Vavá e o copo campeoníssimo

O que permanece na lembrança quando se tem três anos de idade? Será que a história fixada na nossa mente é real ou alimento oriundo de conversas alheias, registros diversos, ou de acontecimentos similares posteriores. O certo, certíssimo, é que em 1958 eu completei três anos.

Quando o Brasil começou a trajetória rumo à primeira Copa do Mundo, ganhando de 3 x 0 da Áustria no dia 08 de junho, ainda faltavam dez dias pra que eu completasse meus três aninhos. O fato é que essa data lembra um hábito lá em casa, meu pai indo para o quintal soltar fogos à cada gol brasileiro. Sem foguetório no dia 11/06, quando o Brasil empatou com a Inglaterra e duas sessões de estrondos no quintal pelos 2 x 0 contra a União Soviética no jogo seguinte, dia 15.

Para uma criança prestes a completar três anos deveria ser, no mínimo, uma situação intrigante. “Onde vim parar?”, pensaria o pequerrucho vendo um monte de gente aboletada em volta de uma caixa, de onde saia a voz de um sujeito falando “feito louco, alucinado e criança” e, num dado momento, todos berrando “gol” e o chefe da casa correndo para o quintal e, junto à vizinhança, enchendo o céu de estrondos festivos.

Será que festejaram meu aniversário em 18 de junho de 1958? Ou deixaram de lado, já que dia seguinte, o Brasil jogaria com o País de Gales? E ganhou, de 1 x 0 como ganhou em seguida os dois últimos jogos, fazendo 5 gols na França e outros 5 na Suécia. Que fartura! Bom lembrar que fazíamos 5 gols nos adversários.

Daquela Copa na minha vida permaneceu um copo! De todos os cacarecos de ocasião para consumo de torcedores, herdei um copo autêntico, virgem – relíquia que veio a ser – desde quando o Brasil se sagrou Campeão Mundial de Futebol. Não recordo bulhufas sobre quem adquiriu, quem era o verdadeiro dono, quanto custou, onde foi comprado. Estava entre os objetos pertencente aos meus avós, Maria e José, e tendo o Vavá no “plantel canarinho”, pedi e recebi como herança.

Provavelmente minhas recordações da Copa do Mundo sejam mais as de 1962, quando euzinho completei 7 anos e ganhei de véspera o Bicampeonato, no Chile. Véspera, pois o jogo final foi no dia 17 de Junho! (lembra, faço no dia 18!). O Brasil fez três gols na Tchecoslováquia. O primeiro gol do Amarildo, o segundo do Zito e o terceiro foi de quem? De quem? Do Vavá! Viva o Vavá!

Dessa segunda Copa guardei e alimento carinho por Garrincha, Amarildo, Vavá e o fabuloso Gilmar! Já escrevi por aí que foram os primeiros jogos que vi pela televisão. Um vizinho colocava um aparelho na porta do bar e no começo da noite a vizinhança corria para ver a exibição dos jogos. Na minha cabeça de menino, sem qualquer informação sobre os recursos de repetição, achava que o Brasil jogava duas vezes no mesmo dia. E, melhor, ganhava nos dois jogos! Naquela tela cheia de chuviscos, a figura de Gilmar se sobressaia e eu aprendi a amar os dribles de Garrincha.

Meu copo amarelinho guarda lembranças dos melhores anos da minha infância. Aos quinze anos, novamente na véspera do meu aniversário, vi com olhar adolescente o Brasil vencer a Itália obtendo o tricampeonato de 1970. Havia o burburinho de coisas acontecendo no país do “ame-o ou deixe-o” que não couberam no meu copo. Assim como foi com outro olhar, mesmo sem conter a alegria, que vi o país vencer em 1994 e em 2002. Outros tempos, outros esquemas muito distantes dos dois primeiros campeonatos.

Olhando para o copo, escolhendo melhores imagens para compartilhá-lo com quem me honra lendo esse blog, sinto-me obrigado a encarar o tempo, a vida: No quesito esporte sempre fui um perna de pau, como dizem daqueles que não jogam bem o futebol. E, para ser honesto, quando criança ninguém lá em casa me chamava por Vavá. Era Cido, Cidinho e, por ser um ranzinza precoce ganhei o apelido de Jiló.

Selma da Matta, uma querida amiga, foi a primeira a me fazer gostar de ser chamado de Vavá. Tinha resistência ao apelido, provavelmente por não me ver como o Vavá da nossa seleção. Fiz as pazes com o apelido já adulto. Já sabia então o motivo de, ao dizer meu nome, perguntarem se eu me chamava Edvaldo. Era por conta do Vavá, Edvaldo Izídio Neto. Marcou cinco gols em 1958 e mais quatro em 1962. Bicampeão! O Leão da Copa, como foi chamado, está entre poucos que marcaram gols em final de Copa do Mundo. Ah, e também jogou no Palmeiras, onde deixou a lembrança de 71 gols!  

Morando atualmente em Santos, estou bem perto do Canal 5 e volta e meia passo pela estátua em homenagem ao Pelé. Infelizmente, o primeiro grande evento que presenciei na cidade foi o cortejo para o enterro do Rei do Futebol.  Momento somado aos primeiros, simbolicamente registrados no interior do meu copo canarinho.  Um copo que, “sorry, brothers!”, cacareco, bugiganga ou relíquia histórica não vendo, não troco, não dou. É meu, bem guardadinho esperando ver, antes que a morte nos separe, o Brasil ser hexa, hepta, octo…

Até mais!

Obs. Este post é parte dois da série “Cacarecos, badulaques e bugigangas”, que teve início com o post “Pote de Lobisomem e um pouco mais”.

Condomínio eterno

Soube na rua, precisamente na avenida. Manhã ensolarada, céu lindíssimo e o movimento raro para o horário, milhares de pessoas de ambos os lados esperando o féretro do Rei Pelé. Celulares armados aguardando o caminhão dos bombeiros, entre selfies e fotos esparsas havia o jornalismo amador: “Ainda não chegou”. “Fiquei três horas e meia na fila”. “Já saiu há algum tempo”. “Dizem que irá parar no Gonzaga”.

Poderia realizar uma intensa e variada lista de pessoas, suas características, a forma com que aguardavam o célebre defunto. Gente triste, gente alegre, outras apáticas, indiferentes. Ciclistas inescrupulosos em alta velocidade, cuidadores com seus animaizinhos e as inevitáveis sacolinhas com cocô, e barulho, muito barulho. Vou me deter em um sujeito, tipo avô, sentado com o neto ao lado de uma senhora que, mediante um alarme de aproximação do cortejo, saiu dando-me a chance de sentar um pouco.

Pedi licença e o sujeito me pareceu babaca: “Pode sentar, desde que não seja para ficar de mãos dadas”. Brincadeira inapropriada para o momento, a espera da última passagem de Pelé pela orla de Santos, o sujeito esclareceu estar lembrando da brincadeira infantil, as crianças sentadas, de mãos dadas, balançando as perninhas. Minimizei a bobagem e comentei com meu companheiro sobre o movimento dos helicópteros indicando a localização do cortejo. Não demorariam para chegar ao Embaré, passar pela Basílica de Santo Antônio e chegar ao ponto em que nos encontrávamos. O sujeito entrou no assunto.

“Quero distância de São Paulo. Desde que fizeram o rodoanel evito entrar na cidade. Prefiro ficar o mais longe possível”. Falávamos sobre segurança nos cemitérios onde, infelizmente, há registros de roubos frequentes. Citei a visível qualidade da urna do maior jogador de todos os tempos. “Tomara que não profanem o túmulo de Pelé. Mais que o valor material da urna haveria algum louco em querer para si o corpo do jogador?”. Foi quando ouvi a grande conquista do cidadão:

“O que é isso? Nem pensar! Lá é absolutamente seguro. É um condomínio! Comprei um jazigo para a família. Tenho direito a quatro lugares. Pago 800,00 reais do condomínio, que é bimestral. A segurança é reforçada, há jardineiros, faxineiros. Não é um cemitério qualquer, é um condomínio!”.  Operário aposentado, minha pergunta revelou meu lugar no universo social: “E depois que o senhor morrer, se deixarem de pagar o condomínio, o que acontece?” O homem me olhou contrariado: “Passam para outro. É um condomínio! Não pagando, desocupam o espaço e vendem para quem pode pagar”.

Interrompi a conversa e busquei outro lugar. Não quis saber por quanto tempo e como o sujeito garantiria verba para si e os seus terem o próprio túmulo. Percebi em seguida, e os telejornais me ajudaram a compreender, que a presença de Pelé agrega valor ao local. O nome, a história e a fama universal do nosso Rei deve garantir até mesmo a não cobrança de um condomínio.

O féretro passou em direção à casa de D. Celeste, a centenária mãe do jogador. Havia pessoas chorando acompanhando o corpo, muitas! Após uma hora e pouco a comitiva voltou, rumo ao Memorial Necrópole Ecumênica, o cemitério vertical de Santos que ainda não conheço e onde espero não ter por última morada. Mesmo bimestral, um condomínio eterno é caro demais.