Um post democrático, já que a morte vem para todos. Privatizados, os cemitérios de São Paulo são altamente rentáveis e acabam de realizar atualização cadastral.
Poderia ser o começo de um conto de Natal lembrando o tal recenseamento, que levou José e Maria para Belém, onde nasceu Jesus Cristo. Está descrito no Evangelho de São Lucas. Ocorre que o mais recente “recenseamento” veio a mando dos donos dos cemitérios de São Paulo. Especificamente um recadastramento para donos dos jazigos e ossuários de cinco cemitérios da capital paulista. Em não comparecimento a família pode perder o direito sobre a propriedade do jazigo perpétuo.
O capitalismo é insano e, caso consiga aprisionar o ar, deverá vendê-lo. Pobre de quem não puder pagar. Certamente é pela ânsia de servir ao mercado, esse monstro abstrato que subjuga o planeta, que resolveram privatizar os cemitérios. Nossas prefeituras, incapazes de quase tudo, não conseguem administrar nem mesmo os antigos campos santos, atualmente campos rentáveis. E a ideia de perpétuo se desvaneceu.
Recordo antigos parentes que se orgulhavam de ter um pedaço de terra para descansar eternamente, ou até que “Deus desça do céu a julgar os vivos e os mortos”. Como os faraós do antigo Egito que construíram suas pirâmides tumulares para aguardar possível retomada do corpo, os cristãos acreditando na “ressurreição da carne” inventaram o jazigo perpétuo. Deveriam permanecer por milhares de anos, como os monumentos egípcios à espera da vontade divina.
Sinto-me por demais ingênuo. Acreditei na conversa mole de que um minúsculo pedaço de terra não interessaria a ninguém. Acontece que o mercado, que vende até a própria mãe, descobriu o nicho tão rentável quanto o desequilíbrio de quem perde um ente querido. No desespero de honrar o morto, quem vai deixar de enterrá-lo com o mínimo possível de dignidade?
Há tempos descobri que nas imediações de hospitais estão vampiros atentos aos parentes de recém falecidos. Começa ali o assalto aos sobreviventes, na indicação da casa funerária. Nesta, um vendedor como outro qualquer, interessado em bater metas e garantir comissões, faz a pergunta inicial. É óbvio que ao comprador será oferecido uma urna conforme o grau de parentesco com o defunto. O exemplo óbvio é o quanto alguém quer gastar para enterrar um cunhado ou a própria mãe.
Anúncios em jornais, floriculturas e até “catering” – defunto não comerá, mas aqueles que forem prestar homenagens terão um rango à altura do status do morto. Em Minas e em boa parte do interior do país a gente não sabe que diabos é esse catering, mas oferecemos café e cachaça. Após o primeiro assalto já aparece gente interessada em marcar cerimônias: do corpo presente, levar o féretro até a capela mais próxima, já garantir o melhor horário e exclusividade na missa de sétimo dia.
Todo esse lero-lero dos parágrafos acima é para deixar claro e relembrar o Silvio Brito da canção que nos alertava que “tem que pagar pra nascer, tem que pagar pra viver e tem que pagar pra morrer”. Deveria acabar ali, uma vez você tendo garantido o seu jazigo perpétuo. Mas os capitalistas descobriram que poderiam ter no cemitério altas fontes de renda, e os restos mortais de muitos deverão ir para o lixo. A tabela de possíveis gastos é imensa e feita para confundir. Tive até que procurar o dicionário para saber o que é columbário (cremar não é solução, já que você tem que depositar as cinzas em algum lugar, o tal columbário).
Há pontos consideráveis. Se tem gente para pagar condomínio de cemitério – escrevi aqui sobre o local onde está Pelé – que paguem e garantam a eternidade até que os sobreviventes deixem de pagar a vultosa mensalidade. Também devemos considerar aqueles que garantiram singelos jazigos para os seus, como é o caso de minha família que mantém o mínimo de enfeites e adereços, já que esses são alvo de ladrões. E há outros que são enterrados conforme dever moral das instituições que nos governam e dos políticos que garantem seus túmulos com proventos advindos dos nossos impostos.
A expressão perpétua ligada ao jazigo certamente já era. Pelo menos enquanto o capitalismo dominar nossa economia. Aqui, um aparte que acaba de me ocorrer: sempre me diverti com a ideia de que comunistas comem criancinhas. E agora me dei conta de que capitalistas querem até os corpos – temporariamente – das pessoas. E espero que tão transitório quanto a ideia de perpétuo, que seja o capitalismo e os capitalistas. Eles também terão fim.
Que alguns valores humanos foram para as cucuias é fato, mas o que é fundamental é lutar e brigar por ideias simples e fundamentais: transporte público não é para lucro, é para garantir o direito de ir e vir. Saúde é direito, assim como educação; o Estado deve prover meios para a sobrevivência e a formação dos cidadãos que, nada mais justo, garantirão a sobrevivência do próprio Estado. E cemitério, a despeito de sentimentos e religiões, é questão sanitária. Carecemos de um lugar seguro e adequadamente cuidado para os nossos corpos, ou as nossas cinzas, seja lá que destino darão ao nosso cadáver.
Feliz natal, é a expressão máxima do mês. Espero que você, paulistano, tenha feito o seu recadastramento tumular. Nada mórbido; pense na grana, que é o que norteia atualmente os nossos campos santos. O metro quadrado está pela hora da morte, é só consultar as tabelas disponíveis. No final das contas, perpétuo a gente agora sabe, é só enquanto a grana de taxas de manutenção entrarem nos cofres da concessionárias.
Nota: a imagem que ilustra este post é uma foto que fiz em Salvador, visitando o ossuário da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, em Salvador. Belíssimo lugar para guardar os ossos, felizmente ainda não privatizado.
Valdo Resende



