Pequenos lembretes para corações inquietos

“Espinho que pinica, de pequeno já traz ponta” diz Macunaíma via Mário de Andrade. É assim: daqui há alguns séculos, aposto, alguma fã irá encontrar Roberto Carlos e implorar: Cante “Emoções”! E o artista, com vontade de fulminar a cidadã informará sacanamente dividindo o fardo: a Wanderléa está logo ali! E a fã chata correrá para a Ternurinha gritando: “Prova de Fogo”! Cante “Prova de Fogo”!

Ora, caríssimos leitores, diante desse quadro como é que a gente pode pensar em renovação? A gente bem que gostaria de mudanças, mas nem mesmo o Fausto Silva pode deixar de afirmar que “quem sabe faz ao vivo”. Se o fizer, é provável que algumas pessoas terão uma síncope, seguida de desinteria e depressão.

Parece brincadeira, mas tenho cá com meus botões que a coisa é séria. Nós, brasileiros adoramos fixar situações, acontecimentos, tendo notória lerdeza em aceitar transformações e mudanças. Há até os que preferem acreditar na Bíblia com seu Adão e Eva a aceitar a Teoria da Evolução. A monarquia, por exemplo, acabou por aqui em 1889! E a gente não perdeu tempo em compensar o trauma elegendo reis e rainhas do rádio, do maracatu, do carnaval, da bateria, da primavera, sem esquecer as majestades máximas: O Rei Pelé e, of course, o Rei Roberto Carlos!

A mais recente coroa foi para a querida cantora Teresa Cristina, a Rainha das Lives. Tetê, pois temos essa intimidade com a soberana, certamente tem aversão aos escravagistas monarcas brasileiros. O maior problema da monarquia hoje, no Brasil, se reflete no comum “você sabe com quem está falando?”, pergunta algum nobre de araque que, ao encontrar um igual costuma ouvir como resposta um nada original “com um grande merda”. Estabelecida a crise na nobreza a contenda costuma enunciar, de ambas as partes, atributos familiares da mais baixa categoria. Uma beleza!

Uma inverdade, como dizem os políticos com medo de levar umas bifas ao chamar o rival de mentiroso, ou como prefiro, um folclore nacional é que brasileiro não tem memória. Basta um meliante qualquer se vestir de padre e os fiéis filhos de Deus já saem beijando mão, pedindo a benção e acreditando em tudo o que o safado diz. É verdade que o povo religioso tem dificuldade em distinguir a Igreja Católica da concorrência, principalmente quando essa utiliza denominação similar. Também não muda o simulacro de cristão que deseja a morte do próximo, que manda pobres e doentes para longe de si, em seguida entrando no templo e rezando feito anjinho (será que anjos rezam?).

Ao que parece, memória mesmo não existe é em relação à política. Ou, vai ver, o brasileiro não dá a menor importância para os fulanos representantes que mudam de opinião com a mesma rapidez daquele torcedor que muda o humor conforme o andamento do jogo. Fortes indícios confirmam que o eleitor não se importa hoje com as alianças de seus candidatos com os inimigos de ontem. Também nosso eleitor esquece promessas, compromissos, acordos… Político pode trafegar na mais absoluta falta de honestidade que brasileiro pouco se importa, é o que mostram as eleições. Ok, estou exagerando, afinal a lista dos não reeleitos é bem grandinha, mas…

Há gente bem intencionada em nosso país que discute esquerda, direita, centro, progressistas, conservadores, mas o que não muda, de jeito nenhum na geral, na arquibancada ou perante a tv é o deixar tudo isso de lado perante um jogo de futebol. Ou o capítulo final da novela (alguém vai perder Pantanal?). Eleições com grandes quantidades de abstenções e votos em branco é fato permanente e, para não aumentar a lista quero registrar o hábito de que considerável parcela da população não consegue nem mesmo cumprir horários. O relógio foi inventado no ano 725 DC e ao mineiro Santos Dumont atribui-se a invenção do relógio de pulso, mas brasileiro acho que o outro tem a obrigação de esperá-lo! Coisa de gentalha, diria Dona Florinda, o Kiko, do Chaves e eu.

A querida e finada Elke Maravilha dizia que levaríamos uns quatrocentos anos para nos tornarmos civilizados. Tenho comigo que Elke tinha razão. Coisa que os “europeus brasileiros” odeiam é o fato de que a imensa maioria de pessoas que migraram para cá vieram porque a vida em seus locais de origem era uma merda! Mas, se acham europeus! Superiores! Esses devem odiar a cena de Bacurau, o filme em que a forasteira interpretada por Karine Teles leva um tiro na cara após afirmar ser superior aos nordestinos, pois vem do sul, é “europeia”. (Qualquer semelhança com a reação da região sul sobre os votos recebidos por Lula…).

Outra forma de superioridade é o comum “Gente de bem”. Essa categoria, nesse país, costuma roubar, assassinar, mentir, enganar, iludir… O que interessa é aparentar e usar subterfúgios para seguir em frente, mantendo essas coisas na clandestinidade. Gente de bem adora parecer, ao invés de ser. Homens pintam cabelo, mulheres fazem plástica, homens colocam prótese peniana, mulheres fazem ninfoplastia e assim, a relação de coisas que brasileiro faz para enganar o tempo só muda conforme o progresso da ciência. No mais, há pessoas que escondem a idade (isso não muda nunca?), embora estejam há cinco décadas, ou mais, presentes na mídia. O velho e imutável preconceito em relação aos velhos!

Estamos vivendo um período turbulento com o tal segundo turno das eleições presidenciais. E como as atitudes de políticos e eleitores não tem sido as esperadas ou desejadas, a tendência é chegarmos próximos do desespero. A luta está caótica! Bobagem! Acalmemos nossos corações inquietos. O que parece fim do mundo vai virar festa com o primeiro jogo da Copa do Mundo. É certo que irá rolar medo enorme de um novo 7 x 1! Mas, somos brasileiros, melhor futebol do mundo, vencer mais um campeonato vai contribuir para mudar os ânimos e manter as coisas como são. E isso sim, é triste.

No post passado assinalei algumas pequenas, mas consideráveis mudanças. Há outras e se alguém quiser comentar e dizer quais são eu agradeço. Afinal, o que não muda em mim, sertanejo desnutrido, é uma postura Macunaíma. Sou chegado ao vidão marupiara! Por isso vou parar por aqui. Ai, que preguiça!

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Notas:

As duas imagens deste post são do filme Macunaíma (1969) de Joaquim Pedro de Andrade: Paulo José e Grande Otelo são os intérpretes da personagem de Mário de Andrade.

Um teatro para “Grande Otelo”


No próximo dia 12 será inaugurado o Teatro Grande Otelo no bairro Campos Elíseos, em São Paulo. Inserido no complexo dos padres Salesianos ( colégio, igreja e centro cultural) a nova casa presta homenagem ao ator e comediante Grande Otelo, um dos maiores artistas brasileiros.

Mineiro de Uberlândia, Grande Otelo (1915-1993) é referência de comédia no cinema nacional; em dupla com outro comediante, Oscarito, o ator fez história nos musicais e chanchadas. Grande Otelo tinha uma característica fundamental para o bom comediante: sabia rir de si mesmo. E fazendo piada com suas características pessoais, Grande Otelo tirou partido de um charme ingênuo e – a história prova – avassalador. Sim, rindo de si próprio, imprimia um jeito todo especial de seduzir; dava certo.

Não há grande atriz ou vedete – aquelas mulheres gostosas do Teatro de Revista, ou Teatro Rebolado – que não tenham feito um número com Grande Otelo. Também as melhores cantoras dividiram o palco com o artista. De Carmen Miranda e Elizeth Cardoso passando por Ângela Maria, Gal Costa e Wanderléa.

O clássico dos clássicos de Grande Otelo foi Boneca de Piche. Sabe-se lá como seria isso hoje, nos tempos de um duvidoso politicamente correto. Fico imaginando as reações dos proibidores de plantão se Otelo, ainda vivo, subisse em um palco, com alguma parceira da hora, para interpretar essa criação de Ary Barroso e Luiz Iglésias. Para lembrar Boneca de Piche, vejam o artista com Betty Faria:

Sem abandonar as comédias, Grande Otelo estraçalhou em filmes e novelas. Destas recordo uma, ele atuando com Marília Pêra, cumprimentando-a com sotaque italiano em “Uma Rosa Com Amor”. Grande Otelo podia tudo. De italiano do Bexiga a Macunaíma, passando por um sambista em cena histórica no filme “Rio, Zona Norte” quando, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, o ator mineiro interpreta um sambista que mostra, emocionado, uma criação pessoal para a grande Ângela Maria. A música é “Malvadeza Durão”, um senhor samba de Zé Keti. Vale a pena ver e rever.

De todos os momentos de Grande Otelo, registrados em vídeo e disponíveis no Youtube, não dá pra deixar de fora o encontro do mestre com Gal Costa. Era o ano de 1981 e, idade avançada, o ator já não tinha a mesma voz, mas mantinha-se afinado e resolvia tudo com graça e malandragem. Ao lado da extraordinária cantora, esbanja sedução. E Gal, com toda a sensualidade que sempre marcou sua carreira ataca, brejeira, faceira, evidenciando a plenitude da mulher brasileira, devolvendo charme e sedução ao parceiro. Um momento histórico.

São Paulo vai homenagear Grande Otelo. Deixo, abaixo, a programação de inauguração do teatro. Tomara venha, em breve, uma exposição, uma ampla mostra da carreira desse ator que merece sempre ser lembrado e reverenciado.