
Grandes prazeres: cantarolar Caymmi e caminhar pela orla, sentindo o mar acariciando os pés, ondas ligeiramente maiores roçando o calcanhar. Acompanhar com o olhar cada navio que parte, deixar o pensamento vagar enquanto o sol se põe. As nuvens nunca repetem o desenho e o mar varia de cores e formas, refletindo o céu. Os pássaros mergulham em busca de comida. Estou com 69 anos!
Devagar, tentando ouvir o que o mar tem pra dizer, sonho com Dona Yemanjá emergindo bela, doce e, do céu espero o disco voador que tarda em vir dar um oi. É só o que quero: um oi! Dela e dele. Não tenho paciência pra vagar de bolota em bolota por entre galáxias desconhecidas e ainda não sei nadar, quanto mais mergulhar. Será que farei 70?
Em devaneios de décadas passadas pensava que morreria aos 35 anos. Não tinha nenhuma marca externa, nenhum trauma desses que os anos nos presenteiam. Vivi além do limite pensado e carrego lembranças e dores. Essas últimas brincam, aqui e ali, doendo cada dia um pouco e em pontos distintos, fazendo-me ter certeza de estar vivo. O coração palpita, o fôlego está longe de suportar uma corrida. São 69 anos!
Outro dia uma amiga, aos 77, me disse, referindo-se também à irmã de 75: “Quando a gente ficar velha, a gente vê o que faz. Por enquanto vamos levando, né!”. Como ela, também não sinto o peso e o limite que a idade impõe. Em mim está um ser que não é aquele da adolescência, nem o mesmo da juventude, da idade adulta. São “eus” retidos em imagens. Eu, eu mesmo, abstração da linguagem, não tem idade e, óbvio, se penso no porvir espero que venha sem mais cicatrizes e nenhum parafuso pelo corpo – cinco me são suficientes. O pensamento, ágil, com pretensa lucidez e com a força dos sonhos não contabiliza nada, precisando de maquininha até pra somar boletos. Vai-se vivendo e deixo pra quem me lê as piadas com as possibilidades imaginadas para um 69.
Das habilidades adquiridas com o tempo ressalto o fato de recolher o que cai com a força do meu hálux. Uma folha de papel, um garfo, qualquer peça de roupa, tudo sai do chão suspenso pela precisão do Dedão. Ops, tamanha habilidade não carece de ser chamado de dedão, é Hálux. No cotidiano o hálux, junto ao segundo dedo, recolhe coisas de diferentes tipos e tamanhos que as mãos deixam cair. Nessa tarefa me autodenominei “Macaca da Bela Vista” e sigo feliz sem precisar abaixar a cabeça e cair de cara no chão. Já pensei em campeonato de catar coisas com os dedos do pé. Quem pegar mais objetos em um minuto ganha um café.
Estou mais rueiro que antes. É que o mundo é tão belo, Santos é tão bonita que não dá pra ficar dentro de casa sem ver os jardins floridos, os pássaros voando pelos canais, o sol coroando o céu azul, ou o horizonte pleno de nuvens carregadas, com vento ou calor intenso, ou chuva. Em casa, não perco a oportunidade de olhar para a Serra, os navios, as pombinhas nos telhados, as rolinhas buscando comida nos passeios públicos. É bom estar com 69 anos!
Continuo amando muito! E Deus me deu um grande amor na maturidade. Tenho muitos amigos e, vez ou outra, sempre chega mais gente. Tenho lembranças e saudade porque fui agraciado com memória e reconhecimento. Até aqui eu vivi um bocado! E danem-se as ideias de jerico de achar que morreria aos 35! Danem-se as dores e os incômodos, meros sinais de que, ainda vivo, devo aproveitar o tempo que me foi dado. Que venham outros dias, outros anos, vários natalícios. Afinal, o que são 69 comparados com a idade da terra?







