
Ela chegou àquela altura da vida em que nada havia a perder; mesmo querendo perder o que guardara para um possível príncipe que nunca chegou. Desconfiava que ninguém mais manifestaria interesse pela coisa. “Coisa, coisa, que palavra feia”, pensava Dadinha. A idade chegou e a flor intacta, o símbolo máximo de pureza, a comprovação física da castidade havia se transformado em coisa. “Triste fim da borboleta! Melhor não pensar”, pensava Dadinha.
O apelido veio na infância; Dadinha completou os primeiros quatro anos articulando uma única sílaba “Dá!” Repetia, ensaiava entonações, praticava incríveis variações sorrindo, chorando, séria, ensimesmada, ao som gaguejante: “Dá!” E virou Dadinha. Desconfiava da criatividade familiar a partir do primeiro apelido. E não contabilizaria, ao longo de toda a vida, outros acontecimentos que pudessem desfazer a certeza aumentada ano após ano. Criatividade não era característica familiar e, pior, Dadinha veio com a mesma sina.
Sem conseguir grandes feitos na vida, Dadinha culpava a família pela falta de brilho, pela ausência de algo que a fizesse notável. Cansada de passar o tempo em branco, houve um momento em que se permitiu ser encaminhada para uma espanhola, autodenominada terapeuta alternativa. Esta conseguiu dois feitos notáveis: fez com que Dadinha acreditasse que sofria de complexo de inferioridade e, segundo, que o processo de cura começaria trocando-se o apelido da moça. Assim surgiu Da! Apenas e tão somente Da.
O resultado da terapia foi que Da ganhou olhares incrédulos, sorrisos de espanto e mais solidão. Uma única amiga consentiu em apresentá-la pelo novo nome: “Jurandir, esta é a minha amiga Da!”. O rapaz, olhando-a profundamente procurou esclarecer: “Dalva? Darlene? Dulce? Dilma!”. Da apenas balançava a cabeça negando as possibilidades e o rapaz, percebendo a presa fácil concluiu: “Da?” E ela docemente confirmou: “Sim”.
Jurandir, mineiro das antigas, levou o sim de Da ao pé da letra, arrastando-a para uma rua deserta no começo da noite. Lá em Minas Gerais, dadeira ou dadona era quem dava muito. Acho que ainda é, embora com outros adjetivos. O rapaz ganhou bofetões de uma indignada e ofendida Da que, mediante o ocorrido, reassumiu-se Dadinha.
Décadas depois, já em São Paulo, morando no mesmo edifício nos tornamos amigos em campanha contra uma síndica. Acabamos bebericando em tardes de sábado, quando em ocasiões de excessos alcoólicos Dadinha passou a me confidenciar: “Bem que deveria ter aceitado as investidas de Jurandir. Pelo menos teria alguma lembrança do que é sentir um corpo por cima, por baixo… ou seria de lado?” Ficava com raiva de nem poder expressar uma preferência e achava a vida muito sem sentido. E tomava mais uma dose até que, alta, reclamava não ser ela a mulher da minha vida, despedindo-se e tomando rumo de casa.
Dadinha, vinda desse Brasil tão brasileiro, acreditava em santos, milagres, despachos, patuás, promessas, simpatias. Num já distante junho, bem próximo do dia de Santo Antônio e acreditando que nada mais havia a merecer do santo, deixou todas as crenças de lado. Estava certa de que seu caso pendia mais para Santa Rita dos Impossíveis do que para o santo casamenteiro, mas o que uma santa, chegada à castidade, poderia fazer por ela? Chegou a desancar com o santo chamando-o inútil, imprestável. Foi na mesma noite após o destempero que o raio caiu.
Aquele 11 de junho surpreendeu São Paulo com uma tempestade tenebrosa. Raios caíram sobre a cidade e um, barulhento e forte, bem sobre nosso edifício, na Bela Vista. Em nosso prédio foram muitos os apartamentos com vários eletrodomésticos queimados. Dona Jovelina, vizinha de andar e confidente de Dadinha espalhou a notícia: “Vingança de Santo Antônio! Ela desdenhou do Santo, blasfemou, ele queimou a casa dela e ela, de susto, está lá mais tonta do que antes repetindo dá, dá, dá…”
Todos se compadeceram com pena de Dadinha. Era verdade! Estava repetindo a sílaba indefinidamente, olhar esgazeado, andar cambaleante. Assustada e em choque com o raio seguido do barulho ensurdecedor do trovão, reverberando pelas paredes dos edifícios vizinhos, Dadinha fora condenada a retornar ao dá, dá, dá infantil. Fiquei penalizado por pouco tempo. Três dias depois, chegando da faculdade, encontrei Dadinha toda produzida, jovial, com um sorriso escancarado, eufórica ao ponto de não se conter, me dizendo sem rodeios: “Eu dei, professor! Eu dei!”
Sem conter o riso quis saber o outro ator de tal ato. “Jurandir! Reencontrei o Jurandir. Há muito que está em São Paulo e é eletricista, veio chamado pela síndica. Pra alguma coisa aquela presta. Ele veio consertar os relógios avariados e eu lá, só dizendo dá, dá, dá, ele achou que eu queria, aí, veio me pegando, me cutucando, me beliscando, me bolinando… Ah, seu Valdo, como eu pude viver sem isso?”
Quem não ficaria feliz com tanta felicidade? Que bom que não havia vingança nenhuma, comentei com Dadinha. Comentamos sobre os caminhos tortos dos santos; o simpático Santo Antônio jamais se vingaria; pelo contrário, mostrou sua força nesse quase milagre. Olhando os brilhos e o batom acentuado de Dadinha, toda aquela produção em plena quinta-feira, indaguei se ela estava saindo para novo encontro com o mineiro Jurandir. “Que nada, vizinho. Vou pro boteco da Dinorah, vou recuperar o tempo perdido. Já marquei com o garçom” E saiu piscando com uma safadeza que jamais imaginei ver naquela Dadinha renascida, jovial, cheia de vontades, senhora de si, do seu corpo e do direito de ser feliz.
Valdo Resende (Publicado originalmente em 2011. Revisado em Santos, janeiro de 2025)
Obs. Ilustração criada com IA

