É o tempo do amor!

Foi há bastante tempo. Para ser exato são 51 anos. Com certeza eu estava brincando no quintal e, como era hábito lá em casa, o rádio estava ligado. Provavelmente foi no período da tarde, pois eu estudava de manhã e se fosse um sábado eu estaria dormindo. O que não tenho a menor dúvida foi a de ouvir uma voz juvenil, dali para sempre um timbre inconfundível, chamando-me: – Atenção, atenção, eu agora vou apresentar pra vocês a última canção que eu fiz…

Dançar, namorar, sempre alegre ser…  Era Wanderléa cantando e eu, menino de Uberaba com apenas dez anos, não tinha porque não acreditar: É o tempo do amor! Poxa, acreditei muito em tudo o que aquela voz linda e, depois descobri, aquela moça mais linda ainda, cantava com graça e leveza: “Viver assim a sorrir, a vida tem mais sabor, é o tempo do amor!”.

Depois eu cresci e Wanderléa tornou-se mulher. Vivíamos outros tempos, difíceis. Eu havia sido sequestrado e havia descoberto que “o tempo do amor” tinha ficado lá, nos tempos da Jovem Guarda. Wanderléa vivia dramas pessoais. A vida estava dando duro em meio mundo na década de 1970. A cantora que eu amava mostrava versos próprios que assumi como meus:

O que a vida reservou pra mim

Não vou repartir com ninguém

Não existe alegrias sem tristezas grandes também

A vida me ensinou a ser gente

E não temer o presente

Sublimar tristezas, ter fé,

Estou aí para o que der e vier…

“Bye, bye”, dos versos acima, é de 1971. Em 1972 Wanderléa mudava radicalmente deixando a menina da Jovem Guarda, tornando-se a “Wanderléa Maravilhosa” e, um pouco depois, seguindo distante do previsível afastava-se de juízes e provas de fogo em “Vamos que eu já vou”. Eu fui com ela e permaneci sempre atento, ouvindo todas as fases, todas as canções. E assim se foram cinquenta e um anos!

Neste 5 de junho Wanderléa está fazendo 70 anos. Poderia escrever 70 histórias da cantora na minha vida. No entanto basta uma, presente dos céus. Em um dos momentos mais difíceis da minha vida, fazendo tratamento para recuperar-me de uma grande perda, busquei ajuda em um centro espírita e lá, para amenizar a dor, encontrei Wanderléa. Ela frequentava o local nos mesmos dias e horários que eu. Um bálsamo! Dizia um alô tímido, respeitando a intimidade e o direito da moça permanecer em paz, sem ser perturbada naquele local.

wandeca

Feliz aniversário, Wanderléa! Não vou dizer isso pessoalmente. Gosto da distância que há entre nós. Nosso afeto começou lá quando eu era um menino e prefiro que permaneça assim. Cheio de sonhos, de ideais, pleno de pureza e ternura. A ternura de Wanderléa que, em devaneios, penso ser pra mim.

 

Até mais!

Elis Regina em 1965

elis menino das laranjas

Tornar-se cantora e ficar entre as melhores do Brasil foi tarefa gigantesca até para Elis Regina. É possível constatar a grandiosidade enfrentada pela cantora, por exemplo, traçando um painel do ano de 1965. Neste ano Elis projetou-se nacionalmente ao vencer o I Festival Nacional de Música Popular Brasileira (TV Excelsior) com “Arrastão” (Edu Lobo e Vinícius de Morais). De quebra fez um show com Jair Rodrigues e o Jongo Trio que resultou em disco e programa de TV – O Fino da Bossa – entrando definitivamente para a história da música brasileira.

Em 1965 atuavam algumas mulheres que embora na faixa dos quarenta anos, por contingências da época já eram “velha guarda”. Cantoras extraordinárias como Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha Borba e Isaurinha Garcia enfrentavam a passagem da era do rádio para a era da TV. Elis tinha o trunfo da juventude até mesmo perante outra das maiores cantoras brasileiras, Ângela Maria, que em 1965 já estava com 36 anos. Maysa, também notável entre as melhores, estava com 29 anos e Elsa Soares, sambista ímpar, chegava aos 28.

Perante grandes cantoras, ídolos reconhecidos pela crítica e pelo público, Elis Regina era uma jovem surgindo com brilho no cenário musical brasileiro. Para representar a modernidade na música brasileira Elis tinha que estar à altura de Sylvia Telles, embora o mercado exigisse que ela fosse tão popular quanto Celly Campello.

1965 - Arrastao - Elis REgina (1)

Além das cantoras já estabelecidas outras meninas, como Elis, iniciavam carreira. Em 1965 Nara Leão já era um grande nome. Dona de personalidade marcante e de uma privilegiada visão de mundo, Nara unia compositores dos morros cariocas aos jovens bem nascidos da Zona Sul, mudando os rumos da nossa música.

É bastante conhecido o fato de Nara Leão ter convidado Maria Bethânia, menina que havia conhecido na Bahia, para substituí-la no show “Opinião”. Bethânia chegou e atingiu sucesso imediato entre os cariocas que viram o show e em todo o Brasil, via rádio, cantando “Carcará”. Com Bethânia veio Gal Costa, sempre suave e sem fazer muito barulho. A dupla baiana que por si já faria tremer qualquer concorrente ainda contava com dois amigos do tipo que toda cantora precisa: grandes compositores do naipe de Gilberto Gil e Caetano Veloso.

Em 1965, aos 24 anos Nana Caymmi voltava ao Brasil para retomar a carreira. Celly Campello, que três anos antes havia abandonado a carreira recusou participar do programa Jovem Guarda. Wanderléa aceitou, tornou-se imensamente popular e, contam os biógrafos, amiga de Elis Regina.

Em 1965 eu estava com dez anos. Ouvíamos rádio durante todo o dia. Eu parava para ouvir Wanderléa com um chamado irresistível: “Atenção, atenção, eu agora vou cantar para vocês, a última canção que eu aprendi…” A moça bonita da Jovem Guarda cantava “É o tempo do amor” e eu gostava tanto quanto de “Carcará”, o “bicho que avoa que nem avião” na interpretação definitiva de Bethânia. Tenho certeza de que a primeira canção gravada por Elis que me fez parar e prestar atenção na cantora foi “Menino das Laranjas” . Com dez anos eu apenas gostava; hoje percebo que Elis canta a música com graça – a mesma graça que me encantava em Wanderléa – e interpretava intensamente, como Bethânia. De quebra, “Menino das Laranjas” é de uma notável sofisticação melódica e rítmica.

Ainda era 1965 quando vi Elis na televisão. Aos vinte anos ela cantava “Arrastão” com alegria contagiante, com a força necessária para retirar a rede de pesca cheia, farta, sem deixar de lado a doçura da intérprete que narra o pescador querendo Janaína para casar. Em maio do mesmo ano estreava, na TV Record, o programa “O Fino da Bossa”, e neste registrava-se a maior parceria vocal de Elis Regina: Jair Rodrigues.

O disco “Dois na Bossa” veio antes e deu origem ao programa de TV. No disco estão “Menino das Laranjas” e “Arrastão”, as duas músicas que me fizeram gostar de Elis Regina. Também estão outras onze canções só na primeira faixa, compondo o pot-pourri de maior êxito da dupla Elis e Jair. Definitivamente, Elis alcançava a categoria de melhor cantora do Brasil. Nesse programa, sem o que se denomina hoje “música de trabalho”, Elis pode mostrar toda a sua versatilidade, o que é possível comprovar pelas gravações preservadas por Zuza Homem de Mello, disponíveis em CDs.

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Outro dia me perguntaram como foi o impacto do lançamento do disco Construção, de Chico Buarque, em 1971. Respondi quase que mecanicamente: “- Ouvíamos no rádio. Tocava o dia inteiro!” Continuando o papo, recordei o hábito de ouvir rádio, desde criança, quando conheci toda essa gente e, principalmente, Elis Regina.

No próximo dia 19, segunda, lembraremos a grande cantora, falecida em 1982. 33 anos sem Elis! Três gerações sem a grande intérprete!Comigo, tudo começou em 1965. Impossível não registrar esses 50 anos de admiração e respeito que tenho pela maior cantora do Brasil.

Salve, Elis!