Animações para um aniversário.

Quando vi as capas de discos no site “Animated Albums” fiquei fissurado na ideia de ter a brincadeira com algumas capas de discos brasileiros. Estava no Papolog e Paulo Simões me ofereceu como presente algumas capas com animações simples, puro divertimento. Um presente para não ser esquecido e permanecer online. Vamos aos gifs:

Começando com os olhos do Chico Buarque? “Olhos nos olhos – verdes, amarelos, vermelhos – Quero ver o que você diz! Quero ver como suporta me ver tão feliz!”

Chico Buarque_FINAL

.

E se é pra brincar com olhares, Adoniran me traduziu: “De tanto levar flechada do teu olhar, meu peito parece até sabe o que?…

Adoniran Barbosa_FINAL

 .

E depois de Adoniran, que compôs “Bom dia, Tristeza” junto com Vinícius de Moraes, música imortalizada na voz de Maysa vejamos os inesquecíveis e expressivos olhos da cantora.  “Se todos fossem iguais a Maysa, que maravilha viver…”

maysa_final

 .

“Batidas na porta da frente, é o tempo! Eu bebo um pouquinho…” pra aguentar todas as fortes emoções que Nana Caymmi propicia. É barra!

Nana_FINAL

 .

Pra aguentar a saudade de tudo, apelo pro Carcará, aquele que “pega, mata e come”.  E vou seguindo, levando a vida com lembranças de Nara, Zé Keti e João de Vale. Somos todos de “Opinião”.

Nara

 .

E se é pra lembrar, com reverência e respeito, vamos sempre colocar acima, onde merecem! Tom Jobim e Elis Regina.

elis e tom

.

Mas aniversário é dia festa! E “você precisa saber da piscina, da margarina, da gasolina” com toda a trupe da Tropicália.

Tropicalia

.

Brincar um pouquinho no doce encontro de Caetano Veloso e Gal Costa…

gal e caetano

.

E deixar cair uma lágrima, pura emoção, como Maria Bethânia, afinal, amanhã é o dia do nosso aniversário. Gosto de comemorar meu natalício pensando que em algum lugar há uma festa pelos aniversários de Bethânia, Paul McCartney e, sendo assim, não escreverei por aqui. Vou bebemorar!

Maria Bethania

.

 Obrigado ao Paulo Simões, pelo trabalho legal e divertido.

Até mais!

.

Arte para denunciar a 72ª vez sem água

O semiárido nordestino enfrenta sua 72ª estiagem. Em 512 anos de Brasil é como se houvesse seca de cinco em cinco anos. A atual, por exemplo, já se sabe que viria desde 2010. Mais uma vez sem água e sem soluções eficazes.

As delicadas figuras de Mestre Vitalino

O governo anunciou investimento de R$ 2,7 bilhões em ações de combate (Quanto desse dinheiro irá para bolsos privilegiados?) e, em caráter emergencial, as famílias das regiões afetadas receberão “Bolsa Estiagem” (R$ 400,00) além de medidas de ocasião que, em si, não resolverão o problema, já que certamente teremos a 73ª.

Uma das edições de O Quinze, de Rachel de Queiroz

Imagine-se passando pela 72ª estiagem. Não a primeira, nem a décima, mas a septuagésima segunda, quando durante longo tempo não cai do céu uma única gota de água. Raquel de Queiroz imaginou-se em uma seca, em “O Quinze”. Escreveu em 1930 sobre os problemas de seus conterrâneos com bastante conhecimento de causa, já que seus familiares tiveram que sair do Ceará por conta de terrível seca.

Vidas Secas, o filme

Por gentileza, atentem para os números. Raquel escreveu em 1930, sobre 1915. No cinema, 30 anos depois, precisamente em 1963, o cineasta Nelson Pereira dos Santos legou-os um clássico, estrelado por Átila Iório e Maria Ribeiro: “Vidas Secas”. O filme, premiadíssimo, foi baseado no romance homônimo de Graciliano Ramos, também escrito na década de 1930, publicado em 1938.

Vou insistir nas datas, para enfatizar o quanto já foi dito, denunciado, refletido sobre os problemas do semiárido, sem que tenham surgido programas eficientes para solucionar a vida na região. Candido Portinari fez “Os retirantes” em 1944. O artista paulista pintou uma série de telas tornando o horrendo belo. Fome, miséria e morte expostas em museus distantes da região e das soluções possíveis para os habitantes do semiárido.

O horrendo tornado belo nos Retirantes, de Portinari.

Seca e fome também é tema em “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto publicado em 1955. Um sucesso literário grandioso, tão grande quanto no teatro, direção de Silnei Siqueira, musicado por Chico Buarque de Holanda, em 1965. Não bastasse, ainda veio a minissérie televisiva, na década de 1980.

É irônico constatar que, além de políticos e coronéis, também os artistas faturam alto com a seca. Só o pequeno dono de terra, o sertanejo é quem realmente sofre. Uma grande maioria saiu buscando vida melhor. Os fenômenos migratórios já foram calamidade, fazendo crescer os cinturões de miséria das grandes metrópoles. Maria Bethânia ficou nacionalmente conhecida cantando “Carcará” e dizendo números assombrosos entre um verso e outro da música de João do Vale e José Candido:

…Carcará é malvado, é valentão

É a águia de lá do meu sertão

Os burrego novinho num pode andá

Ele puxa no bico inté matá

1950. Mais de dois milhões de nordestinos viviam fora de seus Estados natais. 10% da população do Ceará emigrou; 13% do Piauí;15% da Bahia; 17% de Alagoas!

Carcará…

Emoção e tristeza em forma de música: Asa Branca, do Rei do Baião

O “Carcará” e a “Asa Branca” voaram longe. Luis Gonzaga cantou sua música, feita em parceria com Humberto Teixeira, emocionando várias gerações. A gravação original é de 1947. E para citar dois outros grandes artistas nordestinos, lembro “Seara Vermelha”, de Jorge Amado, publicado em 1946, que já foi traduzido para 26 outros idiomas. Junto com o escritor baiano, concluo com as figuras de Mestre Vitalino (Vitalino Pereira da Silva) que abriram as imagens deste post. Trabalho modelado em barro, com delicadeza e sensibilidade, evidenciando diferentes aspectos da vida do nosso povo, inclusive os retirantes…

Bela herança artística; pequenos exemplos dessa imensa herança. Todavia, uma triste realidade que teima em persistir. Será que teremos soluções encaminhadas antes da 73ª estiagem?

.

Até mais!

.

Maria Bethânia Guerreira Guerrilha

Será neste mês o relançamento do livro de poesia de Reynaldo Jardim

A menina Maria Bethânia nasceu sob o signo da canção; inspirado na música “Maria Bethânia”, um grande sucesso  de Nelson Gonçalves,  o irmão Caetano Veloso, então menino, escolheu esse para nome da irmã caçula e fez dela a sempre “senhora do engenho”, mais tarde dita “Abelha Rainha”, e a única entre as cantoras brasileiras que Roberto Carlos, sempre Rei, denominou “Minha Rainha”.

A cantora Maria Bethânia surgiu para o Brasil em grande estilo, fazendo um mega sucesso e tornando-se musa de poetas, compositores e, entre variadas categorias de admiradores, intelectuais e ativistas políticos. Foi cantada em verso e prosa. É interessante ressaltar e relembrar esse passado, feito de muito talento, alguma sorte e pura garra, de uma intérprete que não dependeu de ações de marketing, do apoio de gravadora nenhuma. Maria Bethânia explodiu no cenário da música brasileira e nele brilha até hoje.

Neste nosso mundo de simulacros, de falsos ídolos – pois criados para consumo imediato por uma máquina que anseia sempre por novos produtos – é bom ter como comprovar o que se diz sobre uma artista do quilate de Maria Bethânia. Em 1965 ela surgiu no show “Opinião” substituindo Nara Leão, que se afastou por estar doente. Nara atuava ao lado de João do Vale e de Zé Keti, no show dirigido por Augusto Boal.

O show Opinião é um marco como oposição ao regime militar, imposto por um golpe em março de 1964. O espetáculo estreou em dezembro,  e no ano seguinte surgiu a figura juvenil de Maria Bethânia. Todos os grandes artistas do período reverenciam esse momento. Mas um documento é impar. O livro “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”, do poeta Reynaldo Jardim, que finalmente está sendo relançado.

O livro sumiu do mapa, tornado raro após ser proibido. Melhor maneira de contar a história do livro é deixar falar o próprio autor. Veja o vídeo em que Reynaldo Jardim faz um emocionado relato do surgimento da obra e que acabou tornando-se a derradeira declaração pública de amor do poeta pela cantora. Reynaldo Jardim faleceu em fevereiro deste 2011. Vejam o vídeo sobre o livro:

E para finalizar, uma imagem, com um exemplo do que está no livro. Pura poesia.