Aeroplanos! Para Grandes Amigos

AEROPLANOS 2 - DNG
Roberto Arduin e Antonio Petrin. Aeroplanos. Foto: João Caldas.

Pouco mais de cinco minutos da peça Aeroplanos, do argentino Carlos Gorostiza, e comecei a reconhecer momentos já vividos com Octavio Cariello, amizade que chega aos exatos trinta anos, e de outros, trilhando a vida comigo ao longo do tempo.  No palco dois amigos vivem situações que a cumplicidade permite: já anteveem a fala um do outro, sabem as razões de cada visita, as motivações que determinam reações positivas ou ranzinzas.

Antonio Petrin e Roberto Arduin interpretam os amigos que, aos 75 anos, enfrentam problemas comuns para todos os idosos, mas com posturas absolutamente distintas. Penso serem essas distinções de cada indivíduo as razões que sustentam amizades. Sou um indivíduo mais fechado, o que, por exemplo, contrasta com a simpatia de Sonia Kavantan; também minha timidez sempre deu vez para uma maneira mais efusiva de Fátima Borges. Amigas, amigos…

A passagem do tempo enriquece as relações e pouco importam desavenças, desacordos, diferenças. Se isso ocorre restam pequenos silêncios, afastamentos por pouquíssimo tempo e uma certeza: querer continuar junto do amigo. Na peça, Antonio Petrin vive situação limite e encara isso com humor, deixando a preocupação para a personagem interpretada por Roberto Arduin. Dois atores em plena maturidade e domínio do ofício garantindo que, da plateia, façamos parte dessas vidas, como se fossem dois amigos entre os tantos que a vida nos deu.

O diretor Ednaldo Freire propõe uma montagem que deixa atores à vontade em cenografia instigante, criada também por Petrin. Montando e desmontando espaços os atores aumentam a sensação de cumplicidade enquanto algumas molduras vazias são preenchidas por lembranças de possíveis momentos entre as personagens, os atores e, certamente, todos nós. Viva, na lembrança da personagem e na imagem emoldurada, apenas a foto da esposa.

Aeroplanos tem uma temática ousada perante os padrões que rolam por aí. Em tempos de exacerbação da juventude e de redes sociais frequentadas apenas por gente feliz, a montagem  enfrenta a solidão, a morte e a idade como fatores inatos e, portanto, pertinentes a todos nós. O resultado é delicado e emociona.

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Aeroplanos, amizade e cumplicidade para toda a vida. Foto: João Caldas.

“Levem os amigos” é a expressão rotineira que, em se tratando de Aeroplanos, deve ser levada “ao pé da letra”. A peça celebra a amizade e nos faz perceber o quanto somos felizes e abençoados por viver entre amigos. Sai também orgulhoso com a produtora Sonia Kavantan: é mais um trabalho que vai além da mera diversão e consumo, propiciando gratas reflexões para todos os que assistem e, com certeza, também aos que dela participam.

Após estreia no Teatro Municipal de Santo André, no ABC Paulista, a peça entra em cartaz na próxima sexta, dia 5 de maio, aqui em São Paulo, no Teatro Cacilda Becker (Rua Tito, 295. Fone 11 3864 4513), com apresentações sextas e sábados, 21h e domingos às 19h. Preços: R$ 20(inteira), R$10 (meia-entrada).

Até mais!

O afeto possível (Acima de 25!)

Com Lisa Yoko e Marta Marin
Com Lisa Yoko e Marta Marin, nesta sexta, na Vila Mariana.

Uma tarde tranquila na sexta-feira chuvosa com duas amigas muito queridas. Lá pelas tantas, a matemática levou-nos a computar quase trinta anos de amizade. A relação iniciada nos bancos da universidade só fez amadurecer sem perder a autenticidade, a espontaneidade, a capacidade de rir e chorar da própria vida. Uma grande e verdadeira amizade que dispensa encontros diários; todavia, cada momento de convivência é pleno em intensidade.

Obviamente dividimos tristezas, alegrias, frustrações, acertos, vitórias, perdas… Celebramos, sobretudo, a durabilidade e a profundidade do nosso afeto. Obviamente que sentado ao lado de duas gatas fiquei todo “pimpão”. Também dividi, com Lisa e Marta, a felicidade de ter muitos amigos de longa data. E pensei em comemorar essa longevidade neste post, onde reverenciarei prioritariamente aqueles com os quais ostento mais de duas, três, quatro décadas de amizade.

Vania Maria Lourenço Sanches e Márcia Lorenzoni
Vania Maria Lourenço Sanches e Márcia Lorenzoni

Lá do Rio de Janeiro, Vânia e Marcinha. Nada é descartável quando a distância é mera geografia.

Eulália Cristina Afonso, Alair Celso, Angélica Leutwiller, Nei Rozeira
Eulália Cristina Afonso, Alair Celso, Angélica Leutwiller e Nei Rozeira

Eulália, sendo minha amiga há mais de trinta anos, continua com 25 de idade… Alair transita pela poesia e Angélica pelo canto. Nei está no litoral, mas comigo todo dia pelo Facebook.

Com Sonia Kavantan e Marise de Chirico
Com Sonia Kavantan e Marise de Chirico

Não há nada melhor do que estar feliz com Sonia e Marise. Afeto pouco é bobagem, logo a gente esbanja carinho, aqui fixando momentos especiais.

Fátima Borges, Octavio Cariello, Agostinho Hermes dos Reis
Fátima Borges, Octavio Cariello e Agostinho Hermes dos Reis.

Quando eu era criancinha, lá em Minas, Fafá estava comigo. Em São Paulo, Octávio está comigo o tempo todo. Quando em Uberaba, divido o tempo com o Gugu. Ou seja…

Treze pessoas! Todos meus amigos há mais de 25 anos! Se essas fotos falassem! Se fosse possível computar tanta afeição!

Constato, com orgulho e felicidade, que tenho muitos outros amigos; alguns há mais tempo, outros que vieram depois; todos somando em minha vida. Nesse mundo do descartável cabe celebrar a longevidade, a fé no afeto possível.  O que resta dizer? – Viva nóis! Viva tudo! Viva o Chico barrigudo!

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Bom final de semana!

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Duas irmãs, as primeiras

Imagine que em um dia, já perdido no tempo, recebo um telefonema de Goiânia: “- Oi, você vai ser tio!” Alguns anos transcorridos e estou em um carro rumo à UNICAMP acompanhando a mãe e o bebê, agora mocinha, levando esta para residir na cidade universitária. Este pode ser um fato que dimensiona bem minha amizade com Fátima Borges, a mãe. O tal telefonema chegou porque a amizade vinha de longe, muito longe.

Com Fafa, sempre!

Crescemos em Uberaba, no bairro Boa Vista, e nos aproximamos já na infância. Os tempos eram outros, de uma rigidez absurda determinando meninos de um lado, meninas de outro. Fátima Borges, daqui para a frente só Fafá, começou no teatro primeiro que eu, encenando as peças preparadas por uma moça chamada Isabel, a Belinha. Essa é, efetivamente, a lembrança que ficou não como a primeira, mas viva recordação de como tudo começou.

Comecei em teatro por outras vias, com minha irmã Waldênia levando-me ao TEU – Teatro Experimental de Uberaba. Eram momentos muito legais de festivais de música, de teatro, e minha irmã, começando a universidade, frequentava cineclubes, sessões de teatro. Eu acompanhava e ia tomando gosto pela coisa.

Com Waldenia, todo o tempo!

Um salto no tempo e estou com Fafá no grupo de jovens da Paróquia de Nossa Senhora das Graças. Vivíamos entre os Padres Somascos: Nicolau, Líbero, Américo, Pedro, Enzo… Italianos que nos ensinaram muitas coisas: Um deles, Líbero, gostava de propor desafios. Um desses foi que o grupo de jovens deveria realizar a quermesse, algo restrito aos mais velhos. Lembro-me ao lado de Fafá, visitando os jornais da cidade para divulgar nosso primeiro grande evento. Desse período, marcante e determinante para nossas vidas, Padre Líbero desafiou-nos a tocar violão acompanhando a missa. Vivíamos brincando de fazer barulho com o instrumento. E lá fomos nós, fazer aulas de violão e, poucos meses após, responder positivamente ao desafio do pároco.

Dei meus primeiros passos em teatro no grupo paroquial. Foi minha irmã Waldênia quem me colocou em contato com um livro de Constantin Stanislavski, o grande diretor  teatral  russo, criador do melhor método de estudo para atores. A música foi para plano secundário, um componente entre as montagens teatrais que realizei. Para Fafá, a música tornou-se fundamental e ela, já distante do nosso cotidiano, foi cantar na noite de Goiânia. Enquanto minha amiga cantava em bares e eventos, da capital goiana e região, passei a residir em São Paulo e comecei a trabalhar por aqui.

Será que ela sabe que eu guardo o panfleto?

Na minha bagagem para São Paulo, aprendidos com Waldênia, trouxe os versos de Fernando Pessoa, romances de Fernando Sabino e Autran Dourado e outros livros de Stanislavski. Foi uma boa base para enfrentar a vida. Outro tanto de tempo, convidado pela produtora Sonia Kavantan, montei uma peça infanto-juvenil, “A História de Lampião Jr e Maria Bonitinha”, texto de Januária Cristina Alves. Nessa peça voltava a trabalhar com Fafá, chegando de Goiânia para morar em Santo André, no ABC. O teatro da infância, a música na juventude; Fafá interpretou e cantou, lindamente, sob minha direção.

No presente Waldênia ensina-me outras coisas que ela aprendeu sendo mãe, agora avó. Gostaria de ser tranquilo como ela, de manter frieza em situações complicadas e de saber deixar de lado quem não vale nossas preocupações. Ainda aprenderei. Com Fafá a amizade continua, com uma cumplicidade que não tem tamanho e com um afeto cada vez mais sólido. Cada um no seu canto, sempre juntos. Concretamente juntos também no trabalho: Fátima Borges é a revisora do nosso livro “UM PROFISSIONAL PARA 2020”.

Família que minha irmã formou. Os filhos lindos puxaram “Eulindo”

Deus me deu três irmãs de sangue que amo muito. Únicas em personalidade, em modo de ser e viver. E também fui abençoado com grandes amizades. Tenho mais de uma dezena de melhores amigas. Melhores sim, todas elas; no mais puro sentido do que seja melhor. Não há escala de importância. Há um imensurável amor. No entanto, tudo tem um começo. Waldênia é a primeira lá de casa, a primogênita. Fafá é a primeira grande amiga na minha vida. As duas são aniversariantes neste 15 de setembro. Duas mulheres, irmãs que a vida me deu. Feliz aniversário, meninas!

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Até mais!

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