O sorriso do maestro

Detalhe da apresentação de ontem. Foto: Flávio Monteiro.

Das voltas que o mundo dá, voltamos a cantar na Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos. O dia chuvoso não impediu que a casa ficasse lotada, gente assistindo e filmando até pelo lado de fora. Os madrigais escolhidos pelo diretor artístico do coro, nosso maestro Ricardo Cardim, combinaram perfeitamente com o local. Nos vídeos gravados, publicados nas redes sociais, há junto conosco o som de pássaros, dos muitos que perambulam pelos jardins do sobrado.

Somamos novas canções ao repertório apresentado em recente concerto. Então há o prazer em revisitar o que já conhecemos e a ansiedade em cantar o novo, cheio das nuances e dos detalhes trabalhados em meses de ensaio. A reunião de um grupo tão diverso em diferentes aspectos passa pela solução de conflitos velados, outros expressos, em que se evidencia no conjunto a complexidade humana.

Trabalhei muito com teatro onde, esquecendo o coro grego, acontece a somatória de solos dos atores em cena. Bem distinto, o canto coral é o resultado do trabalho conjunto das diferentes vozes buscando atingir a excelência necessária para interpretar uma canção. Atinge-se uma unidade raríssima nas relações humanas. Está nas atitudes do maestro, mais que o mero movimento dos braços, a condução do grupo. Maior ou menor intensidade, força ou suavidade, parar, continuar, calar. Quanto maior a precisão, melhor resultado.

Acostumado a estreias teatrais seguidas de longa temporada ainda não me habituei a ensaiar meses e realizar uma única apresentação com o coral. “Isso não dá dinheiro”, diria papai. E sendo informado de que fazemos esse trabalho sem remuneração nenhuma ele complementaria com um “você é doido, não toma jeito, meu filho!”. O argumento para responder ao meu pai seria o mesmo de outras atividades que tive ao longo dessa vida: “Eu gosto!” E se há uma coisa que aprendi com meu pai foi essa, fazer o que a gente gosta. A vida fica bonita, aguentamos os revezes com sorrisos nos lábios.

Sinto falta de conversar com minha mãe sobre o meu dia a dia. Nas vésperas de exames, nas tensões decorrentes das estreias teatrais, entre outros acontecimentos eram as mãos de minha mãe sobre minha testa a me acalmar e fazer diminuir a ansiedade. Eu detalhava confiantemente, pois a confiança era plena, embora mamãe não deixasse de me dizer o que pensava. Tendo a oportunidade de narrar o dia a dia do Madrigal é bem provável que, em algum momento dona Laura diria um “tenha paciência, meu filho!”.

Normalmente, eu a tranquilizaria enquanto desfilaria o rosário cotidiano: Sempre se começa com um certo atraso. Decorre da dificuldade de confundirmos hora de chegada com hora para começar. E há faltas! Por doença, por trabalho ou por outra razão justificada. Alguns estudam em casa, outros não. Uns já levam as partituras previamente impressas, outros esperam as cópias lá na hora mesmo. Há barulhos, “percussão involuntária”, e logo após o “tenha paciência” de minha mãe, eu continuaria em defesa própria e dos colegas. Amamos cantar! A vida com música é infinitamente melhor!

Estudando no Instituto de Artes da Unesp descobri a beleza de cantar em um coro. Tempos de estudante são complicados e ficaram lá no Ipiranga experiências com Samuel Kerr. Décadas depois venho a cantar em um coro onde o maestro, além de também ter sido aluno é fã do Samuel. Meu pai iria além de “doido” para adjetivar o maestro. Um cara que pesquisa, escolhe, estuda detalhadamente a partitura, opta por um andamento, uma dinâmica para, pacientemente, ensinar frase a frase todas as vozes exigidas pelo compositor. No caso, sem salário! Papai aumentaria para “doido varrido”!

Antes que todos nós, certamente é o maestro a vislumbrar o resultado que se deseja com um coro. Na grande Babel que é o mundo, feita não só de diferentes línguas, mas egos, a música coral é a experiência cotidiana em tentar concretizar a unidade humana. Um ideal que respeita as diferenças, aqui ditas vozes, para harmonizá-las. Cada qual no seu quadrado, no seu limite! Somando agudos, médios e graves para que, idealmente, perceba-se uma melodia. Com todas as nuances características das regiões vocais do ser humano e, não raro, permitindo que uma única voz se eleve exprimindo em solo. Trabalho árduo.

O ouvido de maestro é um detalhe à parte. À frente do coro ele percebe o que falta para que cada subgrupo chegue ao esperado. Após ler a canção, o que basicamente se trata de cantarolar a peça musical, começa o trabalho mais aprofundado, a interpretação. Onde suavizar, onde colocar força, exteriorizar o sentido da letra que se canta com graça e entre outras coisas, sobretudo com afinação. O tempo sempre curto, o calendário que não atrasa e nem espera, chega o dia da estreia. Tensão!

Na coxia as sensações afloram e se manifestam distintamente. Há os mudos, os falantes, os parados e os agitados. “Vaidade das vaidades, dizia o Eclesiastes, tudo é vaidade” em cabelos penteados, roupas ajustadas. A real e profunda face de cada integrante se manifesta em um “querer fazer direito” que facilita uma sintonia única, tanto no palco quanto nos altares das igrejas. Parece que o maestro carrega tudo, coloca tudo sobre si. E o grupo, confiante, vai com ele.

Ao longo de todo o tempo em que estou nessa experiência já passamos por situações distintas. Cantamos à capela, acompanhados por uma pianista, por um grupo de músicos, por uma Orquestra Sinfônica (Uau!). Nosso madrigal já subiu ao palco com outro grupo e, em outra oportunidade, com outros três coros. Momentos únicos! Há registros diversos em fotos e vídeos, nenhum com a totalidade do que se passa com todas as pessoas durante a apresentação.

Seria bom se repetíssemos nossas produções. Por experiência sei que iríamos muito além, pois trabalho de palco é coisa de artífice, melhorando a cada peça, a cada dia. Teríamos a chance de consertar aquela nota, a frase inteira. Poderíamos aperfeiçoar a interpretação, o que se consegue na repetição.

De uma geração que ouviu não sei quantas vezes o mero acerto como um “você não fez mais que a obrigação”, guardo daquele diretor alemão nos dizendo “vocês tem que ser os melhores! Bom é pouco!”. Cantando em coro a gente até que se ouve, ouve aqui, acolá. Ou não! Como ter certeza se fomos bem? O melhor termômetro que descobri é o sorriso do maestro.

Solene e compenetrado, como convêm ao cargo, nosso maestro nos encara com confiança durante toda a apresentação. Um alívio! A máxima do “roupa suja se lava em casa” assume total preponderância. Atento e catalisando a atenção do grupo ele conduz cada canção e é ao final, ainda de costas para o público, que penso já distinguir os sorrisos do maestro. Há aquele do dever cumprido, outro de alívio pela peça difícil executada com dignidade. Um bem especial é pela reação do público. Se aplaudem antes do final, há aquele sorriso tipo “somos fodas!”. O melhor de todos é um raro, bem mais raro do que eu gostaria, que se manifesta quando nós, o coro, fazemos tudo certo e bonito. Mais que eficientes, é aquele momento em que fazemos arte. Fica ali, sem que a plateia veja, um leve sorriso do maestro.

Por mais momentos de arte é o que nos leva a voltar aos ensaios, passar mais alguns meses preparando um novo trabalho. Cantar em coro é a insana tarefa de colocar todas as pessoas em sintonia, em harmonia. É bom ter remuneração por um trabalho e essa é uma grande luta nesse nosso país. Enquanto não vencemos tais batalhas vamos cantando. Com todas as dificuldades do cotidiano, mas com todo o amor pela atividade que nos faz seguir em frente.

Valdo Resende

P.S. – Esse texto é dedicado ao Madrigal Ars Viva e ao nosso regente, Maestro Ricardo Cardim.

Neide Marcondes, que uniu arte e ensino

Neide Marcondes de Faria

“Estudem. Dominem o conhecimento e não abaixem a cabeça para ninguém!” Essa frase está entre as que guardei como norteadores para minha vida. O saber é forma eficaz de enfrentar o mundo e a autora da frase foi minha professora de História da Arte, Neide Antônia Marcondes de Faria. Livre docente da Unesp, professora doutora, autora, artista, Neide exerceu inúmeras atividades em que o conhecimento esteve à frente, base sólida.

No Instituto de Artes da Unesp, onde a conheci, tinha uma presença notável. Com delicadeza, sem nunca perder a determinação, transitou pela graduação e pós-graduação onde trabalhou para que seus alunos seguissem em frente, programando atividades dentro e fora da escola, indicando exposições, novos livros e cursos. Estabeleceu, com suas atividades, uma forma de atuação que tempos depois, percebi, passei a utilizar como professor.

Primeiro dia de aula, Neide apresentava a bibliografia, os motivos de utilizar um ou outro autor, os capítulos pertinentes a cada aula programada para cobrir o conteúdo da disciplina. Depois, reservava sempre um tempo para discutir os textos indicados e, perspicaz, não se deixava levar pela malandragem de alguns. “Por que você está dizendo isso? Não, você não leu o texto! Por favor, leia e depois volte a se pronunciar”. Recordo o vexame da pessoa, servindo de alerta para todos os demais. Os textos estavam lá, era só ler; esse é o trabalho do aluno.

Em um dado momento foi marcado um dia de estudos fora do campus. Os carros de quem os tinha, mais um fusca da professora, foram cheios de gente para a chácara onde mantinha seu ateliê, em Itapecerica da Serra. Mostrou-nos suas experiências plásticas, parte de sua biblioteca, as lembranças de viagem pertinentes ao nosso conteúdo. Egito, Grécia, Florença, Paris… Os principais sítios arqueológicos, museus e obras mais importantes deveriam ser visitados. Anos depois, no mestrado, quando me foi concedido bolsa ela não hesitou: Se você quiser ser mestre, vá estudar fora. Obediente, fui.

Ao relatar fatos pessoais busco ressaltar a professora que tive. Volto às primeiras aulas de História da Arte, quando ela nos deu aulas sobre a Grécia. Ela sempre dialogava com todos os alunos, e aquela aula foi pertinente para aplicar o método maiêutico, aquele do Sócrates, perguntando, perguntando, indo sempre mais a fundo no diálogo com o interlocutor. Quando o assunto chegou nos trágicos, procurei responder ao que ela perguntava.

Eu estudava teatro à fundo, estava naquele momento trabalhando com o diretor Antunes Filho, o assunto rendeu. Em um determinado momento ela deixou a lousa e caminhou até se sentar a meu lado, último da fila. Ao final do nosso longo diálogo, ela se dirigiu aos meus colegas: “Quando a gente encontra quem sabe mais, deve ceder o lugar, ouvir a pessoa.” Em seguida me convidou para falar sobre o Teatro Grego para as outras turmas, seus alunos. Assim me tornei seu monitor, tendo-a como orientadora em atividades da graduação e pós-graduação.

Outro momento marcante do nosso encontro, haveria um concurso para a cadeira de teatro no interior de Minas Gerais. “Quero que você faça. Mesmo que não passe, é para experiência. Você precisa saber como é que funciona”.  Indo além, me encaminhou para aulas particulares com o Professor Alexandre Luiz Mate. O docente avaliou, percebeu lacunas no meu conhecimento e fui beneficiado com as melhores aulas de teatro que tive até então. Fiquei empolgado, a professora sabia onde estava. Me pediu, antes que eu partisse para as provas, que ao chegar anotasse os nomes dos meus concorrentes e ligasse, passando-os para ela. No dia seguinte ao telefonema com minhas informações, ela retornou: “Esse concurso é para efetivação de fulano de tal. Mas, faça o que falta com o mesmo empenho. O que conta aqui é essa experiência”.

Neide Marcondes na Faculdade de Belas Artes de Lisboa.: Entre a Arte e o Ensino.

Na medida em que revolvo lembranças, a Professora Doutora Neide Antônia Marcondes de Faria ganha vulto. Através dela conheci e me tornei amigo do musicólogo Régis Duprat. Por indicação dela à Professora Dirce Ceribelli montei, de João Cabral de Melo Neto, o Auto do Frade. Dela recebi, e guardo com orgulho, uma carta de apresentação que me abriu portas profissionais.

Caminhamos por mundos distintos. Atuando em universidade privada fui professor de História da Arte. Em cada aula, em cada disciplina correlata, foram os autores e as aulas da minha professora a base que me permitiu, sem modéstia, o respeito e a admiração dos meus pares. Com tristeza recebi a notícia do falecimento de Neide, no dia 5 passado. Seu legado permanecerá nos livros publicados, nos trabalhos e artigos acadêmicos, mas sobretudo e principalmente nas ações de seus alunos, discípulos que levaram a outros e outros o conhecimento e a postura da grande mestra.

Aos familiares e amigos, meus sentimentos.

Notas:

1 – Entre os trabalhos de Neide Marcondes estão: (Des)Velar a Arte; O Partido Arquitetônico Rural no Século XIX; À Procura do Castelo dos Faria; Uma Guerrilheira (o)culta. Também participou das publicações: Cidades Histórias Mutações Desafios e Labirintos e Nós – Imagem Ibérica em Terras da América.

2 – As fotos acima foram copiadas da página do Instagram da professora.

Renascimento Pânico: estreias mundiais!

Será amanhã, 30 de março, 19h, no Teatro Maria de Lourdes Sekeff do Instituto de Artes da Unesp, o concerto da série T-Son 122, do Studio Panaroma.

Flo Menezes no palco do Teatro Maria de Lourdes Sekeff

O Studio PANaroma de Música Eletroacústica da Unesp foi fundado em 1994 pelo Compositor Flo Menezes e chegou a mais de 100 concertos somente dentro da Unesp! A série de concertos T-Son dá sequência às séries históricas de concertos eletroacústicos levadas ao público desde a fundação do estúdio em julho de 1994 (séries Panorama da Música de Vanguarda e Terceiro Milênio). O T-Son é realizado com o PUTS (PANaroma/Unesp – Teatro Sonoro,
a orquestra de altofalantes do Studio PANaroma).

Com direção musical de Flo Menezes e direção técnica de Vinícius Baldaia, o concerto denominado RENASCIMENTO PÂNICO apresenta estreias mundiais em concertos presenciais:


Danilo Rossetti: Substâncias moldáveis

Gabriel Garcia: (PAN)demônio

Vinicius Baldaia: Prólogo do Renascimento

Flávio Monteiro: Vem e vai – Transcriação e(m) apoteose de Gilberto Mendes

Franciele Lima: Ciclo d’água

György Ligeti: Glissandi

Todos estão convidados!

Serviço:

Teatro SONoro
Série de concertos do Studio PANaroma

Teatro Maria de Lourdes Sekeff (Instituto de Artes da Unesp)
Rua Dr. Bento Teobaldo Ferraz, 271 – Barra Funda – SP
30 de março de 2023, às 19h
Grátis.