A falta que faz um não

calvin-haroldo

Lecionando há mais de 20 anos tenho notado com preocupante frequência o transtorno que é, para determinados alunos, ouvir um não. Não é percepção isolada; a coordenadora do curso em que atuo também é diretora de uma unidade com mais de doze mil estudantes; ela reitera esse fato e narra, constantemente, os transtornos enfrentados por alguns jovens diante de um não.

Ter todo e qualquer desejo satisfeito é, certamente, cultura doméstica; reflexo de uma sociedade permissiva. Satisfazer os desejos da criança é consenso propagado por psicologia de almanaque ordinário, amplamente divulgado via superficiais programas de televisão. Nesses, temos overdose de direitos divulgados e quando um simples dever é mencionado, como por exemplo, estudar,  vem a imposição da necessidade de “intensa motivação”. Não é raro ver reportagens sobre a necessidade de “motivação” para que as pessoas cumpram seus deveres na escola ou na vida profissional. Estudar é prioridade para conseguir um bom trabalho e este é fundamental para que o indivíduo viva bem.

O ato de comer, que é necessidade vital, também é decidido pelo pimpolho que escolhe entre frutas e hambúrgueres gordurosos, legumes e batatas fritas industrializadas. Parece que a obesidade infantil é um problema, mas os pais “não podem impor” bons hábitos à criança perante o risco de traumas e problemas similares.

Esse texto é simples; não se pretende tese de doutorado, mas exposição e discussão de ideias. O viver à vontade conduziu uma parcela considerável da moçada para um brutal hedonismo – o prazer como bem supremo – e, assim, convivemos com uma geração que tudo faz pela cotidiana diversão, pelo constante gozo; a aparência é valor supremo e o consumo é a grande meta; mesmo quando o “objeto” a ser consumido é outro ser humano.

Uma simples regra de educação básica – não use o telefone dentro da igreja – torna-se grande cavalo de batalha: afinal, o que é mais importante que a banalidade de um telefonema cujo conteúdo frequente é “já saí” ou “estou chegando”? Por conta de situações desse tipo há grandes atritos em sala de aula, em teatros, cinemas, hospitais… Não se pode dizer não aos aparelhinhos “da hora”.

O mínimo que ocorre quando se impõe um não é presenciar uma torrente de lágrimas. Minha cara diretora que o diga. É dizer não e o mundo acaba. E se há um lado que garante a ordem e as regras de uma instituição, resta chamar ajuda de quem sempre disse sim: e temos, na universidade, pais agindo como se as crianças – jovens maiores de idade – precisassem do socorro para defendê-las perante os terríveis monstros que dizem não. Não é exagero, nem eufemismo. É situação cotidiana presenciar, em plena universidade, pais e mães querendo burlar o sistema em função das vontades e dos prazeres dos pimpolhos.

A questão, às vezes, é maior. Caso da situação vivida pelo país onde uma senhora foi eleita pela maioria para governar todos nós. Como é que alguns entre os que perderam, e que nunca ouviram um não, vão conviver com essa realidade? Esperneiam, colocam defeitos absurdos nos adversários e na impossibilidade de chamar a mãe, estão chamando a polícia, os militares.

Qualquer menção a fatos históricos e muitos indivíduos usam um idiota “não é do meu tempo” para esconder o tamanho da ignorância. É bem provável que esses seres não tenham lá grandes informações sobre o que foi o regime militar. Talvez pensem que os homens armados chegarão tipo papai e mamãe, e “passarão a mão na cabeça”, atendendo às solicitações das crianças para pôr fim à democracia no país.

Chamar militar para derrubar presidente, e caso isso se concretize, será ATO DE FORÇA.  Como nem todos aceitarão tal situação voltarão sessões de torturas, teremos covas lotadas de “desaparecidos”, as celas cheias de presos políticos e a mordaça, via censura, para todo aquele que tiver algo contrário a dizer. Militares sabem, como ninguém, dizer não. Para eles, a resposta ideal é o “- sim, senhor”.

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Militares devem garantir segurança e ordem quando chamados. Jovens não devem ser usados como massa de manobra por aqueles que almejam unicamente o poder, não medindo meios para isso. Este é um bom momento para dizer não. NÃO! Não teremos militares derrubando um governante eleito democraticamente. Não teremos a força para atender às veleidades de gente que desconhece o que é respeitar a vontade do outro. Não separaremos o país via preconceitos imbecis e sim, SIM, aguardaremos as próximas eleições e, se queremos reverter a situação, está na hora de começar a trabalhar para isso.

Até mais!

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Quase dezembro e as calçolas da rainha

Camisa do Pelé no museu do Boca Juniors
Camisa do Pelé no museu do Boca Juniors

Hoje volto ao trabalho após vencer uma pneumonia. Tento esquecer a doença; o dia amanheceu ensolarado e o vento, bastante suave, invadiu meu apartamento. Após a rotina matinal ganhei a rua, com saudade do meu Bexiga. Não fui “caminhando contra o vento”, pois com pneumonia não se brinca, nem caminhei “sem lenço, sem documento” já que, desde os tempos da Ditadura descobri que sem lenço, tudo bem, mas caminhar sem documento é temeroso.

A música de Caetano Veloso, “Alegria, alegria”, veio com o vento, com “o sol de quase dezembro”. Nas bancas, dois mineiros, movimentando o país. A senhora mineira venceu o senhor mineiro. A imprensa diz que a senhora venceu por pouco… Foram 3.459.963 pessoas que fizeram a diferença. Eu que não vou chamar 3 milhões de pessoas de pouco. Pela lei, bastava uma para a chamada maioria simples. Logo, 3 milhões é gente demais da conta, sô!

Como tomei para este dia uma frase atribuída ao Dalai Lama – NÃO PERMITA QUE O COMPORTAMENTO DOS OUTROS TIRE A SUA PAZ – deixei as pinimbas políticas para escanteio. O que me ajudou nessa postura, pasmem, foi saber das calçolas da Rainha Vitória via site Glamurama, comandado por Joyce Pascowitch. Alguém pagou R$ 24 mil, em um leilão, pelas peças íntimas da rainha.

O que será que o indivíduo fará com as calçolas da Rainha Vitória? Estarão limpas; foram usadas? Uma vez, em Buenos Aires, me deparei com uma camisa do Pelé, usada em embate contra o Boca Juniors em 11 de setembro de 1963; o jogo foi pela Copa dos Libertadores. O fato mudou tanto a minha vida quanto a possibilidade de encontrar, em outro museu, as calçolas da rainha inglesa…

O sol continua brilhante, o dia está lindo. Preparando minha volta às aulas percebo nitidamente o final do ano e fico mais certo do “quase dezembro”. Sinto “os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores vãos…”

Mês melhor que dezembro é difícil. As pessoas ficam mais doces, delicadas, desejando coisas boas mutuamente; muitas outras sonham com Papai Noel e possíveis mimos natalinos. Sendo férias é mês de reencontro, reconciliações, celebrações de amor, amizade e fraternidade. Enquanto dezembro não vem, “eu vou”: com vontade de terminar bem o que comecei em janeiro; com o desejo de continuar, atravessar mais um ano e, seguir em frente que é o melhor destino pra todos nós. “Eu vou. Por que não? Por que não?”

Até mais!

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“O dia D” voltar para Minas

anhanguera/valdoresende

Todo aquele que é da minha geração, tendo saído da casa dos pais e vindo para longe, trouxe na bagagem da memória duas canções; uma que nos afasta das origens colocando-nos reféns do destino; desnudando vontades, anseios e escancarando uma felicidade como prêmio nos versos finais:

Eu por aqui vou indo muito bem, de vez em quando brinco Carnaval
E vou vivendo assim: felicidade na cidade que eu plantei pra mim
E que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim.

Quando jovem ostentamos uma coragem farsesca e somos portadores de grandes doses de petulância e autossuficiência. A canção acima começa assim:

Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu fui embora
Mamãe, mamãe não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí
Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu quero mesmo é isto aqui…

“Mamãe, coragem” é de Caetano Veloso e Torquato Neto. Este mesmo Torquato Neto escreveu os versos de “Todo dia é dia D”, praticamente antítese da primeira canção, também guardada na bagagem da memória. Os versos são fortes em contraponto com uma melodia suave, criada por Carlos Pinto:

Desde que saí de casa
trouxe a viagem da volta
gravada na minha mão
enterrada no umbigo
dentro e fora assim comigo
minha própria condução
todo dia é dia dela
pode não ser, pode ser
abro a porta e a janela
todo dia é dia D.

Saí de casa com 17 anos, 1972, mesmo ano em que Torquato Neto ligou o gás e suicidou-se. Ele estava com 28 anos. Eu já conhecia a música “Mamãe, coragem”, do disco “Tropicália ou panis et circensis”, de 1968. Um tempo depois de levar as primeiras aulas de “a vida como ela é”, ouvi “Todo dia é dia D”, música que saiu em um compacto simples, em 1973, junto com o livro “Os últimos dias de Paupéria”, coletânea de textos de Torquato Neto organizada por Waly Salomão e Ana Maria Duarte (essa foi esposa do compositor).

Eis que o tempo passou e continuei, sempre, cantarolando as duas canções. Sempre Gal Costa em “Mamãe, Coragem”, sempre Gilberto Gil em “Todo dia é dia D”. De repente, do inesperado vem uma proposta de trabalho e me chega um “dia D” voltar para Minas Gerais.

“…todo dia é dia dela
pode não ser, pode ser…”

Este 2014 é para muitos o ano que começa agora, depois do carnaval; o ano de Copa do Mundo, de eleições. Na minha história é o ano de voltar e realizar um trabalho em minha terra. E este é o x da questão: voltar e realizar um trabalho em Minas Gerais. Nos próximos meses estarei geminianamente dividindo-me entre lá e aqui. O que farei? Depois eu conto. Tenham paciência; a mesma que tive durante todos esses anos aguardando a hora de voltar.

Boa semana para todos.

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Brasil 2014

salvador_dali_a_persistencia_da_memoria

Depois do carnaval

Depois do verão

Depois da copa do mundo

Depois das eleições

Depois… Depois…

Antes.

O que há pra antes?

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Até!

Ao vencedor, as batatas… Quentíssimas!

Sexta-feira, indo para São Caetano do Sul, nas imediações da Avenida Delamare, eu e meu amigo Robinho presenciamos três assaltantes dando coronhadas em um carro. O assalto não foi concretizado, pois não quebraram os vidros e o motorista acelerou logo que possível. Antes de entrarmos na Avenida Goiás, em outro semáforo, conversamos com o motorista. Aí que descobrimos ser uma senhora e esta relatou-nos, apavorada, que era a terceira vez que ocorria aquilo com ela.

Fato corriqueiro, um assalto parece banal; três é coisa de gente azarada. Para quem concorda que isso é “fato corriqueiro” tem mais violência, muito mais: clique “UM” para saber de quatro pessoas mortas; clique “DOIS” para saber detalhes sobre onze assassinatos; clique “ TRÊS” para chacina com 20 pessoas mortas. Violência urbana: uma batata quentíssima para o prefeito eleito em São Paulo no dia de hoje.

Domingo, enquanto fechavam as urnas, e as pesquisas já apontavam o vencedor, uma tempestade colocava a cidade em atenção, o que oficialmente significa: “órgãos públicos municipais, como a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros, a CET e as subprefeituras direcionam as equipes para os pontos mais críticos da cidade. Essa ação é feita para evitar que motoristas entrem em vias alagadas…”.

A notícia acima é da Folha de São Paulo e está completinha aqui. O trecho foi destacado por mim, para lembrar que chuvas são sinônimos de alagamentos na capital paulista. Uma batata quente, encharcada, e cheia de barro para o novo prefeito.

Seria ótimo se fossem apenas duas batatas; mas há quantidade suficiente para muitos purês: As batatas da educação, da saúde, dos transportes, da habitação… Para cada secretaria municipal um batatal em altíssima temperatura. Com tanta batata indigesta vale refletir sobre quais os reais motivos para o sorriso do vencedor.

Poder é algo que atrai, seduz, deslumbra. Junto com poder vem o dinheiro que, entre outras coisas, paga plástica para o poderoso ficar atraente, ter maior facilidade de seduzir e, quem sabe, deslumbrar! Ainda há o fato de que o poder obtido em disputa vem com o sabor de possibilitar, “elegantemente”, que se tripudie sobre a derrota alheia…

A expressão “Ao vencedor as batatas” tem origem, é bom lembrar, em Machado de Assis, no romance “Quincas Borba”. Surge no exemplo do filósofo Quincas como conclusão da história de duas tribos, famintas ante um campo de batatas que entram em guerra, já que as batatas são suficientes apenas para uma delas. A tribo vencedora, renovando as energias com as tais batatas, poderá ir além, percorrer o caminho até chegar a um campo onde há grande quantidade de… Batatas. Simplificando: os vencedores podem desfrutar das batatas.

Uma cidade rica e poderosa justifica a ênfase com que tantos políticos lutem pelo direito de temporariamente conduzi-la; talvez por isso ignorem a grande e variada quantidade das doloridas batatas quentes. Atentem para o “temporariamente conduzi-la”! Quem quiser permanecer no poder há que saber esfriar batatas, e não mentir, dizendo que estão frias quando na realidade queimam vidas.

O calor da vitória traz sorrisos. E assim ocorre em todas as cidades onde, finalmente, termina o processo eleitoral de 2012. O momento é de aproveitar as saborosas batatas da vitória e, sem delongas, entrar no processo de transição para começarem a trabalhar. Fora dos comitês, em São Paulo, há pessoas sendo mortas aos montes; há tantos problemas na cidade que o mínimo que se pode dizer ao vencedor é: – Segure essa batata, senhor prefeito; do contrário, na próxima eleição, será o senhor a sair com as mãos abanando. Sem poder, sem dinheiro, sem batatas.

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Boa semana para todos.

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A delicada arte da escolha

Nas vésperas de uma eleição é assustador ler o título no UOL: “A dois dias da votação, 2.830 candidatos podem ter eleição anulada com base na Lei da Ficha Limpa.”

Fernando Sabino, o escritor mineiro, escreveu que “O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove.” Nas atuais eleições, o perigo não é escolher um, entre os 2.830 que aguardam decisão judicial, mas escolher um entre os milhares de outros corruptos que, por enquanto, livres do braço da justiça, ainda estão com a ficha limpa.

Não vivemos com nostalgia de escolhas políticas. Vivemos com receios, já que é raro o político de caráter íntegro. E também cumulamos frustrações perante escolhas de candidatos que, no poder, mostraram a face corrupta, a indiferença aos reais problemas da sociedade, a falta de cumprimento de promessas, além de evidentes crimes em ações que nossa justiça, filha predileta da preguiça, demora a julgar.

Um número considerável de brasileiros tende a menosprezar uma eleição. Cansados e desiludidos com as atitudes de muitos políticos, e com a lerdeza da justiça, preferem o desdém, o descaso. A vida é lenta na esfera política e exageradamente rápida nos efeitos da ação dos políticos sobre a população. Assim, é compreensível o desalento, o desânimo de muitos dos nossos irmãos brasileiros.

É delicada a nossa responsabilidade nesse momento de escolha. Temos que esquecer os aparentes cordeiros, a fé dos falsos profetas; precisamos ignorar aspectos físicos, já que beleza é totalmente dispensável, voz bonita também. A excelente fluência verbal é arma poderosa de enganadores. Sobretudo temos que tomar cuidado com alianças e apadrinhamentos. Tão velha quanto a sociedade humana, as alianças são mero jogo de interesses particulares ou de pequenos grupos. Quem escolher?

Não há como negar que avançamos. Por mais que apareçam subterfúgios, por mais atrasos que imponham à justiça, estamos avançando. Esta é a história. De triste herança, nossos coronéis políticos estão em extinção; a população, cada vez mais, exige honestidade, transparência, respeito. Um processo lento, mas inexoravelmente destinado a avançar.

Não tenho a ilusão de ver o mundo sonhado por muitos, mas compartilho da fé na construção via pequenos passos. O passo deste final de semana é votar com a certeza da coisa certa; rezando para que não tenhamos os olhos desviados pelos falsos brilhantes políticos, nossa inteligência entorpecida pelo discurso enganador. Vamos em frente, colocar nosso voto de confiança em um mundo mais digno. Lembrando, mais uma vez, o genial Fernando Sabino, vamos em frente, com esse pensamento na cabeça:

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”

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Bom final de semana!

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Notas: as citações de Fernando Sabino são do romance “O Encontro Marcado”.

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