Caminhantes noturnos

foto: Valdo Resende

No início da madrugada, o carro deslizando com velocidade sobre o asfalto, as construções às margens da estrada tornaram-se o que, ultimamente, as pessoas chamam gatilho. Prefiro escrever que acionaram lembranças, despertaram memórias. Tentei em vão visualizar a escola onde lecionei, assim como a empresa em que trabalhou um grande amigo. Já haviam ficado para trás.

Entramos em um trecho em que, seguramente, eu não passava há oito, dez anos. Os versos da canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil tornados realidade: “Tudo ainda é tal e qual, e no entanto nada é igual”. A capital São Paulo, gigante que nunca dorme, é o cenário de milhões e milhões de histórias. Sou um cisco irrelevante, incapaz de acordar a cidade. Mas ali estão as minhas lembranças, testemunhas do que vivi.

Houve um dia em que, após passar em um concurso, saí de Santo André, no ABC, em direção à Rua Dr. Vila Nova, na Vila Buarque. Uma imensa chuva provocara enchente e o trânsito, parado, me impedia atravessar um trecho da Avenida do Estado. Eu não conhecia a cidade e, preocupado em chegar no horário a tempo de realizar a entrevista de admissão, resolvi contornar a enchente tendo como rumo os edifícios centrais, o norte correto dado pela torre do antigo Banespa, hoje sede e propriedade privada.

Próximos de entrar no elevado sobre o Rio Tamanduateí percebi, que a fábrica da Arno não está ali, onde sempre esteve. Quando será que fechou? Ainda existe tal marca? Também, há séculos não careço comprar eletrodomésticos. Ficou para trás a fábrica, também ficou no passado a gravadora de discos que me encantava por saber que Ângela Maria, Elza Soares e Miltinho gravaram discos ali, em qual prédio mesmo? O da esquina, próxima da igreja horrorosa e caça níquel do outro lado da avenida, tão cheia de luzes quanto uma padaria.

Senti vontade de voltar ao Ipiranga, passar pela Avenida Nazaré e chegar ao antigo Instituto de Artes, onde estudei. Mas já descemos do viaduto sobre o rio e evito olhar para o quartel, prestando atenção na Estação do Metrô Pedro II. Sinto-me a caminho de casa. Entramos no trecho da Radial Leste que ligará com o Elevado João Goulart, o Minhocão. Durante quarenta anos passei por essas avenidas e ruas, praças e parques. Estou a caminho de casa.

Meus companheiros de viagem ignoram meus pensamentos, conversam sobre os benefícios do alho, cru, em pedaços. O chá é bom, mas perde um pouco a potência e retarda o efeito curativo. Chá de alho! O motorista segue atento ao tráfego e ignora a entrada para meu antigo lar. É rápido e já passamos em frente ao Teatro Oficina. Meu destino deixa de ser minha casa para ser meu trabalho. O carro faz parte do trajeto que percorri nos últimos anos antes de me aposentar.

Sob o elevado, em um semáforo fechado da Avenida Amaral Gurgel, percebo ainda os resquícios de noites efervescentes da década de 80. Passava por ali em direção ao CPT de Antunes Filho, andava de um lado para o outro para cobrir eventos das boates da região para a revista em que escrevi, onde vi os primeiros shows de sexo explícito, presenciei uma briga tenebrosa no Bar Quadrado, em frente ao Bar Redondo em madrugada como esta, em que atravessamos a cidade rumo ao lar dos nossos hóspedes.

Nosso destino é a Avenida Barão de Limeira, que conheci em relações de trabalho com a Folha de São Paulo. Chegamos ao destino. Despedidas rápidas, pois é tarde e o domingo já está prestes a receber os primeiros raios de sol. O frio é intenso e eu quero voltar para casa, a de agora, no litoral onde a temperatura mesmo fria é sempre mais amena que na Capital.

Estou cansado. A noite foi intensa e todas as lembranças que vieram à tona misturaram-se a flashs de outras histórias, muitas pessoas, vários lugares. Se acionadas com tempo sei que estão todas dentro de mim. Alguns deslizes e falharão as datas corretas, os nomes completos. Um ou outro detalhe se perdeu, talvez com hipnose seja resgatado, mas se foi perdido que fique por lá. Importa o que emergiu, o que está quente, pleno de vida dentro de mim.

Ah, São Paulo! Só um momento, só pequenas lembranças de um ser comum. Quantas outras em seus milhões de habitantes? Outras tantas em viajantes, já distantes. Volto à Caetano para afirmar que o “errante navegante, quem jamais te esqueceria”. São Paulo não é a minha terra. É a maior parte da minha vida!  De tantos outros que, trafegando madrugada adentro por suas ruas e avenidas, se derretem de amor e gratidão, até mesmo pelo emprego perdido por não chegar à tempo por conta de uma enchente.

São Paulo, 09/08/2025. Para meus companheiros de viagem, Patrícia Remondini, André Manzoni e Flávio Monteiro. O título desta crônica refere música d’Os Mutantes (Arnaldo Batista e Rita Lee). Os alhos, ruinzinhos, estavam expostos no supermercado. Não comprei.

Nana, da delicadeza da paixão

Acorda, meu amor

É hora de trabalhar

O dia já raiou

É hora de trabalhar!

Quando ela cantou “Bom dia!” a gente sabia que ela era filha de Dorival Caymmi e, que naquele momento, estava casada com Gilberto Gil. A voz, poderosa e inesquecível. Foi em um daqueles incríveis festivais da TV Record. Era Nana, que de repente sumiu. Parece que foi para fora do país, viver um tempo por lá. 

Tempos depois, na TV bandeirantes. Eu desempregado, via gravações de programas do Chacrinha, da Hebe Camargo. E entra a moça de “tomara que cai” para cantar a convite da Hebe. Foi a primeira vez que tive a certeza de que é possível cantar com o corpo inteiro. “Com o útero”, ela teria dito. Ali, eu com meus vinte e poucos anos vendo uma cantora única, incrível. Uma paixão para todo o sempre.

Já contei de quando no palco do Sesc Vila Mariana acabou a luz. E ela, acompanhada por um violonista se limitou a dizer. “Se vocês ficarem quietinhos eu continuo a cantar”. Quem iria desobedecer? E foi mágico, o show continuou e a luz, quando voltou, subiu suavemente iluminando Nana, da delicadeza rara na voz. Aliás, caracterizar a voz de Nana é complicado.

Nana da voz forte, poderosa, terna, delicada, suave, sussurrante. Nana da voz amorosa, da voz quente, da voz profunda, do timbre único e absolutamente inconfundível. Nana da técnica usada em prol da emoção, cantando com um fio de voz até acabar o ar, desmontado o ouvinte, fazendo-o chorar. Nana da delicadeza da paixão.

Nana gostava de beber, de ficar tranquila. “Estou aposentada!”.

Nada que me deixa engasgado, incapaz de continuar a escrever.

Tenho os discos

Agora tenho os discos e a saudade.

Até, Nana! Obrigado.

Wanderléa: “Amo, respiro e ainda sei cantar!”

As grandes gravadoras – ditas majors – nunca facilitaram a vida de nenhum artista. E a história guarda fatos e conflitos envolvendo vários dos maiores cantores, compositores e instrumentistas brasileiros. O artista faz sucesso e as majors passam a encarar a pessoa como produto, uma marca; algo que para manter o ciclo deve fixar tais características, ser sempre o mesmo, fazer tudo igual. Há os que resistem! Wanderléa é uma entre esses.

Quem segue a carreira da cantora sabe que os primeiros discos foram na Colúmbia, depois vieram outros de imenso sucesso na CBS, nesta cobrindo o período da Jovem Guarda. É bem provável que Wanderléa teria o mesmo destino de outras cantoras das jovens tardes de domingo, caso gostasse da ideia de manter-se ternurinha, maninha do rei Roberto. Ela queria mais e foi para a Polydor. O primeiro sucesso na nova gravadora deixava uma mensagem muito clara, em letra da própria cantora:

De repente acordei,

Vi que o sonho acabou para mim.

De repente, eu só sei, adeus! (Bye, Bye)

Talvez muitos fãs não tenham entendido o recado. De qualquer forma, Wanderléa manteve seus propósitos e o primeiro LP, Wanderléa Maravilhosa (1972) na nova empresa é um marco, deixando a Ternurinha lá na década de 60. Mais ou menos! Penso que foi imposição da gravadora ter uma versão de Rossini Pinto em meio a canções incríveis de Gilberto Gil, Assis Valente, Hyldon, Jorge Mautner. Mata-me depressa, a canção, é um pé preso ligando a cantora ao público acostumado com as canções do período anterior.

No segundo disco da Polydor a mineira e geminiana Wanderléa radicalizou com um naipe de compositores de primeiríssimo time no disco Feito Gente (1975): Gonzaguinha, Sueli Costa, Joyce Moreno, João Donato, Gilberto Gil, Luiz Melodia, e entre outras feras Walter Franco. Não se pode dizer que seja um disco de sucesso de massa e os tais fãs, aqueles do Pare o Casamento, ficaram por aí, pedindo e insistindo pelas Provas de Fogo da vida. Wanderléa deixou a Polydor.

Artista que se preza não se entrega, rompe barreiras, quebra paradigmas. Na nova gravadora, a Emi-Odeon, Wanderléa reiterou o recado dado no primeiro disco da Polydor ao unir-se a Egberto Gismonti para fazer aquele que é um grande marco musical de sua carreira: Vamos que eu já vou! (1977) E creio ser desse período o imenso prestígio que Wanderléa tem no meio musical. Se já era respeitada pela trajetória juvenil dos sucessos que nunca sairiam da memória dos fãs, é na Polydor e na Emi-Odeon que a cantora deixou claro que seguiria firme no objetivo de ir muito além. Veio Mais que a paixão (1978) com repertório caprichado privilegiando grandes compositores e participações especiais de Djavan, Moraes Moreira e Egberto Gismonti, o autor da canção que dá título ao LP.

Interessadas em maiores vendagens, as gravadoras tentaram impor à Wanderléa uma volta ao jeito Jovem Guarda. Um longo jogo visível em vários dos discos seguintes quando, sem muita razão de ser, entre gravações inéditas colocam “lembranças” com regravações de antigos sucessos. Junte-se a isso muitas coletâneas mesclando as diferentes fases. Enquanto isso a cantora fazia participações em discos de diferentes colegas, além de emplacar vários êxitos em trilhas de novelas. O público da fase juvenil manteve-se fiel, novas gerações passaram a seguir seu trabalho.

Em 2008 Wanderléa lança Nova Estação, pela Lua Music. O disco recoloca a cantora interpretando samba, blues, choro. E, em seguida, em 2013, grava ao vivo no Theatro Municipal de São Paulo o Wanderléa Maravilhosa. Novamente um marco denotando que a partir de então a cantora fará somente o que quiser. Isto inclui, inclusive, um retorno triunfal à Jovem Guarda no Show “60! Década de Arromba. Doc. Musical” (2016). Longa temporada no Rio de Janeiro e em São Paulo, depois percorrendo as principais cidades do país, a Ternurinha fazendo a plateia chorar de emoção ao rever os anos de 1960. Paralelamente, ela lançou Vida de Artista, com todas as faixas compostas por Sueli Costa, um disco suave e emocionante.

Nesta sexta-feira, 27 de maio, Wanderléa esteve no Sesc Santos com seu novo trabalho, onde canta chorinhos clássicos da história da MPB. Acompanhada por um octeto formado por ótimos músicos, a cantora apresentou todas as músicas do cd Wanderléa choros, do selo SESC. Confessando ser um sonho acalentado desde a infância quando ouvia no rádio Ademilde Fonseca, a cantora faz um resgate memorável do ritmo brasileiro esbanjando dicção, ritmo e interpretação, sempre com muita segurança. Os fãs estão presentes e em alguns momentos ouve-se um “canta senhor juiz” e outras canções da Jovem Guarda. Wanderléa encerra o show com Ternura, o primeiro mega sucesso de sua longa carreira. Passeia pela plateia, carinhosa e atenciosa para com quem a ama.

De volta ao palco, aclamada com pedidos de bis, prioriza os chorinhos, é o que quer cantar nesse momento. E a gente fica muito feliz por ela conseguir não ter se dobrado ao que as gravadoras quiseram para ela. O mínimo que podemos desejar aos artistas que amamos: Serem eles mesmos sobre o palco, fazendo e cantando o que bem quiserem.

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Obs. No título, o verso “Amo, respiro e ainda sei cantar” é da música Carne, osso e coração, de Joyce Moreno, incluída no show Wanderléa canta choros.

A HORA DOS ARQUITETOS DO SOM (PARTE 2)

Nando Cury nasceu em Botucatu, SP. Mora no bairro do Sumaré, São Paulo. No próximo domingo nós o conheceremos um pouco mais. Das crônicas publicadas por ele escolhemos, para hoje, uma que envolve o universo musical. Sobre música, Nando Cury diz:

“Adoro música. Participei de algumas bandas como Os Jetsons e XPTO (em Botucatu, nos anos 60). Fui um dos vocalistas e compositores de O Quarteto, nos anos 70. Nos Anos 80, estudei harmonia na Escola de Música Travessia e fiz parte do grupo vocal Piruá. Agora sou um dos integrantes da banda Beatles For All.”

O Trem das Lives, com Nando Cury, será no próximo domingo, dia 4, 18h no Instagram do Trem das Lives (@tremdaslives). Veja abaixo um relato da experiência musical do autor:

A HORA DOS ARQUITETOS DO SOM (PARTE 2)

Quase caí da carteira, quando Mário Bock, meu colega de turma, me contou a novidade. Ele havia conseguido pra mim, em 1973, no nosso segundo ano da Faculdade de Comunicação Objetivo, um estágio no estúdio de Rogério Duprat. Continuei não acreditando, então fui falar com o grande regente e arranjador. Passei 20 dias dentro do Studio Vice Versa, meio paralisado, só observando o Sá, o Guarabyra e os músicos da banda O Terço elaborarem músicas com apelos publicitários. Que, depois do arremate final de Duprat – incluindo arranjos, vozes, instrumentos e mixagem – virariam jingles famosos de conhecidos produtos.

De formação erudita, Rogério Duprat fundou o Grupo Música Nova, em 1961, já indicando ares de vanguarda. Como professor da Universidade de Brasília, junto com Damiano Cozzela e Décio Pignatari, cuidou da modernização da teoria e da prática musical no Brasil. Expandiu sua técnica de composição numa temporada que passou na Europa, onde estudou com influentes compositores da música contemporânea eletroacústica, o francês Pierre Boulez e o alemão Stockhausen. Apesar de ter gerado trilhas premiadas para teatro e cinema, a fama de Duprat só foi alavancada na época dos inesquecíveis Festivais da Música Popular Brasileira da TV Record. Exatamente no IIIº Festival de 1967, considerado o mais competitivo e de melhor qualidade musical. Realizado no Teatro Paramount, na Brigadeiro Luiz Antônio em São Paulo, o IIIº Festival contou com uma plateia, em sua maioria, composta por ruidosos estudantes universitários. A TV Record bateu o recorde mundial de audiência, para espectadores fiéis. Tive o privilégio de ser um deles, assistindo com amigos, cada música de cada etapa, através da tela do televisor preto e branco, lá da nossa sala de estar em Botucatu. A disputa não era só pela melhor canção e melhor intérprete. Rogério Duprat ganhou o prêmio de melhor arranjo com “Domingo no Parque” de Gilberto Gil, segunda colocada no festival. Venceu outro gigante chamado Hermeto Paschoal, que fez o arranjo para Ponteio de Edu Lobo, a grande campeã. Duprat usou, como bases, o canto e o violão de Gil, misturando os naipes de cordas e metais da orquestra com berimbau, os backing vocais e sons dos instrumentos dos Mutantes, de Rita Lee, Arnaldo Baptista (baixo) e Sergio Dias (guitarra).

No ano seguinte, em 1968, Duprat criou os arranjos de Tropicália, que lançou o Tropicalismo, um dos mais importantes movimentos musicais brasileiros. Nesta obra, os inventivos arranjos de Duprat sincronizaram-se com a criatividade exuberante que aflorava de um grupo especial de novos compositores do país. As canções do álbum, em sua maioria, levaram a assinatura de Caetano e Gil, como em “Panis et Circenses”, interpretada pelos Mutantes. Caetano e Gil tiveram ainda a parceria de dois poetas que se destacavam naquele momento. Torquato Neto compôs com Gil “Geleia Geral”, interpretada por Gil. E com Caetano a canção “Mamãe Coragem”, cantada por Gal. Capinam fez “Miserere Nobis” com Gil, que também foi o intérprete. Caetano Veloso assinou “Enquanto seu lobo não vem”, cantada por ele e “Lindoneia”, que ficou perfeita na voz de Nara Leão. Tom Zé foi o autor de Parque Industrial, para o coro de Gil, Caetano, Gal e Os Mutantes. Gal Costa conduziu divinamente o hit “Baby” de Caetano.

Dessa mesma época, valem ser destacados os arranjos de orquestra que Duprat construiu, para tornar ainda mais originais e cobiçados, os três primeiros álbuns dos incomparáveis Mutantes de: 1968 (que traz “Panis et Circenses”), 1969 (que leva “Não vá se perder por aí”) e 1970 (Divina Comédia ou Ando meio desligado).

Capa do disco Tropicália: projetada pelo artista plástico Rubens Guerchman.

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Obs.: a PARTE 1, que aborda personagens da formação musical do autor está no Facebook. Faça uma visita e conheça outros contos e crônicas em https://www.facebook.com/nandocury

Garimpeira de canções, Mônica Salmaso

Essa quarentena, às vezes, ameaça nos enlouquecer. Rotina por inventar, driblando a mesmice que ronda por aí, toca a procurar algo que nos salve. E aí a gente encontra Mônica Salmaso e seu belíssimo projeto “Ô DE CASAS”; o mundo fica bonito, a vida suave e a gente fica cheio de esperança e de afeto pelo Brasil e sua música de canções sofisticadas tornadas fáceis na voz da cantora paulista e convidados(as).

Em casa, como todas as pessoas responsáveis e sensatas, Mônica Salmaso viu sua rotina alterada pela ameaça do coronavírus e criou o “Ô DE CASAS” (clique para ter acesso ao canal com todos os vídeos). Um encontro musical onde músicos, cada um em sua casa, apresentam vídeos memoráveis, como neste exemplo, CAI DENTRO (Baden Powell / Paulo César Pinheiro).

No projeto a cantora “recebe”, sem ninguém sair de casa, compositores, instrumentistas, cantando com esses em dupla, trio ou outra formação. Um repertório escolhido como quem procura ou revela um tesouro. É por isso que é possível denominar Mônica Salmaso como garimpeira de canções.

Mônica Salmaso é do time das cantoras afinadíssimas, com um domínio técnico que permite a ela cantar toda a amplidão de possibilidades da música popular. Os vídeos têm produção simples, o que só faz evidenciar o potencial dos participantes. Um instrumento de cá, uma voz de lá e pronto, temos arte. Às vezes, a cantora mostra outra faceta, a da percussionista: prato, caixa de fósforo, maraca, pandeiro… mas é a voz, sobretudo a voz acentuando com delicadeza cada nota das canções, dando-nos outra visão das mesmas, como em Oriente, de Gilberto Gil, no vídeo com Webster Santos.

Um passeio pelo canal de Mônica Salmaso vai nos dar, também, a oportunidade de ver grandes músicos, extraordinários, que pouco aparecem em programas de TV aberta, mas que agora estão em próximos, graças ao “Ô DE CASAS”. Abaixo, com Cristóvão Bastos.

Comecei este post, feito com o desejo imenso de que todos conheçam o “Ô DE CASAS”, publicando o encontro entre Monica e Teresa Cristina, também compositora. Teresa tem alegrado nossas noites com suas lives que, certamente entrarão para a história dos fatos ocorridos nesse período. As duas cantoras desejam o melhor para nós, nos dão o melhor de si e só pedem que, se possível, fiquemos em casa.

Para concluir, o encontro de Mônica Salmaso e Chico Buarque, para que tenhamos uma semana feliz e melhores dias, sem pandemia.

#fiqueemcasa  #_o_de_casas

Até mais!

Ensinar criatividade

Neste final de semanas demos o start ao lançamento do curso de Criatividade e Inovação no Ambiente Corporativo, através da Competency do Brasil. Volto a lecionar uma matéria que adoro e que, há muito, venho pesquisando, estudando e buscando aperfeiçoamento. Escolhi imagens de 1998 para ilustrar este post, quando já dava aulas práticas e teóricas de criatividade na Unip, no curso de Propaganda e Marketing.

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Lúcia foi quem me presenteou com as fotos! 

O melhor livro que conheço sobre o assunto só sairia quatro anos depois, quando Domenico de Masi publicou La Fantasia e la Concretezza. A edição brasileira saiu no ano seguinte com o nome Criatividade e Grupos Criativos entregando, já no título, um dos aspectos caros ao autor: a criatividade enquanto fruto de uma coletividade.

Penso no indivíduo criativo como aquele que, frente aos problemas, sabe buscar soluções, criá-las e, quem sabe, até inovando aspectos antes não percebidos ou registrados. Fundamentalmente, quando se trata de ensino da criatividade, acredito que o educador deve respeitar a evolução do aluno (o que é novidade para este pode ser algo já manjado para alguém experiente), alertando o mesmo para a necessidade contínua de ampliar e aprofundar o próprio repertório.

O indivíduo criativo raramente trabalha só, daí a importância do grupo, do ambiente, da sociedade na qual ele está inserido. Todos nós precisamos de parcerias, imprescindíveis em todas as épocas, para todo e qualquer ramo da atividade humana. Qual a real importância do Papa Júlio II na vida e obra de Michelangelo? Quem foi a figurinista responsável pelo vestuário de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa durante o Tropicalismo? Quem foi o editor que leu com atenção devida a obra de Guimarães Rosa?

Sobram exemplos no estudo da criatividade enquanto fato coletivo, resultado de parcerias. Ecoam até hoje os efeitos dos 18 anos de parceria entre a inglesa Margot Fonteyn e o russo Rudolf Nureyev. Os indivíduos que olham o futebol com a frieza profissional necessária sabem da importância de médicos, massagistas, treinadores, além dos próprios parceiros de gramado no reinado de Pelé. E, outro aspecto não menos importante: a fundamental contribuição de pedreiros, engenheiros e demais profissionais da construção civil na concretização dos fantásticos projetos de Oscar Niemeyer.

É pensando nesse tipo de situações que busco exercitar e ensinar a criatividade, via algo que Domenico de Masi colocou em palavras e que sigo com dedicação e seriedade: “EDUCAR UM JOVEM OU UM EXECUTIVO PARA A CRIATIVIDADE HOJE SIGNIFICA AJUDÁ-LO A IDENTIFICAR SUA VOCAÇÃO AUTÊNTICA, ENSINÁ-LO A ESCOLHER OS PARCEIROS ADEQUADOS, A ENCONTRAR OU CRIAR UM CONTEXTO MAIS PROPÍCIO À CRIATIVIDADE, A DESCOBRIR FORMAS DE EXPLORAR OS VÁRIOS ASPECTOS DO PROBLEMA QUE O PREOCUPA, DE FAZER COM QUE SUA MENTE FIQUE RELAXADA E DE COMO ESTIMULÁ-LA ATÉ QUE ELA DÊ LUZ À UMA IDÉIA JUSTA”.

O mundo de hoje não está fácil. Só pra se ter uma ideia do que me ocorre a partir da proposição de De Masi: IDENTIFICAR A VOCAÇÃO AUTÊNTICA implica em refletir sobre muitas variáveis que vão desde o aspecto financeiro, passando pela região geográfica em que se está inserido, ou as implicações sociais de nossas escolhas. Ensinar alguém a escolher PARCEIROS ADEQUADOS envolve desde interesses, tempo e lugar, quanto família, igreja, negócios e por aí vai, sendo que os demais aspectos sugeridos (CONTEXTO, FORMAS DE EXPLORAÇÃO DO PROBLEMA, RELAXAMENTO E MEIOS DE ESTIMULAR A PRÓPRIA MENTE) deverão merecer abordagem semelhante para o exercício da criatividade individual e coletiva.

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Esse assunto me apaixona. E penso que seja do interesse geral e, especificamente, daqueles que frequentam este blog. Pretendo um post semanal – SEMPRE DE DOMINGO PARA SEGUNDA – sobre o assunto. Comente, envie sugestões, dúvidas. Vamos ter uma ideia mais ampla do assunto e de como penso tratar o mesmo em situação de ensino. Sugestões são bem-vindas!

Para quem estiver interessado no curso, entre e veja possibilidades no site www.competency.com.br.

Até mais!

PS: Aos meus alunos, do curso cujas fotos estão acima, meu forte abraço e a lembrança carinhosa que levarei enquanto estiver por aqui!

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Um Sábado com Domingo no Parque

Pura emoção: junto à Orquestra de Câmara da ECA/USP, com arranjos e regência do Maestro Gil Jardim, Gilberto Gil canta Domingo no Parque. Suavemente os sons invadem a Sala São Paulo e dou-me conta de ser esta a primeira vez que ouço ao vivo a música, originalmente apresentada no Festival da Record de 1967. O choro vem fácil e sinto o apoio que vem da amiga que me propiciou tal evento. Careço de outra canção pra sintetizar esse momento: “Tudo ainda é tal e qual e, no entanto, nada é igual” diz a letra de Caetano Veloso em “Os mais doces bárbaros”.

Tal e qual é a beleza de Domingo no Parque na voz madura e segura de seu criador. João, José e Juliana estão em um parque, onde o triangulo amoroso será desfeito tragicamente. As frases melódicas são precisas e realçam a história ocorrida em algum domingo, no parque de diversões onde a roda gigante gira, feito a roda do destino. Os versos evocam imagens com a precisão da poesia. O fim é, infelizmente, comum ainda hoje: resolvido com a lâmina de uma faca.

Gil e os mutantes
Gilberto Gil e Os Mutantes, em 1967

Nada igual! Não estavam lá Os Mutantes fazendo coro com Gilberto Gil. E o novo arranjo, embora belíssimo, continua fazendo lembrar e reverenciar o original de Rogério Duprat. Um encontro impossível com a morte de Duprat, em 2006, e com os rumos sem retorno dos irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Batista, cada vez mais distantes de Rita Lee. No entanto… Criador e criatura! Gilberto Gil é um dos máximos compositores que somam letra e música com beleza e emoção. E há mais: o cantor! Dono de um timbre inequívoco, a voz conhecida de décadas está ali, fazendo a emoção atingir altíssimos graus.

Gilberto Gil brilhou em noite que estiveram presentes a cantora Vanessa Moreno com Fi Maróstica, e a fadista Carminho, duas mulheres extraordinárias. O Concerto Letras de Luz, no Dia Internacional da Língua Portuguesa comemorou o 10º aniversário do Instituto EDP, encarregado de ações socioculturais do Grupo EDP, que tem origem em Portugal.

Gil e os demais artistas
Gilberto Gil, Carminho, Vanessa Moreno e Fi Maróstica, e o maestro Gil Jardim, os artistas do Concerto Letras de Luz

A voz de Vanessa Moreno surpreendeu ao cantar Expresso 2222 e Carminho, lembrando Amália Rodrigues com Saudades do Brasil em Portugal, de Vinícius de Moraes, segue a tradição das grandes cantoras portuguesas. A Orquestra de Câmara da ECA/USP fez um memorável O Trenzinho Caipira, de Villa-Lobos. O final do show reuniu todos os artistas presentes que fizeram o bis com Panis et Circenses e, novamente emocionaram, em interpretação que lembrou Os Mutantes e a Tropicália.

Foi um sábado feliz. Com Vinho do Porto, Pastel de Belém, alguns amigos e a companhia pra lá de especial da Sonia Kavantan (Obrigado, Sonia! Obrigado EDP!). Tudo muito bom!

Já na Bela Vista quando desci do carro da minha amiga, enquanto caminhava solitário na rua deserta, madrugada de domingo, pensei em Gil, na Ribeira que vi de passagem, lá em Salvador, no parque de diversões do meu pai e da canção, que tive o privilégio de ouvir…

Olha o sangue na mão (ê, José)

Juliana no chão (ê, José)

Outro corpo caído (ê, José)

Seu amigo João (ê, José)

Amanhã não tem feira (ê, José)

Não tem mais construção (ê, João)

Não tem mais brincadeira (ê, José)

Não tem mais confusão (ê, João).

Boa semana para todos!

Ah! Para rever Domingo no Parque no Festival da Record:

 

Até!