God save the queen!

Qual o motivo de implicarem com a idade da Rainha Elizabeth II? Estão querendo que ela morra? O problema é a idade da soberana inglesa, 94 anos, ou a idade média do brasileiro ser de apenas 76,7 (IBGE) de vida? Não seria o ideal que todas as pessoas tivessem as mesmas possibilidades de sobrevida que os nobres e ricos do planeta?

As brincadeiras com Elizabeth II são, no mínimo, de humor duvidoso. Pior, escancaram o preconceito em uma cultura onde juventude é valor, quando não passa de breve fase da vida humana. Provavelmente as pessoas que criticam e criam memes sobre a Rainha tem seus pais ou avós mortos na casa dos 70, 80 anos.

Muitos dessas “humoristas” certamente não valorizam o SUS, que aumentou em muito a vida dos brasileiros e, certamente, desconhecem os tratamentos que levam à longevidade de uma pessoa. Confundem tratar a saúde com “harmonização facial”, procedimentos estéticos que mascaram o tempo, mas criam feições falsas, beiços imensos, caras rigidamente inexpressivas que, cá entre nós, a Rainha Elizabeth não tem…

Tenho ojeriza às críticas sobre a idade da Rainha Elizabeth. Nunca quis, nem quero ser súdito inglês. O que me incomoda, profundamente, é que em nosso país os idosos não são respeitados. Estamos vivenciando neste momento uma atitude dos governos paulistas – estado e município, a capital – tirando dos idosos a passagem gratuita nos meios de transporte: trens, metrôs e ônibus. É bom salientar que aposentado não tem aumento. Apenas reajuste que, para 2021, está empatado com a inflação. E a sociedade se cala.

Outro aspecto da desvalorização da velhice, no nosso país, está escancarado nas praias cheias, nos bares lotados durante a epidemia. Quantos desses frequentadores de locais aglomerados moram sozinhos? Quantos estão levando o vírus para dentro de casa e, com isso, colocando a vida de pais e avós em risco? A Rainha inglesa pode ficar afastada e, com toda a certeza, está protegida de gente irresponsável. Sim, é quase certo que ela sobreviverá à essa pandemia e, se a genética valer, ela ultrapassará os 100 anos, vivendo tanto quanto a Rainha Mãe. Pessoalmente, é o que desejo.

Nos versos do hino britânico, os ingleses pedem pela saúde e pela vida da Rainha: God save the Queen! Por aqui… Carecemos de campanhas para que cedam lugares em filas, em bancos de praça, em meios de transporte. Recentemente, a mãe de um amigo, já idosa, foi à feira e quis comer um pastel. Um casal consumindo pasteis ocupava três bancos, sendo que o terceiro banco destinaram ao suco e prato com o salgado. Sem lugar disponível, quando a idosa solicitou a cadeira deu início a uma discussão desagradável e desnecessária. Quantos exemplos similares teríamos para registrar?

Há outro lado: Fernanda Montenegro, neste dia 25, divertiu e emocionou o país ao lado de outra veterana, Arlete Salles, e da filha, Fernanda Torres. Neste momento, nas emissoras de televisão está o comercial onde Fernanda brilha. Fernanda e Arlete são exemplos ao lado de Lima Duarte, Francisco Cuoco, Natália Thimberg … Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Wanderléia… Todos acima dos 70 anos.  Também presenciamos inúmeras expressões de tristeza e respeito pela morte de Nicette Bruno que, não posso deixar de notar, viveu menos que a Rainha Elizabeth. Artistas idosos merecem nosso respeito tanto quanto a gente comum, seja de que profissão for.

Enfim, não vou falar de outro idoso a não ser eu mesmo. Tenho 65 anos! Já velho, para alguns, mas com a capacidade (dane-se a modéstia!) de muitas coisas! Entre elas escrever em defesa de gente mais velha do que eu. Eu gostaria muito que os “humoristas” que ironizam a idade de Elizabeth II olhassem para si mesmos, para o que tem, o que viram, o que farão. Tenho orgulho da minha idade e do tempo que já vivi – um pouco desapontado com o momento presente. Sobretudo tenho orgulho do que fiz. E tenho planos, muitos planos para o futuro. Estou aí, feito a Elizabeth, pronto para o que der e vier.

Não vou listar meus feitos, apelo para Macunaíma: “Ai! Que preguiça!” Agora, se quiserem fazer meme com minha idade, sou alguém que viu o homem pisar na lua, ouviu Elis Regina cantar Arrastão no Festival da Excelsior, usou calça calhambeque que era o que os jovens artistas da Jovem Guarda usavam e, se muito criança não percebi o horror que foi a instauração da ditadura militar, estive junto aos que lutaram pela democratização do país. Atendi Chico Xavier, assisti Bibi Ferreira, Ângela Maria, vi comício do acadêmico Mário Palmério e muito, muito mais…

O momento de parar

Aposentadoria de sonho, ao lado de Drummond, ou em Minas, nas imediações de Uberaba.
Aposentadoria de sonho, ao lado de Drummond, ou em Minas, nas imediações de Uberaba.

Há alguém que não sonhe com férias? Há alguém que ultrapassando os cinqüenta, sessenta anos não comece a pensar em “descansar”? Surpreendendo o mundo todo, o Papa anunciou a própria aposentadoria. Aos 85 anos (completa 86 em abril), Bento XVI já ultrapassou um ano, em idade, seu antecessor. João Paulo II faleceu com 84 anos. A imprensa cria caso, exagera daqui e dali. Ficam falando em conspirações, cogitando pressões sobre o velhinho que resolveu parar.

Li em vários lugares uma indagação “crucial”: como deveremos chamá-lo após sua saída do Vaticano? Santa Mãe de Deus! De Bentinho é que não é. Nem de Papa Pai (lembram da Rainha Mãe, da Inglaterra?). Continuará sendo Bento XVI, vivo ou morto. Na verdade, o incômodo é outro; o Papa tem poder, muito poder. Ele pode usar todos os recursos materiais que o cargo possibilita; tem os holofotes do mundo sobre si bastando, para isso, aparecer em uma janela. No entanto, Bento XVI resolveu parar. Como pode ser isso?

Aqui, no Brasil, conhecemos pessoas que, agarradas ao poder, lembram um esfomeado vira-lata guardando o osso. Lá fora, temos a situação delicada de uma Rainha, a Elizabeth II com 86 anos, que vive ao lado do príncipe herdeiro, um velhusco Charles que, parece, nunca será rei. A avó de Charles, a Rainha Mãe, morreu com 101 anos. Se Elizabeth for por aí, o Príncipe pode entrar para a história como Porcina inglesa, que “foi sem nunca ter sido”.

Adoraríamos viver eternamente. Não gostamos nem de cogitar sobre o fato de que iremos morrer. Parar, em certos casos, induz-nos a pensar na dita cuja. A ideia de aposentar-se, de parar, para muitos é defrontar-se com o nada, com o fim, com a morte. Ao evitar até o conversar sobre o assunto somos levados, penso eu, a pensar que certas pessoas não “merecem” aposentadoria; o Papa, a Rainha Elizabeth da Inglaterra, as nossas mães e demais donas de casa… Sim, parece doido, mas o princípio é o mesmo. Quem vai cuidar da Igreja, da Inglaterra, da nossa casa?

A sociedade – é bom salientar que essa senhora é um tipinho duvidoso – não gosta de gente doente. A tal senhora não costuma admitir que as pessoas envelheçam, ou que fiquem doentes. Só essa ideia idiota explica esconderem a operação que levou o Papa a usar marca-passo; jornalistas cogitam se há algum escândalo por trás dessa renúncia, mas não especulam se ele usa fraldas, essa incômoda situação provocada por problemas de próstata, que também  estaria afetando o sumo pontífice.

A principal ideia sobre a velhice, a nossa principalmente, é sempre deixada para depois. Temos receio de encarar a própria finitude. No entanto, admitimos sonhar com uma velhice tranquila  ao lado de pessoas amadas, passeando em praças, praias, jardins. Desejamos tempos serenos sem preocupação com salários, contas para pagar… Mas, isso é para depois. Bem depois! O Papa Bento XVI nos faz lembrar que esse momento chegará. Com poder ou sem ele, com dinheiro no bolso ou sem esse, teremos que parar; ou seremos parados por doença, pelo corpo alquebrado não conseguindo responder ao nosso comando.

Ao lado do irmão, bispo Georg Ratzinger. Alguém pode privar o Papa de uma velhice tranquila?
Ao lado do irmão, bispo Georg Ratzinger. Alguém pode privar o Papa de uma velhice tranquila?

Gostei de ver pela TV o Papa caminhando sem bengala. Desejo que ele possa levantar-se sozinho na madrugada para ir ao banheiro; que não precise de ninguém para trocar de roupa e que consiga fazer uma sopinha, caso necessário. Tomara que disponha sempre de um jardim onde passar as tardes ouvindo pássaros, deliciando-se com a bela paisagem italiana. E se for sonho voltar para onde nasceu, que tudo isso possa ocorrer na Alemanha. Que em todos os momentos ele possa falar com alguém, receber um gesto de carinho, alguns minutos de atenção. Afinal, não é isso que sonhamos para nós mesmos? Poderia até continuar escrevendo sobre como isso poderá ocorrer; todavia, como quase todo mundo, quando o assunto é velhice, não me é incômodo deixar pra depois.

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Até mais!

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