No carnaval de SP há samba para gente bamba

Qual a boa para esse carnaval? Penso não ser ruim da cabeça, nem doente do pé, logo, lembrando a canção, sou bom sujeito, do tipo que curte samba de montão. De todos os sambas possíveis, chegou a hora do samba de enredo. A verdadeira essência e razão de ser de uma escola de samba: a música que faz o povo cantar e dançar.

Samba de enredo é a coisa mais democrática do mundo musical. Há sempre um verso para um compositor. Há momentos em que penso que deve ter marmanjo que só colocou um “laraiala, lala”. Sem diminuir o sujeito; quem conhece samba sabe a importância de um “laraiala, lala”. Quero ficar distante de um tratado sobre sambas de enredo. O negócio é cantar e, para começar o carnaval, a boa deste post é destacar três sambas de enredo, criação de 14 compositores (Olha a democracia aí, gente!) para gente bamba do carnaval de São Paulo neste ano de 2013.

Beth Carvalho é homenageada pela Acadêmicos do Tatuapé
Beth Carvalho é homenageada pela Acadêmicos do Tatuapé

Gente bamba é Beth Carvalho, que será homenageada pela escola “Acadêmicos do Tatuapé”. A sambista carioca já lançou tantos artistas que é carinhosamente chamada de “madrinha do samba”. É comum ver gente como Zeca Pagodinho, por exemplo, pedindo a benção para a cantora.

A “Acadêmicos do Tatuapé” abre o desfile do dia 8, sexta-feira com “Beth Carvalho, a madrinha do samba”, samba que será interpretado por Vaguinho. Os compositores André Ricardo, Luciano Oliveira e Vaguinho conseguiram sintetizar a vida de Beth Carvalho, citando elementos conhecidos pelo grande público; isso facilitará que todos cantem com a escola.

… Em suas andanças por Mangueira (me leva, amor)
Cantou “Folhas secas” para emocionar
“As rosas não falam”, exalam perfume no ar
Um grito de gol, explode a paixão
Botafogo no seu coração…

João Nogueira é tema para o carnaval da Águia de Ouro
João Nogueira é tema para o carnaval da Águia de Ouro

Tão bamba quanto Beth, o compositor e cantor João Nogueira é enredo para a “Águias de Ouro”, 7ª escola do primeiro dia do grupo especial de São Paulo. João Nogueira é criador de sambas incríveis, gravados por ele mesmo e por intérpretes geniais como Elis Regina (Eu, hein, rosa!, Clara Nunes (As Forças da Natureza) ou Alcione (Um ser de luz).

Um dos principais parceiros de Paulo César Pinheiro, João Nogueira deixou um legado imenso, devidamente reverenciado pelo filho, o cantor Diogo Nogueira. Junto com Ciraninho, Rafinha, Leandro e Serginho Castro, Diogo Nogueira também assina o samba de enredo da “Águias de Ouro”: “Minha missão. O canto do Povo. João Nogueira”. O samba é magnificamente interpretado por Serginho do Porto.

…João, teu nome é história
O Canto do Povo te faz imortal
Ninguém faz samba só porque prefere
É Nó na Madeira o meu carnaval…

Inesquecível Mazzaropi, homenageado pela Acadêmicos do Tucuruvi
Inesquecível Mazzaropi, homenageado pela Acadêmicos do Tucuruvi

Bamba, como bem se sabe, não é característica exclusiva de sambista; alguém duvida que Mazzaropi seja um bamba? A “Acadêmicos do Tucuruvi” será a 6ª escola do dia 9 de fevereiro no sambódromo paulistano. “Mazzaropi: o adorável caipira. 100 anos de alegria” é o enredo da escola, com samba criado por Felipe Mendonça, Maurício Pito, Leandro Franja, Márcio Alemão, Henrique Barba e Fábio Jelleya. O intérprete é Ivo Sorriso.

Mazzaropi é figura ímpar na história do cinema brasileiro. Grande comediante, ele soube gerenciar como poucos a própria carreira tornando-se também produtor e diretor de seus filmes, normalmente rodados em estúdio próprio, no interior paulista. Além de participar na criação de roteiros, Mazzaropi também foi compositor, sempre cantando em seus filmes.

…A carrocinha levou o gado da madame
Vendedor de linguiça não vende salame
O Jeca Tatu não é puritano… Há! Há!Há!
Ele é corintiano…

“Acadêmicos do Tatuapé”, “Águia de Ouro” e “Acadêmicos do Tucuruvi” têm uma grande vantagem levando para o desfile artistas amados, respeitados e bastante conhecidos por todo o público. Este é o outro lado da moeda: sendo conhecidos, todos nós temos uma visão própria do que seria um enredo sobre esses três artistas; daí o desafio das escolas que tentarão corresponder às nossas expectativas.

Samba para gente bamba. “- Gente bamba para mais de metro”, diria meu pai! Há um imenso mundo envolvendo Beth Carvalho, João Nogueira e Mazzaropi. Uma vastidão criativa também está no potencial de compositores, ritmistas, passistas, carnavalescos, e demais participantes dessas escolas de samba. Teremos, com certeza, um grande carnaval.

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Boa semana para todos!

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Mamãe ajuda a faturar

É muito bom quando instituições preservam a obra de um artista já falecido. Há fundações que atuam no sentido de garantir a integridade da obra deixada pelo artista. Normalmente sem fins lucrativos, atuam divulgando o trabalho e a vida dessas grandes figuras; também são responsáveis por novos trabalhos, autorizando  ou proibindo ações de indivíduos interessados em faturar em cima do legado deixado por outros. Esse trabalho, incipiente no Brasil, já tem exemplos notáveis no que se faz em relação a Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Falta criar algo nesse sentido para preservar a obra e a memória de Elis Regina.

Pedro, Maria Rita, Elis Regina e João Marcelo

Com o pretexto de lembrar os trinta anos da morte de Elis Regina (1945/1982), os filhos da cantora estão fazendo uma série de ações, entre shows, lançamentos de caixas, DVDs e similares. Não há como duvidar do direito ao espólio da artista, mas a sede ao pote é tanta que a fraternidade ficou em segundo plano e os interesses meramente comerciais ficam mais que evidentes.

Quem viu a entrevista com Maria Rita e João Marcelo Bôscoli no programa do Jô Soares deve ter notado que o nome de Pedro Mariano não foi citado. Foi como se apenas os dois primeiros fizessem homenagem à mãe, sem que houvesse o terceiro irmão.  Os interesses profissionais e monetários certamente estão entre as causas que impedem os irmãos em um projeto comum.

Maria Rita irá gravar o show “Redescobrir” no dia 11 de agosto, em São Paulo, no Credicard Hall. O registro será base para CD, DVD e tudo o mais que se lança atualmente. Além do patrocínio de uma empresa de cosméticos, Maria Rita tem apoio da Universal, sua nova gravadora. Dá para perceber porque Pedro Mariano ficou de fora? Ele não é garoto propaganda de cremes nem está nos interesses da Universal.

Longe dos irmãos, em Curitiba, Pedro Mariano fará outro show, no dia 2 de agosto. Com o nome “Elis por eles”, um naipe variado de cantores subirá ao palco do Teatro Positivo para, junto a Pedro Mariano, lembrar Elis Regina.  Do parceiro da cantora, Jair Rodrigues, ao grande ídolo de Elis, Cauby Peixoto, o show ainda contará com Diogo Nogueira, Lenine, Filipe Catto, Seu Jorge e, entre outros, Chitãozinho & Xororó e Rogério Flausino. É um amplo tiroteio, para acertar todos os tipos de públicos.

João Marcelo, que não canta, lança discos e DVDs da mãe famosa. Entre as novidades foi anunciado um DVD com o programa especial que Elis Regina gravou para uma TV alemã, em 1972. Mais que o registro de um momento histórico, de resto já colocado em partes na internet, o lançamento vem bem na estratégia capitalista de criar novos produtos para aumentar lucros.

Se Elis estivesse viva… Não consigo imaginá-la cantando com Rogério Flausino; e penso que ela pediria mais autenticidade para a filha que, para mostrar-se diferente da mãe, fica enfeitando as canções, mostrando razoável capacidade vocal e pouca emoção nas interpretações. Quanto aos lançamentos feitos pelas gravadoras, só à revelia de Elis. É doido saber que a cantora pediu, por exemplo, que o show de Montreux nunca saísse em disco. Foi o primeiro a sair, logo após a morte de Elis, em 1982; recentemente “novo cd” saiu em dose dupla, com as duas apresentações de Elis Regina no famoso festival.

Elis Regina foi, em vida, arrimo familiar. Continua sendo fonte de renda para os filhos. A certeza nesses eventos todos  é a de que a memória de Elis permanecerá. Aqueles que realmente curtem o trabalho da maior cantora brasileira percebem os lançamentos meramente comerciais. Esquecerão esses para manter vivo o que mais interessa: os grandes discos que, em soma, são o verdadeiro legado de Elis para a nossa música.

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Boa semana para todos.

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