Outubro e o que resta do que um dia fomos

acólito

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
(Fernando Pessoa in A criança que fui chora na estrada.)

O que é que ainda permanece desse menino? Foi a pergunta que ouvi enquanto mexia com minhas fotos de quando criança. Sobrou alguma coisa? E dei de pensar olhando algumas imagens, as personagens que nelas estão comigo, os momentos em que foram registradas. Todos nós, inevitável, passamos por grandes mudanças, mas o que se espera, ou o que me parece, o que gostaríamos é que tenha permanecido o que tivemos de melhor.

A princípio, penso, temos a sensação de que somos sempre os mesmos. Essa abstração que nos autodenomina, o Eu, não tem idade e por isso entramos em crise quando um olhar atento ao espelho nos revela uma ruga, a pele perdendo o viço, mais alguns fios de cabelos brancos, o corpo ficando em forma… de bola. E ficamos mais chocados quando é o outro que nos faz conscientes de que já não somos os mesmos: – Você mudou muito! Quanto tempo!

A rede social nos acostumou, nos últimos anos, a nos revermos crianças, expondo antigas fotos na web. Graças à isso descobrimos a suavidade que já existiu em alguns, o sorriso espontâneo de outros, a ingenuidade evidente que pouco se alterou, a pureza tão ilimitada quanto perdida e, sobretudo, vejo que em todas as fotos de velhas crianças desse mês de outubro transbordam sentimentos de esperança, sonhos de vir a ser e estar em um mundo digno.

Ah, eu gostaria de não ter algumas dúvidas que volta e meia me atormentam. Eu acreditava em Deus, sem questionar. Havia o pai no céu que minha mãe da terra me deu. E tinha também a mãe do céu, que a mesma mãe da terra me ensinou a amar e a confiar. O mundo de então, era mais preciso; havia pessoas más e pessoas boas. As más estavam longe, bem longe, e os entreveros familiares eram simples e corriqueiros distúrbios logo serenados. Sonhava mais acordado do que dormindo e para esses sonhos Pasárgada e Shangri-la perdiam feio. Tudo era possível, tudo aconteceria no seu devido tempo. Hoje… sobram incertezas.

O quinto de seis irmãos, cresci em um ambiente sempre cheio de gente, de vozes conversando, música no rádio, jogo na televisão. Na hora de dormir tinha medo por ser, talvez, a única hora em que ficava sozinho. Mamãe rezava seu terço diário a meu lado, dizendo-me rezar para eu dormir. Confiante, eu dormia e acordava no dia seguinte, tranquilo ante o barulho da casa. Não gosto de solidão e vou sentir sempre a falta de todos os que povoaram minha casa de infância.

A excitação antes de qualquer viagem permanece. Seja para o lugar novo, seja para mais uma entre as centenas de voltas à Uberaba. Quando a viagem não é física, continua sendo literária o que me leva a crer que não mudou o amor a Salvador d’Os Capitães da Areia, a Londres de Oliver Twist, o porto do Havre d’O diário de Dany. Outras viagens, cinematográficas, levam-me para mundos distantes, outros imaginários, em companhias que prezo e que fico feliz em rever, por exemplo como se dançasse na chuva com Gene Kelly, ou lutasse ao lado do Cid Campeador de Charlton Heston.

Penso que algumas lembranças dessa criança com o castiçal possam suscitar outras, de quem me dá a honra de ler este texto. Esse santinho da foto levava cascudos do Pe. Luigi Stella, por conversar durante a missa e aprendeu a gostar de música erudita, assim como de imagens barrocas e renascentistas com outro padre, Nicola Rudge. Por mais que eu possa caminhar e vivenciar outras religiões é essa, a primeira, que somo a todas as demais. Um terceiro padre, Líbero Zappone, ensinou-me a respeitar todas as manifestações, levando-me muito cedo a ver Deus em todos os tipos de crença.

Essa criança aí da foto ainda está por aqui. Guardada em diferentes escaninhos do cérebro, do coração. Reconheço-a quando brinco com meus amigos, na convivência com meus irmãos que às vezes dirigem-se a mim como o caçula que fui. Reencontro o menino quando cuido das plantas que, lá atrás, cresciam soltas no quintal. Convivo diariamente com o gosto por andar de trem, sentindo um prazer indescritível com o som de quando os vagões mudam de trilhos e voltarei sempre à Santos, pra rever e andar de bonde, como aquele menino feliz que transitava nos bondes de Campinas, lamentando a ausência desses em Uberaba.

O que é que ainda tem desse menino? Foi a pergunta… Quase tudo. Quase nada. As coisas foram se modificando, as pessoas tornaram-se outras mantendo algo que faz com que as veja como sempre vi, reconhecendo nelas os infinitos detalhes que nos ligam. Esse menino aí fui eu. Um dia. Hoje sigo em frente. Dou graças à Deus pelo esquecimento, por me permitir viver sem a tortura das más recordações, sem a dimensão de todas as perdas, como também por caminhar tranquilo sem o afogamento pelos momentos de êxtase, de felicidade. Agradeço por ser outro, ter experimentado, ter sobrevivido e sobretudo, por estar modificado o que, espero, tenha sido para me tornar um ser humano decente.

Até mais!

Obs.: A foto acima é do final de uma procissão na Igreja Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, em Uberaba, por volta de 1965.

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Aprendiz de narrador

Sempre sonhei escrever, tornar-me escritor. Guardo alguns textos que escrevi quando bem jovem. Resolvi compartilhar parte de um, abaixo, escrito em 02/07/1973 quando morava com meus avós, em Campinas, no interior de São Paulo. Os originais estão bem conservados e, assim mesmo, não resisti a pequenas alterações, um vício em tentar melhorar.

PARA COMPOSIÇÃO

O MORTO

Aqui em frente à casa dos meus avós, do outro lado da rua, existem duas linhas paralelas. Sobre elas passam diariamente vários trens; é a linha da Fepasa. São grandes composições de cargas ou passageiros. São mercadorias levadas para o interior, ou matéria-prima vindas para a industrialização. Às vezes, quando sentado sobre o gramado do pequeno jardim, ou da janela do meu quarto, observo as máquinas possantes, puxando enormes vagões. Fico imaginando o destino reservado a cada pessoa, a cada mercadoria.

Quando essa rotina do vai-e-vem é quebrada nunca é por coisa boa. Os trens não se atrasam por esperar pessoas; é sempre por ter havido algum desastre. Um descarrilhamento ou uma catástrofe maior ainda. Nunca havia pensado na possibilidade de acontecer algo aqui em frente, mas aconteceu.

Na última sexta-feira, de manhã, fui acordado por um estrondoso barulho provocado por uma enorme composição de carga, puxada por três locomotivas. Fiquei chateado com a perturbação feita pelo som estridente de freios e fui ver o que estava acontecendo. O maquinista e o foguista, assim chamado devido à antiga função de abastecer as antigas Marias-fumaça, haviam descido e olhavam tudo à procura de algo. Em poucos instantes surgiu um grupo de pessoas, tão curiosas quanto eu, desejosas de saber o que é que estava acontecendo.

“- Eu tenho certeza”, dizia o maquinista. “Havia um homem entre os trilhos. Foi atropelado”. Pelas laterais não havia sinais de nenhum corpo, mas logo foi dado o alarme: “- Está aqui! Sob as rodas do primeiro vagão”.

Senti náuseas ao constatar o estado em que um homem se encontrava, todo cortado e quebrado. Seus miolos estavam esparramados, suas pernas, cabeça, braços, todos cortados e encontrados ao longo das rodas do vagão. O tronco havia sido aberto, todo o aparelho digestivo à mostra. Os órgãos sexuais também estraçalhados, um espetáculo sinistro. As roupas rasgadas e tiradas do corpo, estavam presas nas ferragens e o infeliz permaneceu nu, exposto ao olhar de curiosos.  Foram longas três horas de um show triste.

Primeiro veio a polícia, depois a perícia; o corpo de bombeiros e em seguida, para encerrar o desfile das corporações municipais, a perua de uma empresa funerária. Os homens colocaram luvas para recolher o que restava de um corpo ainda jovem. Os restos mortais foram depositados em uma caixa ordinária, de madeira bem vagabunda, provisória, até que algum parente fosse notificado e tomasse as medidas necessárias.

Os funcionários e as autoridades retiraram-se tranquilamente. O trem saiu lentamente e sobrou especulações. Um acidente? Bem próximo havia uma trilha, conduzindo ao outro bairro, do outro lado. Foi suicídio? Uma senhora afirmava que sim…

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(Na minha imaturidade prossegui, julgando o ato do infeliz, sem mesmo ter a certeza do que realmente causou o atropelamento. Conclui meu texto pensando em fé, caridade e dirigindo uma oração ao morto, o que repito hoje, 46 anos depois. Para registrar, a rua citada é a Ari Barroso, esquina com a Rua Antônio Bonavita, no bairro Taquaral. A imagem acima é do Google, de como a rua está hoje, sem as linhas da estrada de ferro).

Até mais!

A Aurora da Minha Vida

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Foi há tanto tempo! Aurora era uma matriarca grave, ciente de sua condição de condutora familiar. Esbanjava força, ternura e, sendo mulher, tinha lá suas artimanhas cotidianas.

Na aurora da minha vida, quando minha mãe, Laura, visitava constantemente a tia e madrinha, era no colo de Aurora que ouvi as primeiras radionovelas. Dessas não me recordo. Sei que o colo era bom e, para permanecer sob tal aconchego eu permanecia silencioso até adormecer, sendo levado de volta pra casa nos braços de minha mãe.

Um dia veio a sentença. Aurora, com seriedade e forte sotaque português anunciou: “- Cido, se não deixares esta chupeta não sentarás mais no meu colo!”. Apenas ela e mamãe chamaram-me assim: – Cido!

Na manhã seguinte, antes mesmo de tomar o café, ou comer qualquer coisa, o Cido saiu da cama direto para o quintal. Abriu uma pequena cova e enterrou a chupeta sob olhares preocupados e uma segunda sentença da mãe: “- Se você chorar por conta da chupeta, vai apanhar!” Não apanhei.

Ainda era pequeno, ainda não estava na escola quando fizemos uma viagem; Mamãe, Tia Aurora e eu. O trem da Mogiana levava doze horas de Uberaba a Campinas. O dinheiro não sobrava e era comum levar lanche para substituir refeições. Não me recordo da contribuição de minha mãe para o lanche coletivo. Entre vários tipos de sanduiches e bolos, a Tia Aurora levou pão com ovo frito, que eu abominava sem nunca ter comido. A Tia, firme e terna, colocou-me a seu lado dizendo à minha mãe: “- Está gostoso! Comigo ele vai comer”. Comi e esta é minha primeira lembrança quanto ao paladar. Estava muito gostoso.

Enquanto Tia Aurora residiu em Uberaba fiz visitas constantes. Ia todas as tardes e ficava lá, no meu canto, enquanto ela cuidava de seus afazeres. Depois mudou-se para Campinas, no interior de São Paulo, e aos vinte e poucos anos fui hóspede dela.

Tia Aurora gostava de contar histórias, de lembrar fatos. Eu gostava de ouvi-la. Ela cuidava de mim com desvelo e atenção incomuns. Trabalhando em uma companhia aérea eu cumpria um rodízio insano, raramente permanecendo mais que três dias no mesmo horário. Colava a tabela com os horários ao lado da cabeceira da cama e não sei quantas vezes despertei com a tia olhando atentamente, sem saber ler, quando deveria preparar minha refeição, invariavelmente acordando-me para não perder o café. Aos sábados, quando eu trabalhava durante a madrugada, ela não permitia barulhos em casa, para desespero dos primos que queriam ouvir música ou fazer faxina: “-O Cido está dormindo!”.

Ela voltou para Uberaba; eu me mudei para São Paulo. Foi morar com a filha caçula, Dulce, e quando esta anunciava minha chegada a Minas, Tia Aurora acordava cedo, arrumava-se e, toda bonita, ficava me esperando. Foram nossos últimos encontros neste plano. Desde então ela me visita em sonhos. E foi em um desses, há muito tempo, quando pensei em morrer que ela me apareceu, jovem como nunca a vi, com seu jeito grave e terno, sentenciando mais uma vez: “- Cido, ainda não é a sua hora.” E conduziu-me por um corredor imenso, onde se ouvia uma bela canção.

Hoje vivo tranquilo, carregando saudades da Aurora e da aurora da minha vida. Gosto de viver e procuro conviver serenamente com o ocaso; o fim que, espero, seja passagem. É esta fé que me garante momentos amenos para quando chegar minha hora pois, dizem, espíritos de luz e guias amigos vêm para nos conduzir durante a travessia. Entre esses, tenho certeza, estará Tia Aurora, sentenciando-me como sempre: “-Dê-me sua mão, Cido! Vamos para casa”.

Até mais.

 

 

Nota: A Aurora da minha vida é Aurora Domingues Feiteiro. A outra aurora é verso do poema “Meus oito anos” de Casimiro de Abreu.

 

Eu, esse mesmo eu que já foi criança

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O ciclo que permanecerá

Tenho sonhado muito com meus pais, meus avós, tios, meu irmão e outros parentes que já não estão neste plano. Também sonho com outros que continuam por aqui comigo, principalmente minhas irmãs. Sensação é a de que a família diminuiu, embora seja provável que tenha aumentado bastante. Na medida em que o tempo passa vou me sentindo mais isolado e, com isso, tenho percebido que as ondas familiares são formadas na relação de irmãos.

Minha avó, Maria, tinha como irmãs as queridas tias Aurora, Amélia, Palmira e os tios Antônio e Manuel. Todos casados e com filhos, os nossos primos. Bem verdade que vovó e seus irmãos tinham primos e tios, além dos nossos bisavós; mas, o ciclo do qual tenho maiores lembranças é desse, ligado diretamente à minha mãe. Eu, no meio desse povo todo, era o caçula da Laura. Entre os tios minha preferência era por Tia Aurora. Uma ligação filial, carinhosa, que permanece mesmo após o falecimento dela, já que ela aparece sempre em meus sonhos.

As irmãs de Laura, minha mãe, foram Olinda e Isaura. Albino e José os irmãos. Esses dois não tiveram filhos e tia Isaura teve uma filha já na maturidade. Tia Olinda teve cinco filhos, meus primo-irmãos. Os outros primos, aos montes, são frutos dos primos de minha mãe. Aqui entra a geografia, colaborando em proximidades e distanciamentos. Uberaba, São Joaquim da Barra, Ribeirão Preto, Orlândia, Campinas… lugares onde estavam todos os parentes. Para todos eles eu permaneci menino, o filho menor da Laura, que só reapareceu com o advento da internet, o Orkut, o Facebook.

Tanta gente querida! Tento resgatar as risadas gostosas das tias Amélia e Palmira, a delicadeza e o carinho da tia Aurora, o jeito brincalhão do tio Manoel contrapondo com a formalidade do Tio Antônio. Vejo-me criança observando a todos, ouvindo todo mundo. Raramente falando, pois naquela época criança entrava pouco em assunto de gente grande. Com os outros tios, irmãos de minha mãe, já foi diferente. Tia Olinda, por exemplo, tratava-nos, antes de qualquer laço, como amigos. Trocava impressões, confiava sentimentos. Tio Nino, o Albino, brincava feito moleque com meus irmãos. Minha primeira recordação dele é de estar em seu colo enquanto ele pulava corda.

O outro lado, da família de papai, ficou mais distante; lá pelos serrados de Minas e Goiás. Mesmo mantendo relações afetivas, nunca fomos próximos. A família, vejo agora, fechava-se nos laços estabelecidos pelas mulheres. Gravitávamos nas famílias das tias, muito mais do que nas famílias dos tios, maridos delas.

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Eu, a criança com cabelo claro entre meus avós.

Tempo, tempo, tempo… muita gente crescendo e tomando seu rumo. Os mais velhos indo embora de vez, permanecendo em fotos, em lembranças e sonhos. Cada ramo da nossa imensa família foi criando outros ramos, novos laços, outras famílias. Recentemente reencontrei Maria, a filha mais velha da Tia Amélia. A emoção maior foi rever nela o semblante de minha avó e, pelo que sei, ela viu em mim os traços de minha mãe. A afeição é imediatamente restabelecida. Somos família! E assim somos, mesmo que os encontros sejam raros e, mais frequentemente virtuais. – Modernidade! criticariam os mais velhos.

Com meus irmãos sinto o continuar desse eterno ciclo familiar. Vou chegando na outra ponta, a dos mais velhos, olhando para alguns sobrinhos-neto como um dia me olharam. São crianças, filhos dos meus sobrinhos, distanciando-se na ausência da convivência. Essa mesma convivência que, embora truncada, é o que faz com que a família formada por minha mãe permaneça como tal. Fico feliz vendo as relações entre meus sobrinhos, irmãos que prosseguem dando sentido a esse mundo.

Entre o eu que fui para todos os que já se foram, o eu que vive entre os vivos e o eu, quase desconhecido para os mais novos está um eu “universal”, aquele pelo qual me denomino, que pode ser o menino conduzido pelo avô no passeio vespertino, ou o filho caçula cuidado pelo pai, acariciado pela mãe. O mesmo eu que recebeu proteção da tia avó e dos irmãos mais velhos, que teve primos como companheiros e primeiros grandes amigos.

Gosto dos meus cabelos brancos, tão brancos quanto foram os cabelos de meu avô e da Tia Aurora. Gosto de sorrir com a mesma calma que a Tia Olinda e adoro contar histórias, herança de todos os tios que me antecederam. E no meio de tudo isso, entre todas as lembranças que emergem a cada palavra que escrevo, vejo-me menino, entre essa gente toda, tornando a ser criança agora, quando percebo nada saber e pouco entender dessa vida que, volta e meia, completa-se nos sonhos onde caminho novamente com todos aqueles que me auxiliaram nos primeiros passos.

Feliz dia das crianças para todos!

Até mais!

Presépios, para um Natal feliz

 

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Ronaldo, Inimar, Marquito são os anjos. Anivaldo e Terezinha, os pais. Daniel, o menino Jesus.

Neste, como em muitos anos repete-se o ritual. O natal se torna visível nas diversas manifestações imateriais como folias, cantatas, missas ou através de elementos materiais: guirlandas,  árvores, ou um presépio… Eu gosto de presépio tanto quanto gosto de quem o criou, São Francisco de Assis; o Santo queria representar as condições do nascimento do menino Jesus.

O presépio mais encantador da minha infância foi, sem dúvida, um que foi construído pelo “Senhor Fumaça”, um artesão de mão cheia que, durante o dia, trabalhando em uma cerâmica, lá mesmo, aproveitando-se de sobras de materiais e do forno local, criou toda uma representação de Belém.  A sala na casa de D. Castorina era toda ocupada pelo presépio criado pelo marido (Essa casa, antes ocupada por meus pais, foi onde nasci!).

Presépio bem tradicional, aquele era composto por imensa gruta e, dentro desta, cabanas, palacetes, casas de diferentes tipos, todas em cerâmica. Estrelas, luzes coloridas. Animais domésticos, selvagens. Grupos de viajantes, caravanas e, entre essas, aquela que conduzia os magos para visitar o Salvador prometido. Das pequenas traquitanas criadas pelo “Senhor Fumaça” é nítida a lembrança de um monjolo que, abastecido por pingos de água exercia sua função de moagem de grãos. Crianças, entre uma brincadeira e outra, corríamos céleres em intervalos de tempo precisos para ver o objeto em movimento.

Jovem, atuante na mesma paróquia do Bairro Boa Vista, e já envolvido com teatro, chegou a minha vez de conduzir uma representação; um presépio vivo de lembrança muito especial. Na foto acima meu irmão caçula, Daniel, com cerca de nove meses de vida, foi o menino Jesus sobre a manjedoura. José e Maria (Anivaldo e Terezinha) cuidam da criança, protegidos por três jovens anjos (Ronaldo, Inimar e Marquito).  Nada de excepcional, exceto a lembrança de um momento nosso; feito com seriedade, reverência e, certamente, fé.

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Não sei há quanto tempo monto o presépio em minha casa. Gosto de realizar pequenas mudanças, alterar a composição da montagem e assim, em cada ano, fica diferente e sempre igual. Meu presépio tem, fundamentalmente, a função de me conduzir aos primeiros natais com minha família, ou na casa da Tia Olinda, em Ribeirão Preto, ou ainda na casa de meus avós, em Campinas. Ato familiar, as comemorações de natal reforçam minha fé no novo, naquilo que devo percorrer mesmo com perdas dolorosas pelo caminho. Meu lastro são as lembranças, reforçadas e reconstruídas em cada dezembro.

Feliz Natal pra todos!

Mulheres fortes e determinadas

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D. Laura: pequenas ações que levaram outras mulheres para batalhas maiores

Sou parte de um grupo formado por homens que têm a própria mãe como parâmetro perante todas as outras mulheres. Em múltiplas situações penso quais seriam as consequências na vida de D. Laura, a minha mãe… Melhor que um perfil, há as histórias que nunca serão esquecidas.

Houve época em que era difícil viver no bairro Boa Vista, em Uberaba. A Avenida Elias Cruvinel, antigo corredor de boiadeiros, era também saída da cidade para Belo Horizonte.  Forasteiros, aventureiros e retirantes, além de mendigos e malfeitores estavam entre os que passavam por lá. A polícia aparecia em casos extremos.

Papai Bino ensinou mamãe a atirar. Simples assim. Uma lata plantada no meio do quintal e meus pais brincando de tiro ao alvo mandando que eu, bem criança, ficasse longe. Como desobedecer? Não vou saber a marca, o modelo; todavia, era uma arma capaz de dar dez tiros seguidos. Não demorou para que mamãe usasse tal aprendizado em defesa de nós, seus filhos.

Papai viajando. Durante o dia, brincando no quintal, quebramos o vidro da janela da copa e, até a volta de meu pai foi colocado um pedaço de folha de zinco, presa com um arame, fechando o buraco deixado pelo vidro quebrado. Não deu outra! Tarde da noite, mamãe e minhas irmãs foram acordadas por barulho de um possível assaltante tentando tirar a folha de zinco e, consequentemente, buscando invadir nossa casa.

Mamãe apontava a arma bem em frente à folha de zinco, ameaçando estourar a cara do intruso. Tensão total. Do outro lado, o sujeito mostrava dificuldade em tirar a proteção da janela. Para evitar um tiro no rosto do indivíduo mamãe foi até a janela da sala ao lado e, abrindo-a parcialmente atirou uma, duas, três vezes! Do outro lado ouviu-se a voz de um vizinho que, alcoólatra, devia pensar estar na própria casa. Saiu dizendo “-Não sou ladrão, não atirem!” e, resultado positivo, consta que o sujeito nunca mais bebeu.

Outra história. Volta das férias na casa dos avós, em Campinas. Mamãe com todos nós mais a irmã, nossa Tia Olinda, com os filhos. Duas mulheres e nove crianças viajando de trem, na extinta Companhia Mogiana. Em Ribeirão Preto, destino da tia e primos, despedida acalorada, foi o momento para que dois gatunos roubassem a carteira de minha mãe. Um passou e abriu a bolsa, o segundo tirou a carteira. Avisada a tempo, minha mãe partiu para cima dos dois assaltantes que, impedidos de sair por passageiros que entravam no vagão, foram retidos por mamãe exigindo e conseguindo a devolução do que nos pertencia.

Mamãe; uma mulher forte e corajosa.  Enfrentou batalhas maiores, cotidianas, para educar os filhos; trabalhou incessantemente para que os mesmos tivessem a possibilidade de frequentar boas escolas e fossem além da alfabetização, completando a formação escolar. Ela veio de um mundo onde às mulheres cabia obedecer, seguir o que era determinado por pais, maridos. Foi na contramão e impôs perante meu pai o desejo de que fossemos para o colégio. Mamãe batalhou bastante. Em alguns momentos a saúde faltou, mas logo depois ela já estava na labuta. O que somos hoje devemos à determinação de minha mãe.

Foram pequenas ações de mulheres lutando por sonhos e ideais que levaram outras mulheres a espaços mais amplos, para batalhas infinitamente maiores. Telma de Souza, Benedita da Silva, Luisa Erundina e, entre várias outras, Dilma Rousseff são exemplos de mulheres fortes e determinadas, lutando em arenas tradicionalmente masculinas. Além das lutas pelas propostas que as levaram à política percebe-se, frequentemente, a batalha maior perante uma sociedade machista. E elas seguem em frente.

Este texto não é político. É humano. Minha admiração por essas mulheres cresce a cada vez que as percebo enfrentando com dignidade e galhardia as atitudes machistas dentro e fora da arena política. Recordo as lutas cotidianas de minha mãe e de outras mulheres com as quais convivi. Lutas pequenas se comparadas às batalhas contra os desvarios interesseiros de políticos corruptos. Todavia, certamente como com minha mãe, as primeiras lutas dessas mulheres ocorreram dentro de casa, enfrentando pais, irmãos homens, maridos. Revejo o brilho do olhar de minha mãe no olhar dessas grandes mulheres; ouço palavras e constato a determinação de ferro.

Profundo respeito e gratidão eterna; o mínimo diante de gente assim. Para elas desejo momentos de puro carinho. Momentos, porque não terão trégua. Momentos, pois é certo que elas logo continuarão a lutar.

Feliz dia das mães!

Até mais.

 

Pequeno Memorial Para o Tio Zé

O Tio Zezinho em dois momentos.
O Tio Zezinho em dois momentos.

Foi com meu Tio Zé que descobri a resposta para algumas adivinhas: “- O que é o que é: uma casa amarela, sem porta, sem janela, com uma porção de negrinhos (não se usava outra expressão na minha infância) dentro dela? ” Outra adivinha: “ – Tem bico e não belisca, asa e não voa…”. Passávamos horas juntos e ele, enxergando muito pouco, usava principalmente a fala para se comunicar com o mundo. Nessa época Tio Zé tinha sonhos e nesses, com certeza, o de ter seu trabalho, casar, ter filhos, constituir a própria família.

Nosso tio Zé (Jose dos Santos Vinagreiro Filho) não teve uma trajetória fácil neste planeta. Aos seis meses de idade perdeu quase toda a visão e, já homem feito, ficou totalmente cego. Viveu 78 anos e destes, 43, doente; mais recentemente praticamente imóvel sobre uma cama. Faleceu na quarta-feira e foi velado pela minha mãe e pelas minhas irmãs, cunhados, sobrinhos e amigos que o amaram sempre.

Foi em Uberaba que Tio Zé experimentou a liberdade de ir e vir, a autonomia em escolher amigos, a possibilidade de namorar, ter escolhas além do círculo familiar. Mamãe conseguiu colocá-lo no Instituto de Cegos do Brasil Central, que funcionava na Rua Marquês do Paraná. Na instituição ele fez muitos amigos e descobriu que a cegueira não o impediria de trabalhar e seguir em frente; aprendeu braile e trabalhou, no próprio Instituto, recolhendo de inúmeros associados, de toda a Uberaba, taxas que contribuíam para a manutenção do local. Tio Zé, que na época tinha cerca de vinte por cento da visão, aprendeu junto com um guia a conhecer quase todas as ruas de Uberaba.

Eram outros tempos… Tio Zé entrou no Instituto de cegos por insistência de minha mãe, já que meu avô não acreditava na possibilidade de autonomia do filho primogênito. Mamãe trouxe o irmão para Uberaba e em pouco tempo os resultados foram evidentes. O jovem aprendeu a ler rapidamente, dominou os rudimentos da matemática e, com certo orgulho, Tio Zé pedia o nome de uma rua qualquer e desfiava todas as travessas, do começo ao fim daquela. A convivência com os amigos trouxe também o cigarro, uma cachacinha de ocasião e possíveis namoradas. Aprendeu a amar Uberaba e, com certeza, foi uma das grandes tristezas de sua vida ter sido tirado do Instituto por meu avô, quando este já aposentado, após pouquíssimo tempo residindo em Uberaba, resolveu morar em outra cidade.

Campinas, grande demais se comparada com Uberaba, só fez aumentar em meu avô o receio de liberar o filho para o mundo. Um triste engano que resultou em frustração, revolta culminando na doença que não o deixou nesta vida. Meus avós voltaram para Uberaba, tarde demais para o tio Zé, que teve, todavia, a felicidade de voltar a viver na cidade amada.

O falante tio foi calando-se com o tempo. Deixou os casos, parou de cantar as músicas preferidas e ultimamente só trocava frases maiores com seus cuidadores. Entre esses, quero registrar a atenção carinhosa do Paulo Teixeira, o fisioterapeuta que batalhou para que o Zé mantivesse os movimentos mínimos; um sincero e especial agradecimento ao Sebastião Ferreira Filho, o nosso Tião, enfermeiro dedicado de todos os dias, anos inteiros, brincando enquanto realizava a delicada tarefa de assear um doente. Sobretudo quero manifestar minha eterna gratidão por todo o imenso trabalho de minha irmã, Walcenis, cuidadora de minha mãe e do meu tio, supervisionando o trabalho dos profissionais constantes e demais médicos e enfermeiros que mantiveram cuidados para com nosso tio. Minha irmã, por anos a fio, alimentou meu tio colocando em sua boca todas as refeições, chamando-o para a vida e tendo como resposta, em todos os dias, uma cantilena infinita, meu tio passando horas inteiras chamando-a sem cessar, pelo apelido doméstico: – Cidene, Cidene, Cidene, Cidene…

Noite triste e manhã silenciosa nesta sexta-feira. Um quarto vazio e, no outro, Walcenis cuidando de minha mãe, a vinda do enfermeiro, do fisioterapeuta e eu, aprontando-me para viajar de volta. A vida segue e nesse pequeno inventário de lembranças e carinhos reitero agradecimentos aos profissionais citados acima, que sempre tiveram atitudes carinhosas para com o Tio Zé. Também quero agradecer as orações de Eleusa Maria Borges, dos padres da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, Padre Benedito, Padre Américo Veccia, e, finalmente, aos amigos, vizinhos, parentes e familiares que comparecendo prestaram carinhoso gesto para com meu tio e de solidariedade para com minha mãe e minhas irmãs Waldênia e Walderez.

Dessa trajetória de 78 anos do Tio Zezinho quero finalizar lembrando a memória incrível que meu tio manteve, a despeito de todas as doenças. De manhã, quando perguntado sobre sonhos, indicava qual seria o bicho da sorte do dia; quando informado da data, lembrava o aniversário de todos os irmãos, todos os sobrinhos e ficava feliz esperando a comemoração, chegado que era em salgadinhos. Sim, meu tio gostava de festas, de salgadinhos, doces e, só pela saúde ficava distante de uma boa bebida. Fico pensando e rezando para que ele tenha uma festa maior, lá para onde foi e que possa seguir em frente, feliz, finalmente livre das mazelas deste nosso mundo.

Até mais.