Pé quente, cabeça fria

Gilberto Gil, abaixo ao lado de Nana, é o dono do "pé quente, cabeça fria"
Gilberto Gil, abaixo ao lado de Nana, é o dono do “pé quente, cabeça fria”

Para ser bem honesto estou no limite da paciência. Não com o momento, não com a situação em si, mas com a superficialidade sobrando, os julgamentos correndo soltos e inconsequentes e as súbitas e imensas certezas que tomaram conta de quase todo mundo. O momento é de euforia escancarada…

Pé quente, cabeça fria, dou-lhe uma
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe duas
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe três
Saia despreocupado
Você pode conquistar o mundo dessa vez

Sem querer puxar o breque, e estando muito longe de perder a esperança, penso que o momento é de conquista mesmo; mas de possibilidades concretas, pensadas e, sobretudo, refletidas com responsabilidade. Estamos mudando e Victor Olszenski, com lucidez e embasamento teórico, abre outras perspectivas em texto publicado com o título “Como as manifestações públicas impactam as empresas” com indícios dos caminhos que virão.

Porque ler o texto do Victor? Primeiro porque somos público e para o público que somos há empresas governamentais nos prestando serviços. Há outras empresas, contratadas pelo governo, que atendem ou deveriam atender nossas atividades. O texto é analítico, sem apelos emocionais, sem exageros de retórica. É um profissional de marketing pensando o marketing daqui para frente. E é bom atentar para como as coisas funcionam.

Pé quente, cabeça fria, dou-lhe uma
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe duas
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe três
Saia despreocupado
Faça tudo que você queria e nunca fez

Estamos mudando. Melhor que mudar o mundo é mudar nossas vidas, o “nosso quadrado”. Ontem, na Universidade, passamos um bom tempo discutindo política e educação. Nós, professores, precisamos muito discutir educação. O texto do Victor alertou-me para a necessidade de discutir mais, com profundidade, com frieza analítica e buscando, mais que o arranjo momentâneo, as soluções corretas, mesmo que em longo prazo. Cada indivíduo pensando soluções na própria área em que atua.

Enquanto escrevo faço uma pausa durante o jogo  Brasil x Uruguai. E é óbvio que, brasileiro, vou discutir futebol, e também palpitar na saúde, pensar em um caminho para resolver a seca no nordeste, apostar em soluções para o trânsito na capital paulista… Vou reclamar da lentidão da internet, do almoço demorado, do preço dos remédios. Tenho direito; temos direitos!

Pé quente, cabeça fria, numa boa
Pé quente, cabeça fria, na maior
Pé quente, cabeça fria, na total
Saia despreocupado
Mas cuidado porque existe o bem e o mal

Brasileiro está descobrindo que pode reclamar e que quem reclama não é chato, apenas exigente e com direitos. Ao longo de muitos anos acreditei que uma das piores coisas que fizeram contra o país foi o fato de colocarem na cabeça de muitos a idéia de que “reclamar é chato”, que “quem reclama tem problemas” ou ainda que aquele que reclama “agita a maioria e provoca situações desagradáveis”.

O mal momentâneo é que as redes sociais tornaram-se “redes de exigências”, todo mundo querendo arrumar a casa. Bom até certo ponto. Bom mesmo se além de palpitar na casa alheia todos pensarem em como resolver a própria casa. As reclamações dos outros são oportunidades de crescimento, é o alerta do Victor Olszensky.  O que os outros têm a reclamar em relação a nós mesmos?

Pé quente, cabeça fria, numa boa
Pé quente, cabeça fria, na maior
Pé quente, cabeça fria, na total
Saia despreocupado
Mas se alguém se fizer de engraçado, meta o pau.

Outro dia li alguém pedindo qualquer coisa musical estrangeira ao reclamar do som que anda rolando nas passeatas. Esse cidadão não deve conhecer Os Mais Doces Bárbaros (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia), os intérpretes de “Pé quente, cabeça fria” que é a música para minhas revoluções particulares. O  individuo levou-me a pensar em fazer um post lembrando grandes canções políticas brasileiras. Aí, li o texto do Victor, pensei no que as pessoas reclamam do meu trabalho…  Esse sim, é o maior (e o mais difícil) exercício que deve ser feito com muito “pé quente e cabeça fria”! Antes que façam passeata embaixo da minha janela…

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Até mais!

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Nota:

Doces Bárbaros foi show, filme e disco feito pelos quatro baianos em 1976. Segundo Caetano Veloso a idéia foi de Maria Bethânia. “Os mais doces bárbaros” é a primeira faixa do disco. Pé quente, cabeça fria pode ser ouvida clicando aqui.

 

O efeito Gadú

Vício de quem faz blog, e de quem trabalha com comunicação, a verificação da audiência é um hábito. Os altos e baixos de um blog, por exemplo, relacionam-se com outras variáveis além dos assuntos abordados em cada post. Grata surpresa, de repente os números sobem muito, e já aprendi a descobrir razões; terça-feira, em menos de quarenta minutos, minha audiência triplicou e após descobrir o motivo, resolvi denominá-lo “efeito Gadú”.

Maria Gadú canta no seriado. Foto: Louco por elas/TV Globo

Ontem, na Rede Globo, Maria Gadú fez uma participação especial no programa “Louco por elas”. Foi como convidada de Violeta (Gloria Menezes) em um sarau familiar. A cantora não fez feio ao brincar de atriz e ainda mostrou-se simpática ao dividir vocais com Dudu (Thiago Martins), Dora (Laila Garin) e Santiago (Zéu Britto).

O seu amor

Ame-o e deixe-o

Livre para amar

Conheci a música “O seu amor” com as vozes apaixonantes dos “Doces Bárbaros”. O quarteto formado por Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia canta “O seu amor” em um momento mágico do show, registrado em disco em 1976. A harmonia dos quatro grandes artistas, amigos na vida e nos palcos, é de uma suavidade emocionante para a canção criada por Gilberto Gil.

O seu amor

Ame-o e deixe-o

Ir onde quiser

No programa, durante o sarau familiar, Maria Gadú se acompanha ao violão e forma um inusitado quarteto com os personagens de ficção, também cantores na vida real. Foi simples e bonito, como a canção.

O seu amor

Ame-o e deixe-o brincar

Ame-o e deixe-o correr

Ame-o e deixe-o cansar

Ame-o e deixe-o dormir em paz

Os mais “Doces Bárbaros”

Um pouco após o final do programa, já finalizando o meu dia, fui verificar o número de visitantes do blog e me surpreendi com uma quantidade enorme de visitantes. O melhor, é que eles não paravam de crescer. As pessoas começaram a pesquisar “Maria Gadu Ame-o e deixe-o” e chegaram neste blog. Escrevendo sobre o aniversário de Caetano Veloso citei a cantora e a música em questão.

O seu amor

Ame-o e deixe-o

Ser o que ele é.

O efeito Gadú continuou e, também na quarta-feira, tive uma audiência superior ao habitual. Resolvi escrever por duas razões: agradecer aos visitantes, fãs da cantora, e também por constatar algo que, penso, muitos concordarão comigo.

Há uma falta imensa de bons programas musicais na televisão. Temos programas que constantemente apresentam números musicais e outros, esporadicamente, como o seriado estrelado por Eduardo Moscovis e Deborah Secco. O brasileiro gosta de música. Gosta de boa música e posso dar dois exemplos que confirmam isto: as centenas de pessoas que buscam saber mais sobre uma canção interpretada por Maria Gadú em um seriado, apresentado após as 22h00 e, o segundo, o imenso sucesso do programa The Voice, com seus participantes com inegáveis qualidades musicais.

É frequente a imposição de muito lixo musical pelas grandes gravadoras, verdadeiras donas da programação de emissoras de rádio e similares. É ótimo saber que o público de uma jovem cantora como Gadú é levado por uma bela canção e, mais que a mera audição, sai buscando detalhes da mesma.

Se você chegou até aqui, clique, veja o grupo e ouça a canção com os mais “Doces Bárbaros”. Quem sabe, esta seja o impulso para conhecer outras canções e uma bela história, de um quarteto formado por quatro amigos…

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Até mais!

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Sete mil vezes Caetano Veloso

Impossível não reverenciar Caetano Veloso quando este grande, entre os maiores compositores brasileiros, completa 70 anos. O natalício será neste próximo dia sete de agosto. Difícil escrever algo novo sobre Caetano já que o mesmo, merecidamente, será homenageado pelos maiores intelectuais deste país; difícil também escrever para alguém que escreve tão bem! Mas, vamos lá, deixar o coração falar para homenagear alguém que, ao longo de tantos anos, propiciou momentos incríveis para milhões de brasileiros.

Claudia Cardinale e Brigitte Bardot
Todo mundo, como Caetano, sonhava com Cardinale e Bardot

A primeira música que emerge, quando penso em Caetano Veloso, fala de um amor arrebatador. Todavia, como a música brasileira é sempre presente em minha vida, inclusive em sala de aula, falar em primeira é falar em “Alegria, alegria”. Criança – eu tinha 9, 10 anos – pouco sabia que em música brasileira não se usava guitarra elétrica. A música daquele rapaz cabeludo da Bahia era contagiante; eu não usava nem lenço nem tinha documento e era, como todo garoto de então, apaixonado por Brigitte Bardot, com uma grande queda para Claudia Cardinale. Tudo era uma grande festa!

…Espaçonaves, guerrilhas

Em Cardinales bonitas

Eu vou

Em caras de presidentes

Em grandes beijos de amor

Em dentes, pernas, bandeiras,

Bomba e Brigitte Bardot…

A vida tratou de ensinar-me que Caetano Veloso era mais que “Alegria, Alegria”. Antes de completar 17 anos saí de casa pela primeira vez. Foram tempos conturbados para todo o país e eu, como o baiano de Santo Amaro da Purificação, também tive que vir embora. “No dia em que eu vim-me embora” a canção de Caetano Veloso e seu parceiro Gilberto Gil, é trilha profunda para o retirante que sou.

…E quando eu me vi sozinho

Vi que não entendia nada

Nem de por que eu ia indo

Nem dos sonhos que eu sonhava…

Caetano Veloso foi embora para Londres onde criou “London, London”, uma das mais belas canções com a capital inglesa como tema, e voltou para um Brasil de sempre, com “podres poderes” que demoraram a tomar rumo. Longe de Uberaba fui ao primeiro show daquelas quatro figuras mágicas, então denominadas “Doces Bárbaros”: Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Quem é da minha geração pode entender qual o impacto de, em um mesmo palco, encontrar quatro imensas feras da nossa música. Isso em uma época onde não rolavam festivais de verão e similares. No show, no disco, o aprendizado que persigo e que pretendo seguir enquanto vivo:

O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar…

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser…

Ame-o e deixe-o ser o que ele é…

Alguém importa quando importa para a vida de muita gente. É o caso de Caetano Veloso que, creio, seja autor de canções para a vida da maioria dos brasileiros. Desde o primeiro disco o compositor, também excelente cantor, jamais fugiu de suas raízes populares. Gravou Vicente Celestino com o mesmo respeito que gravou Chico Buarque; fez sucesso com canções de Peninha, Roberto Carlos e atualmente segue em parceria nos palcos, ao lado de Maria Gadu.

Caetano Veloso 70 anos

Poderia alongar-me aqui e escrever sobre a trilha sonora de “Velhos Marinheiros”; a adaptação do romance de Jorge Amado foi para os palcos de São Paulo, com uma trilha baseada em Caetano Veloso; meu amigo Ivan Feijó participou deste trabalho e corrigiu-me a memória (vejam no comentário abaixo). No espetáculo teatral dirigido por Ulysses Cruz, Ivan contribui com as canções de Vicente Celestino. Poderia escrever sobre as inesquecíveis aulas de Dirce Ceribeli, na UNESP, introduzindo semiologia através das letras das canções do compositor. Poderia contar um monte de histórias; várias delas com “Eclipse Oculto” como tema.

Nosso amor não deu certo

Gargalhadas e lágrimas

De perto fomos quase nada

Tipo de amor que não pode dar certo

Na luz da manhã

E desperdiçamos os blues do Djavan…

Tantas histórias de tantas vidas com a música de Caetano Veloso ali, presente; marcando acontecimentos, tornando pessoas inesquecíveis. As canções são sempre novas para quem não as conhece. Tornam-se vivas e tornam vivas as pessoas, mesmo que o tempo tenha ficado longe demais. Muitas histórias, mas hoje é segunda-feira…

– Vamos trabalhar!

Então, deste humilde blog quero desejar outros 70 anos ou setenta mil vezes setenta para Caetano Veloso. Penso que basta uma música para fazer célebre um grande compositor. Sou contra cobranças ou exigências de novas canções, novos sucessos, outra “Sampa”. Cada pessoa tem sua preferência e, em se tratando de Caetano Veloso, esse leque é bastante amplo. Eu prefiro “Sete mil vezes”. Feliz de quem pode amar e, para esse amor, tomar emprestada a música e a letra de Caetano Veloso para soltar o gogó….

Sete mil vezes eu tornaria a viver assim
Sempre contigo transando sob as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir pra eu cantar
Noite feliz, todas as coisas são belas
Sete mil vezes, e em cada uma outra vez querer
Sete mil outras em progressão infinita…

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Feliz aniversário, Caetano Veloso!

Boa semana para todos!

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