Novela e violência

(Divulgação. Foto de Ellen Soares / TV Globo)
(Divulgação. Foto de Ellen Soares / TV Globo)

 Enquanto o vilão interpretado por Mateus Solano estava sendo desmascarado, ontem, fiquei ouvindo comentários de pessoas que acham muito exagerado o texto de Walcyr Carrasco. Isso porque o justiceiro do momento, interpretado pelo extraordinário Antônio Fagundes, comprou uma prostituta para o filho homossexual, tornou-se “pai do neto”, e, ainda na trama trocou a esposa pela secretária jovenzinha. Não é só: desmascarou o filho para voltar ao poder como diretor do hospital.

A lista de atrocidades da novela é extensa. Todavia, o cotidiano é mais cruel e desumano. Ainda não estamos refeitos de um crime horroroso, com a morte do menino Joaquim, e vem a notícia de uma jovem mulher, grávida de gêmeas. “Atingida por um tiro que entrou pela nádega e atingiu o coração”, o corpo foi encontrado nu, dentro de uma mala, boiando nas águas de um lago, em Itupeva, no interior de São Paulo.

Não são apenas mortes. Há o trânsito caótico do feriadão, a chuva ameaçando parar a cidade que também sofre com o excesso de veículos em suas ruas. Para alguns, o problema sério é comprar bugigangas para o natal; outros lutam com os livros, buscando aprovação escolar. Dá lista cotidiana não pode faltar o atual momento do julgamento do mensalão (Sempre é bom lembrar que a justiça é cega!). E indo pra fora do nosso país, há as mais de quatro mil mortes nas Filipinas, vítimas do tufão Haiyan e a lista poderia crescer mais e mais.

Penso que um autor de novelas tem de dar um duro danado para chamar e manter a atenção do público. Houve um tempo em que a maioria das pessoas voltavam para casa, descansando do dia de trabalho, distanciando-se do mundo. Haviam opções musicais (Saudade da Record dos anos de 1960!), o futebol e notícias em jornais e telejornais. Nesse tempo, sensacionalismo era coisa do jornal “Notícias Populares”. É bem verdade que aqui e ali apareciam programas com atrações de um certo “mundo cão”, distante de quem via as tramas escritas por Ivani Ribeiro ou Janete Clair.

Hoje um jornal sem sensacionalismo é exceção e o “mundo cão” parece ser todo o mundo. As pessoas não param nunca, vendo novelas entre uma ação e outra. Autores como Glória Perez partem para o exotismo, ambientando histórias em países distantes. Walcyr Carrasco, me parece, escolheu competir com a violência cotidiana. Até o humor – um componente frequente nos folhetins brasileiros – em “Amor à vida” é recheado com traição. A deliciosa personagem de Tatá Werneck poderia ser apenas a burrinha ambiciosa, mas vai além, somando traição e ganância.

No passado, coisa de cinema era o que dizíamos diante do inusitado. E coisa de novela era mocinha chorando pelo namorado. Agora, a mocinha vira monstrinho e parte para cima do irmão, batendo e rogando praga. O rapaz “apenas” abandonou a sobrinha na caçamba. Isso é novela! Na vida real, ele teria matado e jogado no rio, ou no lago. Só espero que, na luta pela audiência, nossas adoráveis heroínas não busquem justiça com as próprias mãos, matando e esquartejando seus oponentes.

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Bom feriado!

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Os Herculanos são minas de ouro da ficção

Ter um Herculano na ficção brasileira é um ótimo negócio. O sucesso acompanha esse nome na televisão, no teatro e até na adaptação do teatro para o cinema. Vamos aos fatos, começando pelo Herculano da hora, o da novela “O Astro”.

Herculano Quintanilha já foi um grande êxito de Francisco Cuoco e na atual versão, com o velho ator em participação especial, o Herculano de Rodrigo Lombardi está com tudo. Fez par com as belas Carolina Ferraz e Juliana Paz, além de contracenar com feras como Rosamaria Murtinho e Regina Duarte (Coitada, essa virou a assassina do momento! Só porque os caras acreditam que mudar criminoso mantém audiência…).

Rodrigo e Cuoco, os Herculanos da tv

Na abertura do capítulo final o atual Herculano fugiu da polícia transformando-se em pássaro. Uma licença poética que só novelão permite. Não sei se rolou essa cena na primeira versão; parece-me mais uma referência ao “pavão misterioso” de Dias Gomes, da novela Saramandaia. Nesta, Juca de Oliveira transformava-se em pássaro e sobrevoava a cidade. No remake que terminou nesta sexta, Herculano fugiu da polícia com um truque de mágica. Um show de efeitos especiais. Um indicador da grana investida, já que o retorno está garantido.

Continuando: A Rede Globo faturou um monte com a novela original de Janete Clair e vai continuar faturando, já que o formato atual, com número reduzido de capítulos, tem maior aceitação no mercado internacional. Herculano, embora o nome lembre a força do lendário Hercules, ta mais pra mina de ouro mesmo.

Vamos ao outro Herculano, aquele que é anunciado por Geni, na primeira fala da personagem central da peça “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues: “- Herculano, quem te fala é uma morta!” Com meu amigo Octavio Cariello, brincando ante as adversidades irônicas, costumamos simular um corte de pulsos com a frase de Geni, a prostituta da peça de Nelson Rodrigues.

O Herculano de Nelson Rodrigues é, com o perdão da palavra, um bundão. Um viúvo de família conservadora que jura para o único filho que não se casará novamente. Personagem mais interessante é o Patrício, irmão de Herculano e que vive nas costas deste. Para continuar na mamata, resolve apresentar uma prostituta ao irmão. O lance é fazer o cara ficar de quatro pela mulher e amolecer o cidadão para conseguir mais grana. Dá certo para Patrício, mas errado para Herculano, que acaba perdendo a Geni para o filho, que por sua vez a abandona, apaixonado por um bandido boliviano e… Coisas de Nelson Rodrigues.

Nosso maior dramaturgo sempre teve sorte com grandes atrizes interpretando suas incríveis personagens. Geni, por exemplo, foi interpretada na estréia da peça, por Cleyde Yáconis, uma de nossas melhores atrizes. Pessoalmente conheci a segunda e genial Geni, interpretada por Marlene Fortuna, na montagem dirigida por Antunes Filho. Uma momento memorável do teatro do Centro de Pesquisa do Sesc!

Provavelmente, o maior sucesso desta peça foi no cinema. Em 1973, Darlene Glória criou uma inesquecível Geni, em filme dirigido por Arnaldo Jabor. O Herculano da vez foi Paulo Porto. O filme fez grande carreira comercial e ganhou prêmios em Berlim, o Urso de Prata e, no Festival de Gramado, foi melhor filme e melhor atriz para Darlene Glória.

O cartaz internacional de divulgação do filme de sucesso.

Dos dois Herculanos, creio que melhor sorte tem aquele criado por Nelson Rodrigues. Embora bundão, pelo menos não sofrerá alterações de ocasião, como é hábito da televisão visando obter audiência. O Herculano da televisão, misto de MacGyver com Mr. M (Val Valentino), ou com David Copperfield (David Cotki). Um angu de caroço que, é o que conta para a emissora do Jardim Botânico, rendeu e renderá muita grana. Eu estou escrevendo sobre Herculano, quem sabe, né! Vai que funcione e eu comece a ganhar um bom dinheiro!

Feliz final de semana para todos!

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