A devastação dos velhos

devastação da velhice

Parte de um vídeo de Lima Duarte após a morte de Flávio Migliaccio, o título “a devastação dos velhos” poderia ser encarado como força de expressão em momento altamente emocional. No entanto, o ator exterioriza e torna-se porta-voz dos mais velhos, milhares, assombrados pelo avanço da pandemia e pelos critérios que devem ser levados em consideração na escolha por pacientes em filas de UTIs. A primeira versão do documento, de abril passado, levava em conta a idade do paciente. Aos mais novos seriam destinados os leitos vagos.

Após o impacto negativo da versão inicial, vieram a público nesta semana novos critérios elaborados pela Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira) e pela Abramede (Associação Brasileira de Medicina de Emergência). O discurso do ator, infelizmente, continua válido, pois a idade permanece entre os critérios vigentes, enfeitada em meio a palavras técnicas, sofismas que, ao final, deixam a impressão de estar tudo na mesma.

Conforme noticia o UOL: Gravidade, maior grau de sobrevida e capacidade do paciente são a base dos critérios sugeridos no documento elaborado pelas duas associações. Atenção para a palavra SUGERIDOS. Para deixar claro o que pesa sobre a cabeça dos mais velhos, transcrevo parte da matéria do site:

OS TRÊS CRITÉRIOS

1) Salvar mais vidas

Como é feito? Usando o escore Sofa (Sequential Organ Failure Assessment) (?1), que avalia uma série de parâmetros de dados vitais (?2). Quanto maior essa pontuação, menor a chance de sobreviver (vai de 1 a 4 pontos).

2) Salvar mais anos de vida

Como é feito? Avaliando a presença de comorbidade (?3) grave com probabilidade de sobrevida (?4) inferior a um ano (caso isso ocorra, soma-se 3 pontos à conta).

3- Capacidade do paciente

Como é feito? Por meio da escala de performance funcional Ecog (Eastern Cooperative Oncologic Group). Nesse caso, o paciente é avaliado em uma escala que vai de “completamente ativo” até “completamente incapaz de realizar autocuidados básicos” (?5) (vai de 0 a 4 pontos).

Em caso de empate de pontos, diz o protocolo proposto, deve ser usada a seguinte ordem de escolha:

1. Menor pontuação do Sofa

2. Julgamento clínico da equipe de triagem

Atenção: os pontos de interrogação são meus. Proponho algumas reflexões sobre os mesmos. Vejamos:

?1 – O Sofa avalia gravidade de morbidade e predição de mortalidade. Morbidade, em medicina, é o conjunto de causas capazes de produzir uma doença. Pergunta de leigo: idade avançada está entre causa de produção de doença? Sim, parece óbvio. Mas, gente jovem também adoece. E aí?

?2 – Espero que dados vitais seja o mesmo que sinais vitais, ou seja: o documento fala de Pressão arterial; Pulso; Respiração; Temperatura. Algo me diz que pessoas da terceira idade saem perdendo no quesito…

?3Comorbidade, no texto, refere a presença de duas ou mais doenças relacionadas no mesmo paciente e ao mesmo tempo. Por exemplo, um sinal da Covid somada a depressão, comum em pessoas mais velhas, aliada ao pânico por ter mais idade e consequente aumento de falta de ar, aumento da pressão arterial e sabe-se lá Deus o que mais…

?4Sobrevida. Quanto tempo viveremos, ou sobreviveremos? E o que faremos durante o tempo que nos resta? João XXIII, um dos mais notáveis papas do século passado, viveu 82 anos. Nos últimos cinco anos de vida revolucionou a Igreja Católica conclamando o Concílio Vaticano II, causando uma das maiores revoluções na instituição.

?5Deve morrer o indivíduo “completamente incapaz de realizar autocuidados básico”?

A pandemia provocada pelo Corona Vírus deixou exposta o que antes permanecia num limbo socialmente aceito: a incapacidade da sociedade de cuidar com eficácia de todos os seus componentes e, pior, a desvalorização dos idosos, o descaso para com a situação desses beirando ao desprezo.

Os critérios mascaram uma pretensa “escolha de Sofia”, posto que o idoso já entra perdendo na competição por um leito de UTI. Todavia, os tempos mudaram e temos pessoas idosas altamente atuantes, sem que seja necessário muito esforço para nomear tais pessoas. Dona Luiza Erundina está com 85 anos. Lima Duarte está com 90. Dona Laura Cardoso está com 92 anos; Dona Nicette Bruno com 87, Dona Fernanda Montenegro, 90 anos, Tarcísio Meira está com 84 e, o mais jovem da turma que me vem à lembrança, Eduardo Suplicy, com 78 anos. Para quem curte “valores estrangeiros” Elizabeth II, da Inglaterra, está com 94 anos, e dos EUA, a estrela Jane Fonda, 82 anos… a lista é imensa.

Os tempos mudaram. As formas e procedimentos médicos evoluíram e não é isolado o exemplo de D. Canô Veloso, que viveu lúcida e saudável até completar 105 anos. Ou seja, mantendo-se cuidados e assistência necessária, a turma acima pode vir a ter 15, 20 anos mais de vida (Espero mais!). Isso implica em que essas, e muitos outros, tem muito a contribuir ao mundo. Nada justifica terem que passar pelo pavor da falta de tratamento adequado. Não se trata, em hipótese alguma, de escolher entre alguém mais jovem ou alguém mais velho para uma vaga de UTI. É fundamental que a sociedade garanta iguais possibilidades de tratamento para todas as faixas etárias dos diferentes grupos sociais. Alguém pode dizer que a pandemia é uma exceção, no entanto cabe lembrar que desde o final da II Grande Guerra que, durante a chamada Guerra Fria, vivíamos sob a ameaça de uma devastação advinda das consequências de um ataque com bomba atômica. Nunca foi feito nada para garantir a saúde dos cidadãos sobreviventes.

O vídeo de Lima Duarte nos mostra alguém desolado, deprimido, receoso para dizer o mínimo das sensações perceptíveis. Há milhares de outros seres em condições similares e até piores, se pensarmos naqueles que não detêm poder aquisitivo sequer para garantir alimentação adequada, quanto mais um tratamento digno. Precisamos lutar, precisamos mudar as perspectivas para os mais idosos. “Os que lavam as mãos o fazem numa bacia de sangue”, finalizou Lima Duarte citando Brecht. Até quando atuaremos como Pilatos?

Até mais!

Obs: veja a matéria completa do UOL clicando aqui.

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Catherine Deneuve, de sonhos e devaneios

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Sonhei muito em ver de perto, pelo menos uma vez, o belo rosto de Catherine Deneuve. E ainda sonho vê-la, uma vez que seja, neste momento em que ela, belíssima, completa 70 anos (22/10/1943). Gosto de ver que o tempo passou, que Catherine Deneuve aceitou a vida e por isso carrega marcas da idade, sinais do tempo, longo tempo em que dura esse meu afeto.

Todas as vezes que me deparo com uma dessas mulheres de beleza ímpar, que foram vencidas por plásticas absurdas sinto uma espécie de traição. É como se elas estivessem enganando-me, fazendo-me crer que ainda são, mas que na verdade tornaram arremedos de si mesmas. Catherine tem alguns quilos acima do peso, rugas no canto dos olhos, a boca também sulcada por pequenas linhas. E assim mesmo mantém o porte de estrela, de mulher de beleza perturbadora, distante de um reles mortal como eu.

Catherine Deneuve

Quando adolescente, como muitos dos meninos de então, teci fantasias com a Bela da Tarde. Aprendi naquele filme de Buñuel que nenhum homem decifra totalmente uma mulher. O que ocorre atrás de um sorriso? Que fogo arde dentro de um olhar glacial? Aprendiz de machista, gostava da ideia de que há uma prostituta que se esconde no íntimo de cada mulher.

Um ano depois ela fez Mayerling. Dividindo a tela com outra deusa, Ava Gardner. Catherine fez uma pobre camponesa e eu já sabia que, infelizmente, nem toda camponesa russa é loura e maravilhosa, assim como nem toda italiana é bela como Sophia Loren. O que importa é que cinema é para sonhar e mulheres como Ava, Sophia e Catherine estrelaram infinitamente mais sonhos do que filmes.

A Bela da Tarde
A Bela da Tarde

Foi então que resolvi fazer um álbum de cinema. Nada muito sofisticado; colava recortes de jornais dos filmes que assistia e quando achava alguma foto do filme – coisa rara naquele tempo – colava junto ao recorte. Tomei gosto e acabei depois elaborando uma capa com três lindas louras: Jane Fonda, Sharon Tate e Catherine Deneuve. Havia Brigitte Bardot na contracapa, assim como Elizabeth Taylor na outra, e dezenas de deuses tornando meu álbum pra lá de bonito.

Esse álbum, já escrevi uma vez, ajudou-me a ter uma razoável memória cinematográfica. Foi coisa de adolescente; tanto é que não há nele o filme “Fome de Viver”, quando Catherine fez uma formidável vampira seduzindo Susan Sarandon. Nem Indochina, o grande filme da maturidade de Catherine, filmado em 1992.

Fome de Viver
Fome de Viver

Catherine faz 70 anos. E mantém o rosto humano, envelhecido e belo. Se ela fez alguma plástica, alguma correção facial, não estragou o rosto bonito, não tornou-se um fantasma plastificado. Ao lado daquelas que destruíram as próprias feições em nome de uma ilusória juventude, a idade e as feições de Catherine assumem um ar inequívoco de sabedoria, tranquilidade; sobretudo essa mulher, essa senhora francesa esbanja dignidade. Dignidade de estrela, de rainha.

Até mais!