Viola Davis não é Annalise!

Viola Davis

Ando apaixonado por Viola Davis. A atriz de “How to get away with murder” (no Brasil: “Como defender um assassino”) é um imenso presente para todos aqueles que gostam da arte de atuar. A série narra a história de uma advogada criminal e professora que, com um grupo de alunos, realiza trabalhos práticos, desvendando casos e defendendo clientes. A história se passa na Filadélfia. Annelise, a personagem de Viola Davis, estudou em Harvard, tradicional universidade que forma grandes advogados.

Vou cuidar para não dar nenhum spoiler (embora eu faça teatro e pouco me importa saber qual é o  final!). O fato é que a Viola Davis aparece como uma jovem, dez anos antes do tempo em que transita a série; em outro momento ela é a professora sóbria que, em circunstâncias específicas, entorna litros de vodca. Ela aparece como a esposa apaixonada, a amante fogosa, a namorada que se entrega pela necessidade de afeto. Viola também é a filha, rebelde, problemática. Pode ser a mãe com todo a beleza e o drama da maternidade e por aí vai. Conforme caminha a história em, até agora, seis temporadas.

Fico imaginando o dia a dia dos roteiristas da série: dá pra escrever o que vier na cabeça, pois contam com uma atriz que faz. Além de se colocar na situação (o que é o trabalho de muitos por aí), Viola compõe sua personagem. Cada fase, cada persona de Annelise nos é mostrada com apuro técnico, sofisticada composição. E por mais que o roteirista pire, por exemplo colocando-a como se fosse adolescente sob as cobertas com medo do mundo, ela vai lá e faz! Como tudo é feito com muito critério a gente não estranha, apenas se surpreende e fica encantado com o trabalho da atriz.

Fico de saco cheio com “atrizes e atores” que mal trocam de roupa. Pior aqueles que, sem coragem de enfrentar as grandes produtoras, fazem a “mesma personagem”. A bonitinha e o bonitinho que, espero, devam agradecer aos céus e à genética pelo físico, costumam ter prazo de validade. É só pesquisar a quantidade de astros e estrelas já desaparecidos para confirmar esse prazo. Nem vou questionar o talento desse contingente de profissionais do momento. Vou sim, reiterar, que gente como Viola Davis está no mesmo patamar que Laura Cardoso, Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Milton Gonçalves, Francisco Cuoco, Natália Thimberg… Para esse tipo de gente sempre haverá um bom papel que será feito com excelência.

Viola Davis não é Annalise Keating. Jamais confundiremos a atriz com as mil facetas da personagem. Ainda mais que já vimos Viola em, por exemplo, “Doubt”(Dúvida) ou em “The help” (Histórias cruzadas). Não temos a menor ideia de quem e como é a pessoa Viola Davis. Será preciso batalhar atrás de entrevistas, vídeos e similares para saber quem é realmente a atriz. E aqui dou o último motivo que me levou a esse texto: ser levado a opinar sobre um moço massacrado no BBB21. Bonito, o rapaz se coloca em situação e faz novela. Aí, confundiram o moço com a personagem, e estão assustados por vê-lo como realmente é no programa de tv. Pois então, ele não ator; ele não é Viola Davis. Sacaram?

Até mais!

Nota: “How to get away with murder” (Como defender um assassino) é seriado disponível no Netflix.

God save the queen!

Qual o motivo de implicarem com a idade da Rainha Elizabeth II? Estão querendo que ela morra? O problema é a idade da soberana inglesa, 94 anos, ou a idade média do brasileiro ser de apenas 76,7 (IBGE) de vida? Não seria o ideal que todas as pessoas tivessem as mesmas possibilidades de sobrevida que os nobres e ricos do planeta?

As brincadeiras com Elizabeth II são, no mínimo, de humor duvidoso. Pior, escancaram o preconceito em uma cultura onde juventude é valor, quando não passa de breve fase da vida humana. Provavelmente as pessoas que criticam e criam memes sobre a Rainha tem seus pais ou avós mortos na casa dos 70, 80 anos.

Muitos dessas “humoristas” certamente não valorizam o SUS, que aumentou em muito a vida dos brasileiros e, certamente, desconhecem os tratamentos que levam à longevidade de uma pessoa. Confundem tratar a saúde com “harmonização facial”, procedimentos estéticos que mascaram o tempo, mas criam feições falsas, beiços imensos, caras rigidamente inexpressivas que, cá entre nós, a Rainha Elizabeth não tem…

Tenho ojeriza às críticas sobre a idade da Rainha Elizabeth. Nunca quis, nem quero ser súdito inglês. O que me incomoda, profundamente, é que em nosso país os idosos não são respeitados. Estamos vivenciando neste momento uma atitude dos governos paulistas – estado e município, a capital – tirando dos idosos a passagem gratuita nos meios de transporte: trens, metrôs e ônibus. É bom salientar que aposentado não tem aumento. Apenas reajuste que, para 2021, está empatado com a inflação. E a sociedade se cala.

Outro aspecto da desvalorização da velhice, no nosso país, está escancarado nas praias cheias, nos bares lotados durante a epidemia. Quantos desses frequentadores de locais aglomerados moram sozinhos? Quantos estão levando o vírus para dentro de casa e, com isso, colocando a vida de pais e avós em risco? A Rainha inglesa pode ficar afastada e, com toda a certeza, está protegida de gente irresponsável. Sim, é quase certo que ela sobreviverá à essa pandemia e, se a genética valer, ela ultrapassará os 100 anos, vivendo tanto quanto a Rainha Mãe. Pessoalmente, é o que desejo.

Nos versos do hino britânico, os ingleses pedem pela saúde e pela vida da Rainha: God save the Queen! Por aqui… Carecemos de campanhas para que cedam lugares em filas, em bancos de praça, em meios de transporte. Recentemente, a mãe de um amigo, já idosa, foi à feira e quis comer um pastel. Um casal consumindo pasteis ocupava três bancos, sendo que o terceiro banco destinaram ao suco e prato com o salgado. Sem lugar disponível, quando a idosa solicitou a cadeira deu início a uma discussão desagradável e desnecessária. Quantos exemplos similares teríamos para registrar?

Há outro lado: Fernanda Montenegro, neste dia 25, divertiu e emocionou o país ao lado de outra veterana, Arlete Salles, e da filha, Fernanda Torres. Neste momento, nas emissoras de televisão está o comercial onde Fernanda brilha. Fernanda e Arlete são exemplos ao lado de Lima Duarte, Francisco Cuoco, Natália Thimberg … Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Wanderléia… Todos acima dos 70 anos.  Também presenciamos inúmeras expressões de tristeza e respeito pela morte de Nicette Bruno que, não posso deixar de notar, viveu menos que a Rainha Elizabeth. Artistas idosos merecem nosso respeito tanto quanto a gente comum, seja de que profissão for.

Enfim, não vou falar de outro idoso a não ser eu mesmo. Tenho 65 anos! Já velho, para alguns, mas com a capacidade (dane-se a modéstia!) de muitas coisas! Entre elas escrever em defesa de gente mais velha do que eu. Eu gostaria muito que os “humoristas” que ironizam a idade de Elizabeth II olhassem para si mesmos, para o que tem, o que viram, o que farão. Tenho orgulho da minha idade e do tempo que já vivi – um pouco desapontado com o momento presente. Sobretudo tenho orgulho do que fiz. E tenho planos, muitos planos para o futuro. Estou aí, feito a Elizabeth, pronto para o que der e vier.

Não vou listar meus feitos, apelo para Macunaíma: “Ai! Que preguiça!” Agora, se quiserem fazer meme com minha idade, sou alguém que viu o homem pisar na lua, ouviu Elis Regina cantar Arrastão no Festival da Excelsior, usou calça calhambeque que era o que os jovens artistas da Jovem Guarda usavam e, se muito criança não percebi o horror que foi a instauração da ditadura militar, estive junto aos que lutaram pela democratização do país. Atendi Chico Xavier, assisti Bibi Ferreira, Ângela Maria, vi comício do acadêmico Mário Palmério e muito, muito mais…

D. Rosita e outras Nicettes

Dona Rosita, a Solteira

O primeiro e único amor de Rosita é um primo. Criada carinhosamente pelos tios, a jovem cuida do enxoval enquanto o noivo viaja a trabalho, prometendo breve retorno. O tempo passando, as pessoas envelhecendo, morrendo e Rosita permanece cuidando do enxoval enquanto recebe cartas e promessas de um retorno. Depois de anos de espera chega a notícia de que ele estava casado, que enviava cartas por não ter coragem de contar a verdade. “Eu sabia de tudo”, afirma Rosita. Se não houvessem contado, ela viveria sua ilusão como quando jovem.

“Dona Rosita, a Solteira”, de Gabriel Garcia Lorca, traduzida por Carlos Drummond de Andrade e dirigida por Antônio Abujamra, estava em cartaz em 1980, quando ainda inseguro insistia na minha trajetória paulistana. Grandes e belos outdoors enfeitavam alguns pontos da cidade com Nicette Bruno em destaque em um elenco que ainda contava com Márcia Real, Vic Militello e Paulo Goulart. Ver Nicette era confortante. Tornava familiar a cidade imensa, desconhecida para o jovem migrante que eu fui.

Uma colega de Nicette, Arlete Montenegro estava em cartaz em um antigo teatro na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, onde hoje está o Teatro Bibi Ferreira. As duas eram minhas conhecidas desde quando, lá em Uberaba, assisti à primeira versão de A Muralha, na extinta TV Excelsior. Em um teatro maior, em frente ao que Arlete trabalhava, estava Paulo Autran, primeiro com Eva Wilma e depois com Irene Ravache. A peça era “Pato com Laranja”. Não vi nenhuma dessas peças. Eu era migrante, procurando emprego, dinheiro contado. Assisti sim, inúmeras vezes, no Teatro Popular do Sesi, a montagem de “A Falecida”, com Nise Silva transitando em cenário de Flávio Império, sob direção de Osmar Rodrigues Cruz. Tempos de sonho!

A família Goulart concretiza o que muita gente sonha: ser uma família teatral. Costumamos tratar nossos colegas de elenco como “família” e ver os Goulart era muito reconfortante. Parentes em cena não é tão incomum. Marília Pera ao lado do filho, da mãe ou da irmã; Fernanda Montenegro com a filha, Fernanda Torres, estão entre exemplos de pessoas da mesma família que presenciei em montagens memoráveis. Os Goulart diferiam, diferem, dos demais por questões simples, mas profundamente significativas:

Fui convidado pelo autor e diretor Gerald Thomas para a estreia de “Eletra Com Creta”. Beth Goulart estava no elenco. Quando chegamos ao Teatro Sesc Consolação nos deparamos com o casal Nicette e Paulo, em local estratégico entre o hall de entrada e o passeio, recebendo efusiva e carinhosamente a todos. Algo tipo “Que bom que vocês vieram ver nossa filha! A peça é ótima, o elenco maravilhoso”. A diferença, para deixar bem claro, é que o teatro era a casa deles. Todo e qualquer teatro. E recebiam, para uma peça alheia, mas que era da família.

Paulo Goulart, Paulo, Bárbara, Beth e Nicette. Família!

Quero registrar dois momentos incríveis do teatro de Nicette Bruno. Em “Somos Irmãs”, ao lado de Suely Franco e também da filha Beth Goulart, em peça de Sandra Louzada, direção de Cininha de Paula e Ney Matogrosso, sobre a vida das irmãs Batista, Linda e Dircinha. Nicette e Suely faziam as duas cantoras envelhecidas, decadentes, revendo suas vidas quando foram as Rainhas do Rádio, em cena interpretadas por Beth Goulart e Cláudia Neto. Atrizes e cantoras excepcionais, Beth e Claudia enfrentaram na apresentação em que estive a um público quieto, aparentemente frio. Houve momentos em que, empolgado, aplaudi, mas o plateia não acompanhou. Percebi, em dado momento, Suely Franco estranhando a frieza da plateia. Nicette seguiu a cena e toda a peça com o talento que a consagrou. Ao final, a plateia explodiu em demorados aplausos. As duas veteranas atrizes se entreolharam e percebi, em Nicette, algo do tipo “eles são apenas quietos”.

Em “O Que Terá Acontecido a Baby Jane”, roteiro original de Henry Farrel adaptado para teatro por Charles Moeller que, ao lado de Claudio Botelho, dirigiu Eva Wilma e Nicette Bruno em 2016. Duas mulheres vivendo situações tensas na história que, em filme de 1962, marcou um encontro nas carreiras de Bette Davis e Joan Crawford.

Aos 83 anos (2016!) as duas atrizes fizeram um momento memorável. Nicette, presa a uma carreira de rodas, sob os desvarios da Jane de Eva Wilma. Sem cortes, sem truques. Duas atrizes com a experiência e a tarimba que as tornaram amadas por todos nós.

Nesse domingo, dia 20, nos entristecemos com o falecimento de Nicette Bruno. A tragédia trazida pelo Covid segue enquanto aguardamos uma vacina. A carreira de Nicette e a imagem marcante da atriz, mãe, dominou o noticiário.  Os filhos Beth, Paulo e Barbara Bruno agradeceram o abraço que sentem de todos nós, que fizemos isso antes, por ocasião do falecimento de Paulo Goulart. Triste.

Fiquei pensando em Dona Rosita, a primeira imagem paulistana em que Nicette Bruno me trouxe ao chegar na cidade. Uma amiga, uma mãe. Sobretudo, acima de tudo, uma grande atriz!

Sophia Loren dança ao som de Elza Soares

Sophia Loren dançando…

Ouvir Elza Soares cantando “Malandro” enquanto Lola (papel da atriz Abril Zamora) puxa Sophia Loren para dançar é daqueles momentos que encantam pelo aparente inusitado encontro dessa mulheres incríveis: a cantora brasileira e a atriz italiana. Na tela, a sambista que enfrentou poucas e boas para sobreviver canta para a personagem judia, sobrevivente do holocausto. Sophia, ou melhor, Madame Rosa, sob olhares de crianças sob seus cuidados, dança com uma mulher que, um dia, foi lutador de boxe.

Malandro, sou eu que te falo em nome daquela

Que na passarela é porta estandarte

E lá na favela tem nome de flor…

Rosa, a Rosinha no samba cantado por Elza pode morrer de dor. A mesma dor que parece comum na Rosa de Sophia, neste Momo e Rosa.

Ibrahima Gueye e Sophia Loren, dupla inesquecível

Há duas imensas satisfações ao rever Sophia Loren em Momo e Rosa, o filme em que volta ao cinema, aos 86 anos, dirigida pelo filho Edoardo Ponti. Primeiro por ser um grande filme, digno da filmografia de Sophia; segundo, por nos propiciar um intenso encontro com a atriz italiana que, certamente, continua no coração de milhões de fãs ao redor do mundo. A intérprete impecável diz presente, ao lado do menino Ibrahima Gueye.

O filme me enche de lembranças: pra começar, a formidável dupla Sophia-Ibrahima lembra outra, também no encontro de uma velha senhora com uma criança: Fernanda Montenegro e Vinícius de OIiveira em Central do Brasil. Não faço crítica de cinema. Sou fã. E estou novamente apaixonado por Sophia Loren. E vou deixar a memória fluir.

A Madame Rosa do filme atual foi prostituta; e recordo outra, a Filumena, da comédia Matrimônio à Italiana. Uma das várias parcerias de Sophia Loren com Marcelo Mastroianni.

A Segunda Grande Guerra, que fez sofrer a Judia Rosa, também fez sofrer outra personagem de Sophia, a Giovanna de Girassóis da Rússia, também nesse a parceria com Mastroianni. Um drama menor se comparado ao drama de Cesira, a linda viúva interpretada pela atriz em Duas Mulheres, consagrando-a definitivamente como grande atriz. Também a Grande Guerra como fundo, e novamente com Marcelo, recordo conflitos inconciliáveis em Um dia muito especial.

El Cid, Orgulho e Paixão, A Queda do Império Romano, A Condessa de Hong Kong, O homem de la Mancha… O sono já perdido enquanto as personagens interpretadas por Sophia emergem da minha adolescência em diante, acompanhando-me vida à fora.

Certamente não sou o único, neste Momo e Rosa, a ter o filme como forma de reencontro com a estrela deslumbrante, a mulher desejada, a amiga de muitos anos. O tempo está aí, dando dignidade na mulher ainda imponente, ainda como olhar arrebatador, a boca cheia de promessas e, sobretudo, a atriz que me faz esquecer todas as outras personagens, enquanto choro por Rosa, a judia sobrevivente de Auschwitz.

Daqui para a frente, tenho certeza ouvirei Elza e seu malandro, e pensarei em Sophia, a Rosa, como a da canção, cheia de dor e de amor.

Nota:

Malandro, a canção interpretada por Elza Soares, é de Jorge Cruz e João Batista de Alcântara.

A devastação dos velhos

devastação da velhice

Parte de um vídeo de Lima Duarte após a morte de Flávio Migliaccio, o título “a devastação dos velhos” poderia ser encarado como força de expressão em momento altamente emocional. No entanto, o ator exterioriza e torna-se porta-voz dos mais velhos, milhares, assombrados pelo avanço da pandemia e pelos critérios que devem ser levados em consideração na escolha por pacientes em filas de UTIs. A primeira versão do documento, de abril passado, levava em conta a idade do paciente. Aos mais novos seriam destinados os leitos vagos.

Após o impacto negativo da versão inicial, vieram a público nesta semana novos critérios elaborados pela Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira) e pela Abramede (Associação Brasileira de Medicina de Emergência). O discurso do ator, infelizmente, continua válido, pois a idade permanece entre os critérios vigentes, enfeitada em meio a palavras técnicas, sofismas que, ao final, deixam a impressão de estar tudo na mesma.

Conforme noticia o UOL: Gravidade, maior grau de sobrevida e capacidade do paciente são a base dos critérios sugeridos no documento elaborado pelas duas associações. Atenção para a palavra SUGERIDOS. Para deixar claro o que pesa sobre a cabeça dos mais velhos, transcrevo parte da matéria do site:

OS TRÊS CRITÉRIOS

1) Salvar mais vidas

Como é feito? Usando o escore Sofa (Sequential Organ Failure Assessment) (?1), que avalia uma série de parâmetros de dados vitais (?2). Quanto maior essa pontuação, menor a chance de sobreviver (vai de 1 a 4 pontos).

2) Salvar mais anos de vida

Como é feito? Avaliando a presença de comorbidade (?3) grave com probabilidade de sobrevida (?4) inferior a um ano (caso isso ocorra, soma-se 3 pontos à conta).

3- Capacidade do paciente

Como é feito? Por meio da escala de performance funcional Ecog (Eastern Cooperative Oncologic Group). Nesse caso, o paciente é avaliado em uma escala que vai de “completamente ativo” até “completamente incapaz de realizar autocuidados básicos” (?5) (vai de 0 a 4 pontos).

Em caso de empate de pontos, diz o protocolo proposto, deve ser usada a seguinte ordem de escolha:

1. Menor pontuação do Sofa

2. Julgamento clínico da equipe de triagem

Atenção: os pontos de interrogação são meus. Proponho algumas reflexões sobre os mesmos. Vejamos:

?1 – O Sofa avalia gravidade de morbidade e predição de mortalidade. Morbidade, em medicina, é o conjunto de causas capazes de produzir uma doença. Pergunta de leigo: idade avançada está entre causa de produção de doença? Sim, parece óbvio. Mas, gente jovem também adoece. E aí?

?2 – Espero que dados vitais seja o mesmo que sinais vitais, ou seja: o documento fala de Pressão arterial; Pulso; Respiração; Temperatura. Algo me diz que pessoas da terceira idade saem perdendo no quesito…

?3Comorbidade, no texto, refere a presença de duas ou mais doenças relacionadas no mesmo paciente e ao mesmo tempo. Por exemplo, um sinal da Covid somada a depressão, comum em pessoas mais velhas, aliada ao pânico por ter mais idade e consequente aumento de falta de ar, aumento da pressão arterial e sabe-se lá Deus o que mais…

?4Sobrevida. Quanto tempo viveremos, ou sobreviveremos? E o que faremos durante o tempo que nos resta? João XXIII, um dos mais notáveis papas do século passado, viveu 82 anos. Nos últimos cinco anos de vida revolucionou a Igreja Católica conclamando o Concílio Vaticano II, causando uma das maiores revoluções na instituição.

?5Deve morrer o indivíduo “completamente incapaz de realizar autocuidados básico”?

A pandemia provocada pelo Corona Vírus deixou exposta o que antes permanecia num limbo socialmente aceito: a incapacidade da sociedade de cuidar com eficácia de todos os seus componentes e, pior, a desvalorização dos idosos, o descaso para com a situação desses beirando ao desprezo.

Os critérios mascaram uma pretensa “escolha de Sofia”, posto que o idoso já entra perdendo na competição por um leito de UTI. Todavia, os tempos mudaram e temos pessoas idosas altamente atuantes, sem que seja necessário muito esforço para nomear tais pessoas. Dona Luiza Erundina está com 85 anos. Lima Duarte está com 90. Dona Laura Cardoso está com 92 anos; Dona Nicette Bruno com 87, Dona Fernanda Montenegro, 90 anos, Tarcísio Meira está com 84 e, o mais jovem da turma que me vem à lembrança, Eduardo Suplicy, com 78 anos. Para quem curte “valores estrangeiros” Elizabeth II, da Inglaterra, está com 94 anos, e dos EUA, a estrela Jane Fonda, 82 anos… a lista é imensa.

Os tempos mudaram. As formas e procedimentos médicos evoluíram e não é isolado o exemplo de D. Canô Veloso, que viveu lúcida e saudável até completar 105 anos. Ou seja, mantendo-se cuidados e assistência necessária, a turma acima pode vir a ter 15, 20 anos mais de vida (Espero mais!). Isso implica em que essas, e muitos outros, tem muito a contribuir ao mundo. Nada justifica terem que passar pelo pavor da falta de tratamento adequado. Não se trata, em hipótese alguma, de escolher entre alguém mais jovem ou alguém mais velho para uma vaga de UTI. É fundamental que a sociedade garanta iguais possibilidades de tratamento para todas as faixas etárias dos diferentes grupos sociais. Alguém pode dizer que a pandemia é uma exceção, no entanto cabe lembrar que desde o final da II Grande Guerra que, durante a chamada Guerra Fria, vivíamos sob a ameaça de uma devastação advinda das consequências de um ataque com bomba atômica. Nunca foi feito nada para garantir a saúde dos cidadãos sobreviventes.

O vídeo de Lima Duarte nos mostra alguém desolado, deprimido, receoso para dizer o mínimo das sensações perceptíveis. Há milhares de outros seres em condições similares e até piores, se pensarmos naqueles que não detêm poder aquisitivo sequer para garantir alimentação adequada, quanto mais um tratamento digno. Precisamos lutar, precisamos mudar as perspectivas para os mais idosos. “Os que lavam as mãos o fazem numa bacia de sangue”, finalizou Lima Duarte citando Brecht. Até quando atuaremos como Pilatos?

Até mais!

Obs: veja a matéria completa do UOL clicando aqui.

Siga este blog. Curta a luta por uma vida digna para o idoso e compartilhe essa ideia!

Eu nasci assim… com a coragem de quebrar padrões

sonia braga

A foto de Sonia Braga na Vogue online me leva a lembrar Caymmi com sua “Modinha para Gabriela”: Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim… Um alvoroço na internet com a capa da revista. Tive a paciência de ler comentários prós e contras e, esses últimos, com frequência notável vindo de mulheres. “Ela precisa se cuidar!” é o subtexto da maioria. Mas, caso Sonia Braga fosse como as outras mulheres…

Algumas mulheres, e este post é dedicado a elas, são extraordinariamente criativas, levam a vida com o maior sucesso e decidiram ser como são. Sem grandes arroubos na tentativa de enganar o tempo. Cá para nós, ninguém ludibria o tempo. Exercendo o sagrado direito de pintar cabelo, fazer plásticas por todo o corpo, colocar pequenos detalhes postiços, não enganamos o tempo. Nos sentimos bem. Mas Sonia Braga…

nasci assim

Sonia Braga, Laura Cardoso, Fernanda Montenegro e Maria Bethânia são exemplos da contramão do aparente estabelecido. Como essas mulheres se cuidam? Recordo uma entrevista de Fernanda Montenegro para Marília Gabriela: “- Tomo banho todo dia, alguns não tomam!” Maria Bethânia, em recente entrevista ao programa do Pedro Bial confessou ter feito plástica nos seios. Laura Cardoso nunca fez plástica.

Essas mulheres são profissionais notáveis, de ponta, que frequentemente são incomodadas por pessoas do tipo que chamam a primeira dama francesa de feia, ou por outras, dessas que escondem a idade, evidenciando um inexplicável medo do tempo. É preciso uma coragem fora do comum para escrever um livro com a palavra epílogo no título. Fernanda Montenegro escreveu, dando clara alusão ao tempo que finda, a uma história que cessa. Essa gente, que teme a ação do tempo, deve ficar apavorada com o que a palavra epílogo sugere.

Maria Bethânia, lá atrás, deu voz a versos de Caetano Veloso: “… o amor tudo levou, o outono chegou, mas o dom da primavera ninguém vai me tirar, hoje eu estou pronta pra cantar!”. E continua cantando, e vai cantar sempre, lindamente. Tanto quanto Fernanda Montenegro e Laura Cardoso em novelas recentes e Sonia Braga, em Bacurau. Vou guardar na lembrança a cena em que Fernanda desatina e mata três em uma única cena, assim como não esquecerei Laura Cardoso brincando de ser abusada e prostituta.

Algumas crenças nos limitam; a da eterna juventude é uma delas. É encarando o tempo que convivemos com possibilidades e limites. Esses mesmos limites que, quando jovens, foram outros. O que vale, em todo e qualquer tempo, é nossa capacidade de aprender, de entender, compartilhar. Parar no tempo, no padrão “lindo e jovem” é alimentar medos; de que o cabelo caia, fique branco, que as rugas tomem conta, os músculos amoleçam e o corpo despenque. Todo o cuidado com o corpo e com a saúde é necessário; de preferência que seja realista, pois assim esse cuidado será maior. Eu nasci assim, me diz a foto de Sonia Braga. E eu completo, como se fosse ela: Vivi e estou assim. E só estou assim porque vivi. E mudo quando quiser.

Há pessoas que estão em constante luta para manter e expandir um espírito criativo. Não param e não se assustam com o tempo. Seguem em frente, com um jeito invejável de ser. Essas quatro mulheres se cuidam mais que, provavelmente, a maioria de todos nós. Cuidam da cabeça, lutam por coerência, por direito, liberdade, honra, dignidade. Mais que elogios, querem reconhecimento e exercer o livre arbítrio quanto ao que usar, como usar e, sobretudo, o que fazer. Por isso são grandes criativas, por isso são estrelas. E cabe a nós aprender com elas.

Até mais!

.

Nota: As fotos que ilustram este post foram colhidas na internet, divulgando trabalhos das artistas citadas.

Siga este blog. Curta e compartilhe.

.

CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO NO AMBIENTE CORPORATIVO veja em www.competency,com.br.

 

Outras lições de Dona Fernanda Montenegro

fernanda-montenegro

Aprende-se muito com uma atriz como Fernanda Montenegro. A entrevista de hoje, por si, tem uma consistência fora do comum. Pincei  algumas frases que não devem ser esquecidas:

Todo velho tem uma zona de maluquera”.  

Sou um ser que nasceu pra me desdobrar em filhos.”

 “Viver é uma prova dos diabos.”

 “Não lamentar a vida.”

 “Eu não quero perder minha memória. Eu sou a minha memória”.

Foi sempre assim; ao longo de muitos anos guardei algumas frases, algumas atitudes de Fernanda Montenegro que me fizeram, além de respeitar profundamente a atriz, admirar a mulher, a Arlete que não conheço, mas que aparece nas ações da pessoa pública. Vou recordar, neste texto, aquilo que guardei na memória sobre Fernanda Montenegro.

Em um “Frente a frente”, Marília Gabriela perguntou o que a atriz, visivelmente bem cuidada, faz para manter-se bem. Fernanda Montenegro não titubeou: “- Eu tomo banho!”. A apresentadora fez menção de afirmar ser óbvio e a atriz continuou lembrando que muita gente não toma… Estive outro dia em uma festa. Recordei essa entrevista quando fui abraçado por alguém que, embora fosse dia de festa, não cheirava nada bem. A estampa era boa, à distância tudo parecia bem. Mas, faltou o banho…

Outra sábia lição da nossa grande atriz: Convidada para ser Ministra do Presidente José Sarney, recusou afirmando em carta não ser essa (a carreira de política profissional) a sua vocação. Fernanda Montenegro poderia ter sucumbido à vaidade e demais facilidades de uma vida no centro do poder. Preferiu o palco onde recebe justo reconhecimento e não precisa de bajulações. E quando se faz necessário, une-se à classe artística para reivindicar direitos.

fernanda-montenegro-doce-de-mae como picucha
Como Picucha, em Doce de Mãe. Trabalho premiado.

O nome da atriz, nas produções Globais, sempre aparece por último. Nunca vi nenhum contrato, mas sou do tempo em que as emissoras cortavam as chamadas, os créditos anunciando os atores, aumentando o tempo de comerciais. Li que Fernanda Montenegro só assina contratos quando aceitam a exigência do nome dela por último, o contratante correndo o risco de multa caso isso não ocorra. Um meio eficaz de usar o próprio prestígio para favorecer aos colegas de classe.

Esta outra lição eu assisti, durante um programa de Hebe Camargo. Beatriz Segall, que nunca foi simpática, lamentou o assédio do público, perguntando às colegas presentes (Fernanda Montenegro, Tonia Carrero e outras) se elas também se irritavam com pedidos de fotos e autógrafos. Fernanda foi incisiva, deixando claro que deve o sucesso e a própria carreira ao público e que o mínimo que um ator pode fazer é ser gentil com quem o aplaude.

Outra grande atriz, Bibi Ferreira, nunca fez novela. Sempre criticou ou deixou nas entrelinhas que o folhetim televisivo é algo menor. Em dado momento, Fernanda Montenegro afirmou: “-Sou uma atriz do meu tempo”, deixando evidente que a televisão é um meio deste tempo, assim como é o cinema, o teatro. Ao evidenciar sintonia com o tempo em que vive, Fernanda Montenegro caminha à frente de muitos outros e não por acaso se tornou referência da profissão.

Há tantas lições de Fernanda Montenegro! A maior de todas, penso, está na própria maneira de viver, trabalhando! Em nosso país há muita gente que só pensa em aposentadoria, em ficar de papo pro ar bebendo cerveja, querendo “curtir a vida”, é a expressão mais comum. Nossa grande atriz, aos 84 anos, não pensa em parar. Vê pouco os netos, pois trabalha muito. “-Mas estamos aí, juntos”. O Emmy, que é apenas o prêmio mais recente, foi dedicado aos três netos.

Todo barulho é pouco para essa grande mulher. Salve, Dona Fernanda Montenegro! Obrigado por tantas lições de vida!

Boa semana para todos.

Nota:

(Veja toda a entrevista de hoje clicando aqui)

%d blogueiros gostam disto: