaixonado e o cartaz de "Melody, Quando Brota o Amor"

Todavia, minha mais cara lembrança desse grupo, vem de uma tarde qualquer, já no começo dos anos 70, no Cine Uberaba Palace. Eu estava apaixonado por uma garota, Cleide, e fomos ao cinema, bem no meio da semana. O filme, com toda a trilha sonora dos BEE GEES, contava a história, nos arredores de Londres, do amor entre duas crianças.

Who is the girl with the crying face

Looking at millions of signs?

She knows that life is a running race,

Her face shouldn’t show any line…

… Melody Fair, remember you’re only a girl.

MARK LESTER e TRACY HYDE formavam o casal, que tinha como cúmplice JACK WILD. É uma história banal cujo maior trunfo está na situação vivenciada por três crianças, e na música suave e envolvente dos irmãos GIBB. Esse filme sempre esteve em minha memória e, anos depois, era da internet, descobri que há uma legião de fãs no México, no Japão… Há até vídeos dos atores, agora adultos. Quanto ao “namoro” de então…

I can think of younger days when living for my life

Was everything a man could want to do

I could never see tomorrow,

But I was never told about the sorrow.

And how can you mend a broken heart?

…tornou-se uma bela e grande amizade. Daquelas que a gente confia, mesmo à distância; sem encontros constantes, corriqueiros, mas presentes um na vida do outro, na confiança terna dos afetos tranquilos, da amizade verdadeira, onde uma música dos BEE GEES nunca nos foi necessária:

Don’t forget to remember me

And the love that used to be

I still remember you

I love you

In my heart lies a memory to tell the stars above

Don’t forget to remember me my love.

O BEE GEES acabou; MAURICE GIBB faleceu. Do Cine Uberaba Palace, resta o prédio, com outras funções e ocupações. Não falarei dos BEE GEES do final dos anos 70, anos 80. Agora, fico por aqui, lembrando-me de um doce encontro, “de um amor que nunca poderia ser meu”…

Tomorrow… every one gonna know me better.

And tomorrow… every one gonna drink my wine.

And… tomorrow… every one gonna read my letter

and my story of love, and a love that could never be mine.

Essas coisas do destino… Um amor que não acontece por uma amizade que perdura. Um grande afeto. Deixo meu carinhoso beijo pra você, ‘Melody Fair’!

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Até!

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Notas Musicais: 

Firstof May – B.R. & M. Gibb

CherryRed – B. Gibb

Istarted a joke – B.R. & M. Gibb

Words – B.R. & M. Gibb

Melody Fair – B.R. & M. Gibb

How can you mend a broken heart – B.R. & M. Gibb

Don’t forget to remember – B.R. & M. Gibb

Tomorrow, tomorrow – B.R. & M. Gibb

(publicado originalmente em 24/09/2008)