Viagem Nº 2

Oh tristeza, me desculpe

Estou de malas prontas

Hoje a poesia veio ao meu encontro

Já raiou o dia, vamos viajar

               Estava aqui, com meus botões já gastos de tanto confinamento e, de repente, deixei a memória ir longe, onde tudo é possível. Com jeitinho, tudo é até melhor, mais bonito, mais saudável. Benditas lembranças que nos permitem ir para onde a gente bem quiser. E viajar está, desde sempre, entre as coisas que mais gosto. Pode ser para logo ali, ou lá, mais além-mar. No final da estrada, onde Judas perdeu as botas. Nos cafundós desse Brasil imenso…

Vamos indo de carona

Na garupa leve do vento macio

Que vem caminhando

Desde muito tempo, lá do fim do mar

               O vento me leva para a estrada, pela Via Bandeirantes, e só me sinto saindo de São Paulo quando passo pelo Pico do Jaraguá. Começam a surgir mesmices reflorestadas, mas verdes, plenas do verde e, em dias bons, do perfume de eucaliptos. Pensamento recorrente, ressinto-me da falta de verde e a memória me joga lá pra adolescência, em Uberaba, quando pegava a bicicleta e ia pra zona rural (Na época era zona rural). Passava o posto da Fepasa de Amoroso Costa e entrava no corredor de gado, passando por Rodolfo Paixão e sempre parando em encruzilhada, para onde era só mato, descansando e meditando sobre… nada.

Vamos visitar a estrela da manhã raiada

Que pensei perdida pela madrugada

Mas que vai escondida

Querendo brincar

               Minha estrela está além da Bandeirantes, entrando pela Via Anhanguera afora até atravessar o Rio Grande e entrar em terras de Minas. O percurso é longo e, sem pressa, vou degustando a viagem. Nem passei por Jundiaí! De um lado da estrada a cidade, e do outro, fazendo uma linha com o horizonte, um campo de aviação onde é possível ver aviões decolando ou pousando. Aviões ínfimos se comparados aos maiores que, daqui a pouco, serão vistos à esquerda de quem sai de Sampa. Descem e sobem no rumo de onde deve estar Viracopos, onde trabalhei e depois, muito tempo depois, voltei como passageiro.

               Escolho deixar a Bandeirantes e entrar no primeiro trevo da Anhanguera, em Campinas. Penso nos meus avós, nos meus tios e sigo em frente. Passo pelo que restou da Bendix, onde trabalhei e, no lado oposto ao da empresa, vejo ao longe o bairro onde morou minha prima Dalva. Há muito não vou por lá.

Senta nessa nuvem clara

Minha poesia, anda, se prepara

Traz uma cantiga

Vamos espalhando música no ar

               Antes que Campinas fique para trás vem forte a lembrança de meu irmão. A entrada da Via Dom Pedro (nunca sei se é primeiro ou segundo) sai em direção ao bairro onde Valdonei morou. Sinto saudade e vou rezar por ele quando passar em frente à Igreja de Nossa Senhora Aparecida, que lá atrás o Pe. Líbero não quis como paróquia por estar isolada, muito isolada. Ela está próxima de escombros do que um dia foi a fábrica de óleos Minasa, onde também trabalhei. Por seis meses! Esse pedaço da estrada pesa um pouco. Melhor tocar em frente.

Olha quantas aves brancas

Minha poesia, dançam nossa valsa

Pelo céu que um dia

Fez todo bordado de raios de sol

               Deixo a mente vagar e só vou atentar para outra fábrica, de cachaça, em Pirassununga. Meu padrinho Nino era chegado em pinga. “… Porque gosto dela, bebo da branca, bebo da amarela, com limão, cravo e canela…” Em Pirassununga ele cumpriu obrigação de jovem, no exército. Meu pai gostava de atirar, se destacou em tiro ao alvo, no exército. Eu gosto de exército circunscrito ao exército, se estou sendo bem claro.

Vai demorar um bocado pra chegar a Ribeirão Preto. O reflorestamento ainda aborrece, mas já consigo ver resquícios de mata ciliar, de montes cobertos por… quem sabe, mata original. Há um imenso aclive no que pessoalmente chamo de Serra de Santa Rita. São quatro quilômetros de subida que sempre, na volta, descíamos na banguela economizando gasolina. E nem estava no preço que está hoje! Logo passarei por Cravinhos e por Ribeirão Preto.

Oh poesia, me ajude

Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias

Pelos campos verdes

Que você batiza de jardins-do-céu

               A Via Anhanguera tornou-se uma longa marginal que atravessa Ribeirão Preto. Em direção a Minas fiz todo o trecho que vai do trevo principal, entrada para a cidade, até o viaduto da Fepasa, sobre a estrada que, quando eu era criança, ficava em pleno mato. Duas caminhadas memoráveis:

Com papai e mamãe saímos de trem de Uberaba para Ribeirão Preto. A estação de trens era bem nova, mas estava no meio do mato. Por indicação da minha tia Olinda, descemos do trem e caminhamos pelos trilhos (quem está na estação de Ribeirão Preto é sentido Campinas) até o tal viaduto, descendo deste até a estrada e, mais uma boa caminhada, até chegar à Vila Abranches.

Dessa mesma Vila, outra vez saí com meu primo, caminhando pela estrada em direção oposta, até o trevo (na época era o único) e, entrando para a cidade, passávamos por uma fábrica de bolachas, de onde sempre vinha um cheiro delicioso de coisas assadas. Uma caminhada tranquila, interrompida por um temporal de verão. Entramos ensopados pela cidade e, como dois bons adolescentes, tomamos rumo da Praça XV de Novembro onde não tomamos chopp do Pinguim, mas tomamos sorvete sentados nos bancos da praça.

Mas pode ficar tranquila, minha poesia

Pois nós voltaremos numa estrela-guia

Num clarão de lua quando serenar

               Nunca mais voltei. A cidade passou a ser um ponto por onde vou ou volto. Passando pela Vila Abranches recordo canções ouvidas na infância, leite tomado quentinho, ouvindo o barulho dos animais todos da chácara de D. Dina. A estrada pede caminho, ir em frente, vou passar pelo Rio Pardo e olhar em direção a Jardinópolis, por onde gostava de passar quando viajávamos de trem. Em Orlândia, inevitável, vou recordar uma viagem com Tia Amélia, para visitar meus padrinhos Toninho e Rosária, queridos, muito gentis. Em São Joaquim da Barra passo por uma placa que anuncia faltarem 100 quilômetros para Uberaba. Dependendo do motivo da viagem rola desespero ou alívio…

               Pioneiros é um local que um dia foi chamado de Bacuri. Fica logo após São Joaquim da Barra e é um lugar da maior importância. Lá nasceu minha mãe, Laura, batizada no município vizinho. Não é o momento de entrar e rever as velhas casas que restaram da extinta estrada de ferro que, atualmente, passa longe dali. Passando por Buritizal já me sinto próximo de coisas de Guimarães Rosa. Minas está perto.

Ou talvez até, quem sabe,

Nós só voltaremos no cavalo baio

O alazão da noite

Cujo o nome é raio, raio de luar.

               Já estou ansioso e não vejo a hora de atravessar o Rio Grande, quando nunca deixei de pensar: cheguei! Minas tem um cheiro, um ar… Minas tem as montanhas, e logo após o Rio começa um brincar de montanha russa, com um sobe e desce de responsa. A memória, bendita memória. Essas longas subidas e descidas me lembram Beto Rockfeller, o inesquecível personagem interpretado por Luís Gustavo. Pra fazer firulas com a namorada, o Beto apostou que chegaria de helicóptero em uma festa. Para conseguir a aeronave, alegou aos proprietários que precisava levar um doente para Uberaba. Aquele sobe e desce horrível da estrada tinha que ser evitado e, para isso, só voando. Conseguiu.

               São angustiantes os minutos que antecedem passar pelo Catetinho, um antigo restaurante atualmente em ruínas. Às vezes parecem eternos, o trecho longo demais, enlouquecedor de tão longe. E o pior é ter a certeza de que, quando na volta, passará rapidíssimo, aumentando o distanciamento da cidade amada. Mas passo pelo Catetinho, logo, logo, por uma ponte sobre a estrada de ferro, e aí não tem mais lero-lero. Estou em Uberaba.

Vamos visitar a estrela da manhã raiada

Que pensei perdida pela madrugada

Mas que vai escondida

Querendo brincar

Já sinto cheiro de café, pão de queijo, bolo… Sinto o calor de abraços, a ternura de beijos.

Estou com meus sobrinhos, meus irmãos, meus pais… Bendita memória! Benditas lembranças!

Com licença, tá na hora de curtir a família.

Até mais.

Notas:

Viagem (a número um, letra que me inspirou aqui) é canção de João de Aquino e Paulo César Pinheiro. Convido você, leitor, a ouvi-la na interpretação de Marisa, a Gata Mansa.

Uma caneca de Natal

Chegando de Ribeirão Preto, Tia Olinda sempre levava presentes, constantes mimos de alguém que gostava de agradar. Chegava sorridente, falante, e assim me entregou a caneca – que está aí na foto. Uma caneca agora cinquentenária… ou mais, não sei. Eu nem estava na escola! Ou seja, meu mundo era a família e o quintal, posto que a rua, o bairro e a cidade vieram depois. Com a caneca vieram algumas bolas coloridas, de vidro.

– Para você fazer sua árvore de Natal!

Disse-me a tia ao entregar o precioso presente. Lembro de ficar olhando, encantado, para aquelas coisinhas coloridas, leves e… mortais. Quando quebradas eram um perigo considerável diante das infinitas partículas do vidro.

Primeira árvore de Natal de que tenho notícia, mamãe pegou um galho dos muitos que haviam de árvores, arbustos e similares nos terrenos baldios próximos. Enrolou todo o galho e suas ramificações com algodão, branquinho.

– É para lembrar neve!

Tia Olinda, com o presente, levou minha mãe a comprar outros enfeites. Bolas, guirlandas, estrelas, tudo para enfeitar nossa primeira árvore natalina. Criou-se um hábito, mas… Havia o presépio da casa de D. Castorina, reproduzindo uma Belém artesanal, cheia de casas de barro, montes feitos de papelão, sob uma gruta imensa, iluminada com pequenas lâmpadas coloridas, destacando-se entre as estrelas, de papel laminado, a mais importante, orientadora dos magos quanto ao local de nascimento do Menino. Demorei, mas um dia tive o meu presépio.

Durante essa infância, cada vez mais distante, eram raros os Natais em nossa casa. Tínhamos o privilégio de viajar nos finais de ano. Natal a gente passava na casa da Tia Olinda, lá em Ribeirão, em memoráveis férias na nascente Vila Abranches, cheia de chácaras por todos os lados, com sua pracinha onde, às tardes, colocavam músicas para alegrar todos os moradores.

Éramos nove crianças! Mamãe Laura e minha tia Olinda saiam para a cidade (naquela época a Vila Abranches ficava longe de Ribeirão Preto!) e, entre outras coisas, compravam brinquedos que “Papai Noel” nos deixaria para fazer nossas manhãs cheias de brincadeiras com os presentes trazidos pelo bom velhinho. Antes da noite, escrevíamos cartões para os avós, os tios todos, o pai, a mãe… E toca esperar o carteiro pra ver de quem receberíamos uma mensagem.

Não tenho lembranças de comidas. Essas coisas que dizem ser tradição, hábitos de muitas famílias. Penso que as pessoas, crescendo, trocam a satisfação dos brinquedos, das árvores e dos presépios pela comilança, pela bebedeira. É o lado que menos aprecio. Aquele almoço cheio de coisas, levando todos para o sono pesado da tarde do dia 25. Eram bem melhores os dias em que, rapidamente, tomávamos as refeições e voltávamos a explorar as possibilidades dos novos brinquedos.

Frutas natalinas eram o “must” da noite de ano novo, quando já longe de Ribeirão Preto, íamos todos para a casa de minha avó materna, em Campinas. Nozes, avelãs, amêndoas, castanhas e figos secos portugueses. Também uvas passas! As mesmas uvas passas que, nos últimos tempos, gente chata fica enchendo a paciência alheia. – É só não comer! (aqui está omitido um belo palavrão em função do espírito natalino).

Em Campinas, na mesma casa ficavam todos os irmãos de mamãe, meus irmãos e todos os primos. Éramos todos vivos, felizes, e por estarmos assim, lamento hoje, não percebíamos que meus avós já não tinham seus pais, seus tios… Esses mesmos pais e tios que todos temos e que, hoje, não tenho mais. Propiciando-nos noites de Natal e Ano Novo, esforçando-se para nos darem o máximo, deixavam de lado suas lembranças tristes, suas perdas irreparáveis. E, penso, é assim que deve ser!

Ontem comecei a brincar de Natal. Tirei do armário as velhas caixas e fui inventar nova maneira de dispor as coisas. Não espero crianças em casa, mas vai que apareça alguma. Ou mesmo algum adulto. Quem sabe meu presépio não desperte lembranças boas, ou mesmo crie outras. Mas, na real, meu presépio é para nós, que estamos aqui, neste ano tão complicado e diferente.

É linda a lembrança do primeiro Natal, aquele de 2020 anos atrás, quando nasceu uma criança, o Deus feito menino. São lindas as lembranças de todos nós; isso, se nos atermos às primeiras visões de um brinquedo, uma árvore cheia de cacarecos, um presépio pra lá de estilizado, as pessoas todas juntas abrindo presentes, trocando afetos.

Talvez escreva sobre os presentes de Natal que ganhei na infância. Era época em que o consumismo não determinava excessos e ganhei poucos, mas inesquecíveis brinquedos. Talvez!

Neste ano, é lamentável que a pandemia nos impossibilite grandes encontros. Cabe aqui uma postura, uma decisão: Podemos ter noites de reclamações, ou podemos dar graças por estarmos vivos. E se as reuniões forem precárias, limitadas, temos lembranças para preenchê-las. E objetos que nos suscitam lembranças, como a minha caneca, dada pela minha tia Olinda, que morava em Ribeirão Preto, onde passávamos os natais, esperávamos Papai Noel…

No Olho do Furacão

Imagem capturada do Jornal + Ruchela, no destaque.

O Jornal Nacional abre uma matéria com as enfermeiras do Hospital da Unicamp, em Campinas, no interior de São Paulo. Gatilho é a palavra da hora para me ligar diretamente ao assunto e vejo, em um grupo de profissionais entrevistadas no jardim da instituição, a silhueta de alguém que pode ser a minha sobrinha. Redobro a atenção e quando a câmera se aproxima vejo que era apenas um corte de cabelo que provocou-me o alerta. Sim, tenho uma sobrinha no olho do furacão chamado COVID.

A pandemia chegou de forma trágica em minha família com o falecimento de um primo. Na mesma Campinas. A morte de Renato Marcos Antunes Batbuta, no final de março deste ano, entristeceu família e parentes e, ao mesmo tempo, impôs a todos nós os cuidados necessários para evitar contaminação. Fechamo-nos em nossas casas, saindo para o estrito necessário, mas minha sobrinha Ruchela Martini de Resende continuou seu trabalho. Ela é enfermeira padrão e o seu trabalho no Hospital da Unicamp vem de longe.

A AIDS foi, provavelmente, a primeira grande tragédia que a jovem enfermeira, mal saída da faculdade, teve que enfrentar. Não sei quantos e é certo que ela não contabilizou os mortos em decorrência da AIDS no hospital onde atua. Um trabalho tenso guardado pela discrição da profissional que pouco, posso afirmar raramente, comentou em rodas familiares os dramas presenciados pelo vírus HIV. Todavia, e é muito estranho escrever isso, foi mais fácil. O contágio pelo HIV envolve comportamentos específicos, contato direto com o portador.

Fico pensando na menina (pra mim, sempre será uma menina) acordando, tomando cuidados antes de sair de casa e, chegando ao trabalho, redobrar cuidados para cuidar de pessoas em estado crítico. O vírus está no ar. Tenso! Há setores inteiros destinados aos infectados pelo COVID e ontem, no jornal da Globo, o destaque foi para uma ação extra das enfermeiras, levando e lendo cartas de parentes aos isolados pela doença.

Evito puxar assunto e discutir com ela os atuais acontecimentos. Em mensagens sintéticas ela me diz da preocupação pela falta de isolamento das pessoas, pelo não uso de máscaras. Hoje pela manhã, o que me levou a escrever este texto foi enviar uma mensagem para Ruchela, comentando e cumprimentando todas as enfermeiras da UNICAMP pela ação. Ela agradeceu e terminou a mensagem com uma frase curta, acompanhada de um emoji em lágrimas: – Está difícil!

Tento segurar a raiva quando leio ou vejo pessoas minimizando essa pandemia. Tento me colocar no lugar de minha sobrinha, e não tenho receio em afirmar que apenas a ideia de entrar em um hospital repleto de gente contaminada me deixa apavorado. Ela e milhares de outros vão, cotidianamente, dentro da normalidade profissional que adotaram. Não cogitam abandonar o posto, as funções. Médicos, enfermeiras, atendentes, pessoal da cozinha, pessoal da limpeza, administradores enlouquecidos para conseguir máquinas e remédios… Quantos estão na mesma situação, diariamente encarando a triste realidade de gente desesperada, muitas derrotadas pelo COVID?

Presencio uma abertura temerária, muita gente indo às ruas por interesses mesquinhos, ignorando os cuidados mínimos necessários perante o vírus. Isto diante de um quadro que agora, ao escrever este texto, dá como oficial 41.828 óbitos e 828.810 casos, e as pessoas não se sensibilizam. Não deve ser difícil, no mínimo, encontrar um conhecido entre os infectados ou mortos. Nem todos têm ou terão um familiar trabalhando diretamente com as vítimas do corona vírus, no entanto, a pergunta vem: será necessário ter no mínimo um morto em cada família para que o Brasil tome os cuidados e faça as ações necessárias?

Envio aqui todo o meu carinho e cuidado para com os profissionais da saúde que enfrentam diariamente os efeitos e consequências da pandemia. Peço todas as orações possíveis pela saúde dessa gente, para que possam continuar cuidando da nossa saúde. Fico rezando e pedindo a Deus por essas enfermeiras que, além do difícil trabalho, ainda entram nos quartos e, com voz calma e terna, certamente segurando a emoção, leem mensagens – talvez as últimas – de familiares para os doentes. Que Deus guarde todos!

Até mais!

Um bonde de lembranças

Em Santos, o bonde que me trouxe lembranças.
Em Santos, o bonde que me trouxe lembranças.

A Rua Ari Barroso, no bairro Taquaral, em Campinas, me é bastante cara. Nela moravam meus avós. A casa ficava em esquina com a Rua Antonio Bonavita. A linha da Companhia Mogiana corria paralela à Rua Ari Barroso e do alpendre da minha avó avistávamos as pessoas chegando ou saindo da cidade. O trem passava sempre rápido, e a imagem da minha avó, de pé, acenando, continua presente. Era aceno feliz saudando os parentes que chegavam; era aceno triste, cheio de lágrimas quando as filhas e netos voltavam para Uberaba ou Ribeirão Preto.

Um pouco abaixo da linha de trem havia outra linha, do bonde que ia para o “furazóio”, na época, o fim da cidade. Ambas as linhas ficavam entre a Ari Barroso e o Ribeirão das Anhumas, que naqueles tempos era um triste córrego, esgoto a céu aberto. Quem estava no trem, de longe, sabia o ponto exato da casa de meus avós porque havia duas árvores, rentes à linha, quase em frente à Rua Antonio Bonavita. Às vezes, ficávamos aguardando o trem ao lado dessas árvores e era possível ouvir com clareza as palavras de despedidas ditas pelos passageiros. De lá, também, avistávamos o bonde, com o barulho do motor propulsor, mais a haste arrastando-se na rede elétrica, fazendo som peculiar. Eu adorava bondes.

Os bondes de Campinas tinham as laterais abertas e os bancos eram sem divisões, indo de uma lateral à outra. Sobre os estribos o trocador cobrava as passagens e o motorneiro seguia tranquilamente para seu destino. Quando muito frio, ou com chuva, havia uma espécie de cortinas que fechavam as laterais, protegendo as pessoas das intempéries do tempo.

José e Maria, meus inesquecíveis avós.
José e Maria, meus inesquecíveis avós.

Eram tempos felizes porque éramos dez netos aboletados na casa dos avós, brincando, lendo revistas, assistindo televisão que, pra nós, era grande novidade. Falava-se muito! Uma pequena pinimba entre meu padrinho Nino e meu tio Manoel questionava qual seria a maior cidade: Ribeirão Preto ou Campinas. Tio Manoel, de Ribeirão, afirmava ser esta maior que Campinas. Pra tirar a teima o tio Nino resolveu nos levar até ao mirante do castelo, para lá de cima constatar o quanto Campinas era maior que Ribeirão Preto. Hoje, infelizmente, o Google resolveria a questão em segundos; graças a Deus, sem a web, ganhamos um belo passeio no domingo seguinte, pela manhã. De bonde!

Dito e feito, no domingo seguinte dez netos saíram da cama e foram constatar o tamanho de Campinas nos anos de 1960. Voltando pra casa, era mês de janeiro, viemos em outro bonde, uma linha que terminava na Avenida Nossa Senhora de Fátima. Uma tempestade imensa caiu sobre a cidade e, já quase molhados no bonde, descemos sob a chuva para a casa da avó, ensopados e felizes. Não recordo nada ruim desse dia. Estávamos encharcados e famintos, doidos pra chegar e almoçar as delícias feitas por nossas mães, nossa avó.

Depois, já crescido, habituei-me com velha piada do mineiro que compra bondes. Eu compraria bondes; muitos! Em um país tropical, como o nosso, ter meios de transporte arejados seria sinal de inteligência. Evitaríamos todas as mazelas do ar condicionado, da lataria quente dos meios atuais. No final desta semana, em Santos, em frente ao hotel estava o bonde que me fez escrever esta história, lembrar o porquê de gostar tanto desse meio de transporte. Bonde me traz a Campinas dos meus avós, de toda a minha família, de reuniões de férias sempre alegres e cheias de brincadeiras.

Bendita internet. A rua, a esquina e o espaço onde estavam as linhas.
Bendita internet. A rua, a esquina e o espaço onde estavam as linhas.

Bendita internet. A casa ainda está lá. Vejo alterações, fico ressentido e não me permito divulgar imagem de uma casa que já não é mais nossa. Mas, o outro lado… Das linhas, raros sinais. Nem trem, nem bonde. Sem acenos, sem poesia.  Pelo menos há árvores e, me parece, pássaros, espaços para lazer. Todavia, eu adoraria ouvir aquele barulhinho do bonde, passando tranquilo, arejado, indo e vindo, incansável e, na minha lembrança, cheio de pessoas felizes.

Até mais.

Claudio Barros expõe em Campinas

claudio barros convite

Feliz e orgulhoso em poder divulgar o trabalho de Claudio Barros, artista cuja trajetória acompanho desde quando ele chegou de Ouro Preto, onde havia iniciado carreira profissional. Artista plástico carioca radicado em São Paulo, Claudio trabalha com xilogravuras, têmpera acrílica e desenhos à óleo sobre papel.

Começa hoje, 19 de março, a exposição CLAUDIO BARROS, PINTURAS, DESENHOS E GRAVURAS no Espaço Cultural do TRT, localizado na Rua Barão de Jaguara, 901, 1º andar, Campinas – SP.

O texto abaixo, sobre o artista e a exposição, foi escrito especialmente para a apresentação/divulgação do evento. Vale a pena conhecer.

A AMBIGUIDADE ENTRE O ESPAÇO E A MATÉRIA NA PINTURA DE CLÁUDIO BARROS

claudio barros pintura 1

Olhando lá para trás na carreira longa do pintor Claudio Barros, entrevemos um namoro inicial com Matisse, com o cubismo – na sua veia mais colorida – e com o Robert Delaunay pré-abstrato. A explosão de cores, a estrutura compositiva que desafia as leis da perspectiva em obras como “O sonho” e “Viaduto ”, ambas de 1989, são provas desse interesse inicial do artista. 

Se, ao contrário, observamos os seus ciclos de pinturas mais recentes, como as séries “Jardim e portão” (2006-2008) e “Plantas (coloquei esse nome, pois falta um título para a ‘série’)” (2010), vemos que as primeiras “paixões” foram aparentemente abandonadas, mas sem deixar de fornecer as sementes que brotariam numa obra original e autônoma. Vemos que as cores intensas – herança do fauvismo através dos mestres citados – deram lugar a cores tênues e em harmonia entre elas, ao invés dos fortes contrastes iniciais; e, ainda, que a fragmentação espacial foi substituída por planos mais amplos. Permanece, porém, do antigo “namoro”, a interpenetração dos vários planos espaciais – realizada, entre outros recursos, através da densidade da matéria pictórica. Por exemplo: as linhas, nas telas de “Jardim e portão”, sugerem a profundidade espacial, que, entretanto, é desmentida pela própria, densa matéria das tintas na superfície do quadro; e, em “Plantas”, ramos, folhas e flores parecem incrustados no muro que lhes serve de fundo, num inesperado efeito “marchetaria”. 

As obras de Claudio Barros são construídas a partir dessa ambiguidade; e, dessa forma, os mais simples e humildes temas figurativos – um canto de quintal, um portão de ferro, uma planta ao longo de um muro – transcendem o seu caráter casual para abraçar uma reflexão sobre a natureza da própria linguagem visual. São elevados de simples descrição a afirmação do artista às voltas com a sua linguagem, com uma expressão independente de qualquer referência temática externa.

Entre os diálogos iniciais com os mestres da arte moderna e esses ciclos mais recentes, flertando ocasionalmente com a pintura abstrata e matérica e sempre tendo como fio condutor a ambiguidade entre espaço e matéria, Claudio Barros dá provas de uma criatividade e de uma curiosidade inesgotáveis.

Roberto Carvalho de Magalhães
Prof. de História da Arte e Ciência dos Museus
Università Internazionale dell’Arte (Florença, Itália)

 

Quem tem dois corações…

diadosnamorados

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Quem tem dois corações

Me faça presente de um

Que eu já fui dono de dois

E já não tenho nenhum… (1)

Ah! O nome da minha primeira namorada… Ela tinha cabelos loiros, encaracolados e um sorriso gracioso. Morava nas proximidades da minha casa e conhecemo-nos no primeiro ano de escola. Foi ela que se disse minha namorada… E eu gostei da ideia. Lembro-me dela muito bonita, cheia de laçarotes, vestidos rodados, bonita mesmo!

Botão de rosa menina

Carinhosa, pequenina

Corpinho de tentação

Vem morar na minha vida

Dá em ti terna guarida

Ao meu pobre coração (2)

O tempo passou… O primeiro amor, se é que se pode chamar de amor, veio quando vi dois olhos negros, profundos, de uma moreninha saindo da igreja no final de uma missa dominical. Demorei pra me aproximar e, tímido, passei meses andando de bicicleta pela rua onde ela morava. No bairro onde nasci, quando criança, eram muitas áreas por construir, transformadas em “campinhos” para brincadeiras. Foi em uma tarde nessas tais brincadeiras que tive a certeza, pela primeira vez, do interesse dela por mim. Passou, e a última vez em que estivemos próximos, foi durante um show do Roberto Carlos.

Se você quer ser minha namorada

Ah! Que linda namorada

Você poderia ser

Se quiser ser somente minha

Exatamente essa coisinha

Essa coisa toda minha

Que ninguém mais pode ser… (3)

Tempo… Tempo… E aconteceu o primeiro beijo, bem distante da minha Uberaba, vindo de uma descendente de italianos, em Campinas, interior de São Paulo. Um namoro de férias, que durou um pouco mais. Dela recebi as primeiras cartas, cartões perfumados, fotos com dedicatória carinhosa; tudo guardado no baú de lembranças que há dentro do meu peito. Veio a adolescência, braba! E adolescente, sabe como é…

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo

Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora

Que amava…

Carlos amava Dora que amava

Pedro que amava tanto que amava a filha que amava

Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha  (4)

De repente, tudo ficou sério. Namoro deixou de ser descoberta pra ser ensaio, projeto para uma vida a dois. Ideais muito distintos e os conflitos, inevitáveis quando não se sabe ao certo por onde irá a vida, onde aportaremos o barco, de que maneira atuaremos profissionalmente para ganhar o pão nosso de cada dia. Aqui deixo de falar de namoradas, recordando os desencontros da vida, as separações doloridas. Lembrando, agora, foi tudo muito bom, mas então, naquele instante, quando não deu certo… O tempo digeriu mágoas, serenou ânimos. Cada um pro seu rumo, construindo a própria história.

Quando me lembro da minha bela mocidade

Tinha tudo à vontade, brincando no boi de Axixá

Eu brincava com você naquela praia ensolarada

A sua pele bronzeada eu começava a contemplar… (5)

O amor concebido como troca, complemento, doação, veio só quando já adulto. Natural que assim fosse. A vida,todo mundo sabe, é um constante aprendizado. Não posso dizer que tenha sido perfeito, que estávamos prontos para viver o amor. Mas por ser troca, complemento e doação, foi incrivelmente melhor que tudo o que eu havia vivido anteriormente.

Quero-te mais do que imaginas ser possível

Te trouxe um búzio mágico dessa viagem

Marinha melodia ao pé do teu ouvido

Já que pensas que sou um marinheiro audaz… (6)

Era uma vez… E aqui estou eu, em véspera do dia dos namorados. As coisas não se repetem e, graças aos céus, melhoram. Resta-me viver intensamente o agora enquanto condição para a tranqüilidade e sanidade futura. Assim sigo em frente!

…da cor do azeviche, da jabuticaba

E da cor da luz do sol, eu te amo!

Vou dizer que eu te amo!

Sim eu te amo, minha flor… Eu nunca te disse.

Não tem aonde caiba, eu te amo.

Sim, eu te amo.

Serei pra sempre o teu cantor. (7)

Quem tiver sem amor, esqueça a timidez, a preguiça e vá à luta na noite de Sampa, na noite do Brasil.. Não foi por acaso que comecei este texto lembrando os lindos versos de FERNANDO PESSOA, musicados por FERNANDO MENDES e cantados pela MARIA BETHÂNIA. Já que namorar é muito bom, vale repetir a trovinha, desejando que todos possam namorar um pouquinho! E amar “bastantão”!

Quem tem dois corações

Me faça presente de um

Que eu já fui dono de dois

E já não tenho nenhum

Quem tem dois corações… (8)

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Até!

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Notas Musicais:

(1),(2) e (7) – Quadrinhas – Fernando Pessoa, musicado por ROBERTO MENDES.

(3)Minha Namorada – Vinícius de Moraes e Carlos Lyra

(4)Flor da Idade – Chico Buarque

(5)Bela Mocidade – Donato e Francisco Naiva

(6)Todos os Lugares – Tite de Lemos e Sueli Costa

(7) Eu te amo – Caetano Veloso

Publicado originalmente no Papolog em 12/06/2009 e atualizado em junho de 2013/Valdo Resende.

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Eu quis falar do meu amor

Penso não ser o único maluco a guardar na cachola trechos de canções, frases melódicas acompanhadas de letra ou não. Poderia elaborar uma bela lista caso soubesse o nome da canção, os autores, os intérpretes. Obviamente que algumas dessas canções caminham comigo desde a infância, ouvindo minha mãe ou minhas irmãs cantarolando enquanto trabalhavam, outras vieram das minhas andanças por aí.

A tarde reservou-me agradável surpresa quando comecei a ouvir e reconheci uma canção do tempo em que fui adolescente. Foi como algo de há muito perdido que, de repente voltou e, junto ao som, imagens com total nitidez.

Nesse momento

Nosso romance começou

Todo esse tempo

Eu quis falar do meu amor

E dizer quanto eu espero

Envolver-te em meus braços

Vendo o dia amanhecer

Fui adolescente típico. Daqueles que ficam trancados horas no banheiro, outro tanto frente ao espelho; também estive entre os que adoram a madrugada como refúgio seguro para viver “longe do olhar dos adultos”, que teimam em intrometer-se onde não são chamados.

Chacrinha com Wanderléa, na TV tanto quanto na rádio Globo.

Altas horas, todos recolhidos, meu irmão tendo ido para Brasília, reinava absoluto em meu quarto e, através do rádio, viajava todas as noites para o Rio de Janeiro. Ouvia o programa de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, via Rádio Globo AM. O famoso apresentador estava em casa, já que foi no rádio onde iniciou a carreira. Não posso precisar as horas, mas eram altas, muito altas horas. Papai acordava de madrugada e vendo a luz acesa no quarto dava-me broncas homéricas, obrigando-me a desligar o rádio e ir dormir. Habituei-me a colocar um pano para impedir a luz de atravessar pelas frestas da porta e ouvia baixinho, a música que voltou na tarde deste domingo para reavivar lembranças.

Eu te amo tanto

Que eu não sei como explicar

Todo esse encanto

Que vem fazer eu te adorar

Se eu perder os seus carinhos

Vou sofrer demais sozinho

E de saudade vou morrer

Desse período, ainda em Uberaba, algumas músicas permaneceram fortes na lembrança e poderia jurar que “Eu quis falar do meu amor” seria dessa época. Acontece que é uma gravação de Junho de 1973. Junho não é mês que esqueço, já que nasci no próprio e, em 1973 eu estava às voltas com o serviço militar, já distante de Uberaba, morando com meus avôs, em Campinas, no interior de São Paulo.

Se alguém me perguntasse uma música de 1973 eu diria “Goodbye, Yellow Brick Road”, de Elton John e todo o LP “Drama, 3º Ato”, gravado ao vivo por Maria Bethânia. Venho mantendo essas e muitas outras canções na memória e, de vez em quando, fico cantarolando algumas e outras; entre essas outras…

Nesse momento

Nosso romance começou

Todo esse tempo

Eu quis falar do meu amor…

Wanderléa, muito além da Jovem Guarda.

Hoje, ouvindo os primeiros acordes da canção fui mágica e rapidamente transportado no tempo, no espaço. Foi um agradabilíssimo encontro com a velha canção que não sabia mais de quem era, quem cantava, que nome tinha.  “Eu quis falar do meu amor” é de Roberto Correa e Jon Lemos e foi gravada em 1973 por Wanderléa. Essa e outras canções estão na caixa “Wanderléa Anos 70”. São seis CDs e parei no primeiro, embevecido com a canção da qual guardava fragmentos na memória. Sobre os CDs, sobre as demais canções escrevo em outro momento. Agora, por enquanto, “Eu quis falar do meu amor”…  E que amor, Wanderléa!

Eu te amo tanto

Que eu não sei como explicar

Todo esse encanto

Que vem fazer eu te adorar…

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Boa semana para todos!

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Nota: Encontrei uma reprodução no Youtube. Para conhecer a canção clique aqui.