O Artbook54 e o meu ego

 

artbook 54
O lançamento será na Quanta Academia de Artes, dia 20/01, 14h

Sorry! Folhear um trabalho como o Artbook54, de um artista como Octavio Cariello, e deparar-se com a própria imagem é para jogar o ego lá pra estratosfera. Então… lá estou eu entre personagens reais e imaginários; um, entre muitas personalidades desenhadas, esboçadas ou recriadas em divertidas caricaturas desse artista genial. E não são só pessoas; há logomarcas, fontes, quadrinhos… toda uma gama de trabalhos que comprovam a qualidade inegável do autor.

Ego é uma coisa doida. A gente tenta controlar, mas foi pegar o Artbook54 e, ao folhear, disfarçar a ansiedade, engolir a pergunta “- cadê eu?”. Ainda havia outra curiosidade: qual, entre os vários trabalhos feitos em conjunto, foi colocado no livro; das vezes em que tive o privilégio de ser desenhado, qual caricatura foi escolhida?

Serenada a vaidade vejo muito além da minha face; acompanho a carreira de Octavio Cariello em São Paulo desde quando ele chegou por aqui vindo de Recife. Os primeiros trabalhos, os primeiros grandes êxitos. O grande talento reconhecido quase que de imediato, colocando-o em pouquíssimo tempo na galeria dos melhores desenhistas nacionais, com prêmios e, sobretudo, o testemunho dos maiores entre seus pares.

Recordo os primeiros desenhos em que descobri estar diante de alguém com uma capacidade incomum em captar ângulos, descrever nuances, registrar faces e aspectos inusitados da forma. Também, entre amigos, ele brincava com guardanapos enquanto tomávamos cervejas na noite paulistana, desenhando com caneta esferográfica, conquistando a admiração de quem dividia a mesa conosco.

A loucura do sujeito – aquela do surto de quem não se cansa de criar – é perceptível na criação de fontes, onde o velho e bom alfabeto ganha nuances particulares, únicas, em mínimos detalhes que permeiam cada letra e que, em si, constituem-se numa família tipográfica. É a loucura do detalhe; de quem observa de tal forma que consegue recriar entre milhares a forma única. Doido!

cariello e eu
Que orgulho!

Este texto é passional. Fazer o que? A capacidade criativa e o talento de Octavio Cariello são inegáveis e, repito, – Sorry, estou no livro! Divido uma página com David Bowie, Clarice Lispector, Marcelo Campos, Alan Moore… E não é só. Há outra em que estou ao lado do próprio Cariello, registro do livro Alterego organizado por ele onde participei com um conto. Pura satisfação! Boa sorte, Cariello! Obrigado! Vamos curtir este livro, pois com certeza, outros virão!

O Artbook54 está no mundo. O lançamento será no próximo sábado, 20 de janeiro, a partir das 14h, na Quanta Academia de Artes (Rua Doutor José de Queirós Aranha, 246, perto da estação do metrô Ana Rosa). Todos estão convidados!

Até lá!

Este texto não é de Clarice Lispector

Clarice Lispector
Clarice Lispector

Determinados nomes, tudo indica, garantem a qualidade de textos da mesma forma que boas marcas estabelecem credibilidade para produtos ou serviços. O sujeito escreve uma asneira e para obter a fé das pessoas tasca um Carlos Drummond de Andrade, uma Clarice Lispector como autores. Este texto não é de Clarice Lispector; nem de Mário Quintana, nem de Fernando Pessoa, Luis Fernando Veríssimo ou outro grande escritor. É meu; assumo os riscos e responsabilidades!

Clarice Lispector é vítima constante de pessoas que nunca leram um romance ou um conto escrito por ela. Há alguém que publica uma bobagem piegas e alguém que compartilha. Uma conhecida defendeu o direito de compartilhar por achar “bonito”. Ok, mas além da questão estética, há a ética! Aquela “coisa” que nos leva a fazer o que é correto.

Há quem não dê importância ao fato. Que mal há em dizer que tal texto seja de Mário, Fernando ou Carlos? Demonstram de cara a total incapacidade em perceber a distinção entre um e outro. Se não valorizam o trabalho artístico, compreendem o que seja arte? Sempre me pergunto se essas pessoas são capazes de criar alguma coisa – um texto, um poema, uma canção, um quadro. É muito fácil “palpitar” sobre o que outros fazem; mais fácil copiar e alterar aquilo que foi criado após intenso trabalho.

Quem atribui autoria de baboseiras à Clarice Lispector sabe, por exemplo, que ela trabalhava com uma máquina de escrever no colo enquanto cuidava do primeiro filho? Que isso passou a ser mania e que ela tinha o hábito de acordar as três, quatro horas da manhã?  Que anotava todas as idéias para depois organizá-las em seus textos? Que para sobreviver, além de escrever livros, escrevia também para jornais e fazia traduções? Será que conseguem perceber a importância desses fatos naquilo que foi criado – escrito – por ela?

Direito autoral é uma questão delicada que vai além da questão financeira. Somos “autores” quando preparamos uma simples refeição e sabemos que uma pitada de sal dada por outrem pode desandar tudo. Somos criadores da composição que resulta no que chamamos de nosso visual e não permitimos que mudem nosso “estilo”.  Não costumamos admitir que alguém altere a decoração de nossa sala, nosso quarto… No entanto, quando a criação é do outro nos permitimos toda a sorte de opiniões, sugestões e até alterações não solicitadas.

Quando o assunto é dinheiro, tudo se torna mais delicado. As pessoas param o trabalho, feito relógios, quando terminam o expediente. Também não admitem trabalhar uma hora que seja sem a devida remuneração. Há aquelas que cobram por conselhos e até mesmo pela companhia de alguns minutos. Adoram ostentar marcas e não titubeiam em pagar por elas, mesmo com a consciência de que pagam um “valor simbólico” – calças jeans são todas do mesmo tecido; paga-se a marca. Quando questionadas sobre o valor de poemas e canções discutem, ponderam; algumas acham exagero pagar por uma poesia mesmo admitindo total incapacidade de criar alguns versos até para o ser amado.

Há vários casos de processos de pessoas reivindicando direitos autorais. Há um, envolvendo o nome de Clarice Lispector (Conheça clicando aqui) de um poema que, na internet, foi divulgado como sendo dela. Atualmente há, na novela Malhação, uma personagem que fala todo tipo de coisa sempre começando por algo do tipo “- Já dizia Clarice Lispector”. A personagem repete o comportamento verificado nas redes sociais e associa alguns absurdos ao nome da escritora. Não sei se há algum acordo entre a Rede Globo e os herdeiros de Clarice Lispector. Não é de se esperar que uma TV aberta e comercial tenha algum compromisso com a formação do cidadão; resta lamentar.

Infelizmente tenho a certeza de que meu texto não mudará em nada o hábito das tais pessoas que usam o nome de um grande escritor indevidamente. Gostaria, porém, que elas pensassem sobre as dificuldades de quem escreve; de quem lida com a língua, com uma linguagem.  Todo indivíduo tem a noção da dureza do próprio trabalho; do quanto é difícil, complicado, árduo. E é por isso que, incoerentemente, concluo este texto citando Clarice:

“A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.”

Creiam-me todos; esse período nada fácil é de Clarice Lispector. Está em “A Paixão Segundo G.H.”, romance publicado pela Editora do Autor, no Rio de Janeiro, em 1964.

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Até mais!

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Porto incerto para filme com Glória Pires

Miranda Otto, Glória Pires e Tracy Middendorf. As atrizes de “Flores Raras”

Visto pela poetisa Elizabeth Bishop, o Brasil era colonizado, atrasado. Um paraíso de natureza exuberante e gente provinciana. Bishop faleceu em 1979. Morou por aqui por mais de 20 anos, com passagens pelo Rio de Janeiro, Petrópolis e Ouro Preto. Viveu um intenso romance com a arquiteta Lota de Macedo Soares. A história de ambas estará no filme “Flores Raras” que corre o risco de não ser concluído por falta de patrocínio.

É inacreditável pensar que um filme estrelado por Glória Pires não consiga patrocínio. O diretor Bruno Barreto e membros da família de produtores já denunciaram que as empresas recusam patrocínio. O projeto não é recente; já foi chamado “A Arte de Perder”, sempre com Glória Pires encabeçando o elenco. Segundo os produtores, o patrocínio não sai porque as empresas não querem associar a própria imagem com homossexualismo. É praticamente autocensura, já que a imposição não vem de fora. É o encarregado de decidir para onde vai a verba da empresa que julga impróprio a história de amor entre duas mulheres.

Regina Braga, dirigida por José Possi Neto, no texto de Marta Góes

Foi no teatro que tomei conhecimento da história dessas mulheres, através do monólogo  “Um porto para Elizabeth Bishop”, escrito por Marta Góes. Fui ver Regina Braga no Teatro Anchieta com certo temor. Monólogo é sempre um risco. Se a gente não gostar nos primeiros dez minutos, tudo fica pior, pois há a certeza de que ninguém entrará em cena para mudar o jogo, quebrar a monotonia, salvar a noite. Fui surpreendido pelo texto maravilhoso de Marta Goés, a interpretação soberba da grande Regina Braga e sai do teatro apaixonado pela poesia de Bishop.

A poetisa America amava Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector. Foi amiga de Manuel Bandeira. Traduziu esses e outros para o inglês – ela nasceu em Worcester, Massachusetts – divulgando nossos autores em textos para revistas especializadas, em cartas onde, por exemplo, afirma o grande clássico que é Machado de Assis. Como autora recebeu vários prêmios, entre eles o Pulitzer e o National Book Award. Mulher, foi alcoólatra, frágil, passou a vida lidando com perdas.

Glória caracterizada como Lota Macedo

Bishop chegou por aqui em 1951 e conheceu Lota de Macedo Soares. Esta foi amiga de Carlos Lacerda e foi responsável pela construção do parque no Aterro do Flamengo. Lota era uma mulher aparentemente forte, decidida, intensa. Todavia, essa mulher passa por um colapso nervoso; depois tem um diagnóstico de arteriosclerose.  Falece em New York, após ingerir grande quantidade de barbitúricos. Fico imaginando Glória Pires interpretando tudo isso e em inglês. As duas conversavam na língua de Bishop e o filme será quase todo em inglês. Glória Pires irá, mais uma vez, arrebentar.

“Flores Raras” pode não sair por falta de patrocínio. Orçado em 11 milhões, faltam R$ 2 mi para concluir as filmagens. Fico imaginando se o empresário, metido a censor, já leu algo de Elizabeth Bishop. Sei de três livros da poetisa publicados no Brasil. A peça de Marta Góes – será que o tal empresário viu? – é sucesso de público e crítica. A visibilidade do filme será internacional, já que a americana Miranda Otto interpretará Bishop, além do que, a comunidade literária internacional estará atenta para o resultado cinematográfico da biografia de Elizabeth Bishop.

A família Barreto já comprovou, mais de uma vez, a capacidade para fazer sucessos e, com Glória Pires, chegaram ao Oscar em “O Quatrilho”. Nesse Brasil de doidos – ou preconceituosos – troca de casais, pode; casal de mulheres não? Vamos ver no que dá e torcer para, mais uma vez, sair de casa para admirar o trabalho primoroso da atriz Glória Pires que, só por ser quem é, não merece ter um filme truncado por gente preconceituosa.

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Bom final de semana.

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Notas: “Uma arte” e “Esforços de afeto” são livros de Elizabeth Bishop publicados no Brasil. Além desses, com um estudo introdutório muito bom, há uma seleção de Paulo Henriques Britto: “Elizabeth Bishop – Poemas do Brasil”. Todas essas publicações são da Companhia das Letras.

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