Viola Davis não é Annalise!

Viola Davis

Ando apaixonado por Viola Davis. A atriz de “How to get away with murder” (no Brasil: “Como defender um assassino”) é um imenso presente para todos aqueles que gostam da arte de atuar. A série narra a história de uma advogada criminal e professora que, com um grupo de alunos, realiza trabalhos práticos, desvendando casos e defendendo clientes. A história se passa na Filadélfia. Annelise, a personagem de Viola Davis, estudou em Harvard, tradicional universidade que forma grandes advogados.

Vou cuidar para não dar nenhum spoiler (embora eu faça teatro e pouco me importa saber qual é o  final!). O fato é que a Viola Davis aparece como uma jovem, dez anos antes do tempo em que transita a série; em outro momento ela é a professora sóbria que, em circunstâncias específicas, entorna litros de vodca. Ela aparece como a esposa apaixonada, a amante fogosa, a namorada que se entrega pela necessidade de afeto. Viola também é a filha, rebelde, problemática. Pode ser a mãe com todo a beleza e o drama da maternidade e por aí vai. Conforme caminha a história em, até agora, seis temporadas.

Fico imaginando o dia a dia dos roteiristas da série: dá pra escrever o que vier na cabeça, pois contam com uma atriz que faz. Além de se colocar na situação (o que é o trabalho de muitos por aí), Viola compõe sua personagem. Cada fase, cada persona de Annelise nos é mostrada com apuro técnico, sofisticada composição. E por mais que o roteirista pire, por exemplo colocando-a como se fosse adolescente sob as cobertas com medo do mundo, ela vai lá e faz! Como tudo é feito com muito critério a gente não estranha, apenas se surpreende e fica encantado com o trabalho da atriz.

Fico de saco cheio com “atrizes e atores” que mal trocam de roupa. Pior aqueles que, sem coragem de enfrentar as grandes produtoras, fazem a “mesma personagem”. A bonitinha e o bonitinho que, espero, devam agradecer aos céus e à genética pelo físico, costumam ter prazo de validade. É só pesquisar a quantidade de astros e estrelas já desaparecidos para confirmar esse prazo. Nem vou questionar o talento desse contingente de profissionais do momento. Vou sim, reiterar, que gente como Viola Davis está no mesmo patamar que Laura Cardoso, Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Milton Gonçalves, Francisco Cuoco, Natália Thimberg… Para esse tipo de gente sempre haverá um bom papel que será feito com excelência.

Viola Davis não é Annalise Keating. Jamais confundiremos a atriz com as mil facetas da personagem. Ainda mais que já vimos Viola em, por exemplo, “Doubt”(Dúvida) ou em “The help” (Histórias cruzadas). Não temos a menor ideia de quem e como é a pessoa Viola Davis. Será preciso batalhar atrás de entrevistas, vídeos e similares para saber quem é realmente a atriz. E aqui dou o último motivo que me levou a esse texto: ser levado a opinar sobre um moço massacrado no BBB21. Bonito, o rapaz se coloca em situação e faz novela. Aí, confundiram o moço com a personagem, e estão assustados por vê-lo como realmente é no programa de tv. Pois então, ele não ator; ele não é Viola Davis. Sacaram?

Até mais!

Nota: “How to get away with murder” (Como defender um assassino) é seriado disponível no Netflix.

God save the queen!

Qual o motivo de implicarem com a idade da Rainha Elizabeth II? Estão querendo que ela morra? O problema é a idade da soberana inglesa, 94 anos, ou a idade média do brasileiro ser de apenas 76,7 (IBGE) de vida? Não seria o ideal que todas as pessoas tivessem as mesmas possibilidades de sobrevida que os nobres e ricos do planeta?

As brincadeiras com Elizabeth II são, no mínimo, de humor duvidoso. Pior, escancaram o preconceito em uma cultura onde juventude é valor, quando não passa de breve fase da vida humana. Provavelmente as pessoas que criticam e criam memes sobre a Rainha tem seus pais ou avós mortos na casa dos 70, 80 anos.

Muitos dessas “humoristas” certamente não valorizam o SUS, que aumentou em muito a vida dos brasileiros e, certamente, desconhecem os tratamentos que levam à longevidade de uma pessoa. Confundem tratar a saúde com “harmonização facial”, procedimentos estéticos que mascaram o tempo, mas criam feições falsas, beiços imensos, caras rigidamente inexpressivas que, cá entre nós, a Rainha Elizabeth não tem…

Tenho ojeriza às críticas sobre a idade da Rainha Elizabeth. Nunca quis, nem quero ser súdito inglês. O que me incomoda, profundamente, é que em nosso país os idosos não são respeitados. Estamos vivenciando neste momento uma atitude dos governos paulistas – estado e município, a capital – tirando dos idosos a passagem gratuita nos meios de transporte: trens, metrôs e ônibus. É bom salientar que aposentado não tem aumento. Apenas reajuste que, para 2021, está empatado com a inflação. E a sociedade se cala.

Outro aspecto da desvalorização da velhice, no nosso país, está escancarado nas praias cheias, nos bares lotados durante a epidemia. Quantos desses frequentadores de locais aglomerados moram sozinhos? Quantos estão levando o vírus para dentro de casa e, com isso, colocando a vida de pais e avós em risco? A Rainha inglesa pode ficar afastada e, com toda a certeza, está protegida de gente irresponsável. Sim, é quase certo que ela sobreviverá à essa pandemia e, se a genética valer, ela ultrapassará os 100 anos, vivendo tanto quanto a Rainha Mãe. Pessoalmente, é o que desejo.

Nos versos do hino britânico, os ingleses pedem pela saúde e pela vida da Rainha: God save the Queen! Por aqui… Carecemos de campanhas para que cedam lugares em filas, em bancos de praça, em meios de transporte. Recentemente, a mãe de um amigo, já idosa, foi à feira e quis comer um pastel. Um casal consumindo pasteis ocupava três bancos, sendo que o terceiro banco destinaram ao suco e prato com o salgado. Sem lugar disponível, quando a idosa solicitou a cadeira deu início a uma discussão desagradável e desnecessária. Quantos exemplos similares teríamos para registrar?

Há outro lado: Fernanda Montenegro, neste dia 25, divertiu e emocionou o país ao lado de outra veterana, Arlete Salles, e da filha, Fernanda Torres. Neste momento, nas emissoras de televisão está o comercial onde Fernanda brilha. Fernanda e Arlete são exemplos ao lado de Lima Duarte, Francisco Cuoco, Natália Thimberg … Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Wanderléia… Todos acima dos 70 anos.  Também presenciamos inúmeras expressões de tristeza e respeito pela morte de Nicette Bruno que, não posso deixar de notar, viveu menos que a Rainha Elizabeth. Artistas idosos merecem nosso respeito tanto quanto a gente comum, seja de que profissão for.

Enfim, não vou falar de outro idoso a não ser eu mesmo. Tenho 65 anos! Já velho, para alguns, mas com a capacidade (dane-se a modéstia!) de muitas coisas! Entre elas escrever em defesa de gente mais velha do que eu. Eu gostaria muito que os “humoristas” que ironizam a idade de Elizabeth II olhassem para si mesmos, para o que tem, o que viram, o que farão. Tenho orgulho da minha idade e do tempo que já vivi – um pouco desapontado com o momento presente. Sobretudo tenho orgulho do que fiz. E tenho planos, muitos planos para o futuro. Estou aí, feito a Elizabeth, pronto para o que der e vier.

Não vou listar meus feitos, apelo para Macunaíma: “Ai! Que preguiça!” Agora, se quiserem fazer meme com minha idade, sou alguém que viu o homem pisar na lua, ouviu Elis Regina cantar Arrastão no Festival da Excelsior, usou calça calhambeque que era o que os jovens artistas da Jovem Guarda usavam e, se muito criança não percebi o horror que foi a instauração da ditadura militar, estive junto aos que lutaram pela democratização do país. Atendi Chico Xavier, assisti Bibi Ferreira, Ângela Maria, vi comício do acadêmico Mário Palmério e muito, muito mais…

Ok, sou noveleiro!

Novelas de rádio, mais que qualquer outra forma, um exercício de imaginação,

60 anos de novela na TV brasileira!

Desde que me entendo por gente que a novela está presente na minha vida. E não é maneira de expressão; lá em Uberaba, bem pequeno, já tinha “dificuldade” em sair da cama. Minha mãe, que ouvia as novelas transmitidas pelo rádio, gritava de onde estava: “- Valdo, levanta! A novela das 10 já começou!” E eu ficava na cama ouvindo o capítulo até a novela das 10 terminar. Histórias europeias de duques, princesas, personagens com nome de Bianca, João Luiz!

Dias Gomes criou o "pavão misterioso" de Juca de Oliveira em Saramandaia

Havia, em casa, revistinhas com capítulos da então mais famosa novela do rádio brasileiro, “O direito de nascer”. Não ouvi a novela no rádio, nem vi a primeira versão da TV Tupi, com Nathália Timberg e Hamilton Fernandes nos papéis centrais. Assisti outra, com Eva Wilma fazendo a freira “Maria Helena” e a jovem Beth Goulart interpretando “Isabel Cristina”. E li os capítulos dos livrinhos de minha mãe e, por consequência, li fotonovelas, uma coisa quase esquecida hoje em dia.

Novela sobre "ETs" na Excelsior, teve Pelé com Regina Duarte e Stenio Garcia.

A primeira telenovela que me pegou, tornando-me fã, foi “O morro dos ventos uivantes”. A moça morta voltando e aparecendo para o galã… eu gostava daquela coisa de fantasma, que é o que me lembro. Creio que era novela da TV Excelsior; quase todas as primeiras novelas dessa fase da minha infância eram do extinto Canal 9, ou então da TV Record; depois veio a Tupi,  a Globo. “A pequena Karen”, “A grande viagem”, “O rouxinol da Galileia”… cada coisa!!! Não sei se hoje aquelas histórias me fariam a cabeça. Mas, por exemplo, “A grande viagem” acontecia toda dentro de um navio. E eu, lá nas chapadas da minha terra não conhecia de perto nem canoa! Então, a novela era um negócio encantador.

O grande Sergio Cardoso ensinando muito sobre Portugal, na TV Tupi

Cresci vendo novelas, apaixonado por Eva Wilma, desde sempre minha atriz preferida. Gostava e gosto de outras; mas Eva é a maior paixão. A única a passar do drama para a comédia, a farsa, o melodrama, qualquer estilo, sempre com um impecável talento. Há outras, grandes atrizes: Regina Duarte, Fernanda Montenegro, Glória Pires, Yoná Magalhães, Nicete Bruno… Tenho e exerço o direito de preferir Eva Wilma.

Eva, Claudio Corrêa e Castro, Beth Mendes e Gianfrancesco Guarnieri: Inesquecíveis.

Tive a sorte de assistir “Beto Rockefeller”; Luiz Gustavo foi o ator que mudou radicalmente o conceito de galã. Admiro Francisco Cuoco desde uma lendária novela chamada “Redenção”, uma das mais longas da história da telenovela brasileira. Também curto Tarcísio Meira, Juca de Oliveira, Antonio Fagundes,  Paulo José,  Tony Ramos e Selton Mello. Sou fã de Paulo Goulart, Paulo Gracindo, Lima Duarte; da atual geração, também admiro Alexandre Borges e Murilo Benício. A parceria entre Luiz Gustavo e Eva Wilma, em “Elas por “las”, o par perfeito!

A Viagem, duas versões. Quando algo dá errado, sei que o "Alexandre" está por perto.

A novela brasileira completa 60 anos. Houve época em que eu ficava calado, porque rolava preconceito pesado contra quem curtia novelas. As coisas mudaram, todavia, volta e meia, o tal preconceito aparece. Já tenho idade suficiente para ignorar esse tipo de coisa. Creio que poderia ficar horas e horas lembrando novelas, capítulos, autores, cenas. Fica o registro e a homenagem aos milhares de profissionais que ao longo desses 60 anos tornaram a minha vida, como a de muitos brasileiros, mais divertida.

Atualmente, passo minhas tardes com Ruth e Raquel

Vou concluir  lembrando Ivani Ribeiro, Janete Clair e Dias Gomes. São estes os primeiros grandes autores de nossas novelas, mágicos criadores de histórias que tornaram as novelas um hábito nacional. E, por gentileza, se possível, deixe suas preferências “noveleiras” nos comentários.

Até mais!

Os Herculanos são minas de ouro da ficção

Ter um Herculano na ficção brasileira é um ótimo negócio. O sucesso acompanha esse nome na televisão, no teatro e até na adaptação do teatro para o cinema. Vamos aos fatos, começando pelo Herculano da hora, o da novela “O Astro”.

Herculano Quintanilha já foi um grande êxito de Francisco Cuoco e na atual versão, com o velho ator em participação especial, o Herculano de Rodrigo Lombardi está com tudo. Fez par com as belas Carolina Ferraz e Juliana Paz, além de contracenar com feras como Rosamaria Murtinho e Regina Duarte (Coitada, essa virou a assassina do momento! Só porque os caras acreditam que mudar criminoso mantém audiência…).

Rodrigo e Cuoco, os Herculanos da tv

Na abertura do capítulo final o atual Herculano fugiu da polícia transformando-se em pássaro. Uma licença poética que só novelão permite. Não sei se rolou essa cena na primeira versão; parece-me mais uma referência ao “pavão misterioso” de Dias Gomes, da novela Saramandaia. Nesta, Juca de Oliveira transformava-se em pássaro e sobrevoava a cidade. No remake que terminou nesta sexta, Herculano fugiu da polícia com um truque de mágica. Um show de efeitos especiais. Um indicador da grana investida, já que o retorno está garantido.

Continuando: A Rede Globo faturou um monte com a novela original de Janete Clair e vai continuar faturando, já que o formato atual, com número reduzido de capítulos, tem maior aceitação no mercado internacional. Herculano, embora o nome lembre a força do lendário Hercules, ta mais pra mina de ouro mesmo.

Vamos ao outro Herculano, aquele que é anunciado por Geni, na primeira fala da personagem central da peça “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues: “- Herculano, quem te fala é uma morta!” Com meu amigo Octavio Cariello, brincando ante as adversidades irônicas, costumamos simular um corte de pulsos com a frase de Geni, a prostituta da peça de Nelson Rodrigues.

O Herculano de Nelson Rodrigues é, com o perdão da palavra, um bundão. Um viúvo de família conservadora que jura para o único filho que não se casará novamente. Personagem mais interessante é o Patrício, irmão de Herculano e que vive nas costas deste. Para continuar na mamata, resolve apresentar uma prostituta ao irmão. O lance é fazer o cara ficar de quatro pela mulher e amolecer o cidadão para conseguir mais grana. Dá certo para Patrício, mas errado para Herculano, que acaba perdendo a Geni para o filho, que por sua vez a abandona, apaixonado por um bandido boliviano e… Coisas de Nelson Rodrigues.

Nosso maior dramaturgo sempre teve sorte com grandes atrizes interpretando suas incríveis personagens. Geni, por exemplo, foi interpretada na estréia da peça, por Cleyde Yáconis, uma de nossas melhores atrizes. Pessoalmente conheci a segunda e genial Geni, interpretada por Marlene Fortuna, na montagem dirigida por Antunes Filho. Uma momento memorável do teatro do Centro de Pesquisa do Sesc!

Provavelmente, o maior sucesso desta peça foi no cinema. Em 1973, Darlene Glória criou uma inesquecível Geni, em filme dirigido por Arnaldo Jabor. O Herculano da vez foi Paulo Porto. O filme fez grande carreira comercial e ganhou prêmios em Berlim, o Urso de Prata e, no Festival de Gramado, foi melhor filme e melhor atriz para Darlene Glória.

O cartaz internacional de divulgação do filme de sucesso.

Dos dois Herculanos, creio que melhor sorte tem aquele criado por Nelson Rodrigues. Embora bundão, pelo menos não sofrerá alterações de ocasião, como é hábito da televisão visando obter audiência. O Herculano da televisão, misto de MacGyver com Mr. M (Val Valentino), ou com David Copperfield (David Cotki). Um angu de caroço que, é o que conta para a emissora do Jardim Botânico, rendeu e renderá muita grana. Eu estou escrevendo sobre Herculano, quem sabe, né! Vai que funcione e eu comece a ganhar um bom dinheiro!

Feliz final de semana para todos!

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