Não cabe “- Eu sou assim!” nem que foi do “nosso jeito”

Rene MagritteThe Kiss-1951
Magritte – The Kiss-1951

Somos seres bipolares. Desde não sei quando os homens estão de um lado e as mulheres do outro. Uma fonte perene de conflitos.  Há outras divisões que assolam temporariamente o planeta; um exemplo foi o mundo dividido por dois sistemas político-econômicos: de um lado o socialismo, de outro o capitalismo. O declínio da União Soviética indicou para muitos a vitória do capitalismo; todavia, o socialismo permanece como ideal para incontáveis indivíduos; a bipolaridade segue.

Há divisões banais, como a importância dada pela emoção dos envolvidos durante uma partida de futebol. Vivenciei boas contendas quando meu irmão mais velho era corintiano e eu palmeirense. Por outro lado, há divisões extremamente perigosas, envolvendo a fé de milhões de seres humanos quando se contrapõem crenças. Muito já foi feito em nome de Deus… Para refletir escolhi dois exemplos de um livro de História da Igreja, escrito por Roland Fröhlich.

  • “Em 391, Teodósio proíbe todo culto pagão”.
  • Cerca de 510 os borgonheses passam para a fé católica.

Exemplos aparentemente banais, perdidos no tempo. Entretanto, quando refletimos um pouquinho nos deparamos com situações similares, mexendo com milhões de pessoas. Em maio do ano passado um juiz brasileiro afirmou em sentença que “as manifestações afro-brasileiras não se constituem como religião”. Foi alguém, com postura similar, que determinou que fosse católica a religião de todos os escravos oriundos da África. Aqui, o respaldo foi amplo, já que por decreto o Brasil era oficialmente católico.

Quem vive na pele esse tipo de situação deve sofrer muito. De uma hora para outra o indivíduo está proibido de cultuar determinada divindade, ou vê-se obrigado a professar a fé de outro grupo que conseguiu pela força impor seu credo. Há aqueles que se submetem com docilidade e os outros, que guardarão por dezenas, centenas de anos, preceitos, dogmas e hábitos que em momento oportuno farão voltar ao cotidiano. Judeus, dispersos pelo mundo, jamais perderam seus hábitos e católicos, oprimidos pelo regime russo, mantiveram na calada os rituais de seus ancestrais.

Certas questões estão profundamente impregnadas nas pessoas para que sejam perdidas por imposição exterior e, acredito, viveremos conflitos eternos, pois travaremos grandes batalhas sempre que necessário para que possamos viver do “nosso jeito”.

O “nosso jeito” é, com bastante frequência, resultado da sugestão ou do modo de ser de um sujeito. Profetas, guerreiros, chefes, líderes políticos, mestres, nos deram uma maneira de ser, uma forma de caminhar e estar no mundo. É comum afirmarmos com brutal arrogância, “- Eu sou assim!” quando na verdade só fazemos imitar ou seguir o que um outro fez ou disse. E estamos prontos a pegar em armas para que prevaleça o “nosso jeito”, para que possamos afirmar que “- Eu sou assim!”.

A França, os muçulmanos, um jornal, algumas mortes; acontecimentos que abriram grandes discussões, profundos debates sobre liberdade, censura, fé e entre outros temas, o terrorismo. A grosso modo é possível afirmar que alguns indivíduos fizeram críticas violentas e outros indivíduos, indignados, resolveram a coisa à bala. Resultou que os atos sofridos por alguns indivíduos atingiram toda a França e esta reagiu como “mãe” que não vê defeitos em seus filhos e, pior, multiplicaram-se insinuações de que os outros, os primeiros agressores, representam todos os muçulmanos.

Precisamos pensar; analisar e evitar reações intempestivas. O que é ação individual e o que é representação coletiva? O que é necessidade de grupo, de uma nação, e o que é imposição de poucos, com reais interesses raramente expressos? Quais as verdadeiras motivações daqueles franceses que agora estão mortos? E os que mataram, foi em nome de quem? Difícil aceitar um mero “- Eu sou assim!” para essa situação; muito menos para ambos os lados, que tal fato deu-se por conta do “nosso jeito”.  Os atos, de ambos os lados, refletem problemas imensos onde cabem constante reflexão e busca de soluções.

 

Até mais!

Vasto mundo, aqui mesmo!

Há uma pequena lista que, até aqui, só eu conhecia. É uma modesta relação das visualizações deste blog mundo afora(Vejam o quadro). Sim, há um monte de pessoas por este “mundo, vasto mundo” que vez em quando entram nesse pequeno espaço e tomam conhecimento do que escrevo. É coisa tipo “Europa, França e Bahia” (reverenciando Mário de Andrade e seu Macunaíma); gente de terras que nunca vi, donos de idiomas que não falo, que aparecem não sei exatamente de onde, e nem sei como aqui chegaram.

 

Para ser bem honesto, primeiramente me envaideço. Tudo bem que uns tenham entrado por engano, via “tags” abrangentes (Uma chance de ganhar um amigo!). Pode ser que outros venham por saudade do Brasil. Há também os amigos (Muitos, graças aos céus!), e os ex-alunos.  Sei de alguns, explorando o planeta: na Espanha, na Dinamarca, Inglaterra, Austrália, Estados Unidos… E de amigos, que estão em Portugal, França, Japão… Não sei quantos e quais estão por aí, nesses outros países. De alguns, poucos, há comentários e mensagens, via Facebook, que permitem identificação precisa.

Segundamente (reverenciando Dias Gomes e seu Odorico Paraguaçu) tenho urticária de tanta curiosidade. Quem são essas pessoas? Tailândia, Indonésia, Lituânia? São várias centenas e não creio ter tantos alunos, nem tantos amigos assim. Há alguém nesse “mundo, vasto mundo” que me honra com sua visita e que tenho muita vontade de saber quem é. Pode ter vindo atrás de algum artista, uma música, uma peça de teatro; chegou até aqui para saber de Uberaba, de Minas Gerais, da Bahia de Jorge Amado, de Belém do meu Pará. Quem serão essas pessoas?

Vasto mundo, aqui mesmo!

Sou de uma geração que esperava dois, três, dez dias por uma carta; há muitos, como eu, que recordam a dependência da telefonista para telefonemas interurbanos, para ligações internacionais. Meu querido Carlos Drummond de Andrade, lembrando-me que “se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução”, demorava um pouco mais para atingir esse “vasto mundo” que, na era da Internet, favorece-me  com a rapidez e a instantaneidade da comunicação virtual, fazendo que esse “vasto mundo” seja aqui mesmo. Por isso fico encantado e, insisto, curioso. Quem é que me honra com sua visita por esse Brasil e por todo esse mundão de Deus?

Peço perdão aos que estão sempre por aqui; aqueles que já me conhecem, um pouquinho que seja, compreenderão essa curiosidade, esse estranho prazer que é ser lido em Luxemburgo e também em algum recanto da imensa Rússia. Cá, entre todos nós, sinto-me pertinho de Minas Gerais, Tocantins, Piauí, Rio de Janeiro, Pará, Paraná, Bahia. Sinto-me extensão de São Paulo, um pequeno braço de Uberaba. Mas tenho vontade de ir além, criar outros laços, já que não  há limites pra conhecer gente e fazer amizades. Daí escrever este post, aos mais distantes, aos saudosos do Brasil, àqueles que buscam um pouco daquilo que escrevo. Por isso, peço: por favor, quando possível, matem essa curiosidade. Digam nem que seja apenas o nome e o lugar de onde estão vendo/lendo este blog. Desde já, meu muitíssimo obrigado. E aos que estão sempre por aqui, um carinho especial.

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Boa semana para todos!

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Nota:

O trecho citado de Carlos Drummond de Andrade é do “Poema de sete faces”.

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