A maior!

Semana em que Elis Regina e Nara Leão estão em foco na mídia brasileira. Que ótimo relembrar e homenagear essas artistas extraordinárias. Nas diferentes matérias sobre as duas cantoras invariavelmente recai sobre Elis o adjetivo maior. “A maior!”. Ninguém discorda; nem deve, nem pode. No entanto…

Provavelmente por sermos subdesenvolvidos, nós, brasileiros, tenhamos essa coisa do tamanho das coisas. O maior estádio, a maior usina hidrelétrica, a maior ponte… Esses exemplos arquitetônicos foram utilizados durante a ditadura militar, afinal os caras precisavam de dar motivos de orgulho para a gente do país. Mais ou menos nessa época a própria Elis disse em uma ou outra oportunidade que Maísa era a maior cantora, ou Gal Costa a maior cantora. Para Maria Bethânia reservaram o “a maior intérprete”.

A febre do “maior” veio depois de diferentes reinados. Nostalgia dos tempos coloniais, sem ter por aqui o charme das nobrezas europeias, inventamos títulos para praia – Quem não conhece “a princesinha do mar”? – criamos reis da voz, rainhas do rádio, rei da juventude, rei do baião, rainha da Jovem Guarda e, entre outros, para ficar bem claro que ainda não dispensamos as titulações nem mesmo em plena pandemia, agradecendo o trabalho de Teresa Cristina, elegendo-a Rainha das Lives. Serei sempre grato à cantora e compositora pelas noites em que nos salvou do desespero.

Afeto e reconhecimento estão entre diferentes sensações que caminham junto e em ordem invariável quando citamos nossas referências, nossas preferências. Se concordamos que Elis Regina é a maior, onde colocamos Nana Caymmi, Mônica Salmaso, Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Elza Soares, Maria Bethânia, Alcione, Daniela Mercury? Caramba, ia deixando Dalva de Oliveira de fora, a Gal Costa! A Clara Nunes! Podemos colocar quantas cantoras na tal lista “A maior”?

As cantoras citadas no parágrafo anterior nos legaram (legam, ainda!) registros incríveis de inquestionável qualidade vocal. Todas elas, em um ou outro momento, nos arrebatam com suas interpretações e terão, como disse Elis, “a durabilidade do disco”, o que a gente sabe, graças à tecnologia, que essas vozes deverão estar por muito tempo conosco. Elis e Nara têm histórias peculiares em comum (veja aqui), mas neste texto quero enfatizar outros aspectos.

Nara Leão é páreo – se a gente necessitasse disso – para qualquer artista do mundo quando se coloca a representatividade como parâmetro. Milhares de quilômetros distanciam Nara de Leny Eversong, se pensamos em potência vocal. Sem dúvidas, é possível reconhecer e confirmar que o “fio de voz” de Nara foi mais forte que o de Lenny, ou de qualquer outra cantora. A moça rica de Copacabana norteou a Bossa Nova, subiu o morro e nos legou poesia e protesto, assinou junto com o pessoal da Tropicália e mandou às favas os preconceitos em relação a Jovem Guarda. Não é lero-lero. Comprova-se na discografia!

Elis Regina é páreo – e ela não precisa disso – para qualquer cantora do mundo quando se alia técnica e expressão, potência e domínio vocais. Representou como poucas a época em que viveu, mais ainda, sendo um retrato fiel do brasileiro: o ser batalhador que é arrimo de família, que enfrenta forças adversas para ganhar espaço. Nara, rica, fez o que bem quis e, cá para nós, sorte a dela. Elis, brigou feito fera para fazer o que queria, como queria. Briga com gravadoras, empresários, com o governo, com o universo machista onde transitou, brigas que precisavam levar em conta a necessidade de sustentar os seus.

Legal refletir sobre “a (o) maior” principalmente para uma juventude que, penso eu, confunde o ato de cantar com grito. É só assistir o The Voice” para confirmar a gritaria. É complicado abrir espaço profissional e, nesse país do “a maior” e dos “reis e rainhas de quase tudo”, o jovem já chega por baixo. Esquece a suavidade da Bossa Nova, por exemplo. João Gilberto ganhou o mundo colocando a voz em registro suave, como Nara e, na maturidade, Maria Bethânia. Dóris Monteiro é inesquecível e entre as cantoras atuais, Marisa Monte e Maria Rita sabem dosar potência e suavidade, brindando-nos com momentos deliciosos. Subir a voz é força expressiva. Todo cantor deveria aprender isso com Elis Regina, assim como a professora de suavidade – sem esquecer a precisão da expressão – é Nara Leão. As duas – em polos distintos – representam o que há de melhor em nossa música.

A imprensa usou e abusou da rivalidade entre cantoras. Não voltarei ao assunto (Veja aqui), posto que vejo pouca ou nenhuma novidade sobre a questão. A prática continua. Fora dessa necessidade de audiência, podemos refletir e discutir essa questão da adjetivação dos nossos artistas. São grandes, são maiores. Nunca em detrimento aos pares. São imensos em determinado momento, são fundamentais em outros. O que devemos é conhecer, reconhecer e agradecer quando houver o excelente trabalho de cada cantora, de cada artista. Há lugar para todo mundo.

Nos tempos dos registros físicos – discos em compacto, ou long play, fitas cassete, cds – o espaço era problema e, por isso, escolhi vozes femininas para minha coleção de discos. Uma razoável coleção de cds, indo de Aracy de Almeida à Zizi Possi. Ouço Elis tanto quanto ouço Maria Alcina, Evinha, Tetê Espíndola. Dedico horas à Zezé Motta, Beth Carvalho e também ao Quarteto em Cy. Giane e Inezita Barroso, tanto quanto Clementina de Jesus ocupam lugar especial e por aí vai. De A a Z, deixo rolar à vontade e, para lembrar um verso de Joyce Moreno, gosto de “canções que ninguém escuta”. Tenho muita coisa da Elis Regina, da Nara Leão, da Gal Costa. Quase tudo da Maria Bethânia, e quem me conhece sabe o lugar que Wanderléa tem no meu coração. Todas grandes! Todas são “a maior”!

Salve, Elis Regina! Salve, Nara Leão!

Um salve maior para todas as cantoras do Brasil!

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As fotos que ilustram este post estão em capas de disco de Elis (1977) e Nara (1968).

Mangueira é um “Catavento a Girar”

Logo ali já se vê o carnaval chegando. É bom escrever sobre sambas de enredo e grandes escolas. Pra continuar vou de Mangueira, a Estação Primeira, cantada em verso e prosa desde sempre.

Cartola, o pavilhão nas mãos de quem o defende com amor e Jamelão. É Mangueira
Cartola, o pavilhão nas mãos de quem o defende com amor e Jamelão. É Mangueira!

Mangueira poderia ser qualquer lugar. As mangueiras proliferam-se pelo país. Belém do Pará, por exemplo, é lembrada por seus mangueirais. Transformar um lugar comum em algo mítico, especial é privilégio da criação artística. Em artes plásticas, em prosa, em poesia ou música, tudo pode ser transformado em sonho, diante de qualquer que seja a realidade. a música colocou no mapa da música brasileira uma Mangueira, eternizada nos carnavais, indo muito além de um único período do ano.

Mangueira é poesia em canção, como em “Sei lá Mangueira”, a criação dos mestres Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho.

Visto assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá, não sei
Em Mangueira a poesia fez um mar…

Esse mar vem de longe e, desde lá já merecia uma “Exaltação à Mangueira”, feita por Aloísio Augusto da Costa e Enéas Brites, imortalizada na interpretação de Jamelão:

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou
O morro com seus barracões de zinco
Quando amanhece que esplendor…

Quando a poesia vai embora, em Mangueira apela-se para o passado. Dá samba bonito! Herivelto Martins já sabia disso quando criou “Saudosa Mangueira”:

Eu sou do tempo do Cartola
Velha guarda o que é que há?
Eu sou do tempo em que
Malandro não descia
Mas a policia no morro também não subia…

Falando em Cartola a lembrança desse morador permanece em Mangueira, nos sambas belíssimos, de uma brutal e encantadora simplicidade como “Alvorada”, onde Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho celebram as belezas do morro e da mulher brasileira:

…Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida…

Cartola é símbolo da escola, como Nelson Cavaquinho que, junto com Guilherme de Brito criou um dos sambas mais geniais de todos os tempos. Fico sempre na dúvida se a melhor interpretação deste samba é de Jamelão, Elis Regina ou Beth Carvalho:

Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira…

Ah, Estação Primeira. De Dona Neuma, Dona Zica, de Jamelão de voz inconfundível, do “ Bumbo da Mangueira” Jorge Benjor tão bem homenageou e que Gal Costa canta como ninguém:

Eu conheço esse bumbo
Esse bumbo é da mangueira…
Ele sobe e desce o morro
Com cadência e precisão
E desfila na avenida
Batendo no compasso
Do meu coração
Bum, bum, bum…

Mangueira, a escola, vem encantando gerações. Levou a poesia de Chico Buarque e o som inconfundível de Tom Jobim para o alto, para o morro, junto aos sambistas da escola de cores verde e rosa:

…A minha música não é de levantar poeira
Mas pode entrar no barracão
Onde a cabrocha pendura a saia
No amanhecer da quarta-feira
Mangueira
Estação Primeira de Mangueira.

E é assim, só com versos de músicas de altíssima qualidade. Qual escola tem uma história contada dessa forma? Cantada? É fácil pra todo brasileiro gostar da escola de samba, amar suas cores, mesmo nunca tendo ido ao Rio, ao morro.

A música de Mangueira atravessou todas as fronteiras e fez da escola de samba um ícone, amado por quem gosta de samba e do Brasil. E pra terminar esse primeiro post só mesmo a lembrança desse “catavento a girar”, no “Chão de esmeraldas” cantado na composição de Chico Buarque e Hermínio Bello de Carvalho.

Me sinto pisando
Um chão de esmeraldas
Quando levo meu coração
À Mangueira…

Soberba, garbosa
Minha escola é um catavento a girar
É verde, é rosa
Oh, abre alas para a Mangueira passar!

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Até!

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Nota:

Logo mais escreverei sobre o carnaval da Mangueira neste ano de 2013. Antes resolvi preservar o texto acima, que havia sido publicado originalmente no Papolog, em 05/01/201

No carnaval de SP há samba para gente bamba

Qual a boa para esse carnaval? Penso não ser ruim da cabeça, nem doente do pé, logo, lembrando a canção, sou bom sujeito, do tipo que curte samba de montão. De todos os sambas possíveis, chegou a hora do samba de enredo. A verdadeira essência e razão de ser de uma escola de samba: a música que faz o povo cantar e dançar.

Samba de enredo é a coisa mais democrática do mundo musical. Há sempre um verso para um compositor. Há momentos em que penso que deve ter marmanjo que só colocou um “laraiala, lala”. Sem diminuir o sujeito; quem conhece samba sabe a importância de um “laraiala, lala”. Quero ficar distante de um tratado sobre sambas de enredo. O negócio é cantar e, para começar o carnaval, a boa deste post é destacar três sambas de enredo, criação de 14 compositores (Olha a democracia aí, gente!) para gente bamba do carnaval de São Paulo neste ano de 2013.

Beth Carvalho é homenageada pela Acadêmicos do Tatuapé
Beth Carvalho é homenageada pela Acadêmicos do Tatuapé

Gente bamba é Beth Carvalho, que será homenageada pela escola “Acadêmicos do Tatuapé”. A sambista carioca já lançou tantos artistas que é carinhosamente chamada de “madrinha do samba”. É comum ver gente como Zeca Pagodinho, por exemplo, pedindo a benção para a cantora.

A “Acadêmicos do Tatuapé” abre o desfile do dia 8, sexta-feira com “Beth Carvalho, a madrinha do samba”, samba que será interpretado por Vaguinho. Os compositores André Ricardo, Luciano Oliveira e Vaguinho conseguiram sintetizar a vida de Beth Carvalho, citando elementos conhecidos pelo grande público; isso facilitará que todos cantem com a escola.

… Em suas andanças por Mangueira (me leva, amor)
Cantou “Folhas secas” para emocionar
“As rosas não falam”, exalam perfume no ar
Um grito de gol, explode a paixão
Botafogo no seu coração…

João Nogueira é tema para o carnaval da Águia de Ouro
João Nogueira é tema para o carnaval da Águia de Ouro

Tão bamba quanto Beth, o compositor e cantor João Nogueira é enredo para a “Águias de Ouro”, 7ª escola do primeiro dia do grupo especial de São Paulo. João Nogueira é criador de sambas incríveis, gravados por ele mesmo e por intérpretes geniais como Elis Regina (Eu, hein, rosa!, Clara Nunes (As Forças da Natureza) ou Alcione (Um ser de luz).

Um dos principais parceiros de Paulo César Pinheiro, João Nogueira deixou um legado imenso, devidamente reverenciado pelo filho, o cantor Diogo Nogueira. Junto com Ciraninho, Rafinha, Leandro e Serginho Castro, Diogo Nogueira também assina o samba de enredo da “Águias de Ouro”: “Minha missão. O canto do Povo. João Nogueira”. O samba é magnificamente interpretado por Serginho do Porto.

…João, teu nome é história
O Canto do Povo te faz imortal
Ninguém faz samba só porque prefere
É Nó na Madeira o meu carnaval…

Inesquecível Mazzaropi, homenageado pela Acadêmicos do Tucuruvi
Inesquecível Mazzaropi, homenageado pela Acadêmicos do Tucuruvi

Bamba, como bem se sabe, não é característica exclusiva de sambista; alguém duvida que Mazzaropi seja um bamba? A “Acadêmicos do Tucuruvi” será a 6ª escola do dia 9 de fevereiro no sambódromo paulistano. “Mazzaropi: o adorável caipira. 100 anos de alegria” é o enredo da escola, com samba criado por Felipe Mendonça, Maurício Pito, Leandro Franja, Márcio Alemão, Henrique Barba e Fábio Jelleya. O intérprete é Ivo Sorriso.

Mazzaropi é figura ímpar na história do cinema brasileiro. Grande comediante, ele soube gerenciar como poucos a própria carreira tornando-se também produtor e diretor de seus filmes, normalmente rodados em estúdio próprio, no interior paulista. Além de participar na criação de roteiros, Mazzaropi também foi compositor, sempre cantando em seus filmes.

…A carrocinha levou o gado da madame
Vendedor de linguiça não vende salame
O Jeca Tatu não é puritano… Há! Há!Há!
Ele é corintiano…

“Acadêmicos do Tatuapé”, “Águia de Ouro” e “Acadêmicos do Tucuruvi” têm uma grande vantagem levando para o desfile artistas amados, respeitados e bastante conhecidos por todo o público. Este é o outro lado da moeda: sendo conhecidos, todos nós temos uma visão própria do que seria um enredo sobre esses três artistas; daí o desafio das escolas que tentarão corresponder às nossas expectativas.

Samba para gente bamba. “- Gente bamba para mais de metro”, diria meu pai! Há um imenso mundo envolvendo Beth Carvalho, João Nogueira e Mazzaropi. Uma vastidão criativa também está no potencial de compositores, ritmistas, passistas, carnavalescos, e demais participantes dessas escolas de samba. Teremos, com certeza, um grande carnaval.

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Boa semana para todos!

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Um sonho de feijoada

Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Alcione, Paulinho da Viola e Elza Soares

Sabadão chegando, uma feijoada com roda de samba para aqueles que andam premeditando festas… E nessa de planejar, sonhar, idealizar, uma roda de samba começaria chamando gente de bem, como DONA IVONE LARA:

Foram me chamar

Eu estou aqui, o que é que há

Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho

Mas eu vim de lá pequenininho

Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho…

Devagarinho a roda iria esquentando, com bons contadores de história, gente boa, tipo DUDU NOBRE, festeiro que adora contar das festas que rolam por aí:

Que tremenda confusão

Voava cadeira, voava pandeiro

Gente com vacilação

Bagunçando o samba no terreiro

Bebeu umas e ficou valente

Virou homem forte, não teve receio

Tinha cachaça no meio…

Nessa feijoada teria que ter gente cuidadosa, cautelosa, que tomaria conta de todos os detalhes, como MARTINHO DA VILA, cuidando para que não ocorra nenhuma confusão:

Batuque na cozinha

Sinhá não quer

Por causa do batuque

Eu queimei meu pé…

Ingredientes de uma boa feijoada estão em sites e programas de culinária. Mineiro, farei questão de um detalhe, que JORGE ARAGÃO não deixa ninguém esquecer: feijão com farinha.

Meu samba quem ouve adivinha

Feijão com farinha, tempero e sabor

Seguimos tocando essa bola

Que veio de Angola no som do tambor

Me chama onde houver um samba que eu vou.

Em roda de samba, se não pintar umas boas paqueras, não tem a menor graça. Mas, para que o namoro aconteça, para que ninguém pise na bola, guarde o que ELZA SOARES tem para alertar:

Devagar com a louça

Que eu conheço a moça

Vai devagar, devagar

Eu conheço a moça

Devagar com a louça

Vai, devagar

Prá não errar!

Seguindo conselhos da mulher “dura na queda” Elza, ninguém sofrerá; mas como todo mundo sabe, que se conselho fosse bom… Tem aquele que não escuta e, aproveita um cantinho da festa para lamentar no ombro amigo, cantando mágoas, como PAULINHO DA VIOLA.

Trama em segredo teus planos

Parte sem dizer adeus

Nem lembra dos meus desenganos

Fere quem tudo perdeu

Ah coração leviano não sabe o que fez do meu…

Feijoada de sábado, todo mundo sabe, ninguém chega rigorosamente na hora. E uma estrela ocupada, como BETH CARVALHO só apareceria mais tarde; chegaria toda humilde; para ela, basta um simples jiló:

Pimenta pode ser da mais ardida

Pois no meu peito já houve ardência maior

Não tenho preferência por comida

Obrigado nessa vida,

A engolir coisa pior, por isso ó nêga

Ó nêga pode preparar o jiló

Ó nêga pode preparar o jiló.

Agora, se o malandro demorar demais pra aparecer, pode rolar de encontrar panela vazia, pratos sujos e bebida no fim. Depois sairá por aí, reclamando, como fez ARLINDO CRUZ:

É que eu fui no pagode

Acabou a comida, acabou a bebida

Acabou a canja

O que que sobrou

O bagaço da laranja

Sobrou pra mim

O bagaço da laranja

Arlindo Cruz, Dona Ivone Lara, Jorge Aragão, Martinho da Vila

Tomando precauções pra chegar no horário, o cidadão não correrá o risco de perder belas canjas (não de galinha, Mané!); de gente que canta bem demais, e que, raramente, põe a mão na massa ou no feijão. Também, preste atenção nas unhas da ALCIONE… Não é mãozinha para lavar pratos. Deus deu a voz e é o que nos basta!

Este amor

Me envenena

Mas todo amor

Sempre vale a pena

Desfalecer de prazer

Morrer de dor

Tanto faz

Eu quero é mais amor…

Certamente todo mundo vai pensar que, nessa feijoada, o responsável pela cerveja seria o ZECA PAGODINHO. Não, um convidado desse naipe não traria nada; a gente pediria pro cara aparecer e a presença do indivíduo dispensaria tudo. Mas como ZECA sabe das coisas, certamente nos daria essa dica de pagodeiro:

Eu já mandei pedir à Odete

Para me mandar

Um chiclete de hortelã

Para tirar

Esse cheiro de aguardente

De romã do ceará

…Se quando eu chegar em casa

Não estiver de cuca sã

Prá disfarçar eu vou mascar

Um chiclete de hortelã.

Essa feijoada pode ir longe. E aqui, nos meus delírios cotidianos, ela já está ocorrendo. Quem sentiu falta de Diogo Nogueira, Lecy Brandão e mais um monte de gente do primeiro time, pode trazer. Pode acrescentar. Monte a sua trupe da feijoada e vamos comer e bebemorar.

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Bom final de semana!

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Notas:

Os versos acima citados são, respectivamente, das seguintes músicas:

Alguém me Avisou, Dona Ivone Lara.

Tinha cachaça no meio, Dudu Nobre

Batuque na Cozinha, Martinho da Vila

Feijão com farinha, Jorge Aragão

Devagar com a louça, Luiz Reis/Haroldo Barbosa

Coração leviano, Paulinho da Viola

Pode preparar o jiló, Arlindo Cruz/ Zeca Pagodinho

Bagaço da laranja, Jovelina Pérola Negra/Zeca Pagodinho/Arlindo Cruz

Gostoso Veneno, Nei Lopes /Wilson Moreira

Chiclete de hortelã, Zeca Pagodinho

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Esse texto foi postado originalmente em papolog/valdoresende

Shows para lembrar Nelson Cavaquinho

Nelson Cavaquinho

Fossem outras as circunstâncias e eu teria escrito sobre o centenário de Nelson Cavaquinho (1911/2011), comemorado neste sábado, 29 de outubro. Trabalhos, notas, provas e uma banca de quase doze horas na universidade… E a vida é bela porque há um trabalho que termina, como no sábado, com muitos e emocionados abraços daqueles que, agora, partem para as últimas atividades antes da formatura.

Nelson Cavaquinho é merecidamente homenageado. No Rio de Janeiro está sendo lançado o disco “Carlinhos Vergueiro Interpreta Nelson Cavaquinho”. Também ocorreram shows e palestras lembrando um dos grandes mestres do samba, compositor da Mangueira, a Escola de Samba que é Verde e Rosa.

Em Mangueira

Quando morre um poeta

Todos choram

Vivo tranqüilo em Mangueira porque

Sei que alguém há de chorar quando eu morrer…

E foi assim, em 1986, quando o compositor faleceu em 18 de fevereiro. Neste 2011, a Mangueira desfilou com o enredo “O filho fiel, sempre Mangueira”, abrindo as comemorações do centenário de Nelson Cavaquinho. Agora é a vez de São Paulo lembrar com uma série de shows as músicas sombrias, o samba bonito que fala de dor e de morte, dos desencontros, dos amores perdidos. Nelson é um dos autores das músicas mais tristes do nosso cancioneiro.

Tire o seu sorriso do caminho

Que eu quero passar com a minha dor

Hoje pra você eu sou espinho

Espinho não machuca a flor…

Os shows por aqui serão no Centro Cultural Vergueiro; a série de espetáculos musicais recebeu o nome “Uma Flor para Nelson”. O primeiro será no dia 3, quinta, com Benito de Paula e Marcos Sacramento; depois, dia 4, será a vez de Ângela Ro Ro e Cida Moreira; duas intérpretes de qualidade. No sábado tem o jovem Filipe Catto e a grande estrela Zezé Motta. A série de shows termina no domingo, com a presença de Graça Braga, Verônica Ferriani e Teresa Cristina.

Músicas que não faltarão nessas noites paulistanas: “Folhas Secas”, cujas interpretações de Beth Carvalho e Elis Regina, até hoje, disputam a preferência dos admiradores do compositor; “Juízo Final”, provavelmente o maior sucesso em vendas e execuções, na interpretação definitiva de Clara Nunes e, minha preferida, “Palhaço”, que curto ouvir na voz de Dalva de Oliveira.

Sei que é doloroso um palhaço

Se afastar do palco por alguém

Volta que a platéia te reclama

Sei que choras, palhaço,

Por alguém que não te ama…

Gosto das canções tristes de Nelson Cavaquinho, da suavidade com que criou sambas deliciosos. São músicas tão boas que até me esqueço que são tristes. Sobretudo, aprecio a capacidade de síntese de Nelson e seus parceiros. Poucos versos e muita, mas muita verdade mesmo. E beleza, de músicas que sobrevirão muito além deste primeiro centenário do criador.

Os interessados nos shows poderão obter entrada franca. O Centro Cultural São Paulo informa que a retirada de ingressos é na bilheteria (terça a domingo, das 10h às 22h), somente na semana da apresentação. Ou seja, termine de ler e reserve uma hora para amanhã, terça, ir buscar o seu ingresso na Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso, bem ao lado da estação do Metrô.

Boa Semana!

As músicas citadas e seus autores:

Pranto de poeta – Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

A Flor e o espinho – Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Guilherme de Brito

Folhas Secas – Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

Juízo Final – Nelson Cavaquinho e Elcio Soares

Palhaço – Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes