A menina do vestido branco de listras verdes

Em tempos de consumo bobo, quando se usa uma roupa por festa, um par de sapatos por ocasião, onde repetir um vestido é motivo de notícia de jornal, o pensamento dele volta e meia recai na menina do vestido branco de listras verdes. A mais linda de todas, a que ele nunca esqueceu.

Havia terrenos baldios, campos de futebol de várzea, quadras de chão batido. E o pátio da escola, as crianças naturalmente divididas em grupos, por idade. As brincadeiras alucinantes com a duração do intervalo, que todos chamavam recreio, onde a imaginação superava a falta de brinquedos, de aparelhos de ginástica, de quadras poliesportivas. Outro pátio, da igreja, onde se alternavam folguedos entre uma e outra das quermesses anuais.

Mexericos paroquiais, ele não esquece que soube dela por um fiasco na folclórica coroação da santa no mês de maio. A competição corria solta entre as meninas nos meses de maio, Nossa Senhora das Graças, e no mês de outubro, Nossa Senhora Aparecida. As mães faziam sua parte, vestindo as garotas de anjo que, ensaiadas pacientemente por uma moça de nome Isabel, a Belinha, faziam o encerramento das manifestações religiosas de cada quermesse. Encerrando a novena havia a procissão pelas ruas do bairro, a missa e a coroação. Depois dessa, a festa era no pátio.

Onde ele ouviu a maledicência? Quem teria dito? “Que fiasco, na hora do solo, cadê a voz? A Belinha deve estar furiosa”. O nome da cantora joãogilbertiana ficou na memória, e tempos depois foi ligada a figura à fofoca. Ele, conheceu a indignação. Só podia ser inveja! Uma menina linda como aquela, com aqueles olhos negros, o cabelo ondulado encostando nos ombros! Bonita demais! Delicada, educada. Certamente a igreja inteira emudeceu quando ela cantou seu pequeno solo, oferecendo um lírio à santa.

E havia um vestido branco de listras verdes. Manga três quartos, gola canoa. Onde se aprende nome de mangas e golas? Foi depois, certamente. Quem vai querer saber o nome de detalhes de um vestido? O que importava era a menina dentro do vestido, cheia de graça, tímida e recatada, mas sempre sorridente, os olhos brilhantes. A roupa de anjo para coroar a santa deve ter sido outra, claro, e é fato, ela não foi mais vista entre o elenco de pequenas cantoras. Ele dando de ombros. Perderam uma voz linda! Um verdadeiro rosto angelical.

Foram as mesmas ou outras faladeiras que o fizeram perceber uma mudança de comportamento. Aquele vestido branco de listras verdes, que era roupa de domingo, agora estava sendo usado também nas reuniões que as meninas tinham às quartas-feiras, na paróquia. Verdade seja registrada, ninguém botou reparo no fato de a menina repetir roupa. A curiosidade é que cresceu entre as futuras alcoviteiras. Para quem a menina estaria se vestindo na quarta com as roupas domingueiras?

Eram tempos em que se brincava mais, sem pressões para namoros e pegações. Havia a percepção do interesse que, via de regra, não ficava em sigilo. Fulano gosta de fulana! Fulana quer namorar fulano! Foram tempos de alegrias singelas, contentamento imenso dele em saber-se correspondido pela menina suave que, grande vantagem, jamais se perdia no meio de tantas! De longe, ou no meio da gentarada da missa, entre as crianças todas era ela a única, a que se distinguia aos olhos e ao coração. O povo do branding aprendeu com ela e seu vestido branco listrado que fazia com que ela se tornasse única.

Outra menina, um divisor de águas. Uma vizinha que gostava de brincar e levar meninos para um canto. Beijo na boca cheio de gosto de saliva, mão sendo encaminhada para dentro do segredo protegido pela calcinha, mão avançando dentro do short, manuseando o que encontrava e provocando descobertas. Será que a primeira, a eleita do vestido branco de listra verdes, tinha algum amigo para descobrir coisas? O divisor de águas foi percebido depois, um divisor de meninas. As mais quietinhas e as mais afoitas. Quem faz o que, só na calada se sabe.

O tempo rodou num instante, cantava o Chico embalando a vida que corria, célere. O pequeno casal teve momentos pífios e acabou que ficaram em cidades distintas, voltaram para a mesma Uberaba, novamente se distanciaram e cada um tomou seu rumo, seguiu sua via. Foram diminuindo os fatos, cresceram os intervalos entre notícias e nem foi notado que possíveis sonhos e desejos não se realizariam. Foram engavetados e escapolem em datas imprevisíveis.

O nome ele não esqueceu. Décadas passadas, é construção do imaginário um rosto, um cabelo, os olhos. A voz, como afirmam por aí, foi a primeira a cair em completo esquecimento.  Às vezes ele pensa na menina do vestido branco de listras verdes. Favoreceu as lembranças à tona nesses últimos tempos conviver com uma moça de mesmo nome. Também gentil, linda, de maneiras afetuosas. Bem humorada. A moça de agora, cheia de características agradáveis, o levou a indagações sobre a outra, aquela de quando ele havia acabado de ser criança.

Onde foi parar a tal menina, mulher, agora uma senhora de setenta anos? A vida costuma ser generosa para pessoas bonitas e então, ele pensa, ela é feliz. Ou foi feliz! E um aperto no peito rejeita o fim, pois fim não teve. Foi afastamento, teve e tem distância. Não dá para ter certeza de distância física, pois ela pode morar na próxima esquina, sem que o acaso os coloque frente a frente. Seria surreal que ela morasse logo ali, perto da Igreja da Aparecida. É devaneio bobo para preencher vazios, o imenso vazio causado pelo tempo.

Nessas reviravoltas de roda mundo, roda gigante, roda moinho e pião, ele percebeu que algumas coisas se tornaram sonhos. Como é sonho a linda história do menino que se apaixonou por uma menina com seu vestido de gola canoa e mangas três quartos. Ela tinha um sorriso suave, uma voz mansa. Os olhos imensos, brilhantes, o rosto emoldurado pelo cabelo preto, ondulado.

Ele reconheceu ter na vida um vasto escaninho, cheio de sessões, de memórias de todas as categorias.  Quase tudo aparentemente esquecido, mas sempre prestes à vir à tona, registrado no cerne, na pele. A tal menina, na verdade, sempre deu as caras fora do escaninho, ele admite! Também reconhece que tal garota esteve entre os sonhos preferidos, as lembranças prediletas. Um sonho bom que, quando retorna, enche a vida de outros sonhos guardados, outras lembranças adjacentes. Ele mesmo tem colocado a memória de listras verdes de lado, puxando do nicho transversal do escaninho a afoita, a menina que se adivinhava mulher e o ensinou os primeiros passos das segredos do sexo.

Valdo Resende 16/08/2025

Notas: Imagem obtida com IA. Quando Chico Buarque gravou Roda-Viva, o casal de meninos do conto estava com 13 anos.

“Um cãozinho abandonado”

imagem criada com IA

Vista ali, maquiada, bem vestida, recostada no parapeito do Viaduto Jacareí, olhando embaixo para a Avenida 9 de Julho não dava para imaginar seus motivos. Parecia uma senhora comum, uma transeunte distraída com a movimentada avenida vista ali do alto, com seu eterno vai e vem de carros, ônibus e motos.

Postada na mureta do lado oposto ao centro da cidade, o olhar permanecia fixo, sendo difícil saber exatamente qual ponto era observado. Ela apontava, com voz lacrimosa, olhar marejado, dirigindo-se para quem lhe desse atenção: “- Olha ali, está assim, amarrado o tempo todo. Tadinho! Sem comida, sem água. Nem se mexe!” Enquanto o interlocutor tentava entender o que estava acontecendo ela esclarecia, apontando para a paisagem próxima: “- Moro ali naquele edifício da 9 de Julho. De lá vejo ele, pobrezinho, amarrado, sem água, sem comida”.

O ato de repetir a situação do amarrado sem água e comida visava despertar a piedade sobre… o que mesmo? E ela virava-se para o novo “amigo” mostrando-se por inteira. Os olhos bem pintados, um batom acentuando os lábios, a blusa de manga comprida tinha um decote generoso e, caso o gajo descesse o olhar veria uma cintura bem marcada, saia justa sobre pernas longas, salto alto.

Com voz triste, cheia de piedade, insistia na cantilena do pobre sem comida, sem água; um cachorro preso em uma coluna de madeira no quintal ou pátio de estabelecimento da rua paralela à avenida. O quadro era real, o que não se podia era afirmar a autenticidade dele. Estar sobre o viaduto Jacareí e descer à rua verificar a situação demanda uma caminhada que carece de um sujeito apaixonado pelo ato de proteger todo e qualquer animal.

“- Moro ali, fico olhando pela janela. De lá tenho uma ótima visão e esse pobre animal está lá desde sexta-feira, ficou a noite toda e, veja bem, são quase cinco horas da tarde. Olha, não tem água, não há comida. Ele está tão fraco que pousam pombos bem próximo e ele não se mexe!” Era fácil constatar que o cão, já habituado ao espaço e às próprias condições nem se mexia com os pássaros por não poder alcançá-los. Uma observação mais demorada e percebia-se o movimento do animal, acomodado ao cativeiro. “- Eu não aguento vê-lo assim; fico muito triste!”, ela insistia.

A obviedade da questão seria a distinta procurar as autoridades competentes, fazer uma denúncia, salvar o bichinho!  “-Sou uma mulher sozinha, tenho receio, vai que sofra alguma retaliação! Se alguém me ajudasse…”

Nem sempre a conversa ia muito longe. Uns deixavam-na no vácuo, sem dar muita atenção. Um ou outro observava bem o local, indagava o nome da rua e prometia tomar uma atitude. Havia aqueles, mais raros, que observavam a maquiagem, o decote, a saia justa e, sondando possibilidades partiam para o apartamento da protetora dos animais buscando ter a mesma visão que ela. O encontro terminava em sexo e o cãozinho permanecia preso.

Uma solidão brutal. Juliana não nascera para viver assim. Fora moça linda e os traços estavam ali, bem marcantes, denunciando sobre a figura majestosa de uma idosa a mulher bonita de outros tempos. Casou-se uma vez, não deu certo. Os ciúmes do marido eram tóxicos. O divórcio foi inevitável. O segundo casamento terminou quinze anos depois em depressiva viuvez. A solidão não foi tão percebida enquanto o tempo foi tomado pelo trabalho. Veio a aposentadoria; os amigos tinham seus familiares, suas vidas. A dela era estar só.

Não se adaptou aos grupos de terceira idade. Eram frequentes as sensações de desespero, de um aproveitar a última oportunidade, de viver o que restava. Pintavam situações de permissividade, com argumentos do tipo “o que há para se perder”? A dignidade, respondia. E foi se afastando, abandonando reuniões, evitando encontros. Ficou só. Perdeu a noção de quanto tempo se passou até que se percebeu absolutamente isolada, olhando a vizinhança pela janela privilegiada do apartamento do sétimo andar.

Há poucos transeuntes pela Avenida 9 de Julho quase tomada exclusivamente por carros. Bem ali, ao lado do Viaduto Jacareí, o mais comum eram pessoas descendo ou subindo escadas rapidamente. Quando na Avenida iam para o ponto de ônibus, ou então, eram moradores, vizinhos. Os que subiam as escadas tinham a Câmara de Vereadores como destino, a Biblioteca Mário de Andrade, a Federação Espírita ou outro lugar qualquer.

Perdeu a conta dos assaltos vistos sobre o viaduto, os assaltantes fugindo calmos escada abaixo com a tranquilidade de quem sabe que não será seguido. Deixavam carteiras, bolsas vazias nos últimos degraus da escada. Em finais de semana, após finais de futebol ou em dias de carnaval, apreciava diferentes composições de seres humanos fazendo sexo na penumbra abaixo da rua. Não enxergava direito pelo movimento, a iluminação precária. Acabou comprando um potente binóculo.

Conheceu pela Internet as salas virtuais. Por pouco tempo, já certa de não ter nascido para tal tipo de faz de conta, trocou a sala por brinquedos eróticos que, para seu desespero, não incitaram sua imaginação, nem mesmo com o apoio de fotos, vídeos. Nascera para encontros reais, embora não tivesse coragem nem cara de pau para tomar iniciativas. Era necessário aguardar a sorte, o destino, o momento certo.

Lia muito. Leu e releu tudo o que havia acumulado ao longo de anos, comprou novos títulos, passou a frequentar as salas da Biblioteca Municipal. Um ou outro bar, jantar nas cantinas próximas, teatro, uma exposição. E ela sozinha, sem coragem de se aproximar, de tomar atitude e só muito raramente sendo abordada. Em sessões televisivas de autoajuda concluiu que precisava criar oportunidades, já que essas não apareciam.

Deve ter sido um gato, um rato, vai saber! Uma noite de sexta para sábado e ela teve o sono perturbado pelo latido distante, incessante do cachorro que, mal amanheceu o dia e ela conseguiu localizar o bichinho. Sol alto, visão boa, lá estava o cachorro no distante vizinho, amarrado e, como ela, solitário. Era um estacionamento, também lava rápido, sempre cheio de carros. Não era difícil concluir que o bichinho permanecia amarrado para não machucar nenhum freguês. Só a noite, estabelecimento fechado, o cachorro ficava solto. Quem sabia disso? O cãozinho. O dono e ela.

Gostava de rir quando lembrava que a ideia veio de um velho e bom conto de fadas. Se ela precisava de um Joãozinho para se alimentar, o jeito era atraí-lo tal qual a historinha, fisgando-o e arrumando um jeito de levá-lo para casa. Melhor não aguardar a presa crescer, engordar. Era resolver a fome, saciar o desejo e seguir em frente, rumo a outro João sem Maria. Um plano canhestro, quase sempre fadado ao fracasso. A aventura, no entanto, era real e a adrenalina subia dando-lhe sensações há muito esquecidas. E ela passou a frequentar o viaduto à cata de possíveis presas.

Quando o interfone tocou anunciando a visita de um vizinho que não conhecia, ela desceu para atendê-lo na portaria,  pois não iria abrir sua casa para gente enxerida. No pequeno hall o homem falou poucas e boas, identificando-se como o dono do estabelecimento onde o cachorro permanecia preso durante o dia. Ele contabilizou dezoito denúncias de diferentes homens e vários meses até descobrir de onde e como partiam tais acusações. Estava tendo um trabalhão para sair ileso de crime não cometido e exigia que ela parasse com aquilo. Enquanto ele falava ela o admirava.

Era um senhor bonito, forte, talvez um bom amante. Ela fingiu consertar um botão na blusa, abrindo essa com sutileza e olhar absolutamente cheio de intensões. “– Você, posso chamar o senhor de você, não é mesmo? Então, você precisa ver como eu vejo, da minha janela. Vai entender por que me vem a impressão de seu animalzinho ser mal tratado. Na verdade, eu gostaria de fazer algo por ele! Venha, vamos subir para que você veja. Como é mesmo seu nome?” João! Ela conteve o riso e, sem abrir totalmente a porta do elevador facilitou ao homem encostar-se em seu traseiro, arrebitado, para extinguir no outro qualquer dúvida sobre os motivos daquele convite.

Valdo Resende / São Paulo, nov / 2021

Coração de Cetim

“- É só mais uma no meio da multidão; Deixa de ser besta!”. Era falando desse jeito que Afrânio tentava fazer com que Eneida ficasse em casa. Falou uma vez, duas. De nada adiantou. A namorada deu de ombros, lembrando ao rapaz que se fosse para obedecer a alguém ela ainda tinha pai. O moço teve que engolir e ainda perder horas de dengo enquanto Eneida bordava a fantasia. Chegou o carnaval, ela foi desfilar e ele ficou amuado, bebendo no boteco com os companheiros de sempre. Nem terminada a quaresma e os dois já estavam de namorico, o desejo falando mais forte, esquecidos os anseios de mando do rapaz.

“- É só mais uma… Deixa de ser besta!” Repetiu o noivo no ano seguinte. A mãe de Eneida ficou calada evitando intrometer-se na vida da filha; o pai, simpatizante da batucada, não ia engolir desaforo para com a menina debaixo das próprias barbas. Fez o marmanjo engolir o mando e desculpar-se pela “besta”. Eneida foi, novamente sem aliança, e mais uma vez reatou namoro antes da sexta-feira da paixão.

Foram meses de conversas dos amigos, de conselhos dos familiares. Todos sugerindo que ela devia seguir a vida sem o rapaz. Eram diferentes; não daria certo. Eneida teimou porque amava Afrânio e acreditava poder dissuadir o homem já no primeiro carnaval, após o casamento. Lua de mel já distante, o que ela conseguiu foi tomar umas fortes bifas seguidas de ameaças maiores caso contasse para alguém. Antes de completar o primeiro ano do casamento Eneida escondeu a caixa de costura, cheia de miçangas e paetês. Junto o desenho do modelo da fantasia de sua ala, uma das mais animadas da escola.  O marido tentando consolar, sem mostrar-se arrependido: “- É só mais uma no meio da multidão; Deixa de ser besta!”.

Ausência anunciada. Os amigos estranharam; a ala reclamou; até a escola assinalou a falta da moça, agora senhora casada. Foi difícil convencer os familiares de que tudo estava bem, que abdicara de desfilar pela agremiação que tanto amava. Teria algum problema? O casamento estava bem? Foi a própria Eneida a repetir, para satisfação vaidosa do marido, que estava cansada de ser só mais uma; tinha resolvido que deixaria de ser besta.

Ela tinha quinze anos quando desfilou pela primeira vez. Agora, dez anos e nove desfiles depois estava em casa, assistindo pela TV. O marido, esparramado pelo sofá, lembrava velhos babões toda vez que focalizam mulher bonita, seminua. Fungava e virava copos e mais copos enquanto passavam as alas, cheias de gente alegre e feliz.

O carnaval passou e a única atitude de Eneida foi alterar horários na academia, aumentando a carga de exercícios. Calada, resolveu que eliminaria todo e qualquer sinal de gordura, ganhando em alguns meses um corpão de estremecer qualquer homem e fazer rainha de bateria temer perder o posto. Nunca falou em samba, carnaval, escola, até que chegou o janeiro seguinte e, em uma tarde de domingo, anunciou tranquilamente para o marido: – Vou desfilar neste ano!

Antes que Afrânio a proibisse informou que já estava tudo acertado com a escola. Ele engoliu o riso sarcástico e iniciou a frase costumeira: – É só mais uma…  – Que vai desfilar em carro alegórico e de topless, interrompeu Eneida. O homem, lívido, repetiu todas as ameaças acrescidas de safanões, empurrões, afirmando que quebraria as pernas da esposa antes que ela saísse para o Sambódromo.

Chegou o carnaval e Afrânio estava acompanhado de dois guardas, bem longe do desfile. Eneida filmara a discussão e anexara ao processo fotos de hematomas da surra anterior. Uma vingança silenciosa, curtida na academia forjando um novo corpo para o desfile. Foi o próprio departamento jurídico da escola de samba que conseguira manter o valente à distância enquanto a moça, gostosa e enxuta, fazia a alegria da multidão ao dançar e sambar fantasiada de “coração solitário”; um minúsculo pedaço de cetim vermelho, bordado, escondendo apenas aquilo que a TV não poderia mostrar. Afrânio, besta, assistia de longe a única moça sobre o carro, nua e bela, o grande destaque do dia.

Valdo Resende (março/2015)

Salve o Corinthians!

Habituada, a vizinhança ignora o ser estranho em que ele se tornou. Convive com o jeito robótico de andar, os pés mal se elevando do chão e raspando pesado como um avião descendo sem rodas. Monótono e em ritmo regular ele caminha sem olhar para a frente, para os lados, ignorando o mundo à sua volta. O olhar permanece fixo a um ou dois metros à frente. Se visualiza algum empecilho contorna, à vista do final da calçada para, e só então olha instintiva e rapidamente para os lados antes de atravessar.

Bermudas e camisetas pretas, meias e tênis da mesma cor sugerem uniforme. Resquícios do que foi um dia ele recusa qualquer outra cor, principalmente o verde. Já ouviram-no vociferar contra o Palmeiras e aclamar o Corinthians. Não consta que levante a cabeça para ver os jogos de futebol pela televisão; assiste as partidas pela pequena tela de um aparelho celular sem outra serventia, exceto sintonizar o canal local. Durante os jogos permanece estático, olhar fixo sem manifestar grandes reações quando perde ou vence o time do coração. Apenas levanta ligeiramente o braço na hora do gol. Nada mais.

Ele faz caminhadas matutinas e vespertinas. O suor corre livremente pelo rosto, pelos braços manchando a camiseta, a bermuda. Sugere excessos, falta de higiene e talvez seja esse mais um dos motivos para que o ignorem. Houve um curto período em que puxava um cãozinho vira-lata pela coleira. Serviu de admiração para as pessoas notarem que em breve o animal caminhava no mesmo ritmo, as passadas espelhadas no andar do dono. Quando aguardavam passagem nas esquinas o cãozinho permanecia também imóvel e de cabeça baixa.

Durou pouco. O ser andando cabisbaixo puxando o cão que, por imitar o tutor, não percebeu o ciclista e morreu atropelado. O homem sentou-se no passeio e chorou copiosamente por horas. Não dava atenção a quem passava e nem mesmo falou com os policiais que pararam ao ver a situação inusitada. Ao insistirem para tirá-lo do local ele resistia e chorava mais alto, desesperado. A situação só se resolveu quando um vizinho passou e o identificou, orientando os policiais sobre o endereço dos familiares.

O pequeno grupo de curiosos ao redor do homem e do cachorrinho morto se calou com a chegada de uma mulher, altiva, séria, ignorando totalmente os olhares dos presentes. “Adriano, levante-se! Pegue seu cachorro e vamos para casa”. Ele atendeu prontamente e, de pé, seguiu na mesma toada, na mesma postura. A mãe foi sem olhar para trás certa de ser obedecida. Só quando chegaram ao portão de onde moram ela se manifestou. “Não entre com esse cachorro morto dentro de casa. Fique aqui que vou buscar o saco de lixo. Já liguei para uma empresa, virão buscar e dar um fim nisso”. Ele intensificou o choro. Ela concluiu: “Você é um homem. Para de chorar”. Ele obedeceu.

Tudo continuaria como dantes no quartel de Abrantes se não entrasse o Bento na vida de Adriano. Seu Bento, como é conhecido o dono da pequena frutaria que se estabeleceu no quarteirão adjacente à moradia do rapaz. Dono de simpatia profissional, carecendo de garantir freguesia, Bento cumprimenta alegremente aos passantes, insistindo mesmo aos taciturnos, aos mal-humorados ou apressados. Comenta o dia, a roupa, o sol ou a chuva e quando bem recebido já emenda: “Esse sol pede um suco de caju, venha ver como estão bonitos”. Fez muito conhecidos e até amigos, incluindo nesses Adriano.

Nada fazia com que o rapaz respondesse às investidas de Bento. Bom dia, ou boa tarde eram tão ignorados quanto um “que sol gostoso”, ou “que chuva chata!”. Sábio comerciante, Bento evitava perguntar aos amigos já feitos sobre o estranho rapaz. Ninguém gosta de bisbilhotice, de fofoca. Há que se respeitar as diferenças, sem refrear a curiosidade. O meio de atingir o rapaz era tão óbvio que Bento assumiu-se momentaneamente burro antes de soltar o primeiro “Fala, corintiano!”.

Adriano alterou visivelmente o passo, voltando rapidamente ao ritmo de sempre com o primeiro cumprimento. Isso não passou desapercebido a Bento que, dia seguinte, durante a passagem do rapaz soltou um “Vai, Corinthians!”. Certamente o rapaz ouviu, pois parou por dois, três segundos antes de continuar a caminhar. Bento resolveu apelar para métodos visuais. Dia seguinte, quarta-feira, vestiu a camisa do time para trabalhar. Quando Adriano se aproximou Bento foi direto ao ponto: “De quanto vamos ganhar hoje?”.

Aos sessenta e quatro anos, quarenta de frutaria, Bento estava habituado aos olhares de fregueses, de transeuntes. Vindo lá do sudeste do Piauí, passou por temporada no Rio de Janeiro antes de uma mudança para São Paulo e a mais recente, para Santos. Sabia distinguir os interessados em seus produtos, os mal-amados em eterna indisposição. Aprendera a quem oferecer algo à mais, e aos que podia insistir mesmo que estivessem com as mãos carregadas de sacolas. Não era de criança gulosa nem de trabalhador cansado o olhar que Adriano lhe dirigiu. Não era um olhar simpático, nem antipático e, só mesmo uma percepção aguçada notaria algo além da mera indiferença. Um mínimo de curiosidade estava naquele olhar aparentemente opaco, sem vida. Era o olhar de quem encontrara um ser humano.

Adriano parou ao ouvir a pergunta do vizinho. Demorou alguns instantes para roboticamente virar-se, a cabeça baixa, fixa na posição costumeira. Levantando a cabeça vagarosamente olhou para seu interlocutor como se há muito tempo não visse ninguém. Viu o homem moreno diferente do que se lembrava do pai, dos tios, todos muito brancos, cabelos loiros ou grisalhos. Percebeu o sorriso tranquilo e recordou o jeito simpático de um antigo professor. Sorriu ao ver a camiseta preta e branca, o distintivo do time amado. Com dificuldade balbuciou, dando ao outro a certeza de que falar era algo raro para o rapaz. “2 a zero tá bom!”.

Sem mudanças drásticas. Foi apenas o começo de uma amizade. Adriano continua o mesmo, caminhando duas vezes pelas ruas do entorno de sua casa. Quando chove não caminha, mas vai até a frutaria de Bento, parada obrigatória de todos os dias. Ao chegar conversa alegre e fluentemente com o amigo. Prioritariamente falam de futebol. Volta e meia surge um ou outro tema qualquer. Conversam sobre tudo e às vezes até uma terceira pessoa entra no assunto. Adriano é simpático e atencioso. Bento, sempre sorridente, gosta de oferecer frutas verdes ao amigo que, tenaz, recusa veementemente. Só aceita maçã, tomate, laranjas maduras, uvas. Nada verde, nunca! Ele é fiel às cores do seu time. No bairro, Adriano deixou de ser o estranho. Ele é o amigo de Bento. São corintianos, do time “mais brasileiro”.

Santos, verão de 2025.

Nota: Imagem criada com IA.

Depois da tempestade

Ela chegou àquela altura da vida em que nada havia a perder; mesmo querendo perder o que guardara para um possível príncipe que nunca chegou. Desconfiava que ninguém mais manifestaria interesse pela coisa. “Coisa, coisa, que palavra feia”, pensava Dadinha. A idade chegou e a flor intacta, o símbolo máximo de pureza, a comprovação física da castidade havia se transformado em coisa. “Triste fim da borboleta! Melhor não pensar”, pensava Dadinha.

O apelido veio na infância; Dadinha completou os primeiros quatro anos articulando uma única sílaba “Dá!” Repetia, ensaiava entonações, praticava incríveis variações sorrindo, chorando, séria, ensimesmada, ao som gaguejante: “Dá!” E virou Dadinha. Desconfiava da criatividade familiar a partir do primeiro apelido. E não contabilizaria, ao longo de toda a vida, outros acontecimentos que pudessem desfazer a certeza aumentada ano após ano. Criatividade não era característica familiar e, pior, Dadinha veio com a mesma sina.

Sem conseguir grandes feitos na vida, Dadinha culpava a família pela falta de brilho, pela ausência de algo que a fizesse notável. Cansada de passar o tempo em branco, houve um momento em que se permitiu ser encaminhada para uma espanhola, autodenominada terapeuta alternativa. Esta conseguiu dois feitos notáveis: fez com que Dadinha acreditasse que sofria de complexo de inferioridade e, segundo, que o processo de cura começaria trocando-se o apelido da moça. Assim surgiu Da! Apenas e tão somente Da.

O resultado da terapia foi que Da ganhou olhares incrédulos, sorrisos de espanto e mais solidão. Uma única amiga consentiu em apresentá-la pelo novo nome: “Jurandir, esta é a minha amiga Da!”. O rapaz, olhando-a profundamente procurou esclarecer: “Dalva? Darlene? Dulce? Dilma!”. Da apenas balançava a cabeça negando as possibilidades e o rapaz, percebendo a presa fácil concluiu: “Da?” E ela docemente confirmou: “Sim”.

Jurandir, mineiro das antigas, levou o sim de Da ao pé da letra, arrastando-a para uma rua deserta no começo da noite. Lá em Minas Gerais, dadeira ou dadona era quem dava muito. Acho que ainda é, embora com outros adjetivos. O rapaz ganhou bofetões de uma indignada e ofendida Da que, mediante o ocorrido, reassumiu-se Dadinha.

Décadas depois, já em São Paulo, morando no mesmo edifício nos tornamos amigos em campanha contra uma síndica. Acabamos bebericando em tardes de sábado, quando em ocasiões de excessos alcoólicos Dadinha passou a me confidenciar: “Bem que deveria ter aceitado as investidas de Jurandir. Pelo menos teria alguma lembrança do que é sentir um corpo por cima, por baixo… ou seria de lado?” Ficava com raiva de nem poder expressar uma preferência e achava a vida muito sem sentido. E tomava mais uma dose até que, alta, reclamava não ser ela a mulher da minha vida, despedindo-se e tomando rumo de casa.

Dadinha, vinda desse Brasil tão brasileiro, acreditava em santos, milagres, despachos, patuás, promessas, simpatias. Num já distante junho, bem próximo do dia de Santo Antônio e acreditando que nada mais havia a merecer do santo, deixou todas as crenças de lado. Estava certa de que seu caso pendia mais para Santa Rita dos Impossíveis do que para o santo casamenteiro, mas o que uma santa, chegada à castidade, poderia fazer por ela? Chegou a desancar com o santo chamando-o inútil, imprestável. Foi na mesma noite após o destempero que o raio caiu.

Aquele 11 de junho surpreendeu São Paulo com uma tempestade tenebrosa. Raios caíram sobre a cidade e um, barulhento e forte, bem sobre nosso edifício, na Bela Vista. Em nosso prédio foram muitos os apartamentos com vários eletrodomésticos queimados. Dona Jovelina, vizinha de andar e confidente de Dadinha espalhou a notícia: “Vingança de Santo Antônio! Ela desdenhou do Santo, blasfemou, ele queimou a casa dela e ela, de susto, está lá mais tonta do que antes repetindo dá, dá, dá…”

Todos se compadeceram com pena de Dadinha. Era verdade! Estava repetindo a sílaba indefinidamente, olhar esgazeado, andar cambaleante. Assustada e em choque com o raio seguido do barulho ensurdecedor do trovão, reverberando pelas paredes dos edifícios vizinhos, Dadinha fora condenada a retornar ao dá, dá, dá infantil. Fiquei penalizado por pouco tempo. Três dias depois, chegando da faculdade, encontrei Dadinha toda produzida, jovial, com um sorriso escancarado, eufórica ao ponto de não se conter, me dizendo sem rodeios: “Eu dei, professor! Eu dei!”

Sem conter o riso quis saber o outro ator de tal ato. “Jurandir! Reencontrei o Jurandir. Há muito que está em São Paulo e é eletricista, veio chamado pela síndica. Pra alguma coisa aquela presta. Ele veio consertar os relógios avariados e eu lá, só dizendo dá, dá, dá, ele achou que eu queria, aí, veio me pegando, me cutucando, me beliscando, me bolinando… Ah, seu Valdo, como eu pude viver sem isso?”

Quem não ficaria feliz com tanta felicidade? Que bom que não havia vingança nenhuma, comentei com Dadinha. Comentamos sobre os caminhos tortos dos santos; o simpático Santo Antônio jamais se vingaria; pelo contrário, mostrou sua força nesse quase milagre. Olhando os brilhos e o batom acentuado de Dadinha, toda aquela produção em plena quinta-feira, indaguei se ela estava saindo para novo encontro com o mineiro Jurandir. “Que nada, vizinho. Vou pro boteco da Dinorah, vou recuperar o tempo perdido. Já marquei com o garçom” E saiu piscando com uma safadeza que jamais imaginei ver naquela Dadinha renascida, jovial, cheia de vontades, senhora de si, do seu corpo e do direito de ser feliz.

Valdo Resende (Publicado originalmente em 2011. Revisado em Santos, janeiro de 2025)

Obs. Ilustração criada com IA

A caminhante do Embaré

Foto: Valdo Resende

Não era por vaidade, mas por absoluta necessidade. Ela almoçava regularmente às doze horas. Colocava os poucos talheres na máquina de lavar louças enquanto se arrumava para sair. Invariavelmente um collant preto, uma blusa de mangas longas também preta e um turbante cinza, colocado de forma a deixar algumas mexas de cabelo soltas, desalinhadas. Com dificuldade vestia meias e os tênis, únicos diferenciais coloridos do vestuário.

Uma observação desatenta e poderia se pensar que ela estava sempre com a mesma roupa. O rosto sem qualquer sinal de maquiagem, o olhar sempre firme, ela dava a impressão de alguém sem cuidados. As roupas escuras, às vezes desbotadas contribuíam para o aspecto desleixado, sem brilho. Não evidenciava preocupação com o vestuário. Precisava caminhar. Ficava satisfeita com uma meia vermelha, ou amarela, sempre em contraste com os tênis, também coloridos. Um azul, um verde, um branco. E caminhava olhando por onde pisava, interessada em cumprir os quatro quilômetros diários.

Treze horas e trinta minutos em ponto e ela abria a porta da sala, atravessava o alpendre do velho sobrado, ignorava o jardim de há muito sem flores e ouvia-se o barulho do portão, já enferrujado, rangendo com um som que parecia chaleira no fogo. De cabeça baixa, ignorando a vizinhança de muitos anos da Rua Oswaldo Cochrane, tomava o rumo da praia do Embaré andando tão rápido quanto possível, olhando para os lados só para evitar motoristas, ciclistas, tudo gente apta a atropelar distraídos.

“Como vai, Filomena?”, insistia alguma vizinha da qual já não se lembrava o nome. Levantando a cabeça levemente, fingindo olhar para a outra respondia: “Boa tarde!”, seguindo seu rumo. Antes de tomar distância sabia que essa, ou outra qualquer, comentaria com alguma tão desocupada quanto: “lá vai ela, orgulhosa, sempre orgulhosa! Pagando pecados!”. Filomena seguia fingindo não ouvir. Não se importava. Precisa caminhar e o fazia por necessidade.

Quatro quarteirões e atravessava a Avenida Bartholomeu de Gusmão, indo direto para o grande jardim à beira-mar. Chegando no passeio rente à areia, sem olhar o mar pela frente, entrava à direita, rumo ao Gonzaga, mas não chegava até à praia do mesmo nome. Caminhava até os limites impostos pelo Canal 4, quando retornava após se abençoar olhando com fé para a Basílica de Santo Antônio do Embaré. Evitava o passeio paralelo à grande e movimentada avenida, preferindo voltar por entre as flores, árvores e pássaros do jardim. Chegando ao ponto de origem repetia o trajeto já feito. Uma, duas, três vezes. Na quarta tomava rumo de casa. Tudo se repetiria no dia seguinte.

“Orgulhosa, pagando pecados”.  Certamente se referiam ao tempo em que o sobrado estava quase sempre em festa, sempre festivo, pintado com cores alegres que combinavam com o pequeno jardim repleto de roseiras. Nessa época Filomena era alegre e, sem as roupas pretas, tomava rumo da praia sempre com biquinis coloridos, cabelos soltos, óculos escuros. Vinham parentas e amigas de longe para Santos e a casa vivia sempre cheia, barulhentamente alegre. Os pais faziam-lhe as vontades, recebendo colegas da escola, do colégio, da universidade. Reclamavam de netos, mas a moça gostava mesmo é de praia e de namoro. “Casamento? Um dia, quem sabe!”, brincava às gargalhadas. Quando um rapaz vinha mais que uma semana, visivelmente insistindo em algo à mais que amizade, a moça tratava de cortar convites, o que era percebido por Gilberto, então proprietário de um bar na esquina, cheio de sorvetes à tarde e cervejas à noite.

O jovem empresário viera de longe, lá das bandas das Gerais. O sonho era estar e viver perto do mar. Reunindo economias para abrir o estabelecimento, mistura de bar e sorveteria. Ele teve êxito e não demorou a eleger a vizinha entre as moças que frequentavam o local. Era atraente, estava sempre bem vestida e tinha um largo sorriso, cativante. Gilberto interessou-se e tomou iniciativas nunca respondidas. Um convite para a praia, outro para passear de lancha, depois um cinema, um teatro. Nada. A moça era simpática e com evasivas dispensava os convites. “Orgulhosa, repetiam as vizinhas”.

Desistindo após tentativas que beiraram aos dois anos, Gilberto conheceu outra moça. Casaram-se, tiveram três filhos que, num piscar de olhos estavam crescidos, adultos e dando-lhes netos. Mesmo ocupado com o trabalho e a família, então numerosa, Gilberto nunca deixou de esticar os olhos para Filomena. Ela permaneceu sozinha, sem que ele entendesse os motivos. Assim como passara para ele, o tempo levou os pais e os amigos da bela vizinha que, tranquilamente solitária, raramente recebendo até mesmo os amigos da juventude.

Foi por conta de uma ameaça de briga com a esposa de Gilberto que Filomena deixou de cumprimentá-lo. A outra, que de boba tinha pouco, percebia os olhares demorados do marido para com a vizinha e convidou a “sirigaita” a tomar sorvete e beber cerveja “na puta que a pariu”. Filomena não gostou do exagero da outra, queixando-se ao rapaz e, castigando-o por ter se casado com uma estúpida, afirmou e cumpriu promessa de nunca mais frequentar o bar. Foi nessa ocasião que Filomena, chateada, com o falatório advindo do acontecimento deixou de falar com toda a vizinhança, Gilberto incluído na decisão.

Após a morte dos pais Filomena dedicou-se a cuidar da imobiliária da família, mas trabalhando apenas pelas manhãs. Era de seu temperamento a regularidade de horários. Saindo às 7 da manhã, voltava por volta das treze horas. Às quinze saia para a academia, ou para o salão de beleza, ou o shopping. Sempre nos mesmos horários. Voltava às dezenove horas. Percebia então os olhares vigilantes de Gilberto, sabedor desses horários. Mas, fingia não ver. Quando era impossível evitá-lo ela respondia com um leve aceno e um esboço de sorriso para, assim, não alimentar algo além.

Gilberto vigiava os dias de Filomena. Lembrava-se que ela um dia lhe dissera que não se casaria por uma única razão. “Estou bem. Gosto só de namorar”. E a razão por não namorar com ele bateu pesado, quando a moça antecedeu o “não bateu!”. Ele guardou um pouco de mágoa, outro tanto de amor-próprio ferido, tudo muito bem equilibrado com um tesão que nunca passou. Olhar a vizinha passou a ser fetiche aliviado em costumeiras sessões de masturbação praticadas no banheiro superior do bar, no exato momento em que ela ia para a praia com os biquinis que estimulavam o ato solitário do rapaz.

Foi por constatar ao longo dos anos a constante vigilância de Gilberto que Filomena, ao passar mal, levantou-se do sofá e saiu até o portão. Não precisou gritar, acenar. Bastou olhar e o outro, percebendo algo errado correu em direção à vizinha que, entregando-se aos braços do homem, pediu: “Acho que é derrame. Por favor, me socorra!”. Era visível o cuidado e o carinho de Gilberto, principalmente para a esposa. Esta resolveu mostrar à vizinhança o tamanho da sua indignação traduzida em palavrões. Ignorando a chuva de impropérios, Gilberto pegou o carro e levou Filomena para o hospital. A pedido da vizinha, ele ainda chamou uma prima que veio cuidar da doente.

Todo o lado esquerdo afetado. Filomena reapareceu com a boca torta ao sorrir. A perna enrijecida, a mão paralisada. Novos hábitos seriam necessários e ela adotou as caminhadas vespertinas, as vestes escuras. Em casa só recebia semanalmente uma faxineira. A prima passou a vir duas vezes por semana. Um dia para a feira, outro para o supermercado. Também essa não falava com a vizinhança e ninguém sabia qual doença tinha sido a causa de tanto. “Orgulhosa, nem a doença melhorou esse jeito. Orgulhosa”. Filomena fingia não ouvir enquanto saia ou voltava dos exercícios que lhe garantiam sobrevida com melhor qualidade.

Caminhando cabisbaixa, raramente levantando o olhar para um cumprimento, Filomena repetiu ao longo do tempo os exercícios cotidianos, quando começou a perceber com frequência indesejada a presença de Gilberto, sentado de frente para o mar em um ponto por onde ela passava. Mesmo mudando horário e itinerário não teve resultado. Lá estava o homem. Em uma tarde, surpreendendo-o, sentou-se ao lado dele, sorrindo levemente e limitando-se a um “Diga!”. Ele contou da viuvez e da certeza de ela não ter percebido, do contrário teria dado as condolências. “Com certeza. E?”. O velho Gilberto reuniu coragem para enunciar um “Quero ficar com você!”. E ela, controlando a dificuldade no falar decorrente da doença sentenciou: “E eu gosto de estar só. De caminhar só. Adeus, Gilberto!”.

Dia seguinte, aliviada, Filomena percebeu o banco vazio. Prosseguiu seu exercício, cabeça baixa para evitar uma queda, mas ainda assim olhando o céu, o mar, ouvindo os pássaros, observando de soslaio as cores das flores e folhagens do jardim. Dizia um breve boa tarde para outros frequentadores da praia. A perna estava cada vez melhor, a mão esquerda já dava sinais do retorno das principais articulações. Em breve ela arriscaria a nadar. Não por vaidade, nem só por necessidade: Tinha um encontro com o mar, com o bronzeado do corpo, com a saúde possível e com a vida que sempre quis.

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Versos de mulher para um samba com amor

Menina linda, desde criança tinham-na por musa. Da família, sendo neta primogênita; do colégio, entre as coleguinhas e da Escola de Samba Bambas do Amanhecer. Tina “Nasceu para ser amada, idolatrada, salve! Salve!” dizia o pai. Deste guardava o som de cada palavra, o sorriso sereno, a força ao levantá-la e jogá-la para o alto no “salve, salve! Minha Tina!”.

Entre os sambistas percorreu o caminho natural das crianças da Agremiação. Foi destaque da ala mirim, rainha da Turma do Amanhã e, adolescente já desfilava entre as musas da bateria onde um dia deveria ser rainha. Fazendo jus aos seus Tina tinha samba no pé, ginga e graça somadas à uma beleza que dispensava fantasias mirabolantes. Também não carecia de adjutórios, balangandãs, reforçava a avó com o familiar “Nasceu para ser amada, idolatrada, salve! Salve!” repetindo a frase paterna, o homem já falecido em desastrada batida policial.

Ao longo de décadas de história os membros da Agremiação Cultural Escola Bambas do Amanhecer não perderam sua característica primordial: um grupo que conservava o jongo, os sambas de roda, as tradições herdadas dos avós. Com grande destaque para o conjunto percussivo e de cordas que garantia notas máximas em todos os desfiles e campeonatos carnavalescos. E sambistas, muita gente com o samba no pé. Resistindo a imposições externas de patrocinadores, dando de ombros para as balelas dos imbecis narradores televisivos, os compositores não abriam mão de música bem elaborada, ritmo sofisticado e envolvente. Samba é arte para fazer gente feliz, o lema nunca esquecido.

Tina, um apelido carinhoso. O nome da menina viera da paixão paterna por Clementina de Jesus, cantora ancestral, força e voz do samba brasileiro, a Quelé da voz marcante e inesquecível. A mãe da garota mantinha características comuns de muitas mulheres: Tina era para os chamados afetuosos, carícias verbais. No entanto, toda a atenção era pouco para quando se ouvia da matriarca o tom imperativo, decidido: “Clementina!”. Crescendo, a menina passou a impedir o apelido, resguardado para lembranças muito pessoais. Se insistiam reiterava que Clementina fora nome escolhido pelo pai, portanto…

Do imenso universo que envolve o carnaval e as escolas de samba, a jovem amadureceu preferências pelos sambas de enredo. Guardava como relíquia discos e fitas antigas de coleção herdada do pai. Admirava Jamelão, o lendário cantor da Mangueira, tinha paixão pelas interpretações de Elsa Soares e evidenciava preferência por enredos com histórias incontestavelmente bem definidas como aqueles assinados por Silas de Oliveira ou Martinho da Vila!

Mas loucamente a Yayá do Cais Dourado
Trocou seu amor ardente
Por um moço requintado
E foi-se embora… ¹

Clementina cantava a Yayá do Cais Dourado, mas não queria ir embora. Deixar sua gente e, principalmente, Valmir, o jovem ritmista que desde cedo foi alvo das atenções e paixões de Clementina. Como não se apaixonar pelo rapaz que, além de manusear instrumentos de percussão com a maior facilidade, ainda criava lindas melodias? Não era bom nos versos, seria pedir demais aos deuses. Palavra era domínio da menina e a dupla passou a brincar, ela com a letra, ele colocando melodia e, ainda tímidos, resolveram esconder até dos familiares os primeiros sambas, inibidos pela qualidade dos excelentes compositores atuantes no cotidiano dos carnavais da Escola.

Dançando nos ensaios, desfilando na frente da bateria, Tina tornou-se jovem e bela, musa querida de todos. Entre um carnaval e outro cumpria compromissos visando a festa, mas o que gostava mesmo era de namorar e compor com o parceiro que a vida lhe deu. Continuavam escondendo o resultado do empenho em criar sambas, principalmente pela vontade de Valmir. “Essas letras são coisas de mulher. Eu ainda preciso aprender a compor versos, ou arranjar um letrista para os meus sambas”.

Quando adolescente Clementina achava atitude normal as imposições do namorado. Temia envergonhá-lo perante a Bambas do Amanhecer dominada por compositores homens. E insegura, achava  que as próprias histórias que contava em suas letras tinham muito dos romances açucarados que gostava de ler. Já crescida, a questão teve seu ápice quando, insistindo em mostrar as criações de ambos para a comunidade, Clementina citou as criações e os grandes sambas de Dona Ivone Lara. O namorado foi cruel para com a menina, ainda insegura: – Você não acha que pode comparar seus versos com “Os cinco bailes da história do Rio?”, lembrando o primeiro samba de enredo da grande compositora da Império Serrano.

Carnaval, doce ilusão
Dá-me um pouco de magia
De perfume e fantasia
E também de sedução…²

Magoada, Clementina evitou briga, mas deixou de fazer versos para as canções do namorado alegando ausência de inspiração. Limitou-se a fazer aulas de dança, fazendo crescer o objetivo de ir além de musa da bateria. Ela pretendia desfilar como porta-bandeira e, para isso se preparava, para ser a representante máxima conduzindo o pavilhão da Escola. Intuía desde há muito que o namorado jamais seria seu Mestre Sala, pois faltava para ele a elegância e a gentileza necessárias para a função.

A vida seguiria cotidiana caso não houvesse grande perda para toda a comunidade. Morreu Antônio Almeida, célebre compositor, letrista e melodista completo, autor por dezoito anos consecutivos dos sambas de enredo da Bambas do Amanhecer. Um acidente causado durante viagem onde o velho compositor comemorava um vice-campeonato no recente carnaval. Passado o choque, amenizada a tristeza, a diretoria da Agremiação decidiu por um concurso para escolher o compositor oficial, aquele que coordenaria seus pares nas criações dos futuros sambas da Escola. Só seriam aceitos participantes da comunidade e estava permitido também o trabalho de duplas, ou trios. Todos se entusiasmaram e Valmir ignorou a parceira de suas primeiras canções que, evitando dissabores, preferiu ficar longe dos preparativos para a competição. A mágoa ficou exposta quando Tina ignorou os trabalhos inscritos pelo namorado.

Da grande final Clementina não pode, nem quis ficar distante. Estava feliz. Valmir fora anunciado entre os finalistas via composição em parceria com o irmão mais velho, Alfredo, um estranho no ninho. A moça jamais soubera ter um cunhado compositor. Presa no trabalho por uma reunião esperada que se alongou, a moça chegou ao evento bem no momento em que a quadra fervia. Valmir subiu ao palco para se apresentar como o grande vencedor daquele concurso. Entre alegre e surpresa, Clementina reconheceu imediatamente antigos versos que escrevera e não conseguiu segurar o desapontamento ante a certeza de não ter o próprio nome entre os criadores da composição.

O que seria uma briga imensa foi abafada pela diretoria, alguns membros da Velha Guarda e pela própria mãe da moça. Quando Clementina denunciou ser também autora, os demais concorrentes exigiram a desclassificação da dupla vencedora. Ficou no disse-me-disse. A mãe de Tina, agora interessada no Presidente da Agremiação ignorou a propriedade intelectual da filha: “Clementina, você não vai nos prejudicar por uma vaidade tola!” A moça, acostumada, obedeceu. O namoro terminou ali. Tudo se aquietou.

O desfile das escolas de samba daquele ano teve como grande marco o primeiro campeonato da Bambas do Amanhecer. Entre a alegria da vitória e a mágoa pela exclusão do próprio nome entre os criadores, Tina presenciou comemorações que atravessaram março, abril. Os compositores vencedores garantiram o direito de compor para os próximos carnavais. Quem iria contrariar? Prêmio merecido, sendo citados por revistas e jornais especializadas que reconheciam inegável poesia dos versos do samba enredo.

No ano seguinte os sambistas começaram a estranhar a demora em que se decidisse o novo enredo. Tradicionalmente, era o samba que determinava o enredo e não o contrário. Com o atraso da dupla, sempre afirmando que buscavam versos melhores que os anteriores, foi exigido que indicassem o tema. Já era o mês de maio e a infraestrutura material já estava comprometida. Tecidos, confecção de adereços e fantasias, projetos de alegorias… já estava na hora das aquisições, encomendas. O ainda apaixonado Valmir, sonhando com uma reviravolta do destino, informou: “Vamos homenagear Clementina de Jesus!”.

Novembro mais do que tenso, pesado. Pressionando a dupla de compositores foi marcada uma noite para apresentação do enredo da Bambas do Amanhecer. A decisão da diretoria foi irrevogável; não esperariam mais um único dia. O que se viu na hora da apresentação foi constrangedor. Uma dupla alcoolizada escorada em boa melodia, sob o som esfuziante da percussão, cantou versos medíocres, indignos da campeã do carnaval. Do constrangimento à revolta foram poucos minutos. Não tardou a que um rival do Presidente em exercício subisse ao palco expondo o dilema e a crise instaurada. A Bambas do Amanhecer não tinha um samba enredo. E o motivo, todos sabiam. A letra do samba anterior fora criado por Tina.

Quando soube do ocorrido, contam, que ela apenas sussurrou: “Mulher não compõe? Então vamos ver”. E após ouvir a melodia, por apenas duas vezes, pegou papel e caneta, pensou no pai e no afeto deste por Clementina de Jesus, na Mangueira, na trajetória da cantora, mãe querida de todos os sambista. Em poucos minutos redigiu os versos que, naquela mesma noite foram apresentados e aplaudidos por todos os presentes na quadra. Tina foi declarada compositora oficial da Agremiação Cultural Escola Bambas do Amanhecer. A moça não titubeou em corrigir quando foi anunciada: Clementina! Meu nome é Clementina Maria dos Santos.

Fevereiro. Carnaval. Entrou na avenida como destaque do carro de som, com faixa não de rainha, a compositora Clementina Maria dos Santos, entoando com alegria o seu samba enredo: “Versos de mulher para Quelé, um samba com amor!”. Exigiu que Valmir desfilasse bem atrás, escondido no meio de vários instrumentistas. E na semana seguinte, durante o desfile das campeãs, passou pelo sambódromo carregando sozinha o troféu de melhor samba de enredo do ano.

Valdo Resende / Fevereiro de 2022

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Notas musicais:

1 – Yá-ya do cais dourado é composição de Martinho da Vila para a Unidos de Vila Isabel, em 1969.

2 – Os cinco bailes da história do Rio, enredo da Império Serrano de 1965, é composição de Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara e Bacalhau.