Maçã matutina ao desvario: Uma receita

Esta maçã já era!

Linda, suculenta, desejável, cheirosa, apetitosa… e por aí vai. E dá-lhe dentadas. Várias. E toca a mastigar uma, duas, trinta vezes para que a casca seja triturada. O pensamento voa para a primeira vez que vi a Branca de Neve. Não é bom aceitar coisas de estranhos, ensina a história infantil. Maçãs podem estar envenenadas. Com os tais agrotóxicos, quase todas estão envenenadas! Saudade do quintal da minha tia Isaura. Havia uma macieira e ela não usava nada além de água para nos garantir frutas deliciosas.

Branca de Neve vivia com 7 anões (danada!) e após comer a maçã ganhou um príncipe de brinde. Abriram-se as portas do prazer para a mocinha, que seguiu os caminhos de Eva. Dá para imaginar o planeta sem a mordida dada por Eva? Recordo uma cena muda no cinema. Imagens belíssimas, casal bonito andando entre folhas escondendo as partes e, de repente, aparece a serpente. Eva aceita, dá – a maçã – para o Adão e… Vento, calor, frio, dor e prazer. O filme não mostra o casal descobrindo o como se faz indo direto para os filhos. Seriam esses o real castigo divino? “Não diga isso, meu filho”, diria minha mãe, “filhos são bençãos”.

Tenho preguiça de comer maçã. Demora muito e tem um quê de enganar trouxa. A gente para na fruta, não comendo mais nada, cansado de mastigar. Pensa estar saciado, mas não dura muito para que a fome venha, feroz, exigindo “arroz com feijão e um torresmo à milanesa”, para lembrar Adoniran Barbosa e sua música que, certeira e atual, informa a realidade de muitos: “Trouxe ovo frito, trouxe ovo frito” diz o Dito do samba. Certamente não há maçãs de sobremesa nas marmitas desses operários. Também, demorando tanto para mastigar… melhor algo que se coma mais rápido, para logo “puxar a paia” após o almoço.

Os Stollens, cuja receita não vai maçã, e Rita, que faz apfestrudell e outras delícias.

Maçã é fruta cheia de coisas. Quer dizer, uma maçã é só uma maçã. O que estou pensando após o almoço do parágrafo anterior é que torta de laranja é torta de laranja. Já a torta de maçã é apfelstrudell e, segundo consta, a receita vem da Áustria. Rita Della Rocca, minha amiga, faz essas coisas austríacas tipo stollen, que é um panetone austríaco e, segundo o deus google, a receita vem de Dresden. Vou deixar aqui um link para a página do Instagram da Rita que é artista plástica, cenógrafa, professora trabalhando com eco design e cozinha de família.

Último naco da minha maçã que, agora, só existe na foto, na lembrança e temporariamente no meu estômago…

Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais…

Adoro essa canção. É do Raul Seixas em parceria com o Paulo Coelho e, embora duvide da igualdade das maçãs e acreditar firmemente “que além de dois existem mais” espero ainda nesta encarnação poder viver, na real, os versos:

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro mas eu vou te libertar…

Maçã é uma fruta demorada para se comer. Não é bom para cafés da manhã de quem está em cima da hora para ir ao trabalho. Maçã é bom para Branca de Neve fazer apfelstrudell para a felicidade dos anões mineiros, antes de saírem buscando seus diamantes. Também é uma fruta boa para despertar Adões distraídos. “Venha cá, Adão! Experimente minha maçã!” sem esquecer de um bom preservativo ou outro anticoncepcional… Enfim, maçã é boa para Euzinho, cheio das manhãs preguiçosas, podendo degustar vagarosamente enquanto vou pensando e matutando sobre esse texto que, para finalizar, deseja boas maçãs para todos e envia um beijo especial para Rita, a Della Rocca.

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Notas:

– Torresmo à milanesa, primeira canção citada acima, é de Adoniran Barbosa e Carlinhos Vergueiro. Os autores fizeram uma gravação inesquecível, com participação mais que especial de Clementina de Jesus.

– A maçã, de Raul Seixas e Paulo Coelho foi gravada algumas vezes. Em enquete totalmente pessoal e com participação exclusiva do autor deste blog, a melhor interpretação é a de Ney Matogrosso.

– Visitem o link da Rita Della Rocca e entrem em contato com a artista para encomendas. Super recomendo!

Versos de mulher para um samba com amor

Menina linda, desde criança tinham-na por musa. Da família, sendo neta primogênita; do colégio, entre as coleguinhas e da Escola de Samba Bambas do Amanhecer. Tina “Nasceu para ser amada, idolatrada, salve! Salve!” dizia o pai. Deste guardava o som de cada palavra, o sorriso sereno, a força ao levantá-la e jogá-la para o alto no “salve, salve! Minha Tina!”.

Entre os sambistas percorreu o caminho natural das crianças da Agremiação. Foi destaque da ala mirim, rainha da Turma do Amanhã e, adolescente já desfilava entre as musas da bateria onde um dia deveria ser rainha. Fazendo jus aos seus Tina tinha samba no pé, ginga e graça somadas à uma beleza que dispensava fantasias mirabolantes. Também não carecia de adjutórios, balangandãs, reforçava a avó com o familiar “Nasceu para ser amada, idolatrada, salve! Salve!” repetindo a frase paterna, o homem já falecido em desastrada batida policial.

Ao longo de décadas de história os membros da Agremiação Cultural Escola Bambas do Amanhecer não perderam sua característica primordial: um grupo que conservava o jongo, os sambas de roda, as tradições herdadas dos avós. Com grande destaque para o conjunto percussivo e de cordas que garantia notas máximas em todos os desfiles e campeonatos carnavalescos. E sambistas, muita gente com o samba no pé. Resistindo a imposições externas de patrocinadores, dando de ombros para as balelas dos imbecis narradores televisivos, os compositores não abriam mão de música bem elaborada, ritmo sofisticado e envolvente. Samba é arte para fazer gente feliz, o lema nunca esquecido.

Tina, um apelido carinhoso. O nome da menina viera da paixão paterna por Clementina de Jesus, cantora ancestral, força e voz do samba brasileiro, a Quelé da voz marcante e inesquecível. A mãe da garota mantinha características comuns de muitas mulheres: Tina era para os chamados afetuosos, carícias verbais. No entanto, toda a atenção era pouco para quando se ouvia da matriarca o tom imperativo, decidido: “Clementina!”. Crescendo, a menina passou a impedir o apelido, resguardado para lembranças muito pessoais. Se insistiam reiterava que Clementina fora nome escolhido pelo pai, portanto…

Do imenso universo que envolve o carnaval e as escolas de samba, a jovem amadureceu preferências pelos sambas de enredo. Guardava como relíquia discos e fitas antigas de coleção herdada do pai. Admirava Jamelão, o lendário cantor da Mangueira, tinha paixão pelas interpretações de Elsa Soares e evidenciava preferência por enredos com histórias incontestavelmente bem definidas como aqueles assinados por Silas de Oliveira ou Martinho da Vila!

Mas loucamente a Yayá do Cais Dourado
Trocou seu amor ardente
Por um moço requintado
E foi-se embora… ¹

Clementina cantava a Yayá do Cais Dourado, mas não queria ir embora. Deixar sua gente e, principalmente, Valmir, o jovem ritmista que desde cedo foi alvo das atenções e paixões de Clementina. Como não se apaixonar pelo rapaz que, além de manusear instrumentos de percussão com a maior facilidade, ainda criava lindas melodias? Não era bom nos versos, seria pedir demais aos deuses. Palavra era domínio da menina e a dupla passou a brincar, ela com a letra, ele colocando melodia e, ainda tímidos, resolveram esconder até dos familiares os primeiros sambas, inibidos pela qualidade dos excelentes compositores atuantes no cotidiano dos carnavais da Escola.

Dançando nos ensaios, desfilando na frente da bateria, Tina tornou-se jovem e bela, musa querida de todos. Entre um carnaval e outro cumpria compromissos visando a festa, mas o que gostava mesmo era de namorar e compor com o parceiro que a vida lhe deu. Continuavam escondendo o resultado do empenho em criar sambas, principalmente pela vontade de Valmir. “Essas letras são coisas de mulher. Eu ainda preciso aprender a compor versos, ou arranjar um letrista para os meus sambas”.

Quando adolescente Clementina achava atitude normal as imposições do namorado. Temia envergonhá-lo perante a Bambas do Amanhecer dominada por compositores homens. E insegura, achava  que as próprias histórias que contava em suas letras tinham muito dos romances açucarados que gostava de ler. Já crescida, a questão teve seu ápice quando, insistindo em mostrar as criações de ambos para a comunidade, Clementina citou as criações e os grandes sambas de Dona Ivone Lara. O namorado foi cruel para com a menina, ainda insegura: – Você não acha que pode comparar seus versos com “Os cinco bailes da história do Rio?”, lembrando o primeiro samba de enredo da grande compositora da Império Serrano.

Carnaval, doce ilusão
Dá-me um pouco de magia
De perfume e fantasia
E também de sedução…²

Magoada, Clementina evitou briga, mas deixou de fazer versos para as canções do namorado alegando ausência de inspiração. Limitou-se a fazer aulas de dança, fazendo crescer o objetivo de ir além de musa da bateria. Ela pretendia desfilar como porta-bandeira e, para isso se preparava, para ser a representante máxima conduzindo o pavilhão da Escola. Intuía desde há muito que o namorado jamais seria seu Mestre Sala, pois faltava para ele a elegância e a gentileza necessárias para a função.

A vida seguiria cotidiana caso não houvesse grande perda para toda a comunidade. Morreu Antônio Almeida, célebre compositor, letrista e melodista completo, autor por dezoito anos consecutivos dos sambas de enredo da Bambas do Amanhecer. Um acidente causado durante viagem onde o velho compositor comemorava um vice-campeonato no recente carnaval. Passado o choque, amenizada a tristeza, a diretoria da Agremiação decidiu por um concurso para escolher o compositor oficial, aquele que coordenaria seus pares nas criações dos futuros sambas da Escola. Só seriam aceitos participantes da comunidade e estava permitido também o trabalho de duplas, ou trios. Todos se entusiasmaram e Valmir ignorou a parceira de suas primeiras canções que, evitando dissabores, preferiu ficar longe dos preparativos para a competição. A mágoa ficou exposta quando Tina ignorou os trabalhos inscritos pelo namorado.

Da grande final Clementina não pode, nem quis ficar distante. Estava feliz. Valmir fora anunciado entre os finalistas via composição em parceria com o irmão mais velho, Alfredo, um estranho no ninho. A moça jamais soubera ter um cunhado compositor. Presa no trabalho por uma reunião esperada que se alongou, a moça chegou ao evento bem no momento em que a quadra fervia. Valmir subiu ao palco para se apresentar como o grande vencedor daquele concurso. Entre alegre e surpresa, Clementina reconheceu imediatamente antigos versos que escrevera e não conseguiu segurar o desapontamento ante a certeza de não ter o próprio nome entre os criadores da composição.

O que seria uma briga imensa foi abafada pela diretoria, alguns membros da Velha Guarda e pela própria mãe da moça. Quando Clementina denunciou ser também autora, os demais concorrentes exigiram a desclassificação da dupla vencedora. Ficou no disse-me-disse. A mãe de Tina, agora interessada no Presidente da Agremiação ignorou a propriedade intelectual da filha: “Clementina, você não vai nos prejudicar por uma vaidade tola!” A moça, acostumada, obedeceu. O namoro terminou ali. Tudo se aquietou.

O desfile das escolas de samba daquele ano teve como grande marco o primeiro campeonato da Bambas do Amanhecer. Entre a alegria da vitória e a mágoa pela exclusão do próprio nome entre os criadores, Tina presenciou comemorações que atravessaram março, abril. Os compositores vencedores garantiram o direito de compor para os próximos carnavais. Quem iria contrariar? Prêmio merecido, sendo citados por revistas e jornais especializadas que reconheciam inegável poesia dos versos do samba enredo.

No ano seguinte os sambistas começaram a estranhar a demora em que se decidisse o novo enredo. Tradicionalmente, era o samba que determinava o enredo e não o contrário. Com o atraso da dupla, sempre afirmando que buscavam versos melhores que os anteriores, foi exigido que indicassem o tema. Já era o mês de maio e a infraestrutura material já estava comprometida. Tecidos, confecção de adereços e fantasias, projetos de alegorias… já estava na hora das aquisições, encomendas. O ainda apaixonado Valmir, sonhando com uma reviravolta do destino, informou: “Vamos homenagear Clementina de Jesus!”.

Novembro mais do que tenso, pesado. Pressionando a dupla de compositores foi marcada uma noite para apresentação do enredo da Bambas do Amanhecer. A decisão da diretoria foi irrevogável; não esperariam mais um único dia. O que se viu na hora da apresentação foi constrangedor. Uma dupla alcoolizada escorada em boa melodia, sob o som esfuziante da percussão, cantou versos medíocres, indignos da campeã do carnaval. Do constrangimento à revolta foram poucos minutos. Não tardou a que um rival do Presidente em exercício subisse ao palco expondo o dilema e a crise instaurada. A Bambas do Amanhecer não tinha um samba enredo. E o motivo, todos sabiam. A letra do samba anterior fora criado por Tina.

Quando soube do ocorrido, contam, que ela apenas sussurrou: “Mulher não compõe? Então vamos ver”. E após ouvir a melodia, por apenas duas vezes, pegou papel e caneta, pensou no pai e no afeto deste por Clementina de Jesus, na Mangueira, na trajetória da cantora, mãe querida de todos os sambista. Em poucos minutos redigiu os versos que, naquela mesma noite foram apresentados e aplaudidos por todos os presentes na quadra. Tina foi declarada compositora oficial da Agremiação Cultural Escola Bambas do Amanhecer. A moça não titubeou em corrigir quando foi anunciada: Clementina! Meu nome é Clementina Maria dos Santos.

Fevereiro. Carnaval. Entrou na avenida como destaque do carro de som, com faixa não de rainha, a compositora Clementina Maria dos Santos, entoando com alegria o seu samba enredo: “Versos de mulher para Quelé, um samba com amor!”. Exigiu que Valmir desfilasse bem atrás, escondido no meio de vários instrumentistas. E na semana seguinte, durante o desfile das campeãs, passou pelo sambódromo carregando sozinha o troféu de melhor samba de enredo do ano.

Valdo Resende / Fevereiro de 2022

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Notas musicais:

1 – Yá-ya do cais dourado é composição de Martinho da Vila para a Unidos de Vila Isabel, em 1969.

2 – Os cinco bailes da história do Rio, enredo da Império Serrano de 1965, é composição de Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara e Bacalhau.

A maior!

Semana em que Elis Regina e Nara Leão estão em foco na mídia brasileira. Que ótimo relembrar e homenagear essas artistas extraordinárias. Nas diferentes matérias sobre as duas cantoras invariavelmente recai sobre Elis o adjetivo maior. “A maior!”. Ninguém discorda; nem deve, nem pode. No entanto…

Provavelmente por sermos subdesenvolvidos, nós, brasileiros, tenhamos essa coisa do tamanho das coisas. O maior estádio, a maior usina hidrelétrica, a maior ponte… Esses exemplos arquitetônicos foram utilizados durante a ditadura militar, afinal os caras precisavam de dar motivos de orgulho para a gente do país. Mais ou menos nessa época a própria Elis disse em uma ou outra oportunidade que Maísa era a maior cantora, ou Gal Costa a maior cantora. Para Maria Bethânia reservaram o “a maior intérprete”.

A febre do “maior” veio depois de diferentes reinados. Nostalgia dos tempos coloniais, sem ter por aqui o charme das nobrezas europeias, inventamos títulos para praia – Quem não conhece “a princesinha do mar”? – criamos reis da voz, rainhas do rádio, rei da juventude, rei do baião, rainha da Jovem Guarda e, entre outros, para ficar bem claro que ainda não dispensamos as titulações nem mesmo em plena pandemia, agradecendo o trabalho de Teresa Cristina, elegendo-a Rainha das Lives. Serei sempre grato à cantora e compositora pelas noites em que nos salvou do desespero.

Afeto e reconhecimento estão entre diferentes sensações que caminham junto e em ordem invariável quando citamos nossas referências, nossas preferências. Se concordamos que Elis Regina é a maior, onde colocamos Nana Caymmi, Mônica Salmaso, Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Elza Soares, Maria Bethânia, Alcione, Daniela Mercury? Caramba, ia deixando Dalva de Oliveira de fora, a Gal Costa! A Clara Nunes! Podemos colocar quantas cantoras na tal lista “A maior”?

As cantoras citadas no parágrafo anterior nos legaram (legam, ainda!) registros incríveis de inquestionável qualidade vocal. Todas elas, em um ou outro momento, nos arrebatam com suas interpretações e terão, como disse Elis, “a durabilidade do disco”, o que a gente sabe, graças à tecnologia, que essas vozes deverão estar por muito tempo conosco. Elis e Nara têm histórias peculiares em comum (veja aqui), mas neste texto quero enfatizar outros aspectos.

Nara Leão é páreo – se a gente necessitasse disso – para qualquer artista do mundo quando se coloca a representatividade como parâmetro. Milhares de quilômetros distanciam Nara de Leny Eversong, se pensamos em potência vocal. Sem dúvidas, é possível reconhecer e confirmar que o “fio de voz” de Nara foi mais forte que o de Lenny, ou de qualquer outra cantora. A moça rica de Copacabana norteou a Bossa Nova, subiu o morro e nos legou poesia e protesto, assinou junto com o pessoal da Tropicália e mandou às favas os preconceitos em relação a Jovem Guarda. Não é lero-lero. Comprova-se na discografia!

Elis Regina é páreo – e ela não precisa disso – para qualquer cantora do mundo quando se alia técnica e expressão, potência e domínio vocais. Representou como poucas a época em que viveu, mais ainda, sendo um retrato fiel do brasileiro: o ser batalhador que é arrimo de família, que enfrenta forças adversas para ganhar espaço. Nara, rica, fez o que bem quis e, cá para nós, sorte a dela. Elis, brigou feito fera para fazer o que queria, como queria. Briga com gravadoras, empresários, com o governo, com o universo machista onde transitou, brigas que precisavam levar em conta a necessidade de sustentar os seus.

Legal refletir sobre “a (o) maior” principalmente para uma juventude que, penso eu, confunde o ato de cantar com grito. É só assistir o The Voice” para confirmar a gritaria. É complicado abrir espaço profissional e, nesse país do “a maior” e dos “reis e rainhas de quase tudo”, o jovem já chega por baixo. Esquece a suavidade da Bossa Nova, por exemplo. João Gilberto ganhou o mundo colocando a voz em registro suave, como Nara e, na maturidade, Maria Bethânia. Dóris Monteiro é inesquecível e entre as cantoras atuais, Marisa Monte e Maria Rita sabem dosar potência e suavidade, brindando-nos com momentos deliciosos. Subir a voz é força expressiva. Todo cantor deveria aprender isso com Elis Regina, assim como a professora de suavidade – sem esquecer a precisão da expressão – é Nara Leão. As duas – em polos distintos – representam o que há de melhor em nossa música.

A imprensa usou e abusou da rivalidade entre cantoras. Não voltarei ao assunto (Veja aqui), posto que vejo pouca ou nenhuma novidade sobre a questão. A prática continua. Fora dessa necessidade de audiência, podemos refletir e discutir essa questão da adjetivação dos nossos artistas. São grandes, são maiores. Nunca em detrimento aos pares. São imensos em determinado momento, são fundamentais em outros. O que devemos é conhecer, reconhecer e agradecer quando houver o excelente trabalho de cada cantora, de cada artista. Há lugar para todo mundo.

Nos tempos dos registros físicos – discos em compacto, ou long play, fitas cassete, cds – o espaço era problema e, por isso, escolhi vozes femininas para minha coleção de discos. Uma razoável coleção de cds, indo de Aracy de Almeida à Zizi Possi. Ouço Elis tanto quanto ouço Maria Alcina, Evinha, Tetê Espíndola. Dedico horas à Zezé Motta, Beth Carvalho e também ao Quarteto em Cy. Giane e Inezita Barroso, tanto quanto Clementina de Jesus ocupam lugar especial e por aí vai. De A a Z, deixo rolar à vontade e, para lembrar um verso de Joyce Moreno, gosto de “canções que ninguém escuta”. Tenho muita coisa da Elis Regina, da Nara Leão, da Gal Costa. Quase tudo da Maria Bethânia, e quem me conhece sabe o lugar que Wanderléa tem no meu coração. Todas grandes! Todas são “a maior”!

Salve, Elis Regina! Salve, Nara Leão!

Um salve maior para todas as cantoras do Brasil!

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As fotos que ilustram este post estão em capas de disco de Elis (1977) e Nara (1968).

Clara Nunes, sempre!

Clara Nunes

30 anos sem Clara Nunes! Na próxima terça-feira lembramos aquela que está entre as maiores sambistas brasileiras, mineiríssima Clara das Gerais, falecida em 02 de abril de 1983. Uma morte ingrata para uma jovem com apenas 40 anos de vida, que colhia os frutos de uma carreira de imenso e merecido sucesso.

Algumas faces dessa cantora inesquecível: Quando a gente pensa em  forró, quem se lembra de Clara Nunes em “Feira de Mangaio”, “Viola de Penedo”, com a mais pura e esfuziante alegria nordestina? A brasilidade da cantora atravessa regiões e ela manda bem no forró do mestre Sivuca.

“Fumo de rolo, arreio e cangalha

Eu tenho pra vender, quem quer comprar

Bolo de milho, broa e cocada

Eu tenho pra vender, quem quer comprar…”

Se for para lembrar alguém que gravou grandes poetas, aparece o nome de Clara Nunes em canções como “Tu que me deste o teu cuidado” (Manuel Bandeira) e “Ai,quem me dera” (Vinícius de Moraes)? Esta canção do grande mestre tem poucos registros; quem conhece a gravação de Clara Nunes entende a dificuldade em sobrepujar a interpretação da cantora.

“Ah, se as pessoas se tornassem boas

E cantassem loas e tivessem paz

E pelas ruas se abraçassem nuas

E duas a duas fossem ser casais…

Creio que algo irá ser dito sobre os grandes sambas, os sucessos estrondosos. Quero, aqui, enfatizar a cantora de diferentes “Brasis”. Em rodas de capoeira, por exemplo, encontramos invariavelmente muitos marmanjos suados, desafinados, mas com muita ginga. Dá para imaginar, no meio dos caras, a voz límpida e afinada de Clara Nunes em “Fuzuê”?

“Eh, fuzuê

Parede de barro

Não vai me prender…”

Entrando no que há de mais representativo em Minas Gerais, a cantora da terra entrou de sola na obra de Guimarães Rosa, dá para somar a voz de Clara Nunes e um falar todo sertanejo em “Sagarana”?

“… quem quiser que cante outra

Mas à moda dos gerais

Buriti: rei das veredas

Guimarães: buritizais!”

É fácil pensar em Clara Nunes  entre as maiores cantoras desse país. Dona de uma enorme extensão vocal, ela soube usar esse potencial com um repertório caracterizado pela grande diversidade. Nos discos de Clara Nunes tem fado e rancho; tem jongo, valsa, bolero e… Samba!

Os sambas cantados por Clara Nunes são antológicos. Para voltar às raízes africanas ela foi além da Bahia; foi para Angola, assumindo contas, pulseiras, turbantes e gingado, muito balanço e força rítmica.

Admiro seu jeito mineiro de ser feminista. Criou seu teatro, para ter e propiciar um lugar de trabalho e gostava de ser independente. Teve um olhar atento para compositoras como d. Ivone lara, assim como realizou gravações memoráveis com Clementina De Jesus, juntas homenageando a Menininha Do Gantois.

Pra registrar preferências, tenho duas paixões na voz de Clara Nunes: “Sabiá” (Tom Jobim e Chico Buarque) e “Basta um dia” (da peça Gota D’Água, Chico Buarque e Ruy Guerra). Todas as outras que me perdoem, mas nessas, só ouço a grande cantora mineira.

30 anos sem Clara Nunes. Ficaram os vários discos e a voz inesquecível que Alcione chama de volta, como ninguém:

“Clara

Abre o pano do passado

Tira a preta do serrado

Põe Rei Congo no Gongá

Anda

Canta o samba verdadeiro

Faz o que mandou o mineiro,

Ó mineira!”

Clara Nunes é para ser lembrada; sempre!

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Até!

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Notas Musicais:

Feira de Mangaio – Glorinha Gadelha / Sivuca

Ai, quem me dera! – Vinícius de Moraes

Fuzuê – Romildo S. Bastos/ Toninho

Sagarana – João de Aquino/Paulo César Pinheiro.

Mineira– João Nogueira/Paulo César Pinheiro.

O que seria da música brasileira sem eles?

Seríamos mais tristes, e nossa música seria infinitamente mais pobre. Na galeria abaixo falta gente, muita gente. Não pretendi, nem pretendo que seja completa. O post recuperado (estava no extinto Papolog) é para manifestar carinho e afeto por todos, neste Dia da Consciência Negra.

LUIZ GONZAGA, CLEMENTINA DE JESUS, PIXINGUINHA, MILTON NASCIMENTO, ZEZÉ MOTTA e PAULINHO DA VIOLA

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PENA BRANCA e XAVANTINHO, JAIR RODRIGUES, ZÉ KETTI, ROSA MARIA, LECY BRANDÃO, MARTINÁLIA

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DJAVAN, JOÃO NOGUEIRA ELIZETE CARDOSO, DONA IVONE LARA, CHICO CÉSAR e CARLINHOS BROWN

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ATAULFO ALVES, DUDU NOBRE, ISMAEL SILVA, ALAÍDE COSTA, JORGE BENJOR e JOÃO DO VALE

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LUIZ MELODIA, GILBERTO GIL, MARTINHO DA VILA, TONY GARRIDO, ZÉ KETTI e PAULA LIMA.

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Poderia escrever um pouco sobre cada um. Optei para que a lembrança do artista seja de cada um, na medida em que olhe a foto. A minha lista, bastante pessoal, é afetiva.  Se eu começar a escrever sobre toda essa gente que gosto tanto, um feriado seria pouco.

Já li críticas sobre as comemorações deste dia.  Tudo bem; acho que há razões para discutir o assunto. De qualquer forma, acredito ser um bom momento para lembrar toda essa gente maravilhosa que faz a música do nosso país.

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Bom feriado.

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Quem canta, canta João Bosco!

“-Topas encarar esse concurso?” Cantar as canções de João Bosco. É isso! Só que há que ser no mínimo ótimo para cantar composições solo ou aquelas feitas, por exemplo, em parceria com gente do naipe de Aldir Blanc.

Se fosse só uma pergunta – Quem é o melhor intérprete de João Bosco? – em uma brincadeira dessas que a gente faz em tardes chuvosas, ainda sim seria um páreo duro. Eu sugiro um empate triplo: Elis Regina, Zizi Possi e o próprio João Bosco, que canta como ninguém suas próprias criações.

João Bosco é o grande homenageado da 23ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Criado por José Maurício Machline, ao longo de todos esses anos o evento já homenageou a nata da música brasileira:  o ano  passado foi Noel Rosa. Antes dele, gente como Vinicius de Moraes. Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Elis Regina, Milton Nascimento e muitos outros.

Entre as homenagens para João Bosco foi preparado um concurso para intérpretes das canções do grande mestre. Não pense que são próprias apenas as vozes tipo Elis e Zizi. Se você tem um vozeirão à Clementina de Jesus, Maria Alcina ou Ângela Maria, pode encarar. E é claro que se o próprio João Bosco está entre os grandes intérpretes de suas canções, todos os rapazes podem soltar a voz.

Está no site do evento: “Grave sua interpretação em vídeo de uma das canções deste grande ícone da Música Brasileira, publique no Youtube e envie o link para nós, não aceitamos videoclip, o candidato deve estar cantando a canção no momento da gravação. Se você gosta da obra de João Bosco e não tem discos gravados pode participar. O grande vencedor receberá um prêmio em dinheiro e um troféu no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ao lado dos grandes nomes da música brasileira!”

Olha que chance! Você cantando “Corsário” no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e, de repente, vai que a Zizi Possi resolve subir e cantar junto? E já pensou, você cantando “Memória da Pele” perante Maria Bethânia? Pensando bem, não é uma boa idéia. Nessas, elas superam até o próprio João Bosco. E também, não vá cair na besteira de se achar “a bala que matou Kennedy” tentando levar a grana com “O Bêbado e o Equilibrista”! Essa, malandro, só mesmo a Elis Regina.  Agora, vamos à outras possibilidades…

Se você canta, mas canta mesmo, ataque de “Bala com bala”, “Cobra criada”, ”Linha de passe”… Essas são para quem tem excelente domínio da arte de interpretar. Outra possibilidade para grandes intérpretes é a de dar a própria versão de canções, diria eu, inusitadas, que só autores da categoria de João Bosco são capazes de criar; são músicas para quem tem verve humorística, como “A nível de…”, “Abigail caiu do Céu” e por aí vai.

João Bosco é muito bom, ótimo. Dentro das próprias possibilidades vocais, tornou-se um intérprete impar para canções como “Jade” ou “Papel Machê”. Agora há uma boa chance para os cantores que estão em início de carreira, ou aguardando uma boa oportunidade. Portanto, entre no site, cumpra o regulamento, grave a canção e saia divulgando para todo mundo. Pode ser que, por essas tramas da sorte, você não ganhe o prêmio; todavia, ser capaz de cantar bem as canções de João Bosco já é um feito e tanto. Boa sorte!

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Bom final de semana para todos.

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As canções citadas:

Corsário – João Bosco – Aldir Blanc

Memória da pele – João Bosco – Waly Salomão

O Bêbado e o equilibrista – João Bosco – Aldir Blanc

Bala com bala – João Bosco – Aldir Blanc

Cobra criada – João Bosco – Paulo Emílio

Linha de Passe – João Bosco, Paulo Emilio – Aldir Blanc

A nível de… – João Bosco – Aldir Blanc

Abigail caiu do céu – João Bosco – Aldir Blanc

Jade – João Bosco

Papel Machê – João Bosco – Capinan