Pote de lobisomem e um pouco mais

É só um aparente cacareco, entre tantos outros que guardo. Um potinho de louça ordinária, presente de Dona Antônia. Ela e Cesarino, o marido, foram inquilinos de meus pais e tinham origem espanhola. A frágil cerca que dividia nossos quintais não foi suficiente para isolar-nos e logo após o jantar, enquanto mamãe ultimava tarefas do dia, Dona Antônia vinha papear, contar histórias.

Na fazenda tal, onde moraram, apareciam mulas sem cabeça. Vinham em disparada, cabeças em chamas, perseguindo caminhantes noturnos. Às vezes era uma única, de outras vezes várias em tropel ensurdecedor. Parece que alguém foi pisoteado; houve quem perdeu a fala e até outra pessoa ficou com marcas de queimadura.

Entusiasmada com a atenção das crianças, olhos arregalados, sinais de medo ao encolherem-se umas nas outras, Dona Antônia emendava causos, como um lobisomem que caminhava em noites de lua cheia por entre as casas dos camponeses. Ouvia-se o bater do rabo que o bicho, ao andar, movimentava com força, para espantar um imenso enxame de moscas. Se percebia a luz vinda de alguma lamparina no interior das cabanas, o lobisomem batia com força em portas e janelas, tentando entrar.

Últimas brincadeiras noturnas, era comum ter os pés empoeirados e restava lavá-los antes de ir para a cama. A bacia utilizada tinha de ficar seca, sem água nenhuma, ou o próprio Diabo viria lavar-se, ou refrescar-se do calor do inferno, vai saber! E vinham histórias de gente que sofreu nas mãos do Demo por conta de água suja deixada de um dia para outro.

Impressionado, eu estava entre os irmãos que perdia o sono, chamando a mãe no meio da noite com medo de algum ser fantástico. Mamãe não perdoava: “Para de acreditar nas coisas dessa velha mentirosa! Amanhã vou cortar as conversas dela. Não acredite em nada disso!” Minha impressão era que mamãe, cansada, desacreditava Dona Antônia pra poder ir logo para a cama. Todavia, as histórias pararam.

Um dia, aproveitando a companhia de minha mãe que foi comigo para Araguari, em visita aos meus avós paternos, Dona Antônia foi conosco. O trem da Mogiana saia bem cedo de Uberaba e era puxado por uma Maria Fumaça. Uma aventura! Lá pelas imediações do Rio das Velhas, os trilhos molhados, a velha máquina patinava e Dona Antônia rezava com receio de que a composição descesse de costas, sem controle. Um foguista, munido de vasilha com areia, ia despejando essa sobre os trilhos, a máquina andando um pouquinho, ele despejando outro tanto e assim foi até ultrapassar aquele trecho.

Foi naquela viagem que descobri outra Dona Antônia. Normalmente era uma senhoria que tinha murchos a parte superior dos lábios. Para viajar ela usava dentadura. Imensa, com um dente de ouro incrustado entre os outros, enormes, que a impedia de ficar com a boca fechada. Que coisa era aquela que eu nunca tinha visto? Onde ela guardava os dentes quando não estava passeando? Fui informado que o objeto ficava em um copo com água, ao lado da cama, para ser usado só em momentos especiais. Lembro de um beliscão de minha mãe, para eu parar de me meter na dentadura alheia.

Do velho Cesarino guardo momentos tensos que nossas famílias tiveram por conta de uma colmeia, instalada na laranjeira que estava na divisa dos nossos quintais. O caixote, abrigo das abelhas, já estava pequeno e ameaçava cair. Papai e o vizinho Cesarino resolveram que iriam mudar a colmeia para outro lugar. Munidos de muitas folhas de erva-cidreira, esfregada nos objetos e nos braços de ambos, o que deveria acalmar as bichinhas que, segundo o Cesarino, atendiam por nome “Mariinha”. Era só repetir o nome e pedir calma que elas obedeceriam e ficariam tranquilas com a mudança.

Um enxame no quintal atacando dois incautos e algumas crianças, a casa trancada e, logo, a vizinhança tomada por uma tenebrosa nuvem de abelhas. Minha irmã Walderez, com os cabelos longos e fartos, foi picada pelas bichinhas embaraçadas nos cabelos e depois retiradas por mamãe com ajuda de um pente. Papai, feito criança peralta, tinha crises de riso e o velho Cesarino foi quem mais sofreu pelo excesso de picadas ou por alguma alergia. Ninguém foi para Pronto Socorro. Fomos, sim, visitá-lo quando tudo se acalmou e, confesso, o que guardei da visita foi a visão do copo com a dentadura da minha amiga. Estava no local antes informado.

A cama de Dona Antônia também ficou na lembrança por conta de um incêndio, por um ferro elétrico ligado e esquecido. Tenho guardado os gritos desesperados da pobre senhora por conta do dinheiro do filho, Agostinho, guardado sob o colchão. Esse filho, ao se casar, levou os pais para morarem com ele, e antes de irem embora fui presenteado com o potinho de louça onde ela sempre me servia algum doce. Era para que eu não a esquecesse. E ao rearrumar minhas coisas na casa nova, me vem lembranças de seres folclóricos, viagens de Maria Fumaça, ataques de abelha e a velha amiga, Dona Antônia. O pote cumpriu sua missão.

Até mais!

Semana Cultural em Caieiras

Na próxima sexta, 19h00 participarei do encerramento da Semana Cultural organizada pela Secretaria de Cultura de Caieiras. O tema, Folclore em diferentes manifestações culturais brasileiras, será apresentado em live com o Secretário de Cultura Wesley Gonçalves que me honra com esse convite e a quem, desde já, agradeço.

O folclore é um tema muito gostoso; fatos e hábitos folclóricos estão presentes em todas as fases de nossas vidas. Pequenas e grandes manifestações populares nos encantam e preenchem momentos essenciais em que manifestamos fé, alegria, celebrando a vida, a memória e os costumes de nossa gente.

Aguardamos todos vocês. Sexta-feira, 27 de agosto, 19h00 no Instagram da Prefeitura de Caieiras.

Até lá!

Teatro valoriza o Rio e os Piraquaras do Paraíba do Sul

 

rio paraiba
O Rio Paraíba e a estrada de ferro, no município de Lavrinhas – SP

A montagem “Os Piraquaras do Vale do Paraíba” está na Mostra Teatral que encerra a passagem do Projeto Arte na Comunidade 4 pela cidades de Lavrinhas, Cruzeiro e Queluz, no interior de São Paulo. Teatro dentro do teatro, as personagens são atores que nasceram na região e que também são poetas, menestréis, bardos, trovadores, contando fatos em prosa e verso, além de apresentar cenas valorizando aspectos históricos e culturais do Vale do Paraíba.

A Serra da Mantiqueira, a estrada de Ferro, a Revolução de 1932, a Via Dutra estão presentes em cenas onde os atores mudam de personagem durante a ação, agilizando a narrativa e evidenciando o jogo teatral, elemento que permeou todo o trabalho do Arte da Comunidade 4 na região. Personagens do folclore são citados assim como a importância dos acontecimentos religiosos que tornaram famoso o Rio Paraíba do Sul.

O progresso e o crescimento de todo o Vale do Paraíba teve consequências que vem de longe, como o desmatamento da Serra da Mantiqueira e, mais recente, a poluição dos rios. Somando história e cultura regional às questões ambientais, ganha destaque na peça o cuidado que se deve dispensar ao meio ambiente. Piraquaras são os habitantes ribeirinhos do Rio Paraíba do Sul. A peça resgata a expressão carinhosa que identifica pescadores, lavradores e demais ribeirinhos do Paraíba e pede cuidado para com os rios, fundamentais para a sobrevivência de todos nós.

Durante as primeiras fases do Projeto Arte na Comunidade 4, nas escolas das cidades participantes, nossos atores ensinaram aos alunos peixes confeccionados em origami, a técnica japonesa para dobradura. Durante a mostra intensificam a campanha iniciada nas escolas pedindo que cada criança faça um peixe com dobradura e dê de presente a quem sujar o rio. Um alerta para enfatizar a vida que se perde com a poluição.

Escrita e dirigida por Valdo Resende, Os Piraquaras do Paraíba conta com os atores Conrado Sardinha, Luciana Fonseca e Rodolfo Oliveira. Composição e direção musical é de Flávio Monteiro e os figurinos são de Carol Badra

Idealizado por Sonia Kavantan, o Projeto Arte na Comunidade é patrocinado pela Alupar e Taesa e apoiado pela Usinas Queluz e Lavrinhas; é uma realização da Kavantan & Associados, Ministério da Cultura e Governo Federal.