Dreams Island

Era muito pequeno, um menino de calças curtas. Nem se lembra exatamente quando ocorreu, mas ter ido visitar uns tios que moravam no litoral, lá em Vitória, no Espírito Santo, mudou para sempre a sua vida. Tudo por conta daquela prima chata, sabidona, que havia percebido que o menino ficara encantado com a cidade. “– Uma ilha, ela disse. Aliás, são muitas ilhas que compõem a cidade. Por isso é tão bonita! É água para todos os lados!”

A sabidona tinha estado em Montes Claros, visitando o primo. Reclamou do calor, da seca, da ausência de água em abundância. “– Aqui não tem mar? Lugar esquisito. Como viver longe do mar?” Pois mineiro vive muito bem, responderia ele se não tivesse se sentido inferiorizado, sem saber nadar, assustado com o mar em movimento. Piorou um pouco em visita à Vila Velha. Sabe-se lá o motivo, havia ondas enormes e por mais que a prima insistisse ele nem molhou os pés. Banho de mar… Tinha feito todo asseio antes de sair de casa.

Muito depois o menino descobriria que água, sabão e alguns remédios o curariam da catapora. A mãe não se conteve, fez promessa, e logo na primeira oportunidade foram para Vitória, terra dos avós maternos e, na cidade, foram ao município vizinho participar de missa no Convento de Nossa Senhora da Pena. A prima estava lá. Ela estava em todos os lugares! E não perdeu de vista o olhar de espanto do menino admirando a paisagem do alto do morro. “– Aqui é Vila Velha! Lá é Vitória”, apontou a cidade rente a água. “– Temos muitas ilhas, mais de trinta! Sua Montes Claros não tem tanta água assim.”

Ele levou uns cascudos do pai, uns puxões de orelha da mãe. Recíproca a outros, dados por ele na sabidona a quem, na hora da briga, foi chamada de capixaba, como se isso fosse palavrão. Mineiro é coisa bonita. Mineira, então, nem se fala! Mas, capixaba! “– Você não passa de uma capixaba xexelenta!”. Nunca mais se falaram, nas duas ou três vezes que se viram ele fez caretas, ela olhando-o com ar superior. “– Temos muitas ilhas!”. Ele seguiria firme em um juramento feito lá longe, com as orelhas ardendo: um dia teria a sua ilha!

Já adulto, anos e anos depois, sabia que Minas Gerais tinha ilhas, um monte delas. Gente abençoada, mineiro tem água até para construir ilha artificial, longe de tubarões, de ressacas perigosas. Engenheiro de profissão, conseguiu grandes trabalhos construindo estradas e antes dos cinquenta anos já pensava em comprar um pedaço de terra. Um sítio, uma fazenda; nada muito grande, desde que fosse banhado por água e, fundamental, que tivesse uma ilha. Poderia ser pequena, mas seria uma ilha; a sua ilha.

Conheceu todas as ilhas do Rio Doce: Brava, Bonaparte, Etelvino, Nossa Senhora da Penha… Ela, a santa daquela distante viagem. Bem que poderia ajudá-lo a encontrar sua ilha, em pedaço de terra que ele pudesse comprar. Quase comprou uma pequena chácara em Piracicaba, no Estado de São Paulo, por onde passava o rio famoso na região e na canção. Resoluto, só compraria terra em sua Minas Gerais, terra com água e ilha, tão bonita quanto Vitória. Não falava disso com ninguém e, na calada, sabia da sua luta quase insana. A capital capixaba é bonita demais!

Mineiro que é mineiro sabe de Guimarães Rosa, de Augusto Matraga. “Todo homem tem sua hora e sua vez!”. Eis que a dele chegou. A empreiteira o enviou para inspecionar reformas na estrada que liga o Rio de Janeiro a Belo Horizonte, bem no município do Brumadinho. A esposa adorou a região e na primeira oportunidade surgida compraram uma bela chácara às margens do Rio Paraopeba. Aquelas serras, aqueles rios com água farta!

Estavam longes de Brumadinho, mais distantes de Belo Horizonte e felizes com o sossego e a tranquilidade local. O casal de filhos crescidos, casados e com famílias constituídas, teria na chácara um local de férias garantido. A esposa bem que estranhou quando ele batizou a chácara: Dreams Island. Ele não negociou. A mulher entendeu a ilha como o refúgio entre cercas de arame farpado em quase toda a propriedade, exceto na parte rente ao rio. Ele, sem confessar a ninguém, só adquiriu o local por conta de duas pedras que emergiam do Paraopeba entre outras, menores, e volta e meia cobertas pela correnteza.

Tantos anos passados, nenhuma ilha disponível para suas possibilidades financeiras, ele resolveu se contentar com a Dreams, como a chamava para si. Quem sabe compraria outra, mais para a frente. Uma ilha maior, bonita. Todavia, nada melhor do que ter sua ilha, ali, para uso particular.

Finais de semana ou em feriados prolongados ele pegava vara de pescar, munia-se de iscas, um rádio de pilhas, boa cachaça e rumava para sua ilha. Raramente se lembrava da capixaba xexelenta. Quando ocorria, tinha certeza de que ela não possuía uma ilha como a dele, só dele, todinha para ele. Um dia de ausência de peixes a cachaça provocou sono pesado. Ele acordou com as costas ardendo, assadas na pedra inclemente. Ele repetiu outras vezes a façanha: Pescaria preguiçosa, cachaça farta, sono tranquilo.

Estaria bêbado naquele 25 de janeiro de 2019? A família não sabe. Estavam todos em Vitória, nas bodas de prata da prima que ele odiava. Talvez ele tivesse tentado salvar alguma coisa da pequena ilha quando se perdeu sobre os dejetos vindos do desastre da barragem, em Brumadinho. A chácara virou um lodaçal fedorento, o rio perdido, a terra contaminada. A horta, o pomar, a casa. Tudo perdido, destruído. Foi encontrado algumas semanas depois, morto, um nome entre mais de duas centenas de outros. O reconhecimento foi fácil. No pescoço ele portava um colar recebido de presente da esposa. Era de ouro maciço, personalizado, com o nome Dreams Island preso entre correntes.