Ramiro! Um garoto na contramão.

 

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Neusa de Souza, Roberto Arduin, Conrado Sardinha, Rogério Barsan e Isadora Petrin. Foto: João Caldas

Gente de teatro é meio louca, dizem. Vai ver têm razão, já que é preciso uma boa dose de insanidade para estrear uma peça infantil anticonsumo no Dia da Criança. Faz um ano que Ramiro iniciou sua trajetória por palcos da capital paulista tendo realizado temporadas também em Maringá, no Paraná e em Campina Grande, na Paraíba. Faz um ano que estreamos oficialmente no bairro Sapopemba, no dia da criança, em um projeto de educação financeira visando ensinar crianças e seus responsáveis a administrar o suado dinheirinho que entra com dificuldade e sai feito água no ralo.

Ramiro, o garoto que criei, quer o mundo em forma de brinquedos. E a peça gira em torno do fato de que a vida não é bem assim. Um ano depois e Ramiro continua nos palcos paulistanos. Certamente transformado via uma mudança aqui, um corte ali, sem contar o próprio amadurecimento de cada ator no domínio do ofício que burila e descobre nuances em personagens e cenas. Mas é dia de aniversário de Ramiro, o menino quer presentes – o que leva a personagem a ter identificação com o público infantil – e as demais personagens vão brincar e tentar ensinar ao garoto a necessidade de economizar, investir, planejar…

Pensar que o Dia da Criança surgiu por vontade de um político, por volta de 1920, me faz pensar em apelação ordinária, em busca de votos via sentimentalismo barato. A data adquiriu sua sina consumista pela ação de duas empresas, uma indústria de brinquedos e outra com forte linha de produtos infantis. Vamos vender muito em todos os 12 de outubro e deixar para novembro, dia 20 para ser preciso, a reflexão sobre a Declaração Universal dos Direitos da Criança, data que lembra o dia em que a Unicef proclamou os tais direitos infantis.

Ramiro tem direitos e alguns deveres também. O mais difícil provavelmente é aprender a conter a ambição em ter tudo, redescobrir o lado bom de brinquedos simples, valorizar as relações de amizade e parentesco. As reações são diversas e normalmente a plateia infantil se mostra inquieta. Coloque-se no lugar de quem quer o máximo do que o mercado oferece e assiste um trabalho que prega contenção de gastos… Trabalho difícil, mas que nosso pessoal vem defendendo com raça e brilho.

Neusa de Souza, Roberto Arduin e Rogério Barsan trazem o lúdico para a cena, jogando com elementos simples que transformam ambientes e situações. Suas personagens conduzem a ação e são responsáveis pelo desenvolvimento da peça. Isadora Petrim faz afetivo contraponto ao primo, brincando de ser a prima mais amadurecida, companheira no crescimento do primo. Conrado Sardinha é o garoto Ramiro, fazendo este de tal maneira que encanta e ganha a cumplicidade da plateia.

Nossa Produtora Sonia Kavantan nos propiciou a música de Flávio Monteiro, os cenários de Djair Guilherme, os figurinos e adereços de Márcio Araújo, as fotos de João Caldas, a identidade visual criada por Fernando Moser com  ilustrações de Octavio Cariello, a assistência de Milka Master e Lilian Takara. Companheiros do elenco em toda a jornada, Tiago Barizon administra, William Gutierrez opera som e André Persant faz a luz, criada por Ricardo Bueno. Realização da Kavantan Projetos e Eventos Culturais, com patrocínio da VISA e da Lei de Incentivo à Cultura.

Hoje não há bolo de aniversário, nem salgadinhos, docinhos, refrigerantes. Há meu carinho, imenso, por toda essa gente que vem trabalhando nessa montagem. E muita gratidão. A mensagem de “Um Presente Para Ramiro” é uma minúscula gota na contramão do consumo desejado pelo mundo capitalista. Mas somos gente de teatro e por isso insistimos. E não desistiremos nunca!

Até mais!

Eu, esse mesmo eu que já foi criança

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O ciclo que permanecerá

Tenho sonhado muito com meus pais, meus avós, tios, meu irmão e outros parentes que já não estão neste plano. Também sonho com outros que continuam por aqui comigo, principalmente minhas irmãs. Sensação é a de que a família diminuiu, embora seja provável que tenha aumentado bastante. Na medida em que o tempo passa vou me sentindo mais isolado e, com isso, tenho percebido que as ondas familiares são formadas na relação de irmãos.

Minha avó, Maria, tinha como irmãs as queridas tias Aurora, Amélia, Palmira e os tios Antônio e Manuel. Todos casados e com filhos, os nossos primos. Bem verdade que vovó e seus irmãos tinham primos e tios, além dos nossos bisavós; mas, o ciclo do qual tenho maiores lembranças é desse, ligado diretamente à minha mãe. Eu, no meio desse povo todo, era o caçula da Laura. Entre os tios minha preferência era por Tia Aurora. Uma ligação filial, carinhosa, que permanece mesmo após o falecimento dela, já que ela aparece sempre em meus sonhos.

As irmãs de Laura, minha mãe, foram Olinda e Isaura. Albino e José os irmãos. Esses dois não tiveram filhos e tia Isaura teve uma filha já na maturidade. Tia Olinda teve cinco filhos, meus primo-irmãos. Os outros primos, aos montes, são frutos dos primos de minha mãe. Aqui entra a geografia, colaborando em proximidades e distanciamentos. Uberaba, São Joaquim da Barra, Ribeirão Preto, Orlândia, Campinas… lugares onde estavam todos os parentes. Para todos eles eu permaneci menino, o filho menor da Laura, que só reapareceu com o advento da internet, o Orkut, o Facebook.

Tanta gente querida! Tento resgatar as risadas gostosas das tias Amélia e Palmira, a delicadeza e o carinho da tia Aurora, o jeito brincalhão do tio Manoel contrapondo com a formalidade do Tio Antônio. Vejo-me criança observando a todos, ouvindo todo mundo. Raramente falando, pois naquela época criança entrava pouco em assunto de gente grande. Com os outros tios, irmãos de minha mãe, já foi diferente. Tia Olinda, por exemplo, tratava-nos, antes de qualquer laço, como amigos. Trocava impressões, confiava sentimentos. Tio Nino, o Albino, brincava feito moleque com meus irmãos. Minha primeira recordação dele é de estar em seu colo enquanto ele pulava corda.

O outro lado, da família de papai, ficou mais distante; lá pelos serrados de Minas e Goiás. Mesmo mantendo relações afetivas, nunca fomos próximos. A família, vejo agora, fechava-se nos laços estabelecidos pelas mulheres. Gravitávamos nas famílias das tias, muito mais do que nas famílias dos tios, maridos delas.

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Eu, a criança com cabelo claro entre meus avós.

Tempo, tempo, tempo… muita gente crescendo e tomando seu rumo. Os mais velhos indo embora de vez, permanecendo em fotos, em lembranças e sonhos. Cada ramo da nossa imensa família foi criando outros ramos, novos laços, outras famílias. Recentemente reencontrei Maria, a filha mais velha da Tia Amélia. A emoção maior foi rever nela o semblante de minha avó e, pelo que sei, ela viu em mim os traços de minha mãe. A afeição é imediatamente restabelecida. Somos família! E assim somos, mesmo que os encontros sejam raros e, mais frequentemente virtuais. – Modernidade! criticariam os mais velhos.

Com meus irmãos sinto o continuar desse eterno ciclo familiar. Vou chegando na outra ponta, a dos mais velhos, olhando para alguns sobrinhos-neto como um dia me olharam. São crianças, filhos dos meus sobrinhos, distanciando-se na ausência da convivência. Essa mesma convivência que, embora truncada, é o que faz com que a família formada por minha mãe permaneça como tal. Fico feliz vendo as relações entre meus sobrinhos, irmãos que prosseguem dando sentido a esse mundo.

Entre o eu que fui para todos os que já se foram, o eu que vive entre os vivos e o eu, quase desconhecido para os mais novos está um eu “universal”, aquele pelo qual me denomino, que pode ser o menino conduzido pelo avô no passeio vespertino, ou o filho caçula cuidado pelo pai, acariciado pela mãe. O mesmo eu que recebeu proteção da tia avó e dos irmãos mais velhos, que teve primos como companheiros e primeiros grandes amigos.

Gosto dos meus cabelos brancos, tão brancos quanto foram os cabelos de meu avô e da Tia Aurora. Gosto de sorrir com a mesma calma que a Tia Olinda e adoro contar histórias, herança de todos os tios que me antecederam. E no meio de tudo isso, entre todas as lembranças que emergem a cada palavra que escrevo, vejo-me menino, entre essa gente toda, tornando a ser criança agora, quando percebo nada saber e pouco entender dessa vida que, volta e meia, completa-se nos sonhos onde caminho novamente com todos aqueles que me auxiliaram nos primeiros passos.

Feliz dia das crianças para todos!

Até mais!