Caminhantes noturnos

foto: Valdo Resende

No início da madrugada, o carro deslizando com velocidade sobre o asfalto, as construções às margens da estrada tornaram-se o que, ultimamente, as pessoas chamam gatilho. Prefiro escrever que acionaram lembranças, despertaram memórias. Tentei em vão visualizar a escola onde lecionei, assim como a empresa em que trabalhou um grande amigo. Já haviam ficado para trás.

Entramos em um trecho em que, seguramente, eu não passava há oito, dez anos. Os versos da canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil tornados realidade: “Tudo ainda é tal e qual, e no entanto nada é igual”. A capital São Paulo, gigante que nunca dorme, é o cenário de milhões e milhões de histórias. Sou um cisco irrelevante, incapaz de acordar a cidade. Mas ali estão as minhas lembranças, testemunhas do que vivi.

Houve um dia em que, após passar em um concurso, saí de Santo André, no ABC, em direção à Rua Dr. Vila Nova, na Vila Buarque. Uma imensa chuva provocara enchente e o trânsito, parado, me impedia atravessar um trecho da Avenida do Estado. Eu não conhecia a cidade e, preocupado em chegar no horário a tempo de realizar a entrevista de admissão, resolvi contornar a enchente tendo como rumo os edifícios centrais, o norte correto dado pela torre do antigo Banespa, hoje sede e propriedade privada.

Próximos de entrar no elevado sobre o Rio Tamanduateí percebi, que a fábrica da Arno não está ali, onde sempre esteve. Quando será que fechou? Ainda existe tal marca? Também, há séculos não careço comprar eletrodomésticos. Ficou para trás a fábrica, também ficou no passado a gravadora de discos que me encantava por saber que Ângela Maria, Elza Soares e Miltinho gravaram discos ali, em qual prédio mesmo? O da esquina, próxima da igreja horrorosa e caça níquel do outro lado da avenida, tão cheia de luzes quanto uma padaria.

Senti vontade de voltar ao Ipiranga, passar pela Avenida Nazaré e chegar ao antigo Instituto de Artes, onde estudei. Mas já descemos do viaduto sobre o rio e evito olhar para o quartel, prestando atenção na Estação do Metrô Pedro II. Sinto-me a caminho de casa. Entramos no trecho da Radial Leste que ligará com o Elevado João Goulart, o Minhocão. Durante quarenta anos passei por essas avenidas e ruas, praças e parques. Estou a caminho de casa.

Meus companheiros de viagem ignoram meus pensamentos, conversam sobre os benefícios do alho, cru, em pedaços. O chá é bom, mas perde um pouco a potência e retarda o efeito curativo. Chá de alho! O motorista segue atento ao tráfego e ignora a entrada para meu antigo lar. É rápido e já passamos em frente ao Teatro Oficina. Meu destino deixa de ser minha casa para ser meu trabalho. O carro faz parte do trajeto que percorri nos últimos anos antes de me aposentar.

Sob o elevado, em um semáforo fechado da Avenida Amaral Gurgel, percebo ainda os resquícios de noites efervescentes da década de 80. Passava por ali em direção ao CPT de Antunes Filho, andava de um lado para o outro para cobrir eventos das boates da região para a revista em que escrevi, onde vi os primeiros shows de sexo explícito, presenciei uma briga tenebrosa no Bar Quadrado, em frente ao Bar Redondo em madrugada como esta, em que atravessamos a cidade rumo ao lar dos nossos hóspedes.

Nosso destino é a Avenida Barão de Limeira, que conheci em relações de trabalho com a Folha de São Paulo. Chegamos ao destino. Despedidas rápidas, pois é tarde e o domingo já está prestes a receber os primeiros raios de sol. O frio é intenso e eu quero voltar para casa, a de agora, no litoral onde a temperatura mesmo fria é sempre mais amena que na Capital.

Estou cansado. A noite foi intensa e todas as lembranças que vieram à tona misturaram-se a flashs de outras histórias, muitas pessoas, vários lugares. Se acionadas com tempo sei que estão todas dentro de mim. Alguns deslizes e falharão as datas corretas, os nomes completos. Um ou outro detalhe se perdeu, talvez com hipnose seja resgatado, mas se foi perdido que fique por lá. Importa o que emergiu, o que está quente, pleno de vida dentro de mim.

Ah, São Paulo! Só um momento, só pequenas lembranças de um ser comum. Quantas outras em seus milhões de habitantes? Outras tantas em viajantes, já distantes. Volto à Caetano para afirmar que o “errante navegante, quem jamais te esqueceria”. São Paulo não é a minha terra. É a maior parte da minha vida!  De tantos outros que, trafegando madrugada adentro por suas ruas e avenidas, se derretem de amor e gratidão, até mesmo pelo emprego perdido por não chegar à tempo por conta de uma enchente.

São Paulo, 09/08/2025. Para meus companheiros de viagem, Patrícia Remondini, André Manzoni e Flávio Monteiro. O título desta crônica refere música d’Os Mutantes (Arnaldo Batista e Rita Lee). Os alhos, ruinzinhos, estavam expostos no supermercado. Não comprei.

A panacota e a perereca

O que ele aprendeu desde muito cedo é que não é fácil entender algumas mulheres. Irmãs, primas, amigas, colegas, cada uma tinha um jeito de ser e, vez em quando, mudanças de humor que ele demorou para compreender. Nunca sabia ao certo o que elas queriam! O certo é que, tímido, buscou “ficar na sua”, como dizem por aí. Essa postura acabou por torná-lo um garoto solitário, adolescente taciturno e fechado. Sem turminha da rua, da escola, do trabalho.

Foi uma vizinha que descobriu o potencial do jovem sempre fechado, mas aberto ao amor e ao sexo, não necessariamente nessa ordem. Distante em reuniões, era após as refeições, ou durante festinhas que Afrânio se entusiasmava com doces e sobremesas. Numa dessas ocasiões, quando já adepto de natação e de longas corridas matinais, as coxas do rapaz chamaram a atenção da vizinha já adulta e fogosa. Entre as pernas grossas do moço havia sugestão de algo a mais e a vizinha, vendo o entusiasmo dele por doces durante um aniversário, se aproximou decidida: “Você gosta de panacota, Afrânio? Tenho uma deliciosa” E piscou apenas com o olhar esquerdo.

Falsa loira de cabeleira farta e seios volumosos, Afrânio não entendeu a busca de intimidade e isolamento contida no convite da vizinha Marlene que, rápida no gatilho, percebeu a virgindade do moço no olhar, no gaguejar e em uma inequívoca ereção quando sentiu o braço dela roçando-lhe as pernas. Ela resolveu insistir: Minha panacota é doce, suave, boa de ser comida va-ga-ro-sa-men-te! Antes da última sílaba piscou novamente o olho, abrindo um sorriso que mesmo o virgem Afrânio entendeu. Marlene marcou a tarde do dia seguinte para que ele experimentasse a iguaria.

Ao voltar desse primeiro encontro, já proprietário da panacota da vizinha, um alegre e viril Afrânio foi procurar em livros, revistas e dicionários o significado de panacota. Devia ser uma novidade no universo do sexo, já que não encontrou o doce entre as múltiplas denominações para a vagina. Ele, de cara, preferiu panacota à xoxota. Sem nenhum texto, nenhuma referência à iguaria que acabara de experimentar, entendeu o motivo de Marlene ter sido enfática ao murmurar em seu ouvido: “Minha panacota é única e você jamais irá esquecê-la”.

Décadas passadas, Afrânio já é homem solitário, divorciado e sem filhos. Mantém-se distante das redes sociais e só busca a internet quando muito necessário. Continua nadando, correndo nos finais de semana e, vez ou outra frequenta um conhecido bar onde, eventualmente, conhece mulheres como ele, dispostas à encontros intensos, mas sem maiores envolvimentos. O amante ideal para interessadas em momentos furtivos. Homens como ele não contam vantagens em grupos de amigos, tornando-se até mesmo indiscretos e, por isso, dispensáveis.

Analista de dados, sempre fechado às voltas com documentos, arquivos, contas, riscos, processos, foi durante um almoço comum de quarta-feira, na fila do caixa do restaurante que Afrânio ouviu uma confidência entre duas moças, uma morena espetacular, dizendo para a amiga: “Hoje vou experimentar minha perereca de dentes!”

Ele percebeu no primeiro minuto a semelhança entre a moça ali, bem perto de si, e Marlene, a antiga vizinha dona da inesquecível panacota. Afrânio sentiu-se novamente menino, sem conter a incômoda e inesperada ereção bem ali, na fila do caixa, imaginando como seria uma perereca de dentes. Consultou o próprio relógio e viu que ainda dava tempo para uma tentativa de aproximação. Pediu licença, se apresentou e convidou as duas para um café ali, agora. “Para que esperar?”. Sua postura evidenciou interesse inequívoco em Tereza. A amiga se foi deixando que os dois se conhecessem.

Afrânio foi direto. Estava diante de uma mulher bonita, interessante e, esperava, livre! Ela confirmou estar só. Ele continuou: Ela era por demais interessante, fizera-o voltar no tempo, nas primeiras paixões e gostaria muito de poder intensificar esse encontro e ir além. Tereza ficou assustada com a pressa, o repentino interesse de um cara que nunca havia visto. Refreou as intenções do homem com firmeza e foi direta ao ponto: “Somos adultos, Afrânio. Vá devagar e diga exatamente o que você quer de mim!” E ele, sem a menor possibilidade de conseguir se conter murmurou, cheio de tesão: “Eu quero a sua perereca de dentes!”.

O café parou para observar a gargalhada imensa da mulher. Quando conseguiu refrear o riso, Tereza desancou com Afrânio: “Já vi muita tara, por aí, meu caro! Como escreveu Caetano, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, mas tudo tem medida!”. O homem sabia que havia feito algo errado. Lembrou-se da infância, da dificuldade em entender algumas mulheres. Queria que ela falasse baixo, que parasse de rir, os presentes no café olhando, rindo e gargalhando ainda mais quando ela elevou a voz: “Porra, meu caro, o que você quer fazer com a minha perereca de dentes?”

Tereza saiu e deixou Afrânio só, enfrentando os olhares dos presentes. O garçom veio com a conta e, voz baixa, com cumplicidade duvidosa informou: “Eu também tenho perereca de dentes. Podemos combinar alguma coisa, se você quiser!” Afrânio deixou o dinheiro sobre a mesa e saiu, direto para o escritório onde poderia engolir a raiva e digerir a frustração. Abriu o computador, entrou na internet à procura de uma perereca dentada. Viu fotos precisas de próteses de resina, meias dentaduras a preços módicos. Desligou o aparelho e ficou sonhando com Marlene, com a doce e suave panacota e amaldiçoando todas as pererecas de dente do planeta.

O porto, não.

Salles Tiné, Óleo sobre tela, 1992

Fosse Minas Gerais a Pasárgada do Bandeira, com todos os rios navegáveis e cheios de gente bonita nas beiras e a gente de Minas teria maiores afinidades com portos. Seriam locais de paradas pra namorar, como ensina o poeta sobre o tal paraíso. Por terras de Minas há rios grandes, como o Grande e não mais Doces, como o Doce, castigado pelo ser humano. Pelas Gerais caminham o Jequitinhonha, o São Francisco. Portos relevantes, não. Esses ficam nas vizinhanças.

Volta e meia vem alguém dizer que Minas não tem mar, como se mineiros não soubessem geografia. Pelas Gerais há rios, estradas reais e plebeias e vontade dos mineiros em ir longe. Muito longe! Nascidos em chapadas costumam ter desejo de ir além de onde elas terminam. Os que têm serras e montanhas pela frente vivem curiosos para saber o que há do outro lado. Os belíssimos horizontes mineiros se constituem em estímulos para que se possa alcançá-los e ir para o novo fim do mundo que se avizinha quando se chega ao fim do mundo. Já os portos… São portos.

Fosse fácil medir e veríamos a imensa carga de sentimentos que flutuam em estações, aeroportos, portos. Obviamente que essa energia – se há energia brotada dos afetos – vive em constante busca de equilíbrio entre os que chegam e os que partem. Alegrias, tristezas, saudade antecipada, ausência finda. A pluralidade de sensações em um porto, penso, são mais duradouras. Um ônibus vira a esquina e aquele que fica já se distrai ao voltar para casa. O trem ligeiro, últimos carros já em velocidade avançada, somem na curva e os aviões, rapidíssimos, levantam voo e somem entre as nuvens. Navios, não.

Os transatlânticos, imensas cidades flutuantes, recebem seus viajantes e, sinal de saída, apitam algumas vezes. Parece não haver um padrão. Tudo indica que, conforme a festa, apita-se uma ou mais vezes. Desatracando, saem muito lentamente, pesados e preguiçosos, percorrendo o estuário até atingir o oceano. E para quem tem a possibilidade e tempo para observá-los, esses navios gigantes demoram um tempão para atravessar o horizonte. Azar de quem, apaixonado, permanece ali olhando enquanto o ser amado vai embora.

Há barcos menores, transportando trabalhadores entre uma ilha e outra, dessas para o continente. Cheios de cotidiano com infinitos pequenos detalhes que diferenciam um dia do outro. Há outros, de pescadores esperançosos de bom trabalho, sem contratempos e tempestades. Saem em horários determinados pelo conhecimento do mar, da maré, das correntezas diferentes em cada tempo, época do ano. E há os imensos navios de carga que, à distância, pareciam objetos fantasmas sem viva alma à vista, não fosse a fumaça de chaminés indicadoras de alguém queimando não sei o que.

Quis o destino que eu, mineiro, viesse a morar próximo de um porto. Dá janela vejo o intenso movimento do porto, e pelo noticiário fico sabendo daquilo que meus olhos não alcançam. O transatlântico com a celebridade da hora, as exportações maiores que as importações e as drogas, muita apreensão de drogas. E a música de Caetano Veloso, inspirada no texto de Fernando Pessoa brinca em meu cérebro:

É imensurável o quanto de vida passa pelo porto. Esse vai e vem extraordinário, constante, que me faz voltar ao tempo de menino, lá em Minas, quando ver um rio era simultaneamente buscar a ponte para atravessá-lo. E se era um monte, achar a trilha para percorrê-lo e ir além. Os rios de Minas me trouxeram até aqui.  O porto é mais um lugar de passagem, que vou descobrindo aos poucos, reconhecendo a movimentação, percebendo os hábitos, desvendando os mistérios. Um local para ir além e, mesmo negando-o – o porto, não – ter a certeza de que o prazer da viagem é ter onde partir e aonde chegar.

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Obs.:

Os Argonautas (1969), de Caetano Veloso foi inspirada nas “Palavras de pórtico” (primeira publicação, 1965), de Fernando Pessoa.

Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira, foi publicado no livro “Libertinagem”, de 1930.

Acontece!

A dimensão de um artista pode ser medida pelo que é percebido pelo ser humano. Quanto maior e mais diversa essa percepção, maior é o artista. Gal Costa deve estar batendo recordes de adjetivos, de maneiras de percebê-la, frutos de uma carreira que a colocou entre maiores da música popular. E é assim, tentando driblar a tristeza, que teço loas para Gal. E, mal esboço esse parágrafo, chega a notícia de outra perda, Rolando Boldrin. Difícil!

Gal falava, raramente a percebi fazendo declarações. Não é sutil. É algo absolutamente claro e distinto da maioria entre artistas pares. Ao invés de colocar-se em um púlpito, palanque ou palco, Gal deixa registrado em vídeos sua fala aos entrevistadores, cheia de simplicidade, plena de clareza e decisão quanto a um modo de ser e estar na vida. Essa fala, com frequência, vinha carregada de alegria e tranquilidade.

Creio não haver dúvidas de que a cantora sabia sobre si própria: quem era, que posição ocupava no panteão das nossas cantoras. É dessa certeza que a percebo tranquila, cantando com quem quer que fosse: Elis, Bethânia, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Tom Jobim… Tranquila e serena, Gal aguardava cada entrada e, chegando o momento, mostrava quem era. Cantando!

Já escrevi em outros momentos que sinto necessidade de referir a obra, verdadeira forma de imortalizar um artista. Difícil optar por canções representativas do repertório de Gal Costa. Vou citar algumas, minha percepção do quanto Gal foi grande. E desencanada!

Eu te amo, do show e álbum Os Mais Doces Bárbaros. Foi quando percebi que aquela voz era única ao subir aos céus finalizando um “serei pra sempre o seu cantor…”

Mãe da Manhã, do disco O sorriso do gato de Alice, Gal fazendo de sua voz “meu amparo, aro de luz na gruta da dor”.

Estrela, estrela, do disco Fantasia foi, por muito tempo, minha preferida da cantora que brilhava “quase sem querer” por certamente ter aprendido a “Deixar, ser o que se é”.

Há muitas canções nessa vida para ouvir e ouvir e ouvir Gal. E minha geração teve a honra e a benção divina em contar com a voz doce e única que, sabendo-se assim, podia viver com segurança e leveza sobre os palcos. Há exemplos marcantes dessa leveza, lá atrás, quando éramos jovens e a menina Gal se apresentava em um programa da TV Record, cantando Trem das Onze. Tranquila e serena, canta com e para a plateia.

Em outro momento, Gal estava em um programa de tv e sobe arquibancadas, na plateia, cantando junto ao público. Ao descer, escorrega e cai. Levanta-se tranquilamente dizendo “Acontece!” e continua cantando, assim como já o tinha feito com um acidente no violão, registrado no Fa-tal. Simples, tranquila e serena, com uma segurança única que a fazia enfrentar milhares de pessoas munida de voz e violão (a lembrança mais forte na Avenida São João, em São Paulo, em memorável Virada Cultural). Sempre a comparei aos grandes artistas americanos com seus shows mega produzidos afirmando que para Gal, bastava só o microfone e o violão.

Deixei para concluir este texto a canção de Cazuza, Brasil, quando Gal revelou um país que sempre teimamos em ver. Esse Brasil que não mostra a sua cara e que esconde facetas, muitas delas constantemente lembradas por Rolando Boldrin. Com seus casos, suas prosas e canções, o ator e cantor Boldrin deixa uma obra em que o país caboclo, caipira, sertanejo está vivo e dentro de nós. Um país onde “a viola fala alto”, em todos nós, e “toda moda é um remédio para meus desenganos”.

Duas duras perdas. Descansem em paz, Gal Costa, Rolando Boldrin!

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As canções citadas neste post estão disponíveis abaixo.

Acontece:

Eu te amo

Mãe da manhã

Estrela, estrela

Brasil

Vide vida marvada

Trem das onze

Elza, para ouvir!

Eu gostaria de morrer em casa, de causas naturais, como Elza Soares. Entre paredes conhecidas, sem a frieza do quarto hospitalar, perto de pessoas da família, com lucidez e visão para identificar quem vier me buscar. Espero merecer tal graça. Quanto à Elza, fui alertado por Flávio Monteiro: “- Merecido. Ela sofreu antes, ao longo da vida, tudo o que tinha que sofrer!” Realmente, não carecia de mais nenhuma dor.

Morte, certeza que costumamos recusar, nos pega de surpresa, nos deixa meio sem rumo. E a gente toca a pensar em quem faleceu. Incomoda um pouco ler tanto sobre Elza Soares sem que citem suas canções, interpretações. Penso que a melhor homenagem é ouvi-la e, por isso, resolvi indicar sugestões de fã.

Gosto de “Boato”, música de João Roberto Kelly, na voz de Elza Soares, gravado em 1960. No final do samba Elza repete o refrão imitando Dalva de Oliveira, Miltinho e Alaíde Costa. Um absurdo potencial de quem fazia o que bem queria com a voz. Tá bom para começar?

Em raros registros – 3 cds – feitos graças ao trabalho de Zuza Homem de Mello, estão gravações de Elza ao vivo, nos anos de 1960. Dois desses momentos no programa Fino da Bossa (Elis Regina e Jair Rodrigues) e um no Corte Rayol Show (Renato Corte Real e Agnaldo Rayol). Quem não ouviu Elza Soares e Elis Regina cantando “Devagar com a louça” (Haroldo Barbosa e Luis Reis) fica nessa mania de “melhor” que citei em post passado. Bobagem! As duas são melhores. Elas cantam como se tivessem ensaiado durante meses, como se formassem dupla com anos de experiência e dão aula de senso rítmico, divisão ímpar. Essa gravação simplesmente precisa ser ouvida:

Na real, voltando por onde poderia ter iniciado, comecei a gostar de samba enredo ouvindo Elza e, na hierarquia dos afetos, minha primeira citação /indicação vai para “Bahia de Todos os Deuses” (Salgueiro, 1969).

“Nega baiana, tabuleiro de quindim

Todo dia ela está na Igreja do Bonfim

Na ladeira tem, tem capoeira…”

Outra referência afetiva é de “Lendas do Abaeté” (Mangueira, 1973) e, inesquecível, “A Festa do Divino” (Mocidade Independente de Padre Miguel, 1974), esse é samba de quando a cantora foi intérprete da Escola na avenida. Atenção, por favor: no quesito samba enredo, Elza Soares sempre manifestando sua predileção pela Mocidade, não deixou de cantar sambas de outras escolas. Música boa é para ser cantada, de preferência, por quem sabe.

Começo dos anos de 1980, no Instituto de Artes da Unesp, Dirce Ceribelli utilizava canções de Caetano Veloso para nos ensinar Jakobson. Entre essas, “Língua”, que o compositor divide interpretação com Elza Soares em momento icônico. E logo depois tive a oportunidade de vê-la, no Centro Cultural Vergueiro. Mulher bonita, gostosa, com pernas colossais, por aqui e ali diziam ser a Tina Turner brasileira. Mania infeliz essa nossa. Tina é ótima, mas Elza não carece de comparações. Foram tempos de mudança, em que Elza, sem deixar o samba, deu ênfase para todo o seu potencial musical.

“Dura na Queda” (Chico Buarque), “A carne” (Marcelo Yuka, Seu Jorge, Wilson Cappellette), “Rio de Janeiro” (Anderson Lugão), “Flores Horizontais” (Zé Miguel Wisnik, Oswald de Andrade)… eleger uma canção é difícil, pois cada uma dessas vai além do universo musical. Elza, definitivamente, assumia seu lugar como voz de um povo, de uma raça, de um gênero, características que acabaram levando-a para o plural, tornando-se cantora de povos, raças, gêneros.

“Flores horizontais

Flores da vida

Flores brancas de papel

Da vida rubra de bordel…”

Quero concluir essas breves indicações do repertório de Elza sugerindo audição de outros duetos além de Língua (todo mundo, me parece, quis cantar com ela). Chico Buarque (Façamos – Cole Porter, versão de Carlos Rennó), Letícia Sabatella (A Cigarra – Elza e Letícia), Luiz Melodia (Fadas – Luiz Melodia) … Mas, entre tantas parcerias, volto no tempo, lá para os anos de 1960 para indicar um trio: Elza, Elis e Jair cantando “Se acaso você chegasse” (F.Martins, Lupicínio de Oliveira), na mesma coletânea citada acima. É ouvir os três e lamentar imensas perdas, três figuras máximas da nossa música.

Certamente deixei alguma grande interpretação. Fatal deixar de lado vários, entre tantos momentos intensos de puro talento de Elza Soares. Espero que este texto estimule a ouvir e ir bem mais além. A cantora está na nossa música e sua história – vasta e forte – permanecerá.

Ave, Elza Soares!

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Nota: Todas as canções estão nas plataformas digitais.-

Muitas Chiquinhas para o Brasil!

Chiquinha Gonzaga, com 29 anos (divulgação)

Começar 2022, buscar novas possibilidades, trilhar outros caminhos, abrir alas… “Ó, abre alas que eu quero passar”. A ideia comum do ano enquanto criança entrando mundo afora, um planetinha danado de complicado para qualquer adulto e o 2022, engatinhando, carece de enfrentar presságios, previsões, profecias. A maioria dessas é um papo de otário, disse Caetano Veloso… “Ó, abre alas que eu quero passar”!

Da marchinha e do réveillon divaguei para a autora, Chiquinha Gonzaga, que conheci primeiramente via teatro, com Regina Braga fazendo a própria. Compositora, pianista, maestrina, Chiquinha Gonzaga foi uma mulher porreta e, certamente, sofreu muito por conta do caminho que resolveu traçar. Atualíssima, essa Chiquinha.

Vamos brincar de faz de conta e transitar com Francisca Hedwiges de Lima Neves Gonzaga por esse 2022. O nome é pomposo e digno de dicionário. Ops! No Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, Dona Francisca encontraria motivos para uma boa luta. A publicação informa que ela é “filha da mulata e mãe solteira Rosa Maria de Lima”. Como assim, “mulata”, “mãe solteira”? Tome tento, Sr. Cravo Albin!

O pai reconheceu a filha, colocou a menina para estudar piano e a obrigou a se casar aos 16 anos com um sujeito mais velho… Quantas mulheres ainda nessas condições, casando-se por decisão da família? Quando a jovem Chiquinha deu fim no casório foi deserdada, impedida de ver os filhos menores, dada como morta para esses e, mais, foi proibida de ver a própria mãe.

Chiquinha passou a dar aulas de música. Professoras, sabemos bem, carecem de trabalhar muito para garantir sobrevivência. Atenção, estamos falando do século XIX! Um bom número delas arranjam outras formas de ampliar ganhos. E foi assim que o teatro entrou na vida da compositora, que já tocava em bailes e festas.

Teresa Cristina, em suas lives, a cantora diz sempre do machismo nas escolas de samba, dificultando a vida de compositoras. Chiquinha, que chegou a comprar a alforria de um escravizado, lutando bravamente pela abolição da escravatura e pelo advento da República, estaria liderando alguma boa luta por aqui. Mais outra batalha, dessa vez por direitos trabalhistas: foi uma das fundadoras da SBAT, a Sociedade Brasileira dos Autores Teatrais.

Chiquinha Gonzaga com 78 anos

Dos fatos mais interessantes sobre Chiquinha Gonzaga é sua busca pelo amor. Provavelmente também pelo prazer (não me venham apenas com o amorzinho romântico do tipo Augusto e Carolina, casal do “A Moreninha”). Ainda hoje metem bronca em mulheres que assumem relacionamentos com homens mais novos. Imaginem Dona Chiquinha, com 52 anos, apaixonada por um gajo de 16? Foram felizes! O rapaz permaneceu ao lado da compositora até quando, aos 87 anos, ela faleceu.

Bom pensar em Chiquinha Gonzaga como personagem para começar um novo ano. Libertária, sem preconceitos, engajada, emponderada, politizada, uma artista na melhor acepção da palavra.

Entre as primeiras notícias de 2022, li sobre um feminicídio em São Vicente (mais um!) e sobre um tal “quaquá” (Imbecil!) dizendo ser Dilma Rousseff irrelevante na política brasileira. O Brasil não mudou quase nada e, por isso, precisamos de milhares, milhões de Chiquinhas para melhorar o ano, o país, a vida, os homens.

Salve, Chiquinha Gonzaga!

Fonte das imagens: https://chiquinhagonzaga.com/wp/

Para Uberaba, aqui de longe

Sei que ainda vou voltar… onde hei de ouvi cantar uma sabiá (Chico Buarque, Tom Jobim)

Um ano sem ir a Uberaba (maldita pandemia!). Toca a viver de lembranças…

E eu sinto uma saudade insana da estrada, da sensação de voltar, chegar na cidade onde nasci.

As primeiras saídas, tentativas de mudança foram confusas. Era um querer vir, não querendo, diria a personagem popular. Era comum viajar chorando, o rosto escondido, olhando a noite pela janela do ônibus. A juventude garantia ânimo e força para voltar na semana seguinte. Era o ir e vir constante, gerando sextas-feiras de ansiedade, segundas-feiras de cansaço.

São Paulo e a vida, aos poucos, exigindo outras posturas. E de uma vez por semana, passei a visitar a cidade uma vez por mês. Não contabilizei o tempo. Mas o trabalho foi exigindo e, aos poucos, a vida mudando… Uberaba passou a tomar todos os feriados.

Tempo, tempo, tempo… E chegou o período de ir só nas férias, em aniversários especiais, visitas a doentes. Nunca mais que quatro meses sem visitar a cidade. Não pensava, nunca cogitei de ficar distante um ano inteirinho.

201 anos! O ano que não vi. Um ano!

Ano passado era pra ter sido uma festa enorme, a gente comemorando o bicentenário da cidade com lançamento do Uberaba 200 anos – No Coração do Brasil, “Euzinho” lá, entre os poetas da cidade no livro organizado por Martha Zednik de Casanova.

Foi o que tinha de ser.

Hoje acordei após sonhos. Nesses, estava lá, como em muitos outros. Esta quarentena infinda não manda nos meus sonhos. E o bom de sonhar é que o tempo não conta. Vejo meu quintal como há muito não é mais, com goiabeira, laranjeira, mamoeiro, jabuticabeira… Sonho com o quarto que dividi com meu irmão e que, após ele se mudar para Brasília, pintei todos os móveis de preto, para desalento da família (Eu era dark e não sabia!). Sonhos… Minha cidade dentro dos meus sonhos.

Uberaba! Tá na hora de pedir versos emprestados a Caetano Veloso:

“por mais distante, o errante navegante, quem jamais te esqueceria…”

A pandemia ainda está aqui, aí, em todo o Brasil. O que deveria ser festa pede apreensão, cuidado dobrado. Recebo notícias de minhas irmãs, trancadas sem que sejam Carmelitas, Concepcionistas. Não vão ao Carmelo, à Medalha Milagrosa. Não vão a lugar nenhum. E, daqui, reitero: Não saiam! Tomem cuidado! A vacina taí!

“por mais distante, o errante navegante, quem jamais te esqueceria…”

Por mais que vivamos tempos sombrios, ninguém vai nos tirar os sonhos, os desejos. Por isso lá vai meu desejo maior neste 02 de março:

Feliz aniversário, Uberaba! Que todos tenham saúde!

Que todos os doentes se curem! Que todos sejam vacinados.

Que possamos estar juntos novamente, presencialmente!

Feliz aniversário, Uberaba!