Setembro e as flores do nosso jardim

O jardim em construção e o outro, dos tempos da Bela Vista.

Equilíbrio é circunstância que nos faz bem. Temperança, a virtude bíblica quando aplicada ao clima nos dá o conforto necessário para viver sem os excessos do verão e os rigores do inverno. Outono e primavera sinalizam, respectivamente, anúncios de fim e de início da vida. E setembro chega, dando adeus ao inverno e celebrando a vida que explodirá em flores, sinal máximo de renovação da vida, da natureza.

Anunciada oficialmente para 22 de setembro, a primavera já deu sinais no nosso pequenino jardim com duas tímidas e desbravadoras flores do nosso Lírio da Paz. Os últimos dias desse inverno rigoroso e ventos atlânticos por mim até então desconhecidos judiaram primeiro das nossas samambaias e em seguida, do “comigo ninguém pode”.  As aspas estão em decorrência da ironia entre o nome da folhagem e a força do vento invernal que rasgou e queimou as folhas, antes fortes e belas.

Em dias de Roberto Carlos, longe de ser o Rei me deparei com o estrago do tempo e verbalizei mil desculpas e, parando tudo, providenciei novo espaço para o Comigo Ninguém Pode. Sempre conversando sobre a nova vida que virá. Já havia feito o mesmo com as samambaias, agora também protegidas do vento, das chuvas e do frio. Tendo por base o jardim da orla aqui em Santos, com vários canteiros com belos Lírios da Paz, estou mantendo o vaso na sacada, atento aos possíveis efeitos desse fim de inverno.

O hábito vem de longe! Se está tudo bem com as plantas, está tudo bem com a vida. Na nossa nova casa realizei um velho sonho de uma sacada com vasos, bem florida, bem cheia de verde e ocasionais cores de flores e frutos. Os destaques estão citados acima: o vaso maior com Comigo Ninguém Pode, o médio com Lírios da Paz, samambaia e Flor de Maio, e três pequenos, um com Espada de São Jorge e Santa Rita, outro com uma flor pequenina recebida como presente de aniversário e o terceiro, um órfão de origem desconhecida.

O pequeno órfão foi, há mais de 20 anos, jogado no lixo por alguém…  Vendo o pequeno vaso abandonado não resistimos, João Luiz e eu, trazendo-o para casa. Guerreiro, ele nunca arrefeceu e invariavelmente renova todas as suas folhas, até mesmo já florindo algumas vezes. Foi o primeiro a dar sinal de estar feliz em Santos, com novas e verdíssimas folhas. O mesmo não ocorreu com as “estrelas da companhia”.

A samambaia com sua grande quantidade de folhas caindo pelas laterais do vaso suspenso me lembram os cabelos de gente muito querida e de madeixas vastas: Gal Costa, Wanderléa, Maria Bethânia… Foi a primeira vítima dos ventos frios do litoral. Em noites de tempestade os ventos do atlântico embaraçaram e rebentaram folhas, transformando o vaso em Medusa nervosa, tensa. Mil pedidos de desculpa e pronta mudança para área protegida. Em pouco mais de duas semanas já dá sinais de que, em breve, voltará a bater cabelo melhor que qualquer Drag Queen.

O anúncio de novas folhas é o sinal de que a “Comigo Ninguém Pode” está bem. E, exercendo meu direito a superstições cotidianas, sei que tudo ficará bem, ou que novo projeto dará certo se, junto com a novidade aparecem novas folhas no meu vaso. Foram essas que me deram a certeza de ter dado passo certo nessa mudança.  Todavia… Ontem passei boa parte do dia tratando da doente, acidentada pelo vento e pelo frio que queimou e maltratou a maioria das grandes folhas. Logo a convalescente voltará ao brilho costumeiro. Os jovens brotos estão lá e, superstição número dois, não conto quantos brotos são. Isso é para que todos vinguem e se tornem belas folhas.

Já desejei um dia que toda e qualquer casa tivesse um jardim. Uma sacada com plantas, uma janela com vasos de flores… Silenciosas e tímidas, nossas flores exigem pouquíssimos cuidados e brindam-nos diariamente com seu frescor, suas cores, tudo cheio de muita vida. E setembro é o mês em que, desejosas da primavera, nossas plantas renovam-se como se preparando para a grande festa que esse mês nos traz, a chegada da primavera.

Boa primavera para todos nós!

Ziriguidum 67

“Um mineiro em Santos”

Quando as coisas andam sem cor e se a sensação é de vida estagnada, o jeito é seguir o conselho da minha dileta Márcia Gomes Lorenzoni: “É preciso dar um ziriguidum na vida!” Para deixar claro, seria algo tipo dar um up, diriam atuais adolescentes, ou sair da caixa como indica o coaching da hora colocando-nos “in” ou “out” em relação a quase tudo. Todavia, ao invés de um “up”, a gente pode carecer mesmo é de ir para os lados e, alerto, um bom ziriguidum pode ocorrer dentro, em cima, embaixo ou fora da caixa.

Li que aos 60 e poucos de idade a gente passa a priorizar arnica e canela de velho aos bons hidratantes. É vero! Aos 65, aposentados por idade, agradecemos não ver luzes brancas no final de túneis com vultos desconhecidos vindo nos buscar. E quando em meio ao período em que sessenta se confunde com “cê senta e fica quieto”, vieram: um acidente, uma demissão e uma pandemia, levando-me, como diria Belchior, a ficar “mais angustiado que o goleiro na hora do gol”.

Bobagem enfrentar o tempo. Ainda mais porque, sendo abstração humana, o tempo ignora relógios, calendários. Ele simplesmente segue em frente e já sabemos nosso destino nessa dimensão. Daí que a gente corre o risco de ser um tal velho, aquele da canção de Chico Buarque:

O velho sem conselhos

De joelhos, de partida

Carrega com certeza

Todo o peso dessa vida…

Eu hein! Na real, penso que a vida só pesa quando olhamos para trás, já que não temos ideia do que teremos pela frente. Assim, o passado é lastro (gosto dos lastros que me norteiam!), mas o tempo que nos virá é o que merece maior atenção, planejamento, cuidado…  Quanto tempo? Não sei. Pode ser uma semana, uma ou mais décadas, ou… Segundos (Nãooooo!)!   Quem quiser que meça, ou tente medir o tempo que lhe reste. Eu vou é viver e, de preferência, com um grande ziriguidum!

Ziriguidum, para alguns, pode ser um corte de cabelo, uns copos de cerveja a mais, uma noite alucinante de sexo, uma tentativa de crime perfeito, uma surra no vizinho chato… Euzinho, que nasci no mesmo dia em que D. Maria Bethânia, curto coisas mais intensas (para lembrar Sonia Braga em Aquarius), e posso até aceitar “uma pedra falsa, um sonho de valsa” desde que seja para viver uma grande paixão por alguém como Gal, cantando Folhetim (Chico, sempre ele!).

Todos as situações dos 60 em diante, citadas acima, levaram-me primeiro ao fundo do poço, intensamente! Fazendo vir à tona o Álvares de Azevedo que carrego desde a infância:

Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã…

E, mineiro, comecei a matutar. Recordando Marcinha, só sairia dessa com um bom ziriguidum. Depois de pensar, repensar, planejar, discutir, desistir, insistir, recomeçar, tudo num círculo constante vivenciado ao lado do Flávio Monteiro até que a decisão viesse. O ziriguidum! E euzinho, estagnado e velhinho da Bela Vista, com meu boné italiano e cachecol enrolado no pescoço, passei a cantarolar Raul Seixas:

Ah! Eu é que não me sento

No trono de um apartamento

Com a boca escancarada, cheia de dentes

Esperando a morte chegar…

Os sinais foram dados neste mesmo blog, também nas redes sociais. “Estou em Santos, sou de Santos. Cidade que escolhi como destino”. Concretamente e NÃO definitivo, pois continuarei aberto a outros possíveis ziriguiduns. Aos 67, que chegarão em breve, continuarei contando histórias, certamente com o mar entre os protagonistas. Aliás, Dorival Caymmi não me tem saído da cabeça e dos lábios, murmurando canções pelas praias da cidade:

Andei, por andar andei

E todo caminho deu no mar

Andei, pelo mar andei

Nas águas de Dona Janaína…

Ziriguidum é bom, recomendo a todos, todas e todes. Não importa a idade! Outras faces deste momento que vivo virão por aqui em uma série de textos que, segundo prometi ao Edison Derito, deverá ter por título “Um mineiro em Santos”. Espero continuar com a atenção de quem me leu até aqui!

Até mais!

Páginas viradas

Para Fátima Borges, a Fafa.

Mesmo planejada, a mudança não deixou de ser brusca. Tinha sido uma vida atribulada, feita de oito, dez horas de trabalho diário mais ações paralelas à atividade profissional. Jantares, teatros, noites de festas, domingos no museu. A vida exigia presença, participação e ela gostava muito de tudo isso. Aos poucos foi se cansando mais, querendo uma tranquilidade de há muito desejada. Ignorar relógio, esquecer o calendário para poder olhar para a vida, manhãs de sol, tardes preguiçosas, noites de caminhadas tranquilas e descompromissadas. Estabeleceu data para aposentadoria e prometeu a si mesma que deixaria qualquer atividade por tempo indeterminado. Queria experimentar o não fazer nada. E assim foi.

Perdeu-se a conta de quanto tempo ela permanecera ali, sentada no sofá da sala, a televisão ligada sem que prestasse atenção à novela, ao noticiário. Mantinha o olhar fixo, o semblante sem qualquer reação ante a visão de um prato de requintada culinária, um desastre aéreo, um escândalo político. Resolvida a cumprir a recente promessa não quis ler, escrever, bordar, pintar, nada. “Já trabalhei muito! Agora não faço nada”. Nem mesmo a própria comida, o cuidar da casa, das roupas, das unhas, pele e cabelo.

Com o tempo Teresa percebeu que a televisão era gatilho para o alheamento da patroa. A ajudante de décadas preparava o café da manhã antes de acordá-la. Após o asseio matinal, Maria sentava-se diante de uma fruta, pão, queijo. Café, não. Nem chá, nem leite. Suco. “Quero um tempo para me lembrar quem fui antes de trabalhar ininterruptamente por esses 30 anos”. Pedido de cancelamento do jornal atendido, deixou que vencesse a assinatura de revistas, periódicos. Gostou até de evitar convites para seja lá qual for o evento e foi, aos poucos, também cortando encontros corriqueiros, exceto de grandes amigas e parentes próximos, deixando de receber visitas protocolares de conhecidos, parentes distantes.

Berenice, a sobrinha mais velha, era a única a visitá-la regularmente. “A saúde vai bem? Precisa de alguma coisa?” Teresa não gostava das perguntas feitas à patroa que preferia responder com monossílabos indiferentes à intensa curiosidade da sobrinha. Em dado momento a moça ofereceu um novo celular e, ignorando o desinteresse e atenção da tia, insistiu em atualizá-la quanto à maneira de usar redes sociais, identificar chamadas, medir batimentos cardíacos e as demais maravilhas do recente modelo do aparelho… E orientou a tia até a fazer uma playlist, deixando como exemplo canções da primeira fase da carreira de Chico Buarque. “Eu sei que a senhora gosta. Vou deixar aqui, tocando. Se quiser desligar é só apertar aqui. Não se esqueça de carregar a bateria”. A tia gostava realmente do compositor, ouvindo cada uma das músicas familiares desde a adolescência e sua juventude.

A Rita levou meu sorriso, no sorriso dela meu assunto

Levou junto com ela o que é de direito…

A sobrinha tinha ido embora deixando o aparelho ligado e as canções preencheram aquelas primeiras horas matutinas fazendo histórias virem à tona. Maria recordou um violão quebrado quando soube que um namorado desnaturado, filho da mãe, havia feito serenata para uma zinha qualquer. Sabendo do fato ela foi ao apartamento do sujeito, entrou silenciosa, decidida, e ante um olhar atônito do rapaz, bateu com o violão sobre as teclas de um piano… “Causou perdas e danos!”. A lembrança era boa e Maria sorriu. Algo tão inusitado que realçou o brilho do olhar e ela notou a claridade do dia, o sol batendo forte no terraço. Teresa percebeu mudanças quando trouxe um suco que antecedia o almoço. “Hoje não quero almoçar. O Chico me basta”, sentenciou Maria já nos primeiros acordes de mais uma canção.

Toda gente homenageia, Januária na janela

Até o mar faz maré cheia, pra chegar mais perto dela…

Ela resolveu bisbilhotar a tal playlist e notou que o autor da coisa havia priorizado entre as canções de Chico Buarque aquelas que remetiam a mulheres específicas: Rita, Januária, Bárbara, Ana, Carolina, Cristina, Beatriz, Maria, Rosa, Angélica… Aumentou o volume para espanto da empregada que retornou, rápida e assustada, temendo ter acontecido algo ruim. Maria aproveitou a presença da outra: “Temos vodca e gelo? Coloque nesse suco de laranja, por favor!” Vodca às onze horas! O olhar da mulher ao relógio dispensou a pergunta. Maria insistiu: “Capricha, Teresinha! Por favor! Vou procurar “Teresinha” para te homenagear”.

Vieram com a bebida canções e performances até então desconhecidas de Teresa que, em dado momento, sucumbiu aos convites e passou a bebericar com a patroa. De início tímida, aos poucos foi entrando na sintonia da outra e nem se surpreendeu quando Maria foi ao quarto e voltou vestida apenas com meia arrastão, cinta liga, uma minúscula calcinha vermelha. Teresa recusou mudar de roupa. A outra desligou o celular e ligou o aparelho de som, mais potente, enchendo o início da tarde com o som de CDs, a coleção do compositor que há muito estava abandonada.

Ai se mamãe me pega agora, de anágua e combinação

Será que ela me leva embora, ou não…

Improvisando coreografias, escolhendo canções nos diferentes discos, quando bebericaram a quarta ou sexta dose quebraram de vez a barreira já tênue entre patroa e empregada, Maria convencendo Teresa a dançar como se fosse “Bárbara”, dançando nuas pela sala, a possibilidade de ir além quebrada com sonoras gargalhadas após definição de território: “Olha aqui, Maria, ‘desesperada e nua’, sim, sabendo que ‘serei sua’, não. Eu quero é o Antenor! Gosto muito!” Após muitas risadas, Maria retomou o telefone anunciando uma ideia: “Será que o Juvenal ainda me quer?”.

Juvenal, ex-colega de trabalho, também recém aposentado, vivendo tranquilo com a esposa e tomando conta de netinhos todas as tardes titubeou ao convite de Maria, estranhando a hora, a quarta-feira, a voz esgazeada pelo álcool da amiga por quem morria de tesão e de quem não tinha notícias há meses. “Venha agora, Juvenal. Você ainda me quer, eu sei. Vem agora! Você não tem uma boa desculpa para sair à noite. Então venha ao banco, diz que irá acompanhar um amigo durante exame de vistas, diz alguma coisa, Juvenal! Ou mudo de ideia! Página virada, Juvenal!”.

Encantada e feliz pela repentina e intensa saída de Maria do marasmo de meses, Teresa arrumou rapidamente alguns petiscos, reformou o balde de gelo, verificou a quantidade de bebida no armário e prometeu, sob juras aos deuses e santos, permanecer fechada no quarto de hóspedes até ser chamada de volta. Últimos momentos antes da chegada do amante, Maria despiu-se protegendo o corpo apenas com um roupão leve, esvoaçante e transparente, sentenciando ao término de outra velha canção, da moça que desatinou: “Não vou desatinar, Teresa. Chega! Não sou dessas!”, já colocando outra música, olhando no relógio. “Juvenal que não se atrase!”. As duas ainda voltaram a bebericar e dançar.

Chego a mudar de calçada

Quando aparece uma flor

E dou risada do grande amor…

Chico Buarque e Gal Costa, cúmplices involuntários de Maria, pronunciaram junto com a campainha o último verso de O Samba do Grande Amor:

Mentira!

Maria despachou Teresa para o quarto e, antes de atender a porta, avaliou-se no espelho, abrindo um pouco mais o decote, ajeitando o cabelo. Calma, colocou uma premeditada canção do onipresente Chico também na voz de Gal Costa. Juvenal seria burro demais se não partisse para o objetivo da visita ao ser recebido pela folhetinesca mulher “que só diz sim” sem manhã seguinte, sem qualquer compromisso. Calmo e competente, a escolha de Maria não desapontou, nem diminuiu um mínimo sequer da magia daquela tarde.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu

Que me deixa maluca quando me roça a nuca…

Teresa só pode sair do quarto quando o sol estava se pondo, atendendo ao chamado da patroa, novamente sozinha na sala. “Estou faminta!”. E sem dizer mais nada voltou ao silêncio costumeiro, mas com um inconfundível brilho nos olhos. Pura satisfação. Teresa, ainda sob efeito da vodca, não economizou comentários. Contou não esperar jamais ver a patroa em trajes íntimos, quase bêbada, bailarina performática. Tão quietinha! Tão ensimesmada! Quem podia imaginar que, rápida e resolvida, arranjaria um encontro em menos de uma hora? Conclui em dado momento que a razão deveria ser esse Chico Buarque, milagreiro! Quem diria! Que compositor porreta! Maria abandonou o silêncio perante o prato cheio: “Chico é ótimo, Teresa; mas eu sou apenas quietinha. Sabe, eu sou safada; muito safada!”. Rindo muito, cumplices, mergulharam nas delícias de uma boa massa, Chico cantarolando na noite alegre e quente de mais um verão.

Pintar, vestir
Virar uma aguardente
Para a próxima função…

Valdo Resende / 2022

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Notas musicais:

Páginas viradas, o título, é expressão usada por Chico Buarque em Folhetim (Chico Buarque, para a Ópera do Malandro – 1979) gravada por Nara Leão, fez enorme sucesso em 1978 na voz de Gal Gosta.

A Rita (1966) – Chico Buarque – é o disco cuja capa virou meme, o Chico sério e sorrindo. Neste disco há outro nome de mulher, Cristina, irmã de Chico homenageada em “Será que Cristina volta”.

Januária (1968) – Chico Buarque – Do terceiro LP do compositor. Deste disco consta “Ela desatinou”, e “Carolina” também mencionadas acima.

Ai, se eles me pegam agora (1979) – Chico Buarque –  a data é de quando foi lançado o álbum com as músicas da peça A ópera do malandro. A canção citada é interpretada pelo grupo As Frenéticas.

O Samba do Grande Amor (1984) – Chico Buarque – O vídeo com Chico e Gal cantando é imperdível. Gal “revira os olhinhos” em momento de puro charme.

O meu amor (1979) – Chico Buarque – Do mesmo disco da Ópera do Malandro, com interpretação de Marieta Severo e Elba Ramalho. A gravação, um ano antes, de Maria Bethânia em dueto com Alcione foi um grande sucesso. Teresinha, a canção também citada acima, foi gravada por Bethânia e, no disco de 1979 tem registro de Zizi Possi.

Na Carreira (1983) – Chico Buarque e Edu Lobo são os autores dessa música para o final de O Grande Circo Místico, criado para o Balé Teatro Guaíra. Na trilha há “Beatriz” e “A história de Lilly Braun”, outras mulheres citadas pelo compositor.

Outras mulheres citadas acima e no cancioneiro de Chico:

Bárbara e Ana (Ana de Amsterdam) são da trilha da peça Calabar, o Elogio da Traição, proibida pela ditadura em 1973. Chico Buarque e Caetano Veloso cantam essas canções no show gravado ao vivo em Salvador, lançado em 1972. 

Maria, está em Olha Maria, do LP Construção (1971) e está também em Anos Dourados, esta em parceria com Tom Jobim, de 1987.

A Rosa, é aquela doida pela Portela, vestida de verde e rosa… há uma gravação genial de Chico em dueto com Djavan.

Angélica, na real, é Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel Jones e da jornalista Zuzu Angel. Stuart foi torturado e morto pela ditadura e Zuzu, buscando pelo filho, morreu em duvidoso acidente, em 1976. Chico Buarque, em parceria com Miltinho, do MPB4 gravou Angélica em 1982.

A maior!

Semana em que Elis Regina e Nara Leão estão em foco na mídia brasileira. Que ótimo relembrar e homenagear essas artistas extraordinárias. Nas diferentes matérias sobre as duas cantoras invariavelmente recai sobre Elis o adjetivo maior. “A maior!”. Ninguém discorda; nem deve, nem pode. No entanto…

Provavelmente por sermos subdesenvolvidos, nós, brasileiros, tenhamos essa coisa do tamanho das coisas. O maior estádio, a maior usina hidrelétrica, a maior ponte… Esses exemplos arquitetônicos foram utilizados durante a ditadura militar, afinal os caras precisavam de dar motivos de orgulho para a gente do país. Mais ou menos nessa época a própria Elis disse em uma ou outra oportunidade que Maísa era a maior cantora, ou Gal Costa a maior cantora. Para Maria Bethânia reservaram o “a maior intérprete”.

A febre do “maior” veio depois de diferentes reinados. Nostalgia dos tempos coloniais, sem ter por aqui o charme das nobrezas europeias, inventamos títulos para praia – Quem não conhece “a princesinha do mar”? – criamos reis da voz, rainhas do rádio, rei da juventude, rei do baião, rainha da Jovem Guarda e, entre outros, para ficar bem claro que ainda não dispensamos as titulações nem mesmo em plena pandemia, agradecendo o trabalho de Teresa Cristina, elegendo-a Rainha das Lives. Serei sempre grato à cantora e compositora pelas noites em que nos salvou do desespero.

Afeto e reconhecimento estão entre diferentes sensações que caminham junto e em ordem invariável quando citamos nossas referências, nossas preferências. Se concordamos que Elis Regina é a maior, onde colocamos Nana Caymmi, Mônica Salmaso, Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Elza Soares, Maria Bethânia, Alcione, Daniela Mercury? Caramba, ia deixando Dalva de Oliveira de fora, a Gal Costa! A Clara Nunes! Podemos colocar quantas cantoras na tal lista “A maior”?

As cantoras citadas no parágrafo anterior nos legaram (legam, ainda!) registros incríveis de inquestionável qualidade vocal. Todas elas, em um ou outro momento, nos arrebatam com suas interpretações e terão, como disse Elis, “a durabilidade do disco”, o que a gente sabe, graças à tecnologia, que essas vozes deverão estar por muito tempo conosco. Elis e Nara têm histórias peculiares em comum (veja aqui), mas neste texto quero enfatizar outros aspectos.

Nara Leão é páreo – se a gente necessitasse disso – para qualquer artista do mundo quando se coloca a representatividade como parâmetro. Milhares de quilômetros distanciam Nara de Leny Eversong, se pensamos em potência vocal. Sem dúvidas, é possível reconhecer e confirmar que o “fio de voz” de Nara foi mais forte que o de Lenny, ou de qualquer outra cantora. A moça rica de Copacabana norteou a Bossa Nova, subiu o morro e nos legou poesia e protesto, assinou junto com o pessoal da Tropicália e mandou às favas os preconceitos em relação a Jovem Guarda. Não é lero-lero. Comprova-se na discografia!

Elis Regina é páreo – e ela não precisa disso – para qualquer cantora do mundo quando se alia técnica e expressão, potência e domínio vocais. Representou como poucas a época em que viveu, mais ainda, sendo um retrato fiel do brasileiro: o ser batalhador que é arrimo de família, que enfrenta forças adversas para ganhar espaço. Nara, rica, fez o que bem quis e, cá para nós, sorte a dela. Elis, brigou feito fera para fazer o que queria, como queria. Briga com gravadoras, empresários, com o governo, com o universo machista onde transitou, brigas que precisavam levar em conta a necessidade de sustentar os seus.

Legal refletir sobre “a (o) maior” principalmente para uma juventude que, penso eu, confunde o ato de cantar com grito. É só assistir o The Voice” para confirmar a gritaria. É complicado abrir espaço profissional e, nesse país do “a maior” e dos “reis e rainhas de quase tudo”, o jovem já chega por baixo. Esquece a suavidade da Bossa Nova, por exemplo. João Gilberto ganhou o mundo colocando a voz em registro suave, como Nara e, na maturidade, Maria Bethânia. Dóris Monteiro é inesquecível e entre as cantoras atuais, Marisa Monte e Maria Rita sabem dosar potência e suavidade, brindando-nos com momentos deliciosos. Subir a voz é força expressiva. Todo cantor deveria aprender isso com Elis Regina, assim como a professora de suavidade – sem esquecer a precisão da expressão – é Nara Leão. As duas – em polos distintos – representam o que há de melhor em nossa música.

A imprensa usou e abusou da rivalidade entre cantoras. Não voltarei ao assunto (Veja aqui), posto que vejo pouca ou nenhuma novidade sobre a questão. A prática continua. Fora dessa necessidade de audiência, podemos refletir e discutir essa questão da adjetivação dos nossos artistas. São grandes, são maiores. Nunca em detrimento aos pares. São imensos em determinado momento, são fundamentais em outros. O que devemos é conhecer, reconhecer e agradecer quando houver o excelente trabalho de cada cantora, de cada artista. Há lugar para todo mundo.

Nos tempos dos registros físicos – discos em compacto, ou long play, fitas cassete, cds – o espaço era problema e, por isso, escolhi vozes femininas para minha coleção de discos. Uma razoável coleção de cds, indo de Aracy de Almeida à Zizi Possi. Ouço Elis tanto quanto ouço Maria Alcina, Evinha, Tetê Espíndola. Dedico horas à Zezé Motta, Beth Carvalho e também ao Quarteto em Cy. Giane e Inezita Barroso, tanto quanto Clementina de Jesus ocupam lugar especial e por aí vai. De A a Z, deixo rolar à vontade e, para lembrar um verso de Joyce Moreno, gosto de “canções que ninguém escuta”. Tenho muita coisa da Elis Regina, da Nara Leão, da Gal Costa. Quase tudo da Maria Bethânia, e quem me conhece sabe o lugar que Wanderléa tem no meu coração. Todas grandes! Todas são “a maior”!

Salve, Elis Regina! Salve, Nara Leão!

Um salve maior para todas as cantoras do Brasil!

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As fotos que ilustram este post estão em capas de disco de Elis (1977) e Nara (1968).

God save the queen!

Qual o motivo de implicarem com a idade da Rainha Elizabeth II? Estão querendo que ela morra? O problema é a idade da soberana inglesa, 94 anos, ou a idade média do brasileiro ser de apenas 76,7 (IBGE) de vida? Não seria o ideal que todas as pessoas tivessem as mesmas possibilidades de sobrevida que os nobres e ricos do planeta?

As brincadeiras com Elizabeth II são, no mínimo, de humor duvidoso. Pior, escancaram o preconceito em uma cultura onde juventude é valor, quando não passa de breve fase da vida humana. Provavelmente as pessoas que criticam e criam memes sobre a Rainha tem seus pais ou avós mortos na casa dos 70, 80 anos.

Muitos dessas “humoristas” certamente não valorizam o SUS, que aumentou em muito a vida dos brasileiros e, certamente, desconhecem os tratamentos que levam à longevidade de uma pessoa. Confundem tratar a saúde com “harmonização facial”, procedimentos estéticos que mascaram o tempo, mas criam feições falsas, beiços imensos, caras rigidamente inexpressivas que, cá entre nós, a Rainha Elizabeth não tem…

Tenho ojeriza às críticas sobre a idade da Rainha Elizabeth. Nunca quis, nem quero ser súdito inglês. O que me incomoda, profundamente, é que em nosso país os idosos não são respeitados. Estamos vivenciando neste momento uma atitude dos governos paulistas – estado e município, a capital – tirando dos idosos a passagem gratuita nos meios de transporte: trens, metrôs e ônibus. É bom salientar que aposentado não tem aumento. Apenas reajuste que, para 2021, está empatado com a inflação. E a sociedade se cala.

Outro aspecto da desvalorização da velhice, no nosso país, está escancarado nas praias cheias, nos bares lotados durante a epidemia. Quantos desses frequentadores de locais aglomerados moram sozinhos? Quantos estão levando o vírus para dentro de casa e, com isso, colocando a vida de pais e avós em risco? A Rainha inglesa pode ficar afastada e, com toda a certeza, está protegida de gente irresponsável. Sim, é quase certo que ela sobreviverá à essa pandemia e, se a genética valer, ela ultrapassará os 100 anos, vivendo tanto quanto a Rainha Mãe. Pessoalmente, é o que desejo.

Nos versos do hino britânico, os ingleses pedem pela saúde e pela vida da Rainha: God save the Queen! Por aqui… Carecemos de campanhas para que cedam lugares em filas, em bancos de praça, em meios de transporte. Recentemente, a mãe de um amigo, já idosa, foi à feira e quis comer um pastel. Um casal consumindo pasteis ocupava três bancos, sendo que o terceiro banco destinaram ao suco e prato com o salgado. Sem lugar disponível, quando a idosa solicitou a cadeira deu início a uma discussão desagradável e desnecessária. Quantos exemplos similares teríamos para registrar?

Há outro lado: Fernanda Montenegro, neste dia 25, divertiu e emocionou o país ao lado de outra veterana, Arlete Salles, e da filha, Fernanda Torres. Neste momento, nas emissoras de televisão está o comercial onde Fernanda brilha. Fernanda e Arlete são exemplos ao lado de Lima Duarte, Francisco Cuoco, Natália Thimberg … Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Wanderléia… Todos acima dos 70 anos.  Também presenciamos inúmeras expressões de tristeza e respeito pela morte de Nicette Bruno que, não posso deixar de notar, viveu menos que a Rainha Elizabeth. Artistas idosos merecem nosso respeito tanto quanto a gente comum, seja de que profissão for.

Enfim, não vou falar de outro idoso a não ser eu mesmo. Tenho 65 anos! Já velho, para alguns, mas com a capacidade (dane-se a modéstia!) de muitas coisas! Entre elas escrever em defesa de gente mais velha do que eu. Eu gostaria muito que os “humoristas” que ironizam a idade de Elizabeth II olhassem para si mesmos, para o que tem, o que viram, o que farão. Tenho orgulho da minha idade e do tempo que já vivi – um pouco desapontado com o momento presente. Sobretudo tenho orgulho do que fiz. E tenho planos, muitos planos para o futuro. Estou aí, feito a Elizabeth, pronto para o que der e vier.

Não vou listar meus feitos, apelo para Macunaíma: “Ai! Que preguiça!” Agora, se quiserem fazer meme com minha idade, sou alguém que viu o homem pisar na lua, ouviu Elis Regina cantar Arrastão no Festival da Excelsior, usou calça calhambeque que era o que os jovens artistas da Jovem Guarda usavam e, se muito criança não percebi o horror que foi a instauração da ditadura militar, estive junto aos que lutaram pela democratização do país. Atendi Chico Xavier, assisti Bibi Ferreira, Ângela Maria, vi comício do acadêmico Mário Palmério e muito, muito mais…

A HORA DOS ARQUITETOS DO SOM (PARTE 2)

Nando Cury nasceu em Botucatu, SP. Mora no bairro do Sumaré, São Paulo. No próximo domingo nós o conheceremos um pouco mais. Das crônicas publicadas por ele escolhemos, para hoje, uma que envolve o universo musical. Sobre música, Nando Cury diz:

“Adoro música. Participei de algumas bandas como Os Jetsons e XPTO (em Botucatu, nos anos 60). Fui um dos vocalistas e compositores de O Quarteto, nos anos 70. Nos Anos 80, estudei harmonia na Escola de Música Travessia e fiz parte do grupo vocal Piruá. Agora sou um dos integrantes da banda Beatles For All.”

O Trem das Lives, com Nando Cury, será no próximo domingo, dia 4, 18h no Instagram do Trem das Lives (@tremdaslives). Veja abaixo um relato da experiência musical do autor:

A HORA DOS ARQUITETOS DO SOM (PARTE 2)

Quase caí da carteira, quando Mário Bock, meu colega de turma, me contou a novidade. Ele havia conseguido pra mim, em 1973, no nosso segundo ano da Faculdade de Comunicação Objetivo, um estágio no estúdio de Rogério Duprat. Continuei não acreditando, então fui falar com o grande regente e arranjador. Passei 20 dias dentro do Studio Vice Versa, meio paralisado, só observando o Sá, o Guarabyra e os músicos da banda O Terço elaborarem músicas com apelos publicitários. Que, depois do arremate final de Duprat – incluindo arranjos, vozes, instrumentos e mixagem – virariam jingles famosos de conhecidos produtos.

De formação erudita, Rogério Duprat fundou o Grupo Música Nova, em 1961, já indicando ares de vanguarda. Como professor da Universidade de Brasília, junto com Damiano Cozzela e Décio Pignatari, cuidou da modernização da teoria e da prática musical no Brasil. Expandiu sua técnica de composição numa temporada que passou na Europa, onde estudou com influentes compositores da música contemporânea eletroacústica, o francês Pierre Boulez e o alemão Stockhausen. Apesar de ter gerado trilhas premiadas para teatro e cinema, a fama de Duprat só foi alavancada na época dos inesquecíveis Festivais da Música Popular Brasileira da TV Record. Exatamente no IIIº Festival de 1967, considerado o mais competitivo e de melhor qualidade musical. Realizado no Teatro Paramount, na Brigadeiro Luiz Antônio em São Paulo, o IIIº Festival contou com uma plateia, em sua maioria, composta por ruidosos estudantes universitários. A TV Record bateu o recorde mundial de audiência, para espectadores fiéis. Tive o privilégio de ser um deles, assistindo com amigos, cada música de cada etapa, através da tela do televisor preto e branco, lá da nossa sala de estar em Botucatu. A disputa não era só pela melhor canção e melhor intérprete. Rogério Duprat ganhou o prêmio de melhor arranjo com “Domingo no Parque” de Gilberto Gil, segunda colocada no festival. Venceu outro gigante chamado Hermeto Paschoal, que fez o arranjo para Ponteio de Edu Lobo, a grande campeã. Duprat usou, como bases, o canto e o violão de Gil, misturando os naipes de cordas e metais da orquestra com berimbau, os backing vocais e sons dos instrumentos dos Mutantes, de Rita Lee, Arnaldo Baptista (baixo) e Sergio Dias (guitarra).

No ano seguinte, em 1968, Duprat criou os arranjos de Tropicália, que lançou o Tropicalismo, um dos mais importantes movimentos musicais brasileiros. Nesta obra, os inventivos arranjos de Duprat sincronizaram-se com a criatividade exuberante que aflorava de um grupo especial de novos compositores do país. As canções do álbum, em sua maioria, levaram a assinatura de Caetano e Gil, como em “Panis et Circenses”, interpretada pelos Mutantes. Caetano e Gil tiveram ainda a parceria de dois poetas que se destacavam naquele momento. Torquato Neto compôs com Gil “Geleia Geral”, interpretada por Gil. E com Caetano a canção “Mamãe Coragem”, cantada por Gal. Capinam fez “Miserere Nobis” com Gil, que também foi o intérprete. Caetano Veloso assinou “Enquanto seu lobo não vem”, cantada por ele e “Lindoneia”, que ficou perfeita na voz de Nara Leão. Tom Zé foi o autor de Parque Industrial, para o coro de Gil, Caetano, Gal e Os Mutantes. Gal Costa conduziu divinamente o hit “Baby” de Caetano.

Dessa mesma época, valem ser destacados os arranjos de orquestra que Duprat construiu, para tornar ainda mais originais e cobiçados, os três primeiros álbuns dos incomparáveis Mutantes de: 1968 (que traz “Panis et Circenses”), 1969 (que leva “Não vá se perder por aí”) e 1970 (Divina Comédia ou Ando meio desligado).

Capa do disco Tropicália: projetada pelo artista plástico Rubens Guerchman.

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Obs.: a PARTE 1, que aborda personagens da formação musical do autor está no Facebook. Faça uma visita e conheça outros contos e crônicas em https://www.facebook.com/nandocury

Ensinar criatividade

Neste final de semanas demos o start ao lançamento do curso de Criatividade e Inovação no Ambiente Corporativo, através da Competency do Brasil. Volto a lecionar uma matéria que adoro e que, há muito, venho pesquisando, estudando e buscando aperfeiçoamento. Escolhi imagens de 1998 para ilustrar este post, quando já dava aulas práticas e teóricas de criatividade na Unip, no curso de Propaganda e Marketing.

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Lúcia foi quem me presenteou com as fotos! 

O melhor livro que conheço sobre o assunto só sairia quatro anos depois, quando Domenico de Masi publicou La Fantasia e la Concretezza. A edição brasileira saiu no ano seguinte com o nome Criatividade e Grupos Criativos entregando, já no título, um dos aspectos caros ao autor: a criatividade enquanto fruto de uma coletividade.

Penso no indivíduo criativo como aquele que, frente aos problemas, sabe buscar soluções, criá-las e, quem sabe, até inovando aspectos antes não percebidos ou registrados. Fundamentalmente, quando se trata de ensino da criatividade, acredito que o educador deve respeitar a evolução do aluno (o que é novidade para este pode ser algo já manjado para alguém experiente), alertando o mesmo para a necessidade contínua de ampliar e aprofundar o próprio repertório.

O indivíduo criativo raramente trabalha só, daí a importância do grupo, do ambiente, da sociedade na qual ele está inserido. Todos nós precisamos de parcerias, imprescindíveis em todas as épocas, para todo e qualquer ramo da atividade humana. Qual a real importância do Papa Júlio II na vida e obra de Michelangelo? Quem foi a figurinista responsável pelo vestuário de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa durante o Tropicalismo? Quem foi o editor que leu com atenção devida a obra de Guimarães Rosa?

Sobram exemplos no estudo da criatividade enquanto fato coletivo, resultado de parcerias. Ecoam até hoje os efeitos dos 18 anos de parceria entre a inglesa Margot Fonteyn e o russo Rudolf Nureyev. Os indivíduos que olham o futebol com a frieza profissional necessária sabem da importância de médicos, massagistas, treinadores, além dos próprios parceiros de gramado no reinado de Pelé. E, outro aspecto não menos importante: a fundamental contribuição de pedreiros, engenheiros e demais profissionais da construção civil na concretização dos fantásticos projetos de Oscar Niemeyer.

É pensando nesse tipo de situações que busco exercitar e ensinar a criatividade, via algo que Domenico de Masi colocou em palavras e que sigo com dedicação e seriedade: “EDUCAR UM JOVEM OU UM EXECUTIVO PARA A CRIATIVIDADE HOJE SIGNIFICA AJUDÁ-LO A IDENTIFICAR SUA VOCAÇÃO AUTÊNTICA, ENSINÁ-LO A ESCOLHER OS PARCEIROS ADEQUADOS, A ENCONTRAR OU CRIAR UM CONTEXTO MAIS PROPÍCIO À CRIATIVIDADE, A DESCOBRIR FORMAS DE EXPLORAR OS VÁRIOS ASPECTOS DO PROBLEMA QUE O PREOCUPA, DE FAZER COM QUE SUA MENTE FIQUE RELAXADA E DE COMO ESTIMULÁ-LA ATÉ QUE ELA DÊ LUZ À UMA IDÉIA JUSTA”.

O mundo de hoje não está fácil. Só pra se ter uma ideia do que me ocorre a partir da proposição de De Masi: IDENTIFICAR A VOCAÇÃO AUTÊNTICA implica em refletir sobre muitas variáveis que vão desde o aspecto financeiro, passando pela região geográfica em que se está inserido, ou as implicações sociais de nossas escolhas. Ensinar alguém a escolher PARCEIROS ADEQUADOS envolve desde interesses, tempo e lugar, quanto família, igreja, negócios e por aí vai, sendo que os demais aspectos sugeridos (CONTEXTO, FORMAS DE EXPLORAÇÃO DO PROBLEMA, RELAXAMENTO E MEIOS DE ESTIMULAR A PRÓPRIA MENTE) deverão merecer abordagem semelhante para o exercício da criatividade individual e coletiva.

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Esse assunto me apaixona. E penso que seja do interesse geral e, especificamente, daqueles que frequentam este blog. Pretendo um post semanal – SEMPRE DE DOMINGO PARA SEGUNDA – sobre o assunto. Comente, envie sugestões, dúvidas. Vamos ter uma ideia mais ampla do assunto e de como penso tratar o mesmo em situação de ensino. Sugestões são bem-vindas!

Para quem estiver interessado no curso, entre e veja possibilidades no site www.competency.com.br.

Até mais!

PS: Aos meus alunos, do curso cujas fotos estão acima, meu forte abraço e a lembrança carinhosa que levarei enquanto estiver por aqui!

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