Um limbo longe do fim

Lançamento em São Paulo. Foto: Fátima Borges

Decidi escrever o romance “dois meninos – limbo” no início de 1999. Um imenso embate em como relatar, denunciar, divulgar enfim o que está cotidianamente ao nosso lado, às nossas vistas, nos locais onde vivemos. A AIDS havia chegado no Brasil em 1982 e em 1999 já se contabilizava 155.590 casos. Grande tragédia para quem foi jovem nos anos de 1980, quando o tesão passou a ser risco de vida, como disse Cazuza em versos.

Sentença de morte para todos os infectados, a doença também impunha forte segregação social. Não bastando estar infectados, os indivíduos sofriam pelo preconceito, pelo descaso, pela desinformação de quem temia contágio pelo mero toque de mãos. Os doentes perdiam empregos, amores, família e, para uma sobrevida minimamente digna, assumiam um anonimato.

O livro foi lançado em 2014. Não, não levei quinze anos para escrevê-lo. Quatro ou cinco, com certeza, mais revisões, leituras feitas por amigos e uma reescrita exigida por entrar em vigor o novo acordo ortográfico, em 2009. Pior mesmo foi a peregrinação por editoras. Nenhuma interessada em lançar um novo autor com um romance que tinha a AIDS norteando a prosa. Lançamento feito, o anonimato das personagens recebeu a companhia de muitos outros, entre os que adquiriram o livro, que me brindaram com o silêncio. Bem provável, caso já fosse moda “cancelar” naquele ano, eu teria sido cancelado por um monte de gente.

O mundo caminhou e a diversidade assumiu outras cores, dando visibilidade de tal forma que até mudanças na linguagem passaram a ser pauta e objetivo de luta. Inegavelmente há avanços e conquistas, mas que ninguém se engane, os anônimos continuam por aí, excluídos e sem uma vida plena em dignidade. Daí o tema da 27ª Parada do Orgulho LGBT+ de SP: QUEREMOS POR INTEIRO, NÃO PELA METADE. São pouco mais de dois minutos para você, leitor, tomar consciência da questão:

Quem quiser se aprofundar um pouco mais pode ler o Manifesto dos organizadores da Parada do próximo dia 11, clicando neste link.

Nos próximos posts retomarei textos escritos sobre o livro “Dois meninos – limbo”. A ideia é lembrar que questões fundamentais ali relatadas, infelizmente, continuam atuais. Dados de 2019 (atualização dificultada pela pandemia da COVID), a AIDS já causou 32 milhões de mortes no planeta. A absoluta maioria: anônimos.

Novos passos, grandes esperanças

(Carol, Duda, Erundina, Suplicy e Thammy)

Um destaque das eleições deste último domingo: Foi eleita vereadora Carol Dartora, a primeira mulher negra da cidade de Curitiba, capital do Paraná. Dados do IBGE, 34% da população paranaense é negra ou parda. Foi noticiado que esses ganham bem menos que os brancos e que o governo do Estado não tem política públicas voltadas para a população. Carol Dartora não faz história apenas pela eleição. Espera-se que ela seja a voz desse contingente da população desassistida e esquecida pelos governantes paranaenses.

Em Belo Horizonte há outro destaque: A trans Duda Salabert entra para a Câmara de Vereadores como a mais votada da capital mineira. LGBTs, negros e mulheres compõem as bandeiras levantadas pela, agora, vereadora mineira. Outras 15 pessoas transsexuais e travestis foram eleitas em diferentes regiões do país. Um número considerável para nosso país, onde a transfobia transita da violência ao crime de morte.

São pequenos grandes passos. Pequenos por princípio, de pessoas descontentes que resolveram partir para a luta. Esses passos iniciais ganharam força na união em grupos, partidos e, assim, constituíram-se em fatos históricos relevantes, mudando a vida de muita gente de todo o país.

É muito bom assinalar a mudança dos ventos. Ver cair por terra a obtusa noção de que nada pode ser feito para melhorar a vida de milhões de pessoas. Se há uma expressiva presença de jovens, bem-vindos na contínua construção de um país melhor, há também a notável presença de pessoas acima dos 80 anos, como Luiza Erundina e Eduardo Suplicy, dizendo ao mundo que não há idade para buscar melhores condições de vida para o próximo.

Permanece um “outro lado”. Aquele das pessoas que se pensam melhores que as outras, com mais direitos, que as mudanças não devem ocorrer exceto pelas necessidades delas… Por mais que o “outro lado” tente brecar as mudanças, elas ocorrem. Estão aí, nos 49,9% de candidatos negros nas eleições; no grupo LGBT+ que passa a ocupar cadeiras em capitais e cidades interioranas; nos 12,2% de lideranças dos municípios que serão exercidas por mulheres.

Há esperança em um mundo submerso em pandemia. Há novidades no front da luta entre opressores e oprimidos. Sobretudo há a certeza de maior inclusão, partindo da premissa mínima que tais resultados já são, por si, inclusivos. Uma vereadora negra em Curitiba, um homem trans, Thammy Miranda, eleito vereador na cidade de São Paulo; mulheres, negros, velhos, gente que antes ouvia, seguia, passa a dizer e sugerir novos passos, novas oportunidades, grandes esperanças. Que sejam concretizadas.