O CÃOZINHO ABANDONADO

Gauguin (Tahitian Pastorals, 1892 – Detalhe)

Vista ali, maquiada, bem vestida, recostada no parapeito do Viaduto Jacareí, olhando embaixo para a Avenida 9 de Julho, não dava para imaginar seus motivos. Parecia uma senhora comum, uma transeunte distraída com a movimentada avenida vista ali do alto, com seu eterno vai e vem de carros, ônibus e motos.

Postada na mureta do lado oposto ao centro da cidade, o olhar permanecia fixo, sendo difícil saber exatamente qual ponto era observado. Ela acenava, com voz lacrimosa, olhar marejado, dirigindo-se para quem lhe desse atenção: “- Olha ali, está assim, amarrado o tempo todo. Tadinho! Sem comida, sem água. Nem se mexe!” Enquanto o interlocutor tentava entender o que estava acontecendo ela esclarecia, apontando para a paisagem próxima: “- Moro ali, naquele edifício da 9 de Julho. De lá vejo ele, pobrezinho, amarrado, sem água, sem comida”.

O ato de repetir a situação do amarrado sem água e comida visava despertar a piedade sobre… o que mesmo? E ela virava-se para o novo “amigo” mostrando-se por inteira. Os olhos bem pintados, um batom acentuando os lábios, a blusa, de manga comprida, tinha um decote generoso e, caso o gajo descesse o olhar veria uma cintura bem marcada, saia justa sobre pernas longas, salto alto.

Com voz triste, cheia de piedade, insistia na cantilena do pobre sem comida, sem água; um cachorro em uma coluna de madeira preso em um quintal ou pátio de estabelecimento da rua paralela à avenida. O quadro era real, o que não se podia era afirmar a autenticidade dele. Estar sobre o viaduto Jacareí e descer à rua verificar a situação demanda uma caminhada que carece de um sujeito apaixonado pelo ato de proteger todo e qualquer animal.

“- Moro ali, fico olhando pela janela. De lá tenho uma ótima visão e esse pobre animal está lá desde sexta-feira, ficou a noite toda e, veja bem, são quase cinco horas da tarde. Olha, não tem água, não há comida. Ele está tão fraco que pousam pombos bem próximo e ele não se mexe!” Era fácil constatar que o cão, já habituado ao espaço e às próprias condições nem se mexia com os pássaros por não poder alcançá-los. Uma observação mais demorada e percebia-se o movimento do animal, acomodado ao cativeiro. “- Eu não aguento vê-lo assim; fico muito triste!”, ela insistia.

A obviedade da questão seria a distinta procurar as autoridades competentes, fazer uma denúncia, salvar o bichinho!  “-Sou uma mulher sozinha, tenho receio, vai que sofra alguma retaliação! Se alguém me ajudasse…”

Nem sempre a conversa ia muito longe. Uns deixavam-na no vácuo, sem dar muita atenção. Um ou outro observava bem o local, indagava o nome da rua e prometia tomar uma atitude. Havia outros, mais raros, que observavam a maquiagem, o decote, a saia justa e, sondando possibilidades, partiam para o apartamento da protetora dos animais buscando ter a mesma visão que ela. O encontro terminava em sexo e o cãozinho permanecia preso.

Uma solidão brutal. Juliana não nascera para viver assim. Fora moça linda e os traços estavam ali, bem marcantes, denunciando sobre a figura majestosa de uma idosa a mulher bonita de outros tempos. Casou-se uma vez, não deu certo. Os ciúmes do marido eram tóxicos. O divórcio foi inevitável. O segundo casamento terminou quinze anos em depressiva viuvez. A solidão não foi tão percebida enquanto o tempo foi tomado pelo trabalho. Veio a aposentadoria; os amigos tinham seus familiares, suas vidas. A dela era estar só.

Não se adaptou aos grupos de terceira idade. Eram frequentes as sensações de desespero, de um aproveitar a última oportunidade, de viver o que restava. Pintavam situações de permissividade, com argumentos do tipo “o que há para se perder”? A dignidade, respondia. E foi se afastando, abandonando reuniões, evitando encontros. Ficou só. Perdeu a noção de quanto tempo se passou até que se percebeu absolutamente isolada, olhando a vizinhança pela janela privilegiada do apartamento do sétimo andar.

Há poucos transeuntes pela Avenida 9 de Julho, quase tomada exclusivamente por carros. Bem ali, ao lado do Viaduto Jacareí, o mais comum eram pessoas descendo ou subindo escadas rapidamente. Quando na Avenida iam para o ponto de ônibus, ou então, eram moradores, vizinhos. Os que subiam as escadas tinham a Câmara de Vereadores como destino, a Biblioteca Mário de Andrade, a Federação Espírita ou outro lugar qualquer.

Perdeu a conta dos assaltos vistos sobre o viaduto, os assaltantes fugindo calmos, com a tranquilidade de quem sabe que não será seguido. Deixavam carteiras, bolsas vazias nos últimos degraus da escada. Em finais de semana, após finais de futebol ou em dias de carnaval, apreciava diferentes composições de seres humanos fazendo sexo. Não enxergava direito pelo movimento, a iluminação precária. Acabou comprando um potente binóculo.

Conheceu pela Internet as salas virtuais. Por pouco tempo, já certa de não ter nascido para tal tipo de faz de conta. Trocou a sala por brinquedos eróticos que, para seu desespero, não incitaram sua imaginação, nem mesmo com o apoio de fotos, vídeos. Nascera para encontros reais, embora não tivesse coragem nem cara de pau para tomar iniciativas. Era necessário aguardar a sorte, o destino, o momento certo.

Lia muito. Leu e releu tudo o que havia acumulado ao longo de anos, comprou novos títulos, passou a frequentar as salas da Biblioteca Municipal. Um ou outro bar, jantar nas cantinas próximas, teatro, uma exposição. E ela sozinha, sem coragem de se aproximar, de tomar atitude e só muito raramente sendo abordada. Em sessões televisivas de autoajuda concluiu que precisava criar oportunidades, já que essas não apareciam.

Deve ter sido um gato, um rato, vai saber! Uma noite de sexta para sábado e ela teve o sono perturbado pelo latido distante, incessante do cachorro que, mal amanheceu o dia e ela conseguiu localizar o bichinho. Sol alto, visão boa, lá estava o cachorro no distante vizinho, amarrado e, como ela, solitário. Era um estacionamento, também lava rápido, sempre cheio de carros. Não era difícil concluir que o bichinho permanecia amarrado para não machucar nenhum freguês. Só a noite, estabelecimento fechado, o cachorro ficava solto. Quem sabia disso? O cãozinho. E ela.

Gostava de rir quando lembrava que a ideia veio do velho e bom conto de fadas. Se ela precisava de um Joãozinho para se alimentar, o jeito era atraí-lo tal qual a historinha, fisgando-o e arrumando um jeito de levá-lo para casa. Melhor, não aguardar a presa crescer, engordar. Era resolver a fome, saciar o desejo e seguir em frente, rumo a outro João sem Maria. Um plano canhestro, quase sempre fadado ao fracasso. A aventura, no entanto, era real e a adrenalina subia dando-lhe sensações há muito esquecidas.

Quando o interfone tocou anunciando a visita de um vizinho que não conhecia, ela desceu para atende-lo na portaria,  pois, não iria abrir sua casa para gente enxerida. No pequeno hall o homem falou poucas e boas, identificando-se como o dono do estabelecimento onde o cachorro permanecia preso durante o dia. Ele contabilizou dezoito denúncias e vários meses até descobrir de onde e como partiam tais acusações. Estava tendo um trabalhão para sair ileso de crime não cometido e exigia que ela parasse com aquilo. Enquanto ele falava ela o admirava.

Era um senhor bonito, forte, talvez um bom amante. Ela fingiu consertar um botão na blusa, abrindo essa com sutileza e olhar absolutamente cheio de intensões. “– Você, posso chamar o senhor de você, não é mesmo? Então, você precisa ver como eu vejo, da minha janela. Vai entender por que me vem a impressão de seu animalzinho ser mal tratado. Na verdade, eu gostaria de fazer algo por ele! Venha, vamos subir para que você veja. Como é mesmo seu nome?” João! Ela conteve o riso e, sem abrir totalmente a porta do elevador facilitou ao homem encostar-se em seu traseiro, arrebitado, para extinguir no outro qualquer dúvida sobre os motivos daquele convite.

São Paulo, novembro / 2021

Influencer

Ele só queria ser amado, admirado, desejado e, ainda mais, faturar uma graninha por ser assim, um sujeito querido e seguido por milhares, quiçá milhões. Trabalho duro, que demandou tempo iniciado por intermináveis sessões de academia. Como é difícil aumentar o peitoral! Pior são as canelas, as coxas cuja definição as peladas semanais colaboravam, mas o volume… Uns cambitos que pediam melhor alimentação. Esta, outro grande problema.

Fazer uma dieta saudável é complicado. Evitar isso, ingerir aquilo. Nada de ajuda artificial, embora secar barriga é coisa de louco. Os malditos gominhos definidores do tanquinho foram mais difíceis que aumentar bíceps, engrossar panturrilhas. Cansou de ser chamado de frango. Queria ser galo, definido, pronto para pegar quem por ele se interessasse. Nesse ponto demorou algumas semanas para se decidir em relação ao público-alvo até encontrar o meio termo.

Transitou pela indefinição procurando meticulosamente como atingir mantenedores sem que esses fossem perdidos para garotas com as quais apreciava gastar, bancar a conta, sentir-se macho. Melhor vitrine que mulher bonita nunca encontrou. O sucesso chegou aos poucos, na medida em que conquistou uma modelo aqui, saiu com uma aprendiz de socialite ali e, após divulgar imagens de noites que sugeriam prolongamentos sexuais, partia para manhãs em lanchas de amigos abastados, peladas em campos particulares e, finíssimo, até algumas partidas de golfe.

O sucesso social veio junto com um elaborado plano de exposição nas redes sociais. Após erros grosseiros advindos de fotos ruins concluiu ser necessário investir em boas produções. Essas vieram com orientação precisa de um expert, colega de academia. Era preciso ser sensual para todos os sexos, ou seja, nada de fotos direcionadas para essa ou aquela figura humana. Encontrou êxito no estereótipo do homem másculo, elegante, limpo, cheiroso, que mostrava pouco, insinuando o suficiente para incentivar sonhos e desejos alheios. Esses vieram.

O processo todo levou cerca de quatro anos. O menino franzino transformou-se em rapaz viril, sem os exageros musculares dos fisiculturistas. Junto a isso, tornou-se a celebridade elegante; aquela que está em eventos culturais de ponta, que se diverte com a elite em esportes sofisticados, passeios exclusivos. Conseguiu até um emprego de fachada, em uma seguradora após tornar-se amante de um diretor, homem casado e discreto pai de família, habituado a ser mantenedor, portanto, abrindo fácil a carteira. A relação ideal.

O boom da fama aconteceu em namoro relâmpago com uma top do momento. Uma moçoila estrangeira que, em passagem pelo Brasil cedeu encantos ao guapo que, sutil e cúmplice da celebridade, tratou de dar todas as chances para um paparazzi amigo. Este faturou alto com fotos que sugeriam tudo o que não aconteceu, posto que a moça precisava manter a pele saudável para uma sessão de fotos na manhã seguinte e o diretor da seguradora resolveu ter crise de ciúme. A primeira.

Então famoso, apreciava o trabalho matutino: pensar em postagens e poses para durante o dia. Ser gostoso, bonito, tornar-se desejado e invejado pelas pessoas. Estava ótimo ganhar dinheiro para tomar um simples café ou exercitar em tal academia, comparecer em uma festa. Presença! Chegou a contratar auxiliares: fotógrafo, redator, produtor de moda… um pequeno séquito fazendo-o mais bonito, sexy. Tão desejável que o amante, o diretor, resolveu mudar status, querendo ser marido. Com a agilidade dos executivos o homem contratou advogados, dividiu bens e terminou um casamento pensando em novo enlace com o belo e jovem influencer.

Após semanas de nova vida de solteiro para o diretor, e os regalos de sempre para o, agora, noivo, a relação começou a desandar. Para o jovem era temeroso um casamento. O que pensariam as fãs, aquelas que, incautas, não sabiam ler as verdadeiras atividades do famoso? Havia também a exclusividade que a nova fase da relação estava impondo ao rapaz habituado a frequentar a diversidade sexual contemporânea. Sim, ele descobrira ficar enlouquecido com apetrechos diversos manuseados por sadomasoquistas especializados que agiam sem deixar marcas. Tortura preferida, gostava de ser amarrado em argolas dispostas de tal forma que ele ficava tal qual o Homem Vitruviano, de Da Vinci. Braços e pernas presos, bem esticados, e os parceiros lambiam locais de seu corpo que o excitavam, levando-o à loucura. Era mantido preso sem que pudesse ter qualquer movimento. Parte do contrato, os locais de tais práticas não eram revelados e foi este o principal item a despertar o ciúme do parceiro, distante e proibido de participar das festinhas.

Os conflitos pipocaram. O homem mais velho, sentindo-se liberto após o divórcio e dono de ações que garantiam sua posição na empresa tornou-se insuportável. Ia junto a todos os lugares, opinava quanto as poses nas fotos, ao vestuário e, até mesmo, passou a acompanhar as aulas na academia. Uma rusguinha ou outra, por ciúme, seguida de rounds de brigas homéricas, chegando às vias de fato quando o homem tentou impedir o jovem de ir para as sessões secretas, necessitado que estava o guapo de relaxamento. A briga terminou em queda sobre móveis baixos onde ambos trincaram partes do corpo. A perna do influencer, o braço esquerdo do amante.

Conflito abafado, os convalescentes viveram trégua durante o período de recuperação física. Quando o jovem famoso tentou retomar sua vida descobriu estar sem cartão de crédito, ter uma conta corrente zerada e nem o carro e a moto estavam em seu nome. Com ódio, enviou sentimentos de gratidão ao amigo que fizera com que ele aplicasse dinheiro escondido, mantivesse contas secretas. E acima de tudo que jamais gastasse do que ganhava. Tinha seu trabalho nas redes sociais. Pegou seus pertences e saiu, sem se despedir do agora ex-mantenedor.

A retaliação foi rápida e devastadora. Com a objetividade dos grandes administradores o homem buscou os rivais do influencer. Entre esses, os mais baixos, os mais perversos. E criou sua versão da história: Apanhou, teve o braço quebrado, foi roubado, perdeu a família por um viciado que frequentava um “castelo” escuso, território de sadomasoquistas pederastas. Completou a narrativa com imagens de olheiras feitas por maquiador de última hora, o mesmo que cobria as imperfeições do ex-namorado.

Julgamento rápido, o cancelamento veio junto com pederastia e sadomasoquismo elevadas momentaneamente aos trending Topics do Twitter. Ao influencer restou chorar a fama perdida, a aura para sempre manchada pela impossibilidade de desmentir o caso com um homem mais velho, pai de família que perdeu mulher e filhos por conta de um vadio de ocasião.

O cancelamento foi amargo. Durou cerca de quatro meses. O tempo levado para que a moçoila top pop star voltasse ao Brasil. Alheia aos escândalos anteriores e aproveitando-se desses para garantir maior visibilidade, a moça aceitou até expor situações mais íntimas. Um intenso e inequívoco beijo de língua, uma mão amassando um peito enquanto a outra, da parceira, aconchegava o sexo do rapaz, já então recolocado instantaneamente ao podium. Influencer!

Dreams Island

Era muito pequeno, um menino de calças curtas. Nem se lembra exatamente quando ocorreu, mas ter ido visitar uns tios que moravam no litoral, lá em Vitória, no Espírito Santo, mudou para sempre a sua vida. Tudo por conta daquela prima chata, sabidona, que havia percebido que o menino ficara encantado com a cidade. “– Uma ilha, ela disse. Aliás, são muitas ilhas que compõem a cidade. Por isso é tão bonita! É água para todos os lados!”

A sabidona tinha estado em Montes Claros, visitando o primo. Reclamou do calor, da seca, da ausência de água em abundância. “– Aqui não tem mar? Lugar esquisito. Como viver longe do mar?” Pois mineiro vive muito bem, responderia ele se não tivesse se sentido inferiorizado, sem saber nadar, assustado com o mar em movimento. Piorou um pouco em visita à Vila Velha. Sabe-se lá o motivo, havia ondas enormes e por mais que a prima insistisse ele nem molhou os pés. Banho de mar… Tinha feito todo asseio antes de sair de casa.

Muito depois o menino descobriria que água, sabão e alguns remédios o curariam da catapora. A mãe não se conteve, fez promessa, e logo na primeira oportunidade foram para Vitória, terra dos avós maternos e, na cidade, foram ao município vizinho participar de missa no Convento de Nossa Senhora da Pena. A prima estava lá. Ela estava em todos os lugares! E não perdeu de vista o olhar de espanto do menino admirando a paisagem do alto do morro. “– Aqui é Vila Velha! Lá é Vitória”, apontou a cidade rente a água. “– Temos muitas ilhas, mais de trinta! Sua Montes Claros não tem tanta água assim.”

Ele levou uns cascudos do pai, uns puxões de orelha da mãe. Recíproca a outros, dados por ele na sabidona a quem, na hora da briga, foi chamada de capixaba, como se isso fosse palavrão. Mineiro é coisa bonita. Mineira, então, nem se fala! Mas, capixaba! “– Você não passa de uma capixaba xexelenta!”. Nunca mais se falaram, nas duas ou três vezes que se viram ele fez caretas, ela olhando-o com ar superior. “– Temos muitas ilhas!”. Ele seguiria firme em um juramento feito lá longe, com as orelhas ardendo: um dia teria a sua ilha!

Já adulto, anos e anos depois, sabia que Minas Gerais tinha ilhas, um monte delas. Gente abençoada, mineiro tem água até para construir ilha artificial, longe de tubarões, de ressacas perigosas. Engenheiro de profissão, conseguiu grandes trabalhos construindo estradas e antes dos cinquenta anos já pensava em comprar um pedaço de terra. Um sítio, uma fazenda; nada muito grande, desde que fosse banhado por água e, fundamental, que tivesse uma ilha. Poderia ser pequena, mas seria uma ilha; a sua ilha.

Conheceu todas as ilhas do Rio Doce: Brava, Bonaparte, Etelvino, Nossa Senhora da Penha… Ela, a santa daquela distante viagem. Bem que poderia ajudá-lo a encontrar sua ilha, em pedaço de terra que ele pudesse comprar. Quase comprou uma pequena chácara em Piracicaba, no Estado de São Paulo, por onde passava o rio famoso na região e na canção. Resoluto, só compraria terra em sua Minas Gerais, terra com água e ilha, tão bonita quanto Vitória. Não falava disso com ninguém e, na calada, sabia da sua luta quase insana. A capital capixaba é bonita demais!

Mineiro que é mineiro sabe de Guimarães Rosa, de Augusto Matraga. “Todo homem tem sua hora e sua vez!”. Eis que a dele chegou. A empreiteira o enviou para inspecionar reformas na estrada que liga o Rio de Janeiro a Belo Horizonte, bem no município do Brumadinho. A esposa adorou a região e na primeira oportunidade surgida compraram uma bela chácara às margens do Rio Paraopeba. Aquelas serras, aqueles rios com água farta!

Estavam longes de Brumadinho, mais distantes de Belo Horizonte e felizes com o sossego e a tranquilidade local. O casal de filhos crescidos, casados e com famílias constituídas, teria na chácara um local de férias garantido. A esposa bem que estranhou quando ele batizou a chácara: Dreams Island. Ele não negociou. A mulher entendeu a ilha como o refúgio entre cercas de arame farpado em quase toda a propriedade, exceto na parte rente ao rio. Ele, sem confessar a ninguém, só adquiriu o local por conta de duas pedras que emergiam do Paraopeba entre outras, menores, e volta e meia cobertas pela correnteza.

Tantos anos passados, nenhuma ilha disponível para suas possibilidades financeiras, ele resolveu se contentar com a Dreams, como a chamava para si. Quem sabe compraria outra, mais para a frente. Uma ilha maior, bonita. Todavia, nada melhor do que ter sua ilha, ali, para uso particular.

Finais de semana ou em feriados prolongados ele pegava vara de pescar, munia-se de iscas, um rádio de pilhas, boa cachaça e rumava para sua ilha. Raramente se lembrava da capixaba xexelenta. Quando ocorria, tinha certeza de que ela não possuía uma ilha como a dele, só dele, todinha para ele. Um dia de ausência de peixes a cachaça provocou sono pesado. Ele acordou com as costas ardendo, assadas na pedra inclemente. Ele repetiu outras vezes a façanha: Pescaria preguiçosa, cachaça farta, sono tranquilo.

Estaria bêbado naquele 25 de janeiro de 2019? A família não sabe. Estavam todos em Vitória, nas bodas de prata da prima que ele odiava. Talvez ele tivesse tentado salvar alguma coisa da pequena ilha quando se perdeu sobre os dejetos vindos do desastre da barragem, em Brumadinho. A chácara virou um lodaçal fedorento, o rio perdido, a terra contaminada. A horta, o pomar, a casa. Tudo perdido, destruído. Foi encontrado algumas semanas depois, morto, um nome entre mais de duas centenas de outros. O reconhecimento foi fácil. No pescoço ele portava um colar recebido de presente da esposa. Era de ouro maciço, personalizado, com o nome Dreams Island preso entre correntes.

Outras faces

Foi simultâneo sentir-se acordado e abrir os olhos. Não reconheceu o cheiro dos lençóis e notou, rapidamente, ser outro o travesseiro onde repousava a cabeça. Olhou para a cama, os aparelhos sustentando frasco de soro, outro com remédio também aplicado na veia. Mexeu os braços, movimentou as pernas, virou a cabeça para um lado e outro, o olhar indo além para encontrar paredes sem graça, cores muito claras, frias, um hospital…

O livro espírita lido há tempos dizia de hospitais onde seres desencarnados deveriam se recuperar antes de enfrentar a realidade. Aguçou o ouvido, percebendo que havia sons conhecidos fora do quarto. Sem identificar se vindo do corredor ou de quarto vizinho, reconheceu o som costumeiro da televisão com seus repetitivos programas matutinos. Só faltava, na eternidade, ter que conviver com receitas culinárias de ingredientes que ele nunca tinha na despensa…

Duas enfermeiras entraram sorridentes, anunciando troca de turma e dando boas-vindas ao convalescente. – Vejam só, disse a moça de pele viçosa e descansada, indicando ser a que prosseguiria dali para a frente. – Então o senhor acordou! Está tudo bem? O senhor tem direito a acompanhante e, não sendo vítima da pandemia, a entrada e permanência neste setor é liberada, embora as visitas estejam controladas. O senhor quer que a gente chame alguém?

Não havia quem chamar. A família longe, os parentes distantes, os amigos em quarentena… Ficou sem jeito, envergonhado por estar sozinho. Havia tido tempo de alertar o porteiro, deixar a casa aberta até a chegada da ambulância. Com quem teria ficado a chave do apartamento? Ainda bem que o porteiro, Ademir, era de confiança. Em não sendo e acreditando-o morto, Ademir tiraria proveito da situação? Pediu à moça o celular. Ela retirou o aparelho, já descarregado e sem cabo, da gaveta do criado mudo. – Vou conseguir um carregador para o senhor! Seu médico deve passar ainda pela manhã! Bom dia! E antes de sair, em gesto automático, ligou um televisor, deixando o controle remoto ao alcance do paciente. Ele aguardou a porta fechar para desligar o aparelho.

A enfermeira dissera estar tudo bem. Um infarto. Ele pensou em investigar as próprias condições; respirou profundamente várias vezes e sentiu-se bem com a ação. Pegou o interruptor, preso na lateral do leito, e começou a brincar com as possibilidades do móvel. Subiu e desceu toda a cama, levantou a parte superior, sentando-se e voltando a repousar para, em seguida, levantar os pés. Perguntou-se se a cama poderia ir de um lado a outro, controlada pelo paciente. Lembrou Frida Kahlo e mudou rapidamente de ideia. Não estava interessado em passar a vida sobre uma cama, mesmo que ela tivesse luzes e música embutida, frigobar e outras bobagens chamadas “confortáveis”. Era uma cama e o melhor seria sair dela.

Decidido a se levantar, ao sentar-se sentiu o peito apertado, notando sinais estranhos na mandíbula, no pescoço. Insistiu em levantar-se e veio a tontura, a falta de ar. Ele poderia insistir, deixar de chamar socorro, e buscar a saída, o banheiro, qualquer outro lugar que não aquele quarto de hospital. As enfermeiras voltaram, alvoroçadas. – O que o senhor está sentindo? Não pode sair da cama! Parece criança! Ele não havia feito barulho. Como elas teriam percebido? – O senhor, quando assinou o convênio, autorizou monitoramento por câmera estando sozinho. Foi uma ótima ideia até vir alguém para ficar com o senhor. O médico já vem. Tenha paciência!

Ele poderia mandá-la à merda. Ficou ruminando raiva. Criança! À puta que pariu com essas conclusões precipitadas. Identificou a câmera, localizada bem em frente à cama  e outra, na parede lateral. Será que teriam câmera o vendo quando no banheiro? E se ele se masturbasse, ostensivamente para a câmera? É. Criança. E riu das próprias conclusões, sem deixar de lançar um olhar de ódio para os pequenos objetos. Estava cansado de contatos via aparelhos. Televisão, rádio, computador… E as ligações, os grupos de WhatsApp, as redes sociais… O inferno da pandemia exposto e imposto através de lentes, telas, sons. Havia cancelado jornais impressos e revistas, com receio de contágio…

Veio um café, com a feiura das bandejas hospitalares. Tudo muito limpo, organizado, asséptico, encapado com plástico. Manteiga sem gosto, café fraco e sem açúcar, leite morno e frutas, e barra de cereais, um suco de caixinha – que todos têm sabor artificial; suco de caixinha… A senhora do café se mostrou simpática, ofereceu ajuda. Ele agradeceu e comeu, pensando em quanto tempo duraria para carregar a bateria do telefone.

Alguns minutos após o café entrou o médico. Simpático profissional. Veio com papo similar ao da enfermeira. – Quer dizer que o senhor andou fazendo arte! Vamos ver como é que está esse coraçãozinho, a pressão! Tá sentindo alguma coisa? Ele informou estar irritado com o fazendo arte. Eu faço arte! Sou artista. Algum problema ser artista? E tenho coração, que coraçãozinho quem tem é codorna. O almoço vai vir no mesmo nível do café ou pode melhorar um pouco?

O simpático profissional mudou. Mostrou-se profissional sério. – Seu nível de estresse levou-o ao infarto. Todo o senhor chegou aqui cheirando a cigarro. Está muito acima do peso e a depressão transborda do seu olhar. Entendo. O senhor luta contra todas as imposições advindas da pandemia. É uma luta solitária. Serviria de consolo dizer que eu trocaria de lugar com o senhor? As pessoas chegam aqui fora de si. Parei de contabilizar aquelas que não voltaram, que morreram na manhã seguinte. Estou cansado e farto de ter um paciente novo a cada dia porque o do dia anterior faleceu. E creia-me, estou feliz porque o senhor está vivo. Estou vendo-o pela segunda vez e vivo! O senhor tem direito a atendimento psicológico. Vou pedir para que venham vê-lo o mais breve possível.

Ambos em silêncio, o médico mediu novamente a pressão, auscultou o pulmão e o paciente resolveu mostrar outra face: – Meu coraçãozinho não vai aguentar ter que falar com psicólogo hoje. Dá para trocar por um cigarrinho? O médico voltou a ser simpático, menos profissional, já quase amigo.  – O senhor quer um café expresso antes do cigarro, uma cerveja, uma cachaça? Vou mandar vir o psicólogo antes do almoço. E antes que se afastasse, o paciente segurou-o pelo braço, em ação que seria inusitada, não fosse o Covid 19. – O senhor é a primeira pessoa em quem toco nos últimos oito meses. E quando o médico retornou o olhar, sério, a tensão foi quebrada pelo próprio doente. – Não quero sexo, nem beijo na boca. É só um aperto de mão. Riram e o médico saiu, prometendo voltar ao final do dia.

O que ele diria para o psicólogo? Seria bom que fosse uma mulher. Há tanto tempo que não falava presencialmente com uma mulher! Apenas via internet com a esposa, que estava morando em Lisboa desde o início da pandemia. Fora anteriormente, para ajudar a filha grávida do segundo neto. Decidiram que seria melhor que a esposa permanecesse por lá, cuidando para que ninguém se contaminasse. Ele concordou, macho autossuficiente, forte e decidido – Aqui as coisas estão de mal a pior. As UTIs lotadas, um imbecil no poder, as pessoas andando pelas ruas sem máscaras…

Três, quatro semanas depois o macho autossuficiente já ansiava pela volta da esposa. Orgulhoso, fingia estar bem. Protetor, insistia em que a filha é quem precisava de cuidados. Meses depois era um menino solitário, chorando sem receios de ser visto por não haver ninguém para vê-lo. Inventou para a esposa que a câmera do computador estava com defeito, que não conseguia mexer com o celular, para que não vissem a barba por fazer, o corpo ganhando peso, o olhar triste. Com frequência interrompia as ligações, para que não percebessem que caía em prantos. Na ligação seguinte amaldiçoava a telefonia nacional.

Um ano estava sendo tempo demais! A chegada da vacina trouxe um alento e, logo que possível, ele tomou a primeira dose. O susto pela contaminação do vírus em amigos e familiares se tornara corriqueiro. Contudo, não conseguia aceitar as mortes. Alguns parentes, um irmão, dois sobrinhos, vários amigos, dezenas de parentes de amigos, de familiares de amigos, de pessoas famosas. Morte. No corredor do edifício, no elevador, na portaria… Morte. No bar da esquina, na caixa da padaria, no entregador do supermercado. Morte.

Analista financeiro, estava com quatro bons clientes e realizava consultorias. Tudo via internet. Assustava-se com o lucro dos grandes perante a insensibilidade de responsáveis por vacinas, por ajuda financeira aos mais necessitados. Será que o médico diria para o psicólogo que ele não era artista? Riu, pensando que se não olhassem atentamente sua ficha não mereceriam respeito. Voltou a si, ao motivo de estar ali infartado.

Recebia relatórios, documentos, orçamentos, dados de investimentos e devolvia pareceres. Tudo via e-mail. Logo estava conversando o mínimo com colegas profissionais, sem qualquer traço de humanidade. Como se máquina respondendo aos comandos. Disque 1 para resultados positivos, 2 para negativos, 3 para as variações de mercado… Passou a evitar as redes sociais, com seus incontáveis quadrados negros com a palavra luto em destaque. Desligou a tv, buscando informações especializadas, contatos diretos na bolsa de valores e em específicos jornais digitalizados. O que pesou mesmo foi a solidão, a tristeza e o desânimo ante uma situação aparentemente condenada ao caos e à tragédia.

O telefone tocou. Estava já carregado, alegrou-se! Era a esposa. Aflita. O solícito Ademir mexera nas coisas, encontrara telefones, avisando do acontecido. Ela estava a caminho. Conseguira passagem para a noite, após todos os trâmites para comprovar que estava vacinada. Ela falava convulsivamente, preocupada. E ele, sem conseguir se conter, chorou o pranto represado ouvindo a esposa. Soluçando pesadamente, pediu que a mulher voltasse, que ele não aguentava mais. Pediu desculpas pela fragilidade, pela incapacidade de viver só, pelo medo de morrer sem revê-la. Ele nem notou que, enquanto se abria ao telefone, a psicóloga havia entrado e esperava, já observando-o. Quando deu por si, buscando água e alívio para o choro, a profissional pegou o telefone, identificou-se falando com a esposa e com ele simultaneamente. – Venha sim! Ele vai ficar bem. Já está melhor, conseguindo colocar tudo para fora já é um caminho. Venha! Aguardamos a senhora para que saiam juntos daqui do hospital, voltando para casa. Vai ficar tudo bem.

São Paulo, outono de 2021

Valdo Resende

Uma caneca de Natal

Chegando de Ribeirão Preto, Tia Olinda sempre levava presentes, constantes mimos de alguém que gostava de agradar. Chegava sorridente, falante, e assim me entregou a caneca – que está aí na foto. Uma caneca agora cinquentenária… ou mais, não sei. Eu nem estava na escola! Ou seja, meu mundo era a família e o quintal, posto que a rua, o bairro e a cidade vieram depois. Com a caneca vieram algumas bolas coloridas, de vidro.

– Para você fazer sua árvore de Natal!

Disse-me a tia ao entregar o precioso presente. Lembro de ficar olhando, encantado, para aquelas coisinhas coloridas, leves e… mortais. Quando quebradas eram um perigo considerável diante das infinitas partículas do vidro.

Primeira árvore de Natal de que tenho notícia, mamãe pegou um galho dos muitos que haviam de árvores, arbustos e similares nos terrenos baldios próximos. Enrolou todo o galho e suas ramificações com algodão, branquinho.

– É para lembrar neve!

Tia Olinda, com o presente, levou minha mãe a comprar outros enfeites. Bolas, guirlandas, estrelas, tudo para enfeitar nossa primeira árvore natalina. Criou-se um hábito, mas… Havia o presépio da casa de D. Castorina, reproduzindo uma Belém artesanal, cheia de casas de barro, montes feitos de papelão, sob uma gruta imensa, iluminada com pequenas lâmpadas coloridas, destacando-se entre as estrelas, de papel laminado, a mais importante, orientadora dos magos quanto ao local de nascimento do Menino. Demorei, mas um dia tive o meu presépio.

Durante essa infância, cada vez mais distante, eram raros os Natais em nossa casa. Tínhamos o privilégio de viajar nos finais de ano. Natal a gente passava na casa da Tia Olinda, lá em Ribeirão, em memoráveis férias na nascente Vila Abranches, cheia de chácaras por todos os lados, com sua pracinha onde, às tardes, colocavam músicas para alegrar todos os moradores.

Éramos nove crianças! Mamãe Laura e minha tia Olinda saiam para a cidade (naquela época a Vila Abranches ficava longe de Ribeirão Preto!) e, entre outras coisas, compravam brinquedos que “Papai Noel” nos deixaria para fazer nossas manhãs cheias de brincadeiras com os presentes trazidos pelo bom velhinho. Antes da noite, escrevíamos cartões para os avós, os tios todos, o pai, a mãe… E toca esperar o carteiro pra ver de quem receberíamos uma mensagem.

Não tenho lembranças de comidas. Essas coisas que dizem ser tradição, hábitos de muitas famílias. Penso que as pessoas, crescendo, trocam a satisfação dos brinquedos, das árvores e dos presépios pela comilança, pela bebedeira. É o lado que menos aprecio. Aquele almoço cheio de coisas, levando todos para o sono pesado da tarde do dia 25. Eram bem melhores os dias em que, rapidamente, tomávamos as refeições e voltávamos a explorar as possibilidades dos novos brinquedos.

Frutas natalinas eram o “must” da noite de ano novo, quando já longe de Ribeirão Preto, íamos todos para a casa de minha avó materna, em Campinas. Nozes, avelãs, amêndoas, castanhas e figos secos portugueses. Também uvas passas! As mesmas uvas passas que, nos últimos tempos, gente chata fica enchendo a paciência alheia. – É só não comer! (aqui está omitido um belo palavrão em função do espírito natalino).

Em Campinas, na mesma casa ficavam todos os irmãos de mamãe, meus irmãos e todos os primos. Éramos todos vivos, felizes, e por estarmos assim, lamento hoje, não percebíamos que meus avós já não tinham seus pais, seus tios… Esses mesmos pais e tios que todos temos e que, hoje, não tenho mais. Propiciando-nos noites de Natal e Ano Novo, esforçando-se para nos darem o máximo, deixavam de lado suas lembranças tristes, suas perdas irreparáveis. E, penso, é assim que deve ser!

Ontem comecei a brincar de Natal. Tirei do armário as velhas caixas e fui inventar nova maneira de dispor as coisas. Não espero crianças em casa, mas vai que apareça alguma. Ou mesmo algum adulto. Quem sabe meu presépio não desperte lembranças boas, ou mesmo crie outras. Mas, na real, meu presépio é para nós, que estamos aqui, neste ano tão complicado e diferente.

É linda a lembrança do primeiro Natal, aquele de 2020 anos atrás, quando nasceu uma criança, o Deus feito menino. São lindas as lembranças de todos nós; isso, se nos atermos às primeiras visões de um brinquedo, uma árvore cheia de cacarecos, um presépio pra lá de estilizado, as pessoas todas juntas abrindo presentes, trocando afetos.

Talvez escreva sobre os presentes de Natal que ganhei na infância. Era época em que o consumismo não determinava excessos e ganhei poucos, mas inesquecíveis brinquedos. Talvez!

Neste ano, é lamentável que a pandemia nos impossibilite grandes encontros. Cabe aqui uma postura, uma decisão: Podemos ter noites de reclamações, ou podemos dar graças por estarmos vivos. E se as reuniões forem precárias, limitadas, temos lembranças para preenchê-las. E objetos que nos suscitam lembranças, como a minha caneca, dada pela minha tia Olinda, que morava em Ribeirão Preto, onde passávamos os natais, esperávamos Papai Noel…

Glenda e Rogério

Rogério era do tempo em que bastava um olhar da mãe para que, rabo entre as pernas feito cachorro sem dono, procurasse um canto para sossegar. A mãe tinha um olhar mais expressivo do que qualquer cineasta alemão. Havia o olhar de “cala essa boca”, ou outro, muito temido em dia de festa: “para de comer”. Alguns mais ameaçadores que os outros, tipo “em casa a gente conversa”, ou aquele, antecedendo tabefes, o “agora eu te pego”.

O tempo dos olhares maternos foi substituído por outros, mais interessantes, que ele julgava saber emitir para o ser observado: era um olhar pedinte, tipo “posso falar com você”, outro mais ousado, revelando um “quero te comer”. Em momentos de autoestima elevada arriscava um soslaio, informando um “aproveita que sou gostoso”, ou um “vem que estou disponível”. Não passava pela cabeça dele que os olhares só funcionavam quando correspondidos previamente, anteriormente ao olhar. Assim, um “posso falar com você” só era correspondido quando a vontade antecedia, e o mais desejado, o “quero te comer”, só resultava em concretude se o tesão já estivesse instalado.

Vieram outros tempos, aqueles em que é preciso trabalhar. Travou muitas batalhas com colegas de serviço, chefes, diretores, subalternos. Embates confusos onde era claro e cristalino que cada parte pensava emitir via olhar a mensagem correta: “sujeitinho estúpido”, “esse babaca não sabe nada”, “tá pensando que eu sou da tua turma?” Verbalizadas, as mensagens eram bem civilizadas. “Você não entendeu direito”, “vem cá que eu te ensino isso”, “não posso sair hoje, fica para outro dia”.

A fixação dele pelo olhar alheio, a certeza do olhar enquanto emissor de toda e qualquer mensagem prosseguiu ao longo da juventude e, sabia ele, só se casaria com alguém por quem se apaixonasse, evidentemente, pelo olhar. Castanhos, verdes ou azuis, não importaria, exceto pela expressão: o grande amor seria a dona de um olhar expressivamente avassalador! Não foi bem assim.

Glenda era de origem libanesa, alta, corpo esguio recoberto por pele macia, morena. O cabelo farto, longo, descia pelos ombros em ondas suaves, caindo sobre o colo após emoldurar o rosto. Uma boca carnuda prometia palavras doces, beijos carinhosos. O olhar, esse não era visto, já que Glenda só aparecia publicamente durante o dia e usando imensos óculos escuros. Pelo menos foi o que disseram dela, depois que Rogério a conheceu,

Glenda e Rogério. Os nomes combinavam, pensou o rapaz desde o primeiro encontro quando, passeando no Ibirapuera com amigos comuns, foram apresentados. Poucos centímetros mais baixa que o moço, Glenda levantou o rosto com firmeza, apertando-lhe a mão esboçando um leve sorriso. Quis o destino que mais pessoas se aproximassem do grupo que, assim, deixou o casal à sós. Rogério não resistiu:

– Posso ver seus olhos? Quero muito!

Glenda, ao longo da vida, habituara-se a ouvir e discernir cuidadosamente a intensão contida na fala. Isso começou quando, muito pequena, percebeu nuances na voz materna que não condiziam com a realidade. A mãe dizia “coma, está uma delícia” para qualquer gororoba que a menina mal conseguia engolir. Também ficou clara a real afeição que a mãe tinha pela avó paterna. A sogra chegava e a mãe, com uma sutil frieza, sugeria “você não vai beijar sua avó?”.

Bem novinha, Glenda descobriu o ódio na fala da empregada, cansada de recolher roupas e outros objetos fora dos seus lugares. Também percebeu, sem sair do quarto, quando os irmãos mentiam dizendo estar estudando ou que já estavam prontos para dormir. Ironia, falsidade, mentira, tudo era transparente no grupo que a mãe recebia para o chá, fazendo com que a menina ficasse avessa a reuniões e, crescendo, preferia ficar sozinha.

Conhecia a pessoa pela voz. Reconhecia a segurança dos professores que dominavam o que ensinavam tanto quanto o leve tremor na voz dos inseguros. Percebeu o blefe na arrogância do primeiro chefe, que ladrava com poucas possibilidades de ataque, tanto quanto a maldade e a inveja de colegas de trabalho, concorrentes ou não ao cargo em que ela atuava.

– Sua voz não esconde seu desejo – ela respondeu ao novo conhecido.

Rogério afirmou querer muito. Repetiu, reiterou. Precisava ver o olhar da moça. Ela sorriu e limitou-se a balbuciar, antes de ir embora: – Outro dia!

Sem deixar telefone, e-mail, ou qualquer contato, Glenda desapareceu pelas alamedas do parque, rindo e conversando com os amigos. Só aí ele percebeu que os amigos que ficaram com ele não conheciam a moça. Buscou o telefone e começou a vasculhar as redes sociais dos conhecidos. Logo encontrou uma página de Glenda onde, em poucas fotos disponíveis, ela estava com óculos escuros.  Seria cega de um olho, ou estrábica? Teria fotofobia? Nada disso, informou um conhecido da moça, aliviando os iniciais temores do rapaz:

 – É mania! Já estivemos juntos em uma festa em uma chácara. Havia piscina. Ela tirou os óculos para nadar. Normais!

O que seria normal para o sujeito? Rogério ficou impaciente. O conhecido não dizia nada além do subjetivo “normal”. Ele precisava ver, conhecer o olhar de Glenda. Vasculhou as redes sociais e, com as fotos todas restritas, fechadas para desconhecidos, foi adicionando, curtindo, comentando, pedindo amizade…

– Não compartilhou nada, confidenciou Glenda à prima, Dulce. – Isso bem diz o que a voz insinua, um egoísta que quer tudo para si.

Dulce argumentou apontando exageros nas suposições da prima, já que seria preconceito afirmar qualquer coisa do rapaz. Até então, ele falara pouco mais que o “quero ver seus olhos”. Tudo o que Dulce gostaria era de ter uma voz cheia de desejo lhe pedindo para ver muito mais que os olhos. Não entendia a postura da prima quanto ao rapaz tanto quanto também não se conformava com a mania da moça de usar óculos escuros.

Foi na casa da bisavó, já bem velhinha, que Glenda descobriu revistas antigas, quando então se apaixonou pelo visual de estrelas de Hollywood e seus óculos escuros, chapéus de grandes abas, vestidos coloridos. Foi a primeira de sua turma a introduzir a mania que, tempos depois, tomaria conta de muitas meninas: tornou-se “cosplay”, passando então a vestir-se como as grandes atrizes dos anos 50.

Glenda poderia estar vestindo saias rodadas de tecido estampado, ou sóbria, dentro de conjuntos justos, deixando evidentes as formas generosas, torneadas, herança de sua mãe. Com “fantasias” mais sutis que heroínas de filmes fantásticos, Glenda era bem aceita em qualquer ambiente. Gostava de ser identificada como mulher elegante, refinada, misteriosa. Para Rogério não sobrou nada além da indignação do primeiro encontro.

– O babaca não percebeu que eu estava vestida como Katherine Hepburn nos anos 40!

Rogério não sabia quem foi Katherine Hepburn, muito menos reconheceu outra Hepburn, Audrey, quando viu Glenda pela segunda vez, caracterizada como a jovem Audrey em Charade, usando um conjunto vermelho, luvas brancas e chapéu também branco. Avisada por Dulce da chegada de Rogério, em plena noite, dentro de uma choperia, Glenda resolveu brincar, sacando os óculos escuros, mesmo se sentindo mal por quebrar o estilo da estrela americana. O rapaz percebeu a intenção dela em não permitir que ele conhecesse seu olhar. Reagiu com ironia:

– Que sol quente, não! Ou você é maconheira?

Glenda mostrou seu lado Betty Davis, a estrela que tinha tanto talento quanto língua afiada, mostrando ao rapaz o que aprendera ouvindo, analisando e refletindo sobre a voz humana.

– Sua voz me diz que você é um babaca, que tem medo de se envolver, que acha que pode impor às pessoas a sua vontade e, sobretudo, dono de uma inexperiência brutal em relação ao sexo oposto, em suma, inseguro!

E tirando os óculos, encarou com altivez um embasbacado Rogério que, olhando-a firmemente, emudeceu.

Ela não gostou da voz dele.

Ele não gostou dos olhos dela.

Terminou ali o que nunca havia começado. Seguiram em frente, sozinhos e infelizes, até que os céus se compadeceram de ambos. Glenda se apaixonou por Diego, o mudo. Rogério se casou com Manuela, cega, olhar esgazeado e sem vida.

Ambos estão felizes…dizem.

Voltaram a se encontrar e, para não darem um ao outro o braço a torcer, antes que ele a visse ela já havia retirado os óculos escuros da bolsa. Ele limitou-se a sinalizar um cumprimento com a cabeça, sem nada dizer.

(Valdo Resende / Primavera de 2020)

Ilustração: Detalhe/Mural do Centro de Arte Popular – Cemig Belo Horizonte – MG. Foto: Flávio Monteiro

Ponto de honra, de Monahyr Campos

Nosso convidado do Trem das Lives, Monahyr Campos lançou recentemente, pela Editora Patuá, o livro de contos COLO. Conheça abaixo um dos textos da obra, Ponto de Honra. Neste conto Monahyr entra no universo de uma violência presente, ignorada por muitos, preocupação de outros, evidenciada e caracterizada em uma linguagem peculiar, aproximando o leitor do ambiente, cenário e modo de vida das personagens envolvidas.

O link para a aquisição do livro está no final do conto. O Trem das Lives, com Monahyr Campos será no próximo domingo, dia 8, 18h, no instagram.com/tremdaslives.

PONTO DE HONRA

Acordei de madrugada com o sistema nervoso, pregado na intuição: o Travoso, comandante da ala ia me pedir antes da visita, daqui a dois dias! Acabou que eu tava mordido, na fissura de ficar bicudaço, mas careta que tava, num parava num pensamento. Mil fita na cabeça, mil treta. Todo o falatório por causa de uma brizola miúda, mó merreca, e agora, os perdigão aprontando a bicuda e eu no fim do carretel.

Precisando dar um pino, precisando dar um pino, psôr. Tá ligado? Eu jurado só porque num entrei na fita e deu zica. Aí, do nada aparece uns passarinho e assopra meu nome. Aê, psor, o senhor tem que por um pano! O senhor tem deus no coração, num vai quebrar a perna!

Eu sentindo toda aquela aflição, sabia que tinha que me manter a uma distância segura. Por outro lado, como ignorar um pedido de alguém naquela condição?

Eu não posso entrar na frente, entende? Se der pra conversar, lógico que eu faço um corre, mas não dá pra garantir. Cê tá ligado que se eu firmar contigo, viro adubo na mesma lampiana que você. Quando eu for lá no xis eu dou a letra. Segura a onda, aí.

Dois anos e dois meses de trabalho aqui na penitenciária e já estou quase insensível a essas confusões. A princípio, era pra ser apenas seis meses de trabalho forçado, mas fui me meter a besta de dar minha contrapartida social, de fazer a minha parte. Agora sou refém de mim mesmo, dentro de um episódio do Hannibal, visto com desconfiança pelos presos; com desdém pelos funcionários; como louco por meus colegas de profissão; e nunca mais fui visto de forma nenhuma por minha mulher, nem meu filho… A mulher é ex, mas o filho é pra sempre.

No começo eu ficava desesperado, achava que tinha obrigação de ajudar esses coitados. Só aos poucos fui me dando conta de que, se bobear, muitos deles nem sabem o que é esse sentimento de empatia – apelam por minha intersecção justamente por saberem que eu prezo por meu sentimento de humanidade, que eu os vejo a todos como meus iguais, mas eles sabem porque estão aqui – eu não.

Hoje é o Carqueja. Semana passada, foi o coitado do Apendicite. Antes, o Buti. Teve também o caso do Timba, do Sprite. A lista é infinita… Tudo história mal contada, diz-que-me-disse; um, porque dizem que talaricou a feinha do outro; aquele porque era jacaré… Pessoas com problemas seríssimos em lidar com autoridade e, de repente, condenadas a viver sob um regramento extremamente rígido.

Aqui a vida é no limite o tempo todo. É no limiar do julgamento que o mais forte organiza a convivência, verbalizando as regras, que são invariavelmente aceitas por consenso. Não faria sentido questionar qualquer lei, simplesmente porque cada norma num ambiente primitivo é a consagração de um modo de viver, é sempre ponto de honra!

As paralelas encontram-se no infinito. Na teoria funciona muito bem essa afirmação, mas aqui, vivo diariamente a experiência de estar numa realidade paralela, beirando o absurdo pelo lado de dentro. Qual a vantagem de poder sair, se a sensação de desconforto levo comigo: a minha e a deles? “Aqui a vida é no limite o tempo todo”. O refrão do MC Louva-a-Deus não me dá descanso, vinte e quatro horas por dia martelando a britadeira nos neurônios.

Lembro de ter lido, há um bom tempo, num livro bastante badalado, que para se constatar se uma pessoa está viva, o meio mais fácil é colocar um espelho em suas narinas e observar: enquanto estiver respirando, a superfície ficará embaçada, sempre. Se a imagem refletida permanecer límpida, é porque não há mais vida. Sabedoria dos antigos que eu tive que aprender nos livros.

Feliz de quem vive “pregado na intuição”, como diria o Carqueja, mas eu, preciso de livros pra aprender até o que a vida ensina. E eu sei que estou vivo, eu existo, porque em minha vida, sempre vejo tudo embaçado. Visão límpida, só quando a gente encara a morte de perto, no susto, no choque! Quando a pancada te arranca do confortável e te empurra pro precipício, você enxerga longe, o fundo do poço fica cristalino, mesmo se a água for turva.

E eu sobrevivendo neste inferno, como se existir me bastasse, como se a satisfação fosse duradoura cada vez que tenho notícias de algum ex-interno recuperado. Como se a gratidão fosse uma qualidade que se possa esperar de quem teve sua humanidade arrancada junto com a placenta, como se…

  • Tá morgando, fessor?! O senhor é o maior responsa, mas num dá brecha. O Carqueja vai cair e é hoje! O presidente já deu a letra, aqui mancoso num tem vez. O senhor num sabe de nada, né não? Fica pianinho que a gente dá a letra quando for chacoalhar o colégio. Lembra quando o ganso falou pro senhor faltar? Ninguém avisou o otário do nervosinho… agora ele tá o maior groselha.

Eles me avisaram quando teve rebelião. Simplesmente faltei. O Alemão não teve a mesma sorte, agora não é nem de longe o arrogante de tempos atrás. Tiraram toda a petulância dele aos berros. Passou mais de duas horas, pendurado, de ponta-cabeça, no telhado do presídio, sendo ameaçado, correndo o risco de escapar das mãos daquela gente ensandecida, completamente animalizada.

Infelizmente o Carqueja vai ser triturado. Perdeu.

A cada vez que tentava dormir, me vinha a imagem daqueles olhos estatelados feito jaca madura, caindo no terreno baldio de minha insônia, me pedindo socorro. Coitado. Eu era sua derradeira esperança. Eu, de mãos completamente imobilizadas, totalmente impotente. Disposto a resgatar algumas individualidades através do conhecimento, percebi que nem mesmo o meu melhor, nem minha dedicação ao máximo grau pode interferir na dinâmica daquele lugar.

Qualquer texto, poema ou discurso que lhes apresento, sempre vai transitar na possibilidade de se tornar uma extrema unção. “Pra morrer, basta estar vivo”, nunca minha mãe teve tanta razão! E quem me garante que a qualquer hora, não vai aparecer um “passarinho” para assoprar o meu nome?

MONAHYR CAMPOS

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