Entre livros

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Com amigos, autores de “Um Profissional para 2020”.

Festa de aniversário; a amiga aproveita para mostrar a casa nova aos parentes e convidados; tudo novinho, arrumado com capricho. Passando pelo quarto da anfitriã há um livro no criado mudo ao lado da cabeceira; é o meu romance, “dois meninos”.  Fiquei lisonjeado e feliz. Tudo o que um escritor quer é ser lido e livros devem ficar nos lugares mais confortáveis e aconchegantes.

Também tive na infância e adolescência o quarto e minha cama como locais ideais para leitura. Mais! Era no quarto que dividia com meu irmão mais velho que ficava a estante da casa; enorme, o espaço dividido entre os cinco irmãos. Além dos livros escolares havia romances, os livros de viagem, religiosos, e dicionários. Um volume de O Guarany, edição da José Olympio nunca me saiu da lembrança. Nem outra, do Grande Sertão, Veredas, do Guimarães Rosa. Havia toda a coleção de Jorge Amado e muitos outros, esparsos, de diferentes autores.

A biblioteca do SESI, lá na Praça Frei Eugênio, em Uberaba, foi onde me associei e onde emprestava todos os livros solicitados na escola. Líamos bastante. Desde então comecei a apreciar Fernando Sabino, Cecília Meireles, Tomás Antonio Gonzaga. Também li Hemingway, Dickens, Jane Austen e muitos outros; a leitura foi um dos melhores hábitos adquiridos naquele tempo.

Anos depois uma primeira grande festa, o lançamento de Alterego. E eu passei a ter um livro pra chamar de meu, de nosso já que estava entre outros autores. Passou um pouco e organizei Um Profissional Para 2020, mais um passo na caminhada literária. E veio o romance “dois meninos – limbo”.  Meu livro! Outros virão. Individualmente, ou com amigos. O que é impossível é não estar escrevendo, lendo… Continuamente entre livros.

Livros continuam fundamentais, embora seja impossível ignorar as novidades virtuais; assim, já acumulo arquivos eletrônicos com textos diversos. Todavia prefiro o papel impresso, o cheiro inconfundível de livros novos, ou de outros, que somam o tempo em páginas amareladas com odor “de armário”.  Sobretudo gosto de vê-los, tê-los como companheiros de horas de lazer, de trabalho. Preciso tê-los organizados para, em momentos precisos, contar com os mesmos como se conta com um velho e querido amigo.

Estou sempre entre livros. Ultimamente intensifiquei estudos sobre ensino de gêneros literários, para meu novo curso, Processos de Criação na Escrita. Nesta semana volto a trabalhar com meu romance, “dois meninos – limbo”, no 2º Bate-papo com Autores/Editoras de Literatura LGBT, evento que antecede a Parada do Orgulho LGBT. Estando com eles, entre eles, estou bem. Nestes dias frios, um livro, um bom copo de vinho, são companhias irrecusáveis.

Até mais!

Nota: Na foto acima, da esquerda pra direita, Fernando Brengel, Valdo Resende, Vania Maria Lourenço Sanches, Claudia Regina Bouman Olszenski, Victor Olszenski e Vania de Toledo Piza.

Vila Maria é Emoção no Carnaval

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Ala das Baianas da Vila Maria. União do sagrado e do profano.

A história comprova: O que fica de um bom carnaval é a velha e intensa emoção diante da musa, da alegoria, da fantasia engraçada… Para uma escola de samba vencer o campeonato é exigido muito mais.  Tudo começa com um belo e bom enredo a soma de todas as alas, todos os quesitos, todos os detalhes atingindo o coração do público leva à vitória, independendo de resultados oficiais. Assim, sem receios, sem titubear: vou guardar o carnaval de 2017 como aquele em que, pela primeira vez, fiquei intensamente emocionado por uma escola, a Unidos de Vila Maria.

“Aparecida – A Rainha do Brasil; 300 anos de amor e fé no coração do povo brasileiro” foi o enredo que uniu com rara competência o sagrado e o profano. O carnavalesco Sidney França estreou celebrando o jubileu dos 300 anos da aparição da imagem nas águas do Rio Paraíba do Sul. Os pescadores encontrando a santa foi mote para subir imensa escultura na abertura do desfile que, ainda, teve como destaque a ala das baianas vestidas tal qual a Santa e terminando com chave de ouro ao colocar réplica da basílica transformada em alegoria.

Aos teus pés vou me curvar

Senhora de Aparecida

A prece de amor que nos uniu

Salve a Rainha do Brasil

O samba de Leandro Rato, Zé Paulo Sierra, Almir Mendonça, Vinicius Ferreira, Zé Boy e Silas Augusto contou linearmente o enredo proposto. Saltando da história para os hábitos atuais, a Vila Maria mostrou que é possível tratar de temas aparentemente impensáveis dentro da tradição carnavalesca.

A primeira noite do carnaval de São Paulo teve Elba Ramalho na abertura. A cantora foi  carregada feito santa por um grupo de rapazes da Tom Maior, o que conota lembranças nada agradáveis de senhorias incapazes de andar com as próprias pernas… A Mocidade Alegre veio correta, sem conseguir empolgar a plateia. Depois da Vila Maria, a emoção continuou com o desfile da Acadêmicos do Tatuapé que, com o enredo “Mãe-África conta a sua história: do berço sagrada da humanidade à terra abençoada do grande Zimbabwe” fez um carnaval para vencer o campeonato no grupo especial.

Que me perdoem as outras, já vou para o segundo dia, direto para a Unidos do Peruche. A segunda escola que passou pelo sambódromo, no sábado, cantou Salvador “Cidade da Bahia, Caldeirão de Raças, Cultura, Fé e Alegria”. A comissão de frente lembrou grandes ícones da cidade: atores representando Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e, entre outros, Jorge Amado e Raul Seixas, abriram o desfile da escola, dançando com leveza e graça.

A riqueza de detalhes é o maior trunfo da Império da Casa Verde. A campeã de 2016 veio íntegra, luxuosa, com alas inteiras fantasiadas com o maior capricho e, notável, a maquiagem dos foliões. É comum ver gente desfilando com cara amarelada, piorada pela iluminação exagerada. Ao fazer da maquiagem complemento da fantasia, Jorge Freitas garante bons pontos para a escola.

De repente a lembrança de Gonzagão emociona até corações endurecidos. A emoção volta a imperar com a escola Dragões da Real que homenageou “Asa Branca”, a música de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Triste por si, Asa Branca conta a história, infelizmente atual, dos problemas decorrentes da seca, mas a história aposta na esperança, em “samba em forma de oração”… “Que eu voltarei, viu, pro meu sertão”.

Fonte inesgotável para bons sambas, o nordeste e, especificamente a Bahia, propicia mais emoção no carnaval. É a Vai-Vai com “No Xirê do Anhembi, A oxum mais bonita surgiu – Menininha, Mãe da Bahia – Ialorixá do Brasil”.  Há muito que a Vai-Vai não fazia um desfile tão intenso, com fantasias de rara beleza, da primeira à última ala. Se for a campeã, será título merecido para a escola da Bela Vista.

Outras agremiações passaram pelo Anhembi mostrando sua força. A Rosas de Ouro provou publicamente seu carisma, mantendo a plateia cativa, aguardando essa que foi a última escola a desfilar no grupo especial para um “banquete de alegria”.  O enredo da roseira diz, em determinado momento, “não importa a religião, Salve Cosme e Damião”. Salve! Quem irá negar saudação aos santos, a Nossa Senhora Aparecida, à Mãe Menininha do Gantois? O melhor do carnaval continua sendo a capacidade de fazer sorrir e, tocados profundamente, até mesmo chorar.

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A Basílica na Avenida. O inusitado que emociona.

A Liga das Escolas de Samba de São Paulo buscou neste 2017 uma formação diferenciada para os jurados. Todos os apaixonados por carnaval estão ansiosos, aguardando os resultados para saber o que se passou na cabeça do grupo de juízes formado por gente de fora da cidade, que foi para a cabine via sorteio, após concurso acirrado. Que venha a campeã! A vitória importa para todos os que lutaram para fazer a grande festa. Para quem ama o carnaval, importa que a festa continue grande e bela.

Eu aposto e desejo que a campeã seja a Vila Maria. Ficarei contente se for a Vai-Vai, a Tatuapé, a Peruche… O júri pode decidir por outra, sem problemas. Como todo júri é soberano, fazer o que? Júri nenhum manda no coração da gente. O meu coração, em 2017, é todinho da Vila Maria.

Até mais.

Antes do baile

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Venho brincando de poesia e estou longe do “Pessoa”

Desenho histórias a léguas de “Amado”

Pardal vagabundo que aspira “Tinhorão”

Palpiteiro da esquina onde não há “Eco”

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Artesão da pedra que “entranha a alma”

Escrevo como quem explora “vasto mundo”

Sonhando com “Pasárgada”

Sobrevivendo na “pauliceia desvairada”

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Fernando Cabral, Jorge Drummond;

José Ramos Bandeira e Umberto de Andrade Bilac:

 Personagens da festa em que penso bailar

Convidando todo aquele que for

“Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

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Este blog está prestes a completar dois anos!

Quem topa uma festa virtual?

Aguardo confirmações!

Beijos.

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Jorge Amado, o Obá comunista.

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O deputado federal mais votado do Estado de São Paulo, em 1945, foi o baiano Jorge Amado. O escritor foi eleito pelo Partido Comunista Brasileiro. Dois anos depois o PCB foi declarado clandestino. A vontade dos que colocaram Jorge Amado na Assembléia Constituinte não foi respeitada; em 1948 os mandatos dos deputados do PCB foram extintos; sobrou para o escritor o exílio na Argentina e no Uruguai. Nesta terça-feira a Câmara dos Deputados devolveu simbolicamente o mandato de Jorge Amado e de outros que foram cassados em 1945. Embora tardia, cumpre-se a justiça.

Em “Os Subterrâneos da Liberdade” Jorge Amado aborda fatos desse período de luta contra a ditadura do Estado Novo. “Os ásperos tempos” é o primeiro livro da trilogia, completada por “A agonia da noite” e “A luz no túnel”. O escritor iniciou a obra na Tchecoslováquia, em 1952 e terminou no ano seguinte, no Rio de Janeiro. A primeira edição é de 1954.

A trajetória política de Jorge Amado tem um fato extraordinário. É dele a autoria da lei, ainda em vigor, que nos garante o direito à liberdade de culto religioso. Uma imensa ironia em um país onde se temia os comunistas ateus, como se o fato de ser ateu colocasse em risco a segurança nacional, a estabilidade do Estado…

Tento imaginar Jorge Amado, militante comunista “de carteirinha” sendo questionado sobre fé, religião, Deus. Aqueles que conheciam seus livros sabiam que, antes de ser eleito, Jorge já se definira contador de “histórias da beira do cais da Bahia”. Também que ele já havia afirmado em apresentação do livro “Mar Morto”, de 1936: “O povo de Iemanjá tem muito que contar”. Se Jorge, algum dia, foi ateu, sabia que seu povo era de Todos os Santos, da Rainha do Mar.

Jorge Amado terminou seus dias como Obá no Ilê Axé Opô Afonjá (Corpo de Obá – ministros de Xangô – instituído por Eugênia Anna dos Santos, a fundadora do terreiro freqüentado pelo escritor). O deputado estava esquecido, mas o homem estava lá, ao lado do povo que amava e que imortalizou em seus romances. Agora Jorge Amado tem seu mandato restituído. Mais um fato para a incrível história do menino de Itabuna, que passou a infância em Ilhéus, comunista juramentado, escritor aclamado, ilustre integrante do mais antigo terreiro de candomblé da Bahia.

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Até mais!

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Mulheres brasileiríssimas

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Para o dia 8 de março saí passeando pela música, lembrando as mulheres todas do nosso imaginário, ícones do nosso povo, exemplos da nossa gente, presentes na música brasileira de todos os tempos. Meu caminho, o abecedário…

No “A” encontrei “Ana Júlia”, “Aurora”, “Ana de Amsterdã”, a trágica “Angélica”e a judiada “Amélia”, com freqüência execrada como alienada, acomodada, sem vontade própria. Eu gosto de vê-la como companheira (coisa difícil de encontrar hoje em dia!).

Nunca vi fazer tanta exigência

Nem fazer o que você me faz

Você não sabe o que é consciência

Não vê que eu sou um pobre rapaz…

Deixei “Amélia” no tempo e fui para o “B” e, de cara, recordei “Benvinda”, muito doce e “Bárbara”, muito forte. Esbarrei em “Beth Balanço”, mas parei mesmo em “Beatriz” que é, talvez, uma das mais belas composições de CHICO BUARQUE.

Sim, me leva sempre, Beatriz

Me ensina a não andar com os pés no chão

Para sempre é sempre por um triz

Ai, diz quantos desastres tem na minha mão

Diz se é perigoso ser feliz…

As moças que não percebem o tempo passando são lembradas no “C”de “Carolina”. Mas aqui é legal assinalar a doce poesia de JOYCE, homenageando suas filha Clara e Ana em “Clareana”. Corro rápido para o “D”, de “Dona” que, tenho bem certeza, era música que meu irmão apreciava. Nessa letra tem a “Dinorah”, a “Domingas” a “Doralinda”, mas esse citado irmão ficaria chateado se eu deixasse de citar “Diana”:

Não se esqueça meu amor

Que quem mais te amou fui eu

Sempre foi o seu calor

Que minha alma aqueceu

E num sonho para dois

Viveremos a cantar

A cantar o amor, Diana!

A letra “E” anda meio pobrinha… Só encontrei uma “Valsa de Eurídice”, linda demais pra ter outra. Deixei a tristeza de “Eurídice” e fui rapidinho encontrar “Flora”, na letra “F”. Flora, a da vida real, é a esposa do GILBERTO GIL. Certamente apaixonada pelo cara, por toda a eternidade, depois de tão soberba homenagem.

Toda aquela luz acesa

Na doçura e na beleza

Terei sono, com certeza

Debaixo da tua sombra

Ô, Flora…

Depois da ternura de GIL por sua esposa, chego num ícone de mulher, criada nesse Brasil moreno, imortalizada por JORGE AMADO em seu romance. O “G” só pode ser de “Gabriela”. “Glória, Glorinha” que me perdoe e até GAL, que tem seu nome em música, mas “Gabriela” é o máximo! E tem “Cantiga por Gabriela” “Tema de Amor de Gabriela”… Tudo muito bom, com a assinatura do mestre maior, TOM JOBIM.

Molha tua boca na minha boca

A tua boca é meu doce, é meu sal

Mas quem sou eu nessa vida tão louca

Mais um palhaço no teu carnaval

“H” é letra da “Helena” na voz do grande TAIGUARA, de grata lembrança. Os ecos das risadas de “Irene” ecoam pelo “I” e por todo abecedário musical; todavia a triste história de “Iracema” é que será aqui mencionada também por lembrar uma grande mulher, CLARA NUNES, intérprete definitiva da música de ADONIRAN BARBOSA.

E hoje ela vive lá no céu

E ela vive bem juntinho de nosso Senhor

De lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos

Iracema, eu perdi oseu retrato.

“Januária” deve ter visto tudo da janela, ambas com “J”. Aqui tem uma música que gosto muito, “Joana, a Francesa” e sempre recordo a “Jezebel” na poderosa voz de LENNY EVERSON. Tocando em frente, chego no “K” de “Kátia Flávia, a Godiva do Irajá”e charmosa louraça belzebu, com suas calcinhas rendadas.

Pulo rapidinho para o “L” de “Luiza”. Mulheres fortes nessa letra: “Luz Del Fuego”, “Lindonéia” e, é claro, “Lady Laura” (Aqui mando um beijo pra minha mamãe!)

Quantas vezes me sinto perdido

No meio da noite

Com problemas e angústias

Que só gente grande é que tem

Me afagando os cabelos

Você certamente diria

Amanhã de manhã você vai se sair muito bem…

“Maricotinha” é fresquinha, não gosta de chuva. “Marina” pintou o rosto e o pai, DORIVAL CAYMMI não gostou. Nesse “M” tão forte e poderoso, fica a minha senhora do engenho, a “Maria Bethânia”. Há um disco maravilhoso, produzido por ELBA RAMALHO, todo em homenagem à grande mãe de todos nós, Maria, a cheia de graça. MILTON NASCIMENTO e FERNANDO BRANT fizeram a música representativa de todas as Marias do Brasil, na interpretação impecável de ELIS REGINA.

Mas é preciso ter manha

É preciso ter graça

É preciso ter sonho sempre

Quem traz na pele essa marca

Possui a estranha mania

De ter fé na vida…

Encontrei, no “N”, a “Nina” de DANIELA MERCURY e no “O”, Olga. Aqui, gosto de brincar com o “se você fosse sincera, ô, ô, ô, ô ORORA”, que o MUSSUM cantava, divertindo meio mundo. Andei mais, que esse post está ficando imenso, e cheguei no “P” de Patrícia, do CAETANO VELOSO.Resolvi seguir em frente, pois, no “Q”,não encontrei ninguém, indo direto para a próxima letra.

“R” lembra a “Rita Baiana”; uma personagem e tanto, diferente da outra, “A Rita”, que “levou seu retrato, seu prato, seu trapo, que papel!”

Das tantas “Rosas” desse país, a “Rosa de Hiroshima” lembra um momento triste da humanidade, mas hoje é dia de alegrias e eu fico aqui é com “A Rosa” safada, danada da gota, cantada por CHICO BUARQUE e DJAVAN.

A falsa limpou a minha carteira

Maneira, pagou a nossa despesa

Beleza, na hora do bom me deixa, se queixa

A gueixa

Que coisa mais amorosa

A Rosa….

No “S” todo mundo lembra-se de pedir “Oh!Suzana” não chore… Mas, legal mesmo é lembrar da cigana mais famosa dos últimos anos; de todo o povo querendo, junto com SIDNEY MAGAL, ver “Sandra Rosa Madalena” sorrir e cantar.

Ela é bonita, seus cabelos muito negros

E o seu corpo faz meu corpo delirar

O seu olhar desperta em mim uma vontade

De enlouquecer, de me perder, de me entregar…

Das cantigas de roda CHICO BUARQUE resgatou uma “Terezinha” que viveu grandes amores. Aqui, encontro “Tati”, a garota, e chego ao tango, esse maravilhoso e caliente ritmo. Tango, no “T”, só o “Tango pra Tereza” na voz de ANGELA MARIA, uma entre as grandes cantoras brasileiras de todos os tempos. Tem outra, a “Tereza da Praia”. Duas Terezas, urbanas, mas a “Cabocla Tereza”, de JOÃO PACÍFICO, é imbatível.

Senti meu sangue ferver

Jurei a Tereza matar

O meu alazão arriei

E ela fui procurar

Agora já me vinguei

É esse o fim de um amor

Essa cabocla eu matei

É a minha história, dotô!

No “U” também não encontrei nenhuma Úrsula ou similar. Em “V”, os talentosos JOÃO BOSCO e ALDIR BLANC contaram a história de “Violeta de Belford Roxo”, uma santinha que engravidou de um sargento, vizinho… Sem querer fofocar, fui para o “X” da Xica que manda, a “Xica daSilva” de JORGE BENJOR.

Pra ninguém me chamar de radical coloquei Diana, uma música estrangeira nesse abecedário. Não será a única. No “Y”, quem pode deixar “Yolanda” de fora?

Se alguma vez me sinto derrotado

Eu abro mão do sol de cada dia

Rezando o credo que tu me ensinaste

Olho teu rosto e digo à ventania

Yolanda, Yolanda

Eternamente, Yolanda

Chegamos ao “Z”, de ZEZÉ MOTTA, e a música que RITALEE fez para homenagear nossa atriz e cantora, que deu cara, voz e uma imagem definitiva para a “Xica da Silva”.  Ave, ZEZÉ MOTTA!

Esse abecedário não pretende ser completo. Antes de concluí-lo, outras músicas já aparecem, mas eu paro por aqui, mandando um beijo para todas as mulheres que permeiam minha vida, e a vida de todos nós.

Feliz dia Internacional da Mulher!

Beijos!

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A turma do contra

Um pedido de suspensão do filme “TED” e uma nova investida contra a obra de Monteiro Lobato são situações que me ocupam neste momento.

Um deputado encontrou um meio de projeção fora do horário eleitoral ganhando o noticiário ao pedir a proibição do filme “TED”, de Seth MacFarlane, estrelado por Mark Wahlberg que interpreta um jovem que tem amizade com um urso de pelúcia da infância à idade adulta.

Mark Wahlberg é o astro de TED.

Segundo o deputado, que foi ao cinema junto com o filho, um garoto com 11 anos, o tal filme passa “a mensagem de que quem consome drogas, não trabalha e não estuda é feliz”… Um pai zeloso. Interessante é o deputado preocupar-se com a “mensagem”, o que em si já dá uma ótima discussão sobre as funções desse tipo de produto – ou o deputado desconhece que o objetivo da indústria cinematográfica é arrecadar grana?

O cinema de consumo não é propriamente indicado para educar os filhos. No máximo serve para que pais discutam com as crianças questões tais como as apresentadas em “TED”. É simples assim: ao invés de proibir, discutir com o filho a validade da situação.  Ou será que o deputado não consegue encontrar argumentos para convencer o filho da impropriedade das situações apresentadas no filme?

Evitar o cinema e ir para uma biblioteca poderia ser um ótimo conselho ao pai deputado (ou seria deputado pai?). Todavia lá, já sabemos, ele encontrará Monteiro Lobato. E conforme alguns cidadãos, mestres em educação, o célebre escritor é um perigo para a sociedade, com obras “racistas” e “sexistas”.

O “perigoso” Monteiro Lobato.

Os autores da denúncia contra “Negrinha” estão preocupados com a legalização da aquisição da obra pelo MEC – Ministério da Cultura, e com o texto de apresentação da obra. Este seria “ruim e demonstra a falta de cuidado que o MEC está tendo com o assunto.” Um extenso documento discute e aponta as razões dos autores que analisam e interpretam a obra de Lobato buscando confirmar as hipóteses que justificariam as denúncias.

Mais uma vez devo repetir o argumento: discutir a obra é melhor que proibi-la. Resta saber se os professores brasileiros têm condições de discutir a obra de Lobato, ou de qualquer outro escritor para, assim nortear as reflexões de seus alunos. A atitude dos tais mestres em educação é paternalista, pois pretendem entregar a “receita” pronta, quando o problema começa atrás, nas escolas que não preparam professores com competência para discutir literatura com a profundidade necessária.

Bom saber que há pais preocupados com a qualidade dos filmes, assim como há “mestres” preocupados com o conteúdo literário disponibilizado para as escolas pelo MEC. Também é bom lembrar que ninguém deu procuração para esses vigilantes da moral, bons costumes e do politicamente correto. Não vejo diferenças entre esses sujeitos e a horrenda personagem magnificamente interpretada por Laura Cardoso em Gabriela. Tenho a impressão que os vigilantes da vida real têm motivos sórdidos, como a megera criada por Jorge Amado e, como ela, também têm algo a esconder: no caso dos vigilantes da vida real, os verdadeiros motivos dessas ações.

Quero ver tudo. Quero ler tudo. É a melhor forma de desenvolver o discernimento necessário para optar e escolher meu próprio caminho. Incluo entre o tudo que quero ver e ler as tentativas dessas pessoas autoritárias, querendo que o mundo dance no ritmo delas. É assim que seguiremos, discutindo, debatendo, mantendo esse delicioso hábito democrático: o da manifestação e discussão de idéias. Será que esses indivíduos, pretendendo proibições, não concebem a idéia de que discutir um tema gera crescimento?

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Até mais!

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Sete mil vezes Caetano Veloso

Impossível não reverenciar Caetano Veloso quando este grande, entre os maiores compositores brasileiros, completa 70 anos. O natalício será neste próximo dia sete de agosto. Difícil escrever algo novo sobre Caetano já que o mesmo, merecidamente, será homenageado pelos maiores intelectuais deste país; difícil também escrever para alguém que escreve tão bem! Mas, vamos lá, deixar o coração falar para homenagear alguém que, ao longo de tantos anos, propiciou momentos incríveis para milhões de brasileiros.

Claudia Cardinale e Brigitte Bardot
Todo mundo, como Caetano, sonhava com Cardinale e Bardot

A primeira música que emerge, quando penso em Caetano Veloso, fala de um amor arrebatador. Todavia, como a música brasileira é sempre presente em minha vida, inclusive em sala de aula, falar em primeira é falar em “Alegria, alegria”. Criança – eu tinha 9, 10 anos – pouco sabia que em música brasileira não se usava guitarra elétrica. A música daquele rapaz cabeludo da Bahia era contagiante; eu não usava nem lenço nem tinha documento e era, como todo garoto de então, apaixonado por Brigitte Bardot, com uma grande queda para Claudia Cardinale. Tudo era uma grande festa!

…Espaçonaves, guerrilhas

Em Cardinales bonitas

Eu vou

Em caras de presidentes

Em grandes beijos de amor

Em dentes, pernas, bandeiras,

Bomba e Brigitte Bardot…

A vida tratou de ensinar-me que Caetano Veloso era mais que “Alegria, Alegria”. Antes de completar 17 anos saí de casa pela primeira vez. Foram tempos conturbados para todo o país e eu, como o baiano de Santo Amaro da Purificação, também tive que vir embora. “No dia em que eu vim-me embora” a canção de Caetano Veloso e seu parceiro Gilberto Gil, é trilha profunda para o retirante que sou.

…E quando eu me vi sozinho

Vi que não entendia nada

Nem de por que eu ia indo

Nem dos sonhos que eu sonhava…

Caetano Veloso foi embora para Londres onde criou “London, London”, uma das mais belas canções com a capital inglesa como tema, e voltou para um Brasil de sempre, com “podres poderes” que demoraram a tomar rumo. Longe de Uberaba fui ao primeiro show daquelas quatro figuras mágicas, então denominadas “Doces Bárbaros”: Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Quem é da minha geração pode entender qual o impacto de, em um mesmo palco, encontrar quatro imensas feras da nossa música. Isso em uma época onde não rolavam festivais de verão e similares. No show, no disco, o aprendizado que persigo e que pretendo seguir enquanto vivo:

O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar…

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser…

Ame-o e deixe-o ser o que ele é…

Alguém importa quando importa para a vida de muita gente. É o caso de Caetano Veloso que, creio, seja autor de canções para a vida da maioria dos brasileiros. Desde o primeiro disco o compositor, também excelente cantor, jamais fugiu de suas raízes populares. Gravou Vicente Celestino com o mesmo respeito que gravou Chico Buarque; fez sucesso com canções de Peninha, Roberto Carlos e atualmente segue em parceria nos palcos, ao lado de Maria Gadu.

Caetano Veloso 70 anos

Poderia alongar-me aqui e escrever sobre a trilha sonora de “Velhos Marinheiros”; a adaptação do romance de Jorge Amado foi para os palcos de São Paulo, com uma trilha baseada em Caetano Veloso; meu amigo Ivan Feijó participou deste trabalho e corrigiu-me a memória (vejam no comentário abaixo). No espetáculo teatral dirigido por Ulysses Cruz, Ivan contribui com as canções de Vicente Celestino. Poderia escrever sobre as inesquecíveis aulas de Dirce Ceribeli, na UNESP, introduzindo semiologia através das letras das canções do compositor. Poderia contar um monte de histórias; várias delas com “Eclipse Oculto” como tema.

Nosso amor não deu certo

Gargalhadas e lágrimas

De perto fomos quase nada

Tipo de amor que não pode dar certo

Na luz da manhã

E desperdiçamos os blues do Djavan…

Tantas histórias de tantas vidas com a música de Caetano Veloso ali, presente; marcando acontecimentos, tornando pessoas inesquecíveis. As canções são sempre novas para quem não as conhece. Tornam-se vivas e tornam vivas as pessoas, mesmo que o tempo tenha ficado longe demais. Muitas histórias, mas hoje é segunda-feira…

– Vamos trabalhar!

Então, deste humilde blog quero desejar outros 70 anos ou setenta mil vezes setenta para Caetano Veloso. Penso que basta uma música para fazer célebre um grande compositor. Sou contra cobranças ou exigências de novas canções, novos sucessos, outra “Sampa”. Cada pessoa tem sua preferência e, em se tratando de Caetano Veloso, esse leque é bastante amplo. Eu prefiro “Sete mil vezes”. Feliz de quem pode amar e, para esse amor, tomar emprestada a música e a letra de Caetano Veloso para soltar o gogó….

Sete mil vezes eu tornaria a viver assim
Sempre contigo transando sob as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir pra eu cantar
Noite feliz, todas as coisas são belas
Sete mil vezes, e em cada uma outra vez querer
Sete mil outras em progressão infinita…

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Feliz aniversário, Caetano Veloso!

Boa semana para todos!

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