Aprendiz de narrador

Sempre sonhei escrever, tornar-me escritor. Guardo alguns textos que escrevi quando bem jovem. Resolvi compartilhar parte de um, abaixo, escrito em 02/07/1973 quando morava com meus avós, em Campinas, no interior de São Paulo. Os originais estão bem conservados e, assim mesmo, não resisti a pequenas alterações, um vício em tentar melhorar.

PARA COMPOSIÇÃO

O MORTO

Aqui em frente à casa dos meus avós, do outro lado da rua, existem duas linhas paralelas. Sobre elas passam diariamente vários trens; é a linha da Fepasa. São grandes composições de cargas ou passageiros. São mercadorias levadas para o interior, ou matéria-prima vindas para a industrialização. Às vezes, quando sentado sobre o gramado do pequeno jardim, ou da janela do meu quarto, observo as máquinas possantes, puxando enormes vagões. Fico imaginando o destino reservado a cada pessoa, a cada mercadoria.

Quando essa rotina do vai-e-vem é quebrada nunca é por coisa boa. Os trens não se atrasam por esperar pessoas; é sempre por ter havido algum desastre. Um descarrilhamento ou uma catástrofe maior ainda. Nunca havia pensado na possibilidade de acontecer algo aqui em frente, mas aconteceu.

Na última sexta-feira, de manhã, fui acordado por um estrondoso barulho provocado por uma enorme composição de carga, puxada por três locomotivas. Fiquei chateado com a perturbação feita pelo som estridente de freios e fui ver o que estava acontecendo. O maquinista e o foguista, assim chamado devido à antiga função de abastecer as antigas Marias-fumaça, haviam descido e olhavam tudo à procura de algo. Em poucos instantes surgiu um grupo de pessoas, tão curiosas quanto eu, desejosas de saber o que é que estava acontecendo.

“- Eu tenho certeza”, dizia o maquinista. “Havia um homem entre os trilhos. Foi atropelado”. Pelas laterais não havia sinais de nenhum corpo, mas logo foi dado o alarme: “- Está aqui! Sob as rodas do primeiro vagão”.

Senti náuseas ao constatar o estado em que um homem se encontrava, todo cortado e quebrado. Seus miolos estavam esparramados, suas pernas, cabeça, braços, todos cortados e encontrados ao longo das rodas do vagão. O tronco havia sido aberto, todo o aparelho digestivo à mostra. Os órgãos sexuais também estraçalhados, um espetáculo sinistro. As roupas rasgadas e tiradas do corpo, estavam presas nas ferragens e o infeliz permaneceu nu, exposto ao olhar de curiosos.  Foram longas três horas de um show triste.

Primeiro veio a polícia, depois a perícia; o corpo de bombeiros e em seguida, para encerrar o desfile das corporações municipais, a perua de uma empresa funerária. Os homens colocaram luvas para recolher o que restava de um corpo ainda jovem. Os restos mortais foram depositados em uma caixa ordinária, de madeira bem vagabunda, provisória, até que algum parente fosse notificado e tomasse as medidas necessárias.

Os funcionários e as autoridades retiraram-se tranquilamente. O trem saiu lentamente e sobrou especulações. Um acidente? Bem próximo havia uma trilha, conduzindo ao outro bairro, do outro lado. Foi suicídio? Uma senhora afirmava que sim…

rua ari barroso

(Na minha imaturidade prossegui, julgando o ato do infeliz, sem mesmo ter a certeza do que realmente causou o atropelamento. Conclui meu texto pensando em fé, caridade e dirigindo uma oração ao morto, o que repito hoje, 46 anos depois. Para registrar, a rua citada é a Ari Barroso, esquina com a Rua Antônio Bonavita, no bairro Taquaral. A imagem acima é do Google, de como a rua está hoje, sem as linhas da estrada de ferro).

Até mais!

Um bonde de lembranças

Em Santos, o bonde que me trouxe lembranças.
Em Santos, o bonde que me trouxe lembranças.

A Rua Ari Barroso, no bairro Taquaral, em Campinas, me é bastante cara. Nela moravam meus avós. A casa ficava em esquina com a Rua Antonio Bonavita. A linha da Companhia Mogiana corria paralela à Rua Ari Barroso e do alpendre da minha avó avistávamos as pessoas chegando ou saindo da cidade. O trem passava sempre rápido, e a imagem da minha avó, de pé, acenando, continua presente. Era aceno feliz saudando os parentes que chegavam; era aceno triste, cheio de lágrimas quando as filhas e netos voltavam para Uberaba ou Ribeirão Preto.

Um pouco abaixo da linha de trem havia outra linha, do bonde que ia para o “furazóio”, na época, o fim da cidade. Ambas as linhas ficavam entre a Ari Barroso e o Ribeirão das Anhumas, que naqueles tempos era um triste córrego, esgoto a céu aberto. Quem estava no trem, de longe, sabia o ponto exato da casa de meus avós porque havia duas árvores, rentes à linha, quase em frente à Rua Antonio Bonavita. Às vezes, ficávamos aguardando o trem ao lado dessas árvores e era possível ouvir com clareza as palavras de despedidas ditas pelos passageiros. De lá, também, avistávamos o bonde, com o barulho do motor propulsor, mais a haste arrastando-se na rede elétrica, fazendo som peculiar. Eu adorava bondes.

Os bondes de Campinas tinham as laterais abertas e os bancos eram sem divisões, indo de uma lateral à outra. Sobre os estribos o trocador cobrava as passagens e o motorneiro seguia tranquilamente para seu destino. Quando muito frio, ou com chuva, havia uma espécie de cortinas que fechavam as laterais, protegendo as pessoas das intempéries do tempo.

José e Maria, meus inesquecíveis avós.
José e Maria, meus inesquecíveis avós.

Eram tempos felizes porque éramos dez netos aboletados na casa dos avós, brincando, lendo revistas, assistindo televisão que, pra nós, era grande novidade. Falava-se muito! Uma pequena pinimba entre meu padrinho Nino e meu tio Manoel questionava qual seria a maior cidade: Ribeirão Preto ou Campinas. Tio Manoel, de Ribeirão, afirmava ser esta maior que Campinas. Pra tirar a teima o tio Nino resolveu nos levar até ao mirante do castelo, para lá de cima constatar o quanto Campinas era maior que Ribeirão Preto. Hoje, infelizmente, o Google resolveria a questão em segundos; graças a Deus, sem a web, ganhamos um belo passeio no domingo seguinte, pela manhã. De bonde!

Dito e feito, no domingo seguinte dez netos saíram da cama e foram constatar o tamanho de Campinas nos anos de 1960. Voltando pra casa, era mês de janeiro, viemos em outro bonde, uma linha que terminava na Avenida Nossa Senhora de Fátima. Uma tempestade imensa caiu sobre a cidade e, já quase molhados no bonde, descemos sob a chuva para a casa da avó, ensopados e felizes. Não recordo nada ruim desse dia. Estávamos encharcados e famintos, doidos pra chegar e almoçar as delícias feitas por nossas mães, nossa avó.

Depois, já crescido, habituei-me com velha piada do mineiro que compra bondes. Eu compraria bondes; muitos! Em um país tropical, como o nosso, ter meios de transporte arejados seria sinal de inteligência. Evitaríamos todas as mazelas do ar condicionado, da lataria quente dos meios atuais. No final desta semana, em Santos, em frente ao hotel estava o bonde que me fez escrever esta história, lembrar o porquê de gostar tanto desse meio de transporte. Bonde me traz a Campinas dos meus avós, de toda a minha família, de reuniões de férias sempre alegres e cheias de brincadeiras.

Bendita internet. A rua, a esquina e o espaço onde estavam as linhas.
Bendita internet. A rua, a esquina e o espaço onde estavam as linhas.

Bendita internet. A casa ainda está lá. Vejo alterações, fico ressentido e não me permito divulgar imagem de uma casa que já não é mais nossa. Mas, o outro lado… Das linhas, raros sinais. Nem trem, nem bonde. Sem acenos, sem poesia.  Pelo menos há árvores e, me parece, pássaros, espaços para lazer. Todavia, eu adoraria ouvir aquele barulhinho do bonde, passando tranquilo, arejado, indo e vindo, incansável e, na minha lembrança, cheio de pessoas felizes.

Até mais.

Claudio Barros expõe em Campinas

claudio barros convite

Feliz e orgulhoso em poder divulgar o trabalho de Claudio Barros, artista cuja trajetória acompanho desde quando ele chegou de Ouro Preto, onde havia iniciado carreira profissional. Artista plástico carioca radicado em São Paulo, Claudio trabalha com xilogravuras, têmpera acrílica e desenhos à óleo sobre papel.

Começa hoje, 19 de março, a exposição CLAUDIO BARROS, PINTURAS, DESENHOS E GRAVURAS no Espaço Cultural do TRT, localizado na Rua Barão de Jaguara, 901, 1º andar, Campinas – SP.

O texto abaixo, sobre o artista e a exposição, foi escrito especialmente para a apresentação/divulgação do evento. Vale a pena conhecer.

A AMBIGUIDADE ENTRE O ESPAÇO E A MATÉRIA NA PINTURA DE CLÁUDIO BARROS

claudio barros pintura 1

Olhando lá para trás na carreira longa do pintor Claudio Barros, entrevemos um namoro inicial com Matisse, com o cubismo – na sua veia mais colorida – e com o Robert Delaunay pré-abstrato. A explosão de cores, a estrutura compositiva que desafia as leis da perspectiva em obras como “O sonho” e “Viaduto ”, ambas de 1989, são provas desse interesse inicial do artista. 

Se, ao contrário, observamos os seus ciclos de pinturas mais recentes, como as séries “Jardim e portão” (2006-2008) e “Plantas (coloquei esse nome, pois falta um título para a ‘série’)” (2010), vemos que as primeiras “paixões” foram aparentemente abandonadas, mas sem deixar de fornecer as sementes que brotariam numa obra original e autônoma. Vemos que as cores intensas – herança do fauvismo através dos mestres citados – deram lugar a cores tênues e em harmonia entre elas, ao invés dos fortes contrastes iniciais; e, ainda, que a fragmentação espacial foi substituída por planos mais amplos. Permanece, porém, do antigo “namoro”, a interpenetração dos vários planos espaciais – realizada, entre outros recursos, através da densidade da matéria pictórica. Por exemplo: as linhas, nas telas de “Jardim e portão”, sugerem a profundidade espacial, que, entretanto, é desmentida pela própria, densa matéria das tintas na superfície do quadro; e, em “Plantas”, ramos, folhas e flores parecem incrustados no muro que lhes serve de fundo, num inesperado efeito “marchetaria”. 

As obras de Claudio Barros são construídas a partir dessa ambiguidade; e, dessa forma, os mais simples e humildes temas figurativos – um canto de quintal, um portão de ferro, uma planta ao longo de um muro – transcendem o seu caráter casual para abraçar uma reflexão sobre a natureza da própria linguagem visual. São elevados de simples descrição a afirmação do artista às voltas com a sua linguagem, com uma expressão independente de qualquer referência temática externa.

Entre os diálogos iniciais com os mestres da arte moderna e esses ciclos mais recentes, flertando ocasionalmente com a pintura abstrata e matérica e sempre tendo como fio condutor a ambiguidade entre espaço e matéria, Claudio Barros dá provas de uma criatividade e de uma curiosidade inesgotáveis.

Roberto Carvalho de Magalhães
Prof. de História da Arte e Ciência dos Museus
Università Internazionale dell’Arte (Florença, Itália)

 

Quem tem dois corações…

diadosnamorados

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Quem tem dois corações

Me faça presente de um

Que eu já fui dono de dois

E já não tenho nenhum… (1)

Ah! O nome da minha primeira namorada… Ela tinha cabelos loiros, encaracolados e um sorriso gracioso. Morava nas proximidades da minha casa e conhecemo-nos no primeiro ano de escola. Foi ela que se disse minha namorada… E eu gostei da ideia. Lembro-me dela muito bonita, cheia de laçarotes, vestidos rodados, bonita mesmo!

Botão de rosa menina

Carinhosa, pequenina

Corpinho de tentação

Vem morar na minha vida

Dá em ti terna guarida

Ao meu pobre coração (2)

O tempo passou… O primeiro amor, se é que se pode chamar de amor, veio quando vi dois olhos negros, profundos, de uma moreninha saindo da igreja no final de uma missa dominical. Demorei pra me aproximar e, tímido, passei meses andando de bicicleta pela rua onde ela morava. No bairro onde nasci, quando criança, eram muitas áreas por construir, transformadas em “campinhos” para brincadeiras. Foi em uma tarde nessas tais brincadeiras que tive a certeza, pela primeira vez, do interesse dela por mim. Passou, e a última vez em que estivemos próximos, foi durante um show do Roberto Carlos.

Se você quer ser minha namorada

Ah! Que linda namorada

Você poderia ser

Se quiser ser somente minha

Exatamente essa coisinha

Essa coisa toda minha

Que ninguém mais pode ser… (3)

Tempo… Tempo… E aconteceu o primeiro beijo, bem distante da minha Uberaba, vindo de uma descendente de italianos, em Campinas, interior de São Paulo. Um namoro de férias, que durou um pouco mais. Dela recebi as primeiras cartas, cartões perfumados, fotos com dedicatória carinhosa; tudo guardado no baú de lembranças que há dentro do meu peito. Veio a adolescência, braba! E adolescente, sabe como é…

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo

Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora

Que amava…

Carlos amava Dora que amava

Pedro que amava tanto que amava a filha que amava

Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha  (4)

De repente, tudo ficou sério. Namoro deixou de ser descoberta pra ser ensaio, projeto para uma vida a dois. Ideais muito distintos e os conflitos, inevitáveis quando não se sabe ao certo por onde irá a vida, onde aportaremos o barco, de que maneira atuaremos profissionalmente para ganhar o pão nosso de cada dia. Aqui deixo de falar de namoradas, recordando os desencontros da vida, as separações doloridas. Lembrando, agora, foi tudo muito bom, mas então, naquele instante, quando não deu certo… O tempo digeriu mágoas, serenou ânimos. Cada um pro seu rumo, construindo a própria história.

Quando me lembro da minha bela mocidade

Tinha tudo à vontade, brincando no boi de Axixá

Eu brincava com você naquela praia ensolarada

A sua pele bronzeada eu começava a contemplar… (5)

O amor concebido como troca, complemento, doação, veio só quando já adulto. Natural que assim fosse. A vida,todo mundo sabe, é um constante aprendizado. Não posso dizer que tenha sido perfeito, que estávamos prontos para viver o amor. Mas por ser troca, complemento e doação, foi incrivelmente melhor que tudo o que eu havia vivido anteriormente.

Quero-te mais do que imaginas ser possível

Te trouxe um búzio mágico dessa viagem

Marinha melodia ao pé do teu ouvido

Já que pensas que sou um marinheiro audaz… (6)

Era uma vez… E aqui estou eu, em véspera do dia dos namorados. As coisas não se repetem e, graças aos céus, melhoram. Resta-me viver intensamente o agora enquanto condição para a tranqüilidade e sanidade futura. Assim sigo em frente!

…da cor do azeviche, da jabuticaba

E da cor da luz do sol, eu te amo!

Vou dizer que eu te amo!

Sim eu te amo, minha flor… Eu nunca te disse.

Não tem aonde caiba, eu te amo.

Sim, eu te amo.

Serei pra sempre o teu cantor. (7)

Quem tiver sem amor, esqueça a timidez, a preguiça e vá à luta na noite de Sampa, na noite do Brasil.. Não foi por acaso que comecei este texto lembrando os lindos versos de FERNANDO PESSOA, musicados por FERNANDO MENDES e cantados pela MARIA BETHÂNIA. Já que namorar é muito bom, vale repetir a trovinha, desejando que todos possam namorar um pouquinho! E amar “bastantão”!

Quem tem dois corações

Me faça presente de um

Que eu já fui dono de dois

E já não tenho nenhum

Quem tem dois corações… (8)

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Até!

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Notas Musicais:

(1),(2) e (7) – Quadrinhas – Fernando Pessoa, musicado por ROBERTO MENDES.

(3)Minha Namorada – Vinícius de Moraes e Carlos Lyra

(4)Flor da Idade – Chico Buarque

(5)Bela Mocidade – Donato e Francisco Naiva

(6)Todos os Lugares – Tite de Lemos e Sueli Costa

(7) Eu te amo – Caetano Veloso

Publicado originalmente no Papolog em 12/06/2009 e atualizado em junho de 2013/Valdo Resende.

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Eu quis falar do meu amor

Penso não ser o único maluco a guardar na cachola trechos de canções, frases melódicas acompanhadas de letra ou não. Poderia elaborar uma bela lista caso soubesse o nome da canção, os autores, os intérpretes. Obviamente que algumas dessas canções caminham comigo desde a infância, ouvindo minha mãe ou minhas irmãs cantarolando enquanto trabalhavam, outras vieram das minhas andanças por aí.

A tarde reservou-me agradável surpresa quando comecei a ouvir e reconheci uma canção do tempo em que fui adolescente. Foi como algo de há muito perdido que, de repente voltou e, junto ao som, imagens com total nitidez.

Nesse momento

Nosso romance começou

Todo esse tempo

Eu quis falar do meu amor

E dizer quanto eu espero

Envolver-te em meus braços

Vendo o dia amanhecer

Fui adolescente típico. Daqueles que ficam trancados horas no banheiro, outro tanto frente ao espelho; também estive entre os que adoram a madrugada como refúgio seguro para viver “longe do olhar dos adultos”, que teimam em intrometer-se onde não são chamados.

Chacrinha com Wanderléa, na TV tanto quanto na rádio Globo.

Altas horas, todos recolhidos, meu irmão tendo ido para Brasília, reinava absoluto em meu quarto e, através do rádio, viajava todas as noites para o Rio de Janeiro. Ouvia o programa de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, via Rádio Globo AM. O famoso apresentador estava em casa, já que foi no rádio onde iniciou a carreira. Não posso precisar as horas, mas eram altas, muito altas horas. Papai acordava de madrugada e vendo a luz acesa no quarto dava-me broncas homéricas, obrigando-me a desligar o rádio e ir dormir. Habituei-me a colocar um pano para impedir a luz de atravessar pelas frestas da porta e ouvia baixinho, a música que voltou na tarde deste domingo para reavivar lembranças.

Eu te amo tanto

Que eu não sei como explicar

Todo esse encanto

Que vem fazer eu te adorar

Se eu perder os seus carinhos

Vou sofrer demais sozinho

E de saudade vou morrer

Desse período, ainda em Uberaba, algumas músicas permaneceram fortes na lembrança e poderia jurar que “Eu quis falar do meu amor” seria dessa época. Acontece que é uma gravação de Junho de 1973. Junho não é mês que esqueço, já que nasci no próprio e, em 1973 eu estava às voltas com o serviço militar, já distante de Uberaba, morando com meus avôs, em Campinas, no interior de São Paulo.

Se alguém me perguntasse uma música de 1973 eu diria “Goodbye, Yellow Brick Road”, de Elton John e todo o LP “Drama, 3º Ato”, gravado ao vivo por Maria Bethânia. Venho mantendo essas e muitas outras canções na memória e, de vez em quando, fico cantarolando algumas e outras; entre essas outras…

Nesse momento

Nosso romance começou

Todo esse tempo

Eu quis falar do meu amor…

Wanderléa, muito além da Jovem Guarda.

Hoje, ouvindo os primeiros acordes da canção fui mágica e rapidamente transportado no tempo, no espaço. Foi um agradabilíssimo encontro com a velha canção que não sabia mais de quem era, quem cantava, que nome tinha.  “Eu quis falar do meu amor” é de Roberto Correa e Jon Lemos e foi gravada em 1973 por Wanderléa. Essa e outras canções estão na caixa “Wanderléa Anos 70”. São seis CDs e parei no primeiro, embevecido com a canção da qual guardava fragmentos na memória. Sobre os CDs, sobre as demais canções escrevo em outro momento. Agora, por enquanto, “Eu quis falar do meu amor”…  E que amor, Wanderléa!

Eu te amo tanto

Que eu não sei como explicar

Todo esse encanto

Que vem fazer eu te adorar…

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Boa semana para todos!

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Nota: Encontrei uma reprodução no Youtube. Para conhecer a canção clique aqui.

E somando pessoas, lugares…

Trago dentro do meu coração,

Como num cofre que se não pode fechar de cheio,

Todos os lugares onde estive…

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 O colo de minha mãe e de minha tia Aurora nas noites cálidas de Uberaba

Na oficina, o fogo da forja iluminando o rosto de meu pai

E do quintal as lembranças das brincadeiras com meus irmãos.

Guardo a sensação de autonomia no trem rumo a Campinas

E a de absoluta solidão caminhando por São Paulo

Desde então sei que, mais que lugares, trago em mim pessoas.

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Eu quero ser sempre aquilo com quem eu simpatizo,

Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,

Aquilo com quem eu simpatizo…

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Os vizinhos: primeiros amigos na calçada, donos da rua

Os primeiros afetos, de tratados e promessas não cumpridas

Amigas e amigos para todas as horas, todo o tempo, todo o sempre

E mais gente de todas as raças, de todos os cantos que, em mim

Fizeram brotar canções e versos, manhãs amenas e noites de tempestades.

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Sentir tudo de todas as maneiras,

Viver tudo de todos os lados,

Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,

Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

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Sobrevivi a seqüestros, atropelamentos

Venci meu pulmão sempre afeito a pneumonias

Senti o brutal calor da caatinga tanto quanto o frio dos Andes

Plantei partidos e deles não fiz parte, fiz arte

Persisto buscando ter a alma, ser artista.

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Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,

E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim…

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Giram meus pais, meus irmãos

Giram colegas, amigos, conhecidos

Ídolos, santos, espíritos

E somando pessoas, lugares, mais pessoas

Sou eu, resultando em 57 anos!

Somando o hoje para repetir no amanhã:

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Trago dentro do meu coração,

Aquilo com quem eu simpatizo…

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo

E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim…

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Obrigado a todos, pela lembrança e pelo carinho.

Valdo Resende

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Nota:

Os versos em azul foram retirados da “Passagem das Horas” de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos.

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Novas oportunidades para bons projetos

Silvana Santos foi minha aluna e hoje é uma empreendedora que, em Campinas, no interior de São Paulo, desenvolve novo trabalho. Fico feliz em poder divulgar o empreendimento; para que conheçam e para que possam analisar possibilidades de trabalho com a nova empresa.

Desejando boa sorte para todos os envolvidos, optei por transcrever o material enviado pelos jovens empresários. Certamente, falam com maior propriedade sobre as possibilidades de obtenção de investimentos para bons projetos; leiam e, quem sabe, não esteja aí uma grande oportunidade!

Campinas ganha seu primeiro site de financiamento coletivo

Sucesso nos Estados Unidos em e alguns países da Europa, os sites de financiamento coletivo – ou colaborativo –, conhecidos como “crowdfunding”, já possuem suas versões brasileiras. E, em maio. Campinas ganhará seu primeiro site com o lançamento da “Soul Social”, que já nasce com vários projetos importantes em seu portfólio de negócios.

O crowdfunding tem por objetivo financiar projetos que precisam de verba para que possam ser realizados. Sejam eles de cunho cultural, social, esportivo, ambiental, esses projetos ganham uma chance real de saírem do papel para efetivamente serem executados através do financiamento coletivo. A Soul Social pretende oferecer todo o Know-how para dar apoio técnico às pessoas físicas e organizações que queiram levar adiante seus projetos.

Utilizando o bom exemplo de outras plataformas e aperfeiçoando as ferramentas para as necessidades de sustentabilidade das organizações, a Soul Social busca inovar na utilização do poder do coletivo, trabalhando para estabelecer parcerias duradouras com as pessoas e com as organizações para assim se tornar uma referência, uma ponte, um caminho conhecido entre os projetos e seus financiadores.

A ferramenta básica para que os projetos consigam arrecadar o dinheiro necessário é a capacidade das pessoas de se conectarem e se comunicarem através das novas tecnologias. É por isso que os sites de financiamento coletivo só se tornaram possíveis agora, quando o fenômeno das redes sociais cresce de forma vertiginosa, chegando a todos os níveis sociais, criando uma força viral de propagação das informações.

São os contatos da rede social do idealizador do projeto que fomentam a força da colaboração e garantem a viabilização da ideia. Divulgado nas redes sociais, o projeto busca o apoio das pessoas, que escolhem o valor da contribuição dentro de uma escala pré-estipulada pelo idealizador do projeto.

As contribuições são feitas através de meios de pagamento virtuais em ambientes seguros, por cartão ou boleto, sendo que as operações por cartão são, em geral, as mais comuns. Contudo, o valor aportado só vai para a conta do projeto quando o mínimo previsto é efetivamente arrecadado, garantindo a execução do projeto. Caso contrário, são estornados ao colaborador. Na maioria das vezes, os colaboradores recebem contrapartidas do projeto, dependendo do valor por ele despendido.

A ferramenta de arrecadação fica por conta do site, que, para tanto, soma ao valor total do projeto uma pequena porcentagem por essa facilitação. Dezenas de projetos já foram  viabilizados dessa maneira em outras plataformas existentes, como, por exemplo, o projeto para rodar o documentário sobre Belo Monte, dando provas de que o sistema é confiável e veio para ficar.

Para o mês de lançamento estão em construção projetos de cunho social, esportivo e cultural, a maioria deles com foco na cidade de Campinas.

Há negociações em andamento com o Instituto Meta Social, de Campinas, que luta pela inclusão social do deficiente, em especial à pessoa com Síndrome de Down e cunhou o lema “Ser Diferente é Normal”, para o financiamento de uma série de programas de televisão chamado “Ser Diferente”.

Ainda, um projeto para o financiamento da produção do CD Nove Luas do jornalista, poeta, músico e compositor campineiro Nilson Ribeiro. Uma discussão com as ONGs ADUS – Instituto de Reintegração do Refugiado de São Paulo, com o COMEC – Centro de Orientação ao Adolescente de Campinas, com o Instituto Ide e Ensinai de Vitória da Conquista e com os Expedicionários da Saúde de Campinas, que se interessaram pelo uso da plataforma.

Além desses projetos, está em andamento uma parceria com a Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários – UNISOL Brasil, entidade nacional, presente em 23 estados, que representa mais de 700 empreendimentos econômicos solidários e está sediada em São Bernardo do Campo. Trata-se de um projeto de co-financiamento de projetos de empreendimentos inscritos no Programa de Investimento Solidário que receberão apoio financeiro parcial da instituição e farão a captação do restante por meio da Soul Social.

A plataforma será lançada no dia 07/05 e novos projetos deverão ser inscritos através do site.

www.soulsocial.com.br