A cartomante estava certa

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Para meu amigo Fernando Brengel.

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Na última segunda-feira revi Zuzu Angel, o filme dirigido por Sergio Rezende que narra a história da estilista carioca. O filho de Zuzu foi preso e morto pela repressão no período da ditadura militar. A mulher empreende uma busca ingrata pelo filho, em um ambiente hostil onde os donos do poder arrogam-se o direito de não responder, de mentir. Quando informada que o filho morreu torturado na prisão, Zuzu passa a reivindicar o corpo do filho; acaba sendo morta em um acidente provocado por agentes da repressão.

Uma canção de Chico Buarque sintetizou a trajetória de Zuzu em música denominada “Angélica”. Ao mesmo tempo em que Chico evidencia o aspecto angelical da mulher, que lamenta a tenebrosa perda, também se esquiva da censura que proibiu a imprensa de publicar qualquer coisa sobre o assunto.

Quem é essa mulher

Que canta sempre esse estribilho?

Só queria embalar meu filho

Que mora na escuridão do mar…

A nossa história está carregada de mandos e desmandos de gente poderosa. Podemos dizer que os militares são filhos dos coronéis do passado, que tudo resolviam pela força, pelas armas. De maneira leve, quase lúdica, esses coronéis estão lembrados, presentes em Dona Flor, interpretados por atores notáveis como Antonio Fagundes e José Wilker.

A crença no poder assentado pela força ainda é bastante presente entre nós. Em uma simples relação de um casal há resquícios de militares, de coronéis, quando o sujeito, com uma inflexão peculiar, refere-se à companheira como “minha mulher”. A expressão determina quem manda, indica uma pretensa superioridade.

O problema sai da esfera individual quando tememos alguém por conta da quantidade de dinheiro ou pela posição que esse ocupa na sociedade. A tendência à submissão pelo medo, pela ignorância, é um triste fato constante na história da nossa gente. Da mesma época de “Angélica” há outra música, de Ivan Lins e Victor Martins, que parece incitar-nos à submissão:

Nos dias de hoje é bom que se proteja
Ofereça a face pra quem quer que seja
Nos dias de hoje esteja tranqüilo
Haja o que houver pense nos seus filhos…

Temos origem portuguesa e há sempre um fado pairando sobre nossas cabeças. A tristeza, a amargura e a descrença ameaçam nosso cotidiano. Tendemos a acreditar que o país não tem jeito, que nada mudará, que as coisas permanecerão como sempre foram. Uma atitude de esperança soa como ingenuidade. A felicidade é coisa de “jogo do contente” e para evitar repetir Pollyana seguimos, cinicamente, ignorando que é possível mudar. No entanto…

A música de Ivan Lins e Victor Martins chama-se “Cartomante”, longe de pregar a submissão, funcionou como profecia que, aos poucos, tornou-se realidade.

… Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas
No jogo dos búzios e nas profecias

Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus
Cai, não fica nada.

O Mensalão começou. Não sei quem está certo. Não sei quem é inocente ou culpado; todavia, o país que foi de coronéis de nome e militares de carreira vem evoluindo e, dentro da legalidade, botando ordem na casa. O mais importante nesse julgamento, que toma conta do noticiário, é o cacife dos réus. O STF – Supremo Tribunal Federal – ignora profissões, cargos políticos em um avanço democrático notável. São 38 réus entre deputados federais, ministros e secretários. A lista ainda conta com um publicitário, um tesoureiro e um diretor de marketing. O prefeito de Uberaba está entre os réus; na época dos acontecimentos agora em julgamento ele era Ministro dos Transportes.

Ivan, Chico e Vandré, nos discos em que estão as canções aqui citadas.

Que ótimo viver em um país onde um figurão é julgado publicamente. Infelizmente há a possibilidade de tudo terminar em pizza. Também é fato que bons pratos não são esquecidos. O Mensalão não é fato isolado e a história está aí, registrando a derrocada de outros que após julgamentos tiveram a carreira pública encerrada. A semana que começou com a triste história de Zuzu Angel termina com um alento, uma esperança de um país melhor. Dá até vontade de voltar no tempo, lembrar Geraldo Vandré e cantar “Pra não dizer que não falei das flores”…

Os amores na mente, as flores no chão

A certeza na frente, a história na mão

Caminhando e cantando e seguindo a canção

Aprendendo e ensinando uma nova lição…

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Bom final de semana.

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Elis Regina, para celebrar a vida

17 de março é o dia em que nasceu Elis Regina.  Faço questão de celebrar, pois tenho a impressão de que lembramos mais o dia da morte do que o aniversário da cantora, nascida em 1945. Perdas são traumáticas e acabamos fixando tais momentos. Comemorar o dia de hoje, em relação à Elis Regina, é celebrar a vida. Elis vive e, como ela um dia disse, viveria enquanto durassem os discos. Os discos estão aí, portanto, viva Elis!

Discos novos, relançados, gravações que saíram da gaveta para o deleite de fãs e colecionadores. No início deste ano, lembrando os 30 anos da morte da cantora, ocorreram vários lançamentos e a vasta obra de Elis Regina foi colocada em caixas luxuosas, dignas da grande intérprete brasileira.

Elis Anos 60 é o caixa do início da carreira da cantora. São 10 álbuns lançados entre 1965 e 1969. Entre eles, “Samba eu canto assim(1965) e a série “Dois na Bossa”, ao lado de Jair Rodrigues. Só estes já valeriam pela caixa inteira. O encontro notável entre os dois cantores, sambistas por excelência, é um raro momento, devidamente registrado e que, de quebra, lembram o clima do programa “Fino na Bossa”, onde ambos tornaram-se ídolos brasileiros.

O registro integral do show em Montreux

Em cada uma das caixas estão algumas coletâneas. Na caixa dos anos 60, “Pérolas Raras” e “Elis, Esse Mundo é meu”; esta última, produzida especialmente para o projeto, contém 16 gravações avulsas da cantora. Na caixa dos Anos 70, uma raridade: O registro das duas apresentações feitas por Elis Regina, em 1979, no Montreux Jazz Festival. O show está na íntegra, com os 27 números interpretados por Elis em “Um dia”. Outra coletânea, “Elis no Céu da Vibração” reúne mais de duas dezenas de gravações antes dispersas em compactos e em discos de festivais, como “Um novo rumo”, de Arthur Verocai e Geraldo Flach, que Elis gravou ao vivo em 1968.

A caixa “Elis Anos 70” deixa clara a importância da cantora nos anos de ditadura militar e, musicalmente, a capacidade de Elis em realizar escolhas corretas.  Essas escolhas resultaram em lançamentos de compositores que entraram para a história da música brasileira: Belchior, Ivan Lins, João Bosco & Aldi Blanc, entre vários outros. É a caixa de “Falso Brilhante” e “Transversal do Tempo”, que estão entre os onze álbuns desta fase, cujo marco fundamental é o disco “Elis e Tom”; a cantora ao lado do Jobim, nosso “maestro soberano”.

Estão investindo em relançamentos dos trabalhos da cantora; um sinal evidente da força de Elis Regina. Do afeto e admiração do público pela voz afinada, o timbre inesquecível, as interpretações definitivas. Neste final de semana, no aniversário de 240 anos de Porto Alegre, cidade natal de Elis Regina, será a estréia do show de Maria Rita, interpretando os sucessos da mãe famosa. Sábado próximo, dia 24, será a vez de São Paulo assistir o show, denominado “Viva Elis”. A cantora vive em si e no trabalho dos filhos; estes parte da grande herança que Elis Regina nos deixou.

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Bom final de semana.

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