O Samba do Crioulo Doido

A obra e o autor
A obra e o autor

Contam que JAMELÃO era ranzinza. Não escondia o humor ácido em diversas circunstâncias. Todavia, quando o samba era ruim, o velho e eterno puxador de samba da Mangueira soltava todos os cachorros e aí sim, mostrava-se irritado. JAMELÃO não gostava de “sambas de crioulo doido”. Entenda-se aqui esse tipo de samba como samba ruim. Certamente, apenas um “Samba do Crioulo Doido” mereceu a admiração de Jamelão:

Foi em Diamantina,

Onde nasceu JK

Que a Princesa Leopoldina

“Arresolveu” se casar

Mas Chica da Silva,

Tinha outros pretendentes

E obrigou a princesa

A se casar com Tiradentes…

A expressão “samba do crioulo doido” é do memorável SERGIO PORTO, também conhecido como STANISLAW PONTE PRETA. Homem de diversas profissões (jornalista, escritor, compositor, radialista), morreu cedo, com apenas 45 anos.

Deixou-nos uma obra precisa, contendo uma crítica hilária e corrosiva do período em que viveu. As histórias de Tia Zulmira ou do Primo Altamirando estão registradas em livro, assim como os FEBEAPÁS (Festival de Besteira que Assola o País) em três volumes de puro humor nonsense, deitando e rolando sobre a tresloucada realidade brasileira.

Joaquim José, que também é da Silva Xavier

Queria ser dono do mundo

E se elegeu Pedro II…

Em um país onde os colunistas sociais elegiam, anualmente, as mulheres mais bem vestidas, STANISLAW PONTE PRETA lançou as “mais despidas”, criando as CERTINHAS DO LALAU. Grandes vedetes, mulheres lindíssimas, ficaram na mente dos brasileiros, símbolos de uma época. Um exemplo, CARMEM VERÔNICA, ainda hoje atuando na TV.

Na história dos sambas-enredo sabemos que, no início do século passado, as Escolas de Samba escolhiam um tema, um refrão que seria cantado na avenida, cabendo a improvisação, posteriormente proibida. Vieram os enredos propriamente ditos, uma “história” para ser contada na avenida. A frágil educação formal dos compositores e as regras impostas pelos organizadores de desfiles seriam, na visão de SERGIO PORTO, o STANISLAW, responsáveis pelas confusões nos versos musicais.

Das estradas de Minas

Seguiu pra São Paulo

E falou com Anchieta

O vigário dos índios

Aliou-se a D. Pedro

E acabou com a falseta…

Em 1968, ano fatídico para a história política brasileira, com os mandos e desmandos dos militares no poder, STANISLAW PONTE PRETA lançou, em livro, “NA TERRA DO CRIOULO DOIDO – FEBEAPÁ 3 –A MÁQUINA DE FAZER DOIDO”. Em disco, o QUARTETO EM CY lançava “O Samba do Crioulo Doido”, sucesso imediato e absoluto em todo o território nacional. Foram seus últimos trabalhos, pois SERGIO PORTO faleceu em setembro do mesmo ano.

Tantos anos depois, a safra de sambas-enredo para o carnaval continua impregnada de “sambas do crioulo doido”.  Há que se matricular em cursinho, fazer pesquisa, estudar a fundo para entender o que algumas escolas estão querendo contar na avenida. Versos maiores que a frase melódica, frase soltas e desconexas garantindo a existência de uma ala e por aí vai. Daí a atualidade de SERGIO PORTO que através de seu pseudônimo, STANISLAW PONTE PRETA, estaria escrevendo mais um FEBEAPÁ!

E assim se conta essa história

Que é dos dois a maior glória

A Leopoldina virou trem

E D. Pedro, é uma estação também…

Para lembrar a música vejam o vídeo com o registro do “Samba do Crioulo Doido”, na deliciosa interpretação das meninas do QUARTETO EM CY. E vamos todos começar a semana com bom humor.

Até!

Notas:

 Samba do Crioulo Doido – Stanislaw Ponte Preta.

 Sérgio Porto adotou este nome,Stanislaw Ponte Preta, tirando-o do livro Serafim Ponte Grande, de Oswald deAndrade.

Mangueira é um “Catavento a Girar”

Logo ali já se vê o carnaval chegando. É bom escrever sobre sambas de enredo e grandes escolas. Pra continuar vou de Mangueira, a Estação Primeira, cantada em verso e prosa desde sempre.

Cartola, o pavilhão nas mãos de quem o defende com amor e Jamelão. É Mangueira
Cartola, o pavilhão nas mãos de quem o defende com amor e Jamelão. É Mangueira!

Mangueira poderia ser qualquer lugar. As mangueiras proliferam-se pelo país. Belém do Pará, por exemplo, é lembrada por seus mangueirais. Transformar um lugar comum em algo mítico, especial é privilégio da criação artística. Em artes plásticas, em prosa, em poesia ou música, tudo pode ser transformado em sonho, diante de qualquer que seja a realidade. a música colocou no mapa da música brasileira uma Mangueira, eternizada nos carnavais, indo muito além de um único período do ano.

Mangueira é poesia em canção, como em “Sei lá Mangueira”, a criação dos mestres Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho.

Visto assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá, não sei
Em Mangueira a poesia fez um mar…

Esse mar vem de longe e, desde lá já merecia uma “Exaltação à Mangueira”, feita por Aloísio Augusto da Costa e Enéas Brites, imortalizada na interpretação de Jamelão:

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou
O morro com seus barracões de zinco
Quando amanhece que esplendor…

Quando a poesia vai embora, em Mangueira apela-se para o passado. Dá samba bonito! Herivelto Martins já sabia disso quando criou “Saudosa Mangueira”:

Eu sou do tempo do Cartola
Velha guarda o que é que há?
Eu sou do tempo em que
Malandro não descia
Mas a policia no morro também não subia…

Falando em Cartola a lembrança desse morador permanece em Mangueira, nos sambas belíssimos, de uma brutal e encantadora simplicidade como “Alvorada”, onde Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho celebram as belezas do morro e da mulher brasileira:

…Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida…

Cartola é símbolo da escola, como Nelson Cavaquinho que, junto com Guilherme de Brito criou um dos sambas mais geniais de todos os tempos. Fico sempre na dúvida se a melhor interpretação deste samba é de Jamelão, Elis Regina ou Beth Carvalho:

Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira…

Ah, Estação Primeira. De Dona Neuma, Dona Zica, de Jamelão de voz inconfundível, do “ Bumbo da Mangueira” Jorge Benjor tão bem homenageou e que Gal Costa canta como ninguém:

Eu conheço esse bumbo
Esse bumbo é da mangueira…
Ele sobe e desce o morro
Com cadência e precisão
E desfila na avenida
Batendo no compasso
Do meu coração
Bum, bum, bum…

Mangueira, a escola, vem encantando gerações. Levou a poesia de Chico Buarque e o som inconfundível de Tom Jobim para o alto, para o morro, junto aos sambistas da escola de cores verde e rosa:

…A minha música não é de levantar poeira
Mas pode entrar no barracão
Onde a cabrocha pendura a saia
No amanhecer da quarta-feira
Mangueira
Estação Primeira de Mangueira.

E é assim, só com versos de músicas de altíssima qualidade. Qual escola tem uma história contada dessa forma? Cantada? É fácil pra todo brasileiro gostar da escola de samba, amar suas cores, mesmo nunca tendo ido ao Rio, ao morro.

A música de Mangueira atravessou todas as fronteiras e fez da escola de samba um ícone, amado por quem gosta de samba e do Brasil. E pra terminar esse primeiro post só mesmo a lembrança desse “catavento a girar”, no “Chão de esmeraldas” cantado na composição de Chico Buarque e Hermínio Bello de Carvalho.

Me sinto pisando
Um chão de esmeraldas
Quando levo meu coração
À Mangueira…

Soberba, garbosa
Minha escola é um catavento a girar
É verde, é rosa
Oh, abre alas para a Mangueira passar!

.

Até!

.

Nota:

Logo mais escreverei sobre o carnaval da Mangueira neste ano de 2013. Antes resolvi preservar o texto acima, que havia sido publicado originalmente no Papolog, em 05/01/201

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