Quem canta, canta João Bosco!

“-Topas encarar esse concurso?” Cantar as canções de João Bosco. É isso! Só que há que ser no mínimo ótimo para cantar composições solo ou aquelas feitas, por exemplo, em parceria com gente do naipe de Aldir Blanc.

Se fosse só uma pergunta – Quem é o melhor intérprete de João Bosco? – em uma brincadeira dessas que a gente faz em tardes chuvosas, ainda sim seria um páreo duro. Eu sugiro um empate triplo: Elis Regina, Zizi Possi e o próprio João Bosco, que canta como ninguém suas próprias criações.

João Bosco é o grande homenageado da 23ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Criado por José Maurício Machline, ao longo de todos esses anos o evento já homenageou a nata da música brasileira:  o ano  passado foi Noel Rosa. Antes dele, gente como Vinicius de Moraes. Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Elis Regina, Milton Nascimento e muitos outros.

Entre as homenagens para João Bosco foi preparado um concurso para intérpretes das canções do grande mestre. Não pense que são próprias apenas as vozes tipo Elis e Zizi. Se você tem um vozeirão à Clementina de Jesus, Maria Alcina ou Ângela Maria, pode encarar. E é claro que se o próprio João Bosco está entre os grandes intérpretes de suas canções, todos os rapazes podem soltar a voz.

Está no site do evento: “Grave sua interpretação em vídeo de uma das canções deste grande ícone da Música Brasileira, publique no Youtube e envie o link para nós, não aceitamos videoclip, o candidato deve estar cantando a canção no momento da gravação. Se você gosta da obra de João Bosco e não tem discos gravados pode participar. O grande vencedor receberá um prêmio em dinheiro e um troféu no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ao lado dos grandes nomes da música brasileira!”

Olha que chance! Você cantando “Corsário” no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e, de repente, vai que a Zizi Possi resolve subir e cantar junto? E já pensou, você cantando “Memória da Pele” perante Maria Bethânia? Pensando bem, não é uma boa idéia. Nessas, elas superam até o próprio João Bosco. E também, não vá cair na besteira de se achar “a bala que matou Kennedy” tentando levar a grana com “O Bêbado e o Equilibrista”! Essa, malandro, só mesmo a Elis Regina.  Agora, vamos à outras possibilidades…

Se você canta, mas canta mesmo, ataque de “Bala com bala”, “Cobra criada”, ”Linha de passe”… Essas são para quem tem excelente domínio da arte de interpretar. Outra possibilidade para grandes intérpretes é a de dar a própria versão de canções, diria eu, inusitadas, que só autores da categoria de João Bosco são capazes de criar; são músicas para quem tem verve humorística, como “A nível de…”, “Abigail caiu do Céu” e por aí vai.

João Bosco é muito bom, ótimo. Dentro das próprias possibilidades vocais, tornou-se um intérprete impar para canções como “Jade” ou “Papel Machê”. Agora há uma boa chance para os cantores que estão em início de carreira, ou aguardando uma boa oportunidade. Portanto, entre no site, cumpra o regulamento, grave a canção e saia divulgando para todo mundo. Pode ser que, por essas tramas da sorte, você não ganhe o prêmio; todavia, ser capaz de cantar bem as canções de João Bosco já é um feito e tanto. Boa sorte!

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Bom final de semana para todos.

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As canções citadas:

Corsário – João Bosco – Aldir Blanc

Memória da pele – João Bosco – Waly Salomão

O Bêbado e o equilibrista – João Bosco – Aldir Blanc

Bala com bala – João Bosco – Aldir Blanc

Cobra criada – João Bosco – Paulo Emílio

Linha de Passe – João Bosco, Paulo Emilio – Aldir Blanc

A nível de… – João Bosco – Aldir Blanc

Abigail caiu do céu – João Bosco – Aldir Blanc

Jade – João Bosco

Papel Machê – João Bosco – Capinan

Xote, maracatu e… histórias no matolão

Trouxe tudo esse Luiz Gonzaga. O nordeste inteiro; de tão completo foi além do regional, tornando brasileiro o forró. Veio dentro do “matolão”. A “malota” era um saco e ele diz ter vindo de Bodocó!

Só trazia a coragem e a cara
Viajando num pau-de-arara
Eu penei, mas aqui cheguei…

Essa canção, Pau de Arara, Luiz Gonzaga compôs com Guio de Moraes, em 1952. Já era o Lua, apelido que ganhou pela cara redonda e simpática, e já havia criado um dos maiores clássicos brasileiros, “Asa Branca”, em 1947, em parceria com Humberto Teixeira. Também já era fato ter nascido em Exu, Pernambuco. Bodocó deve ser terra do letrista, Guio de Moraes.

São muitas peripécias até Luiz Gonzaga atingir a fama e ser respeitado como o Rei do Baião. Alguns aspectos, por exemplo, confirmam a existência de gente burra desde sempre: durante muito tempo Gonzaga foi impedido de cantar e só gravou discos instrumentais. Foram 30 discos pela Victor e, já sendo citado como maior sanfoneiro brasileiro, não conseguia colocar a própria voz em suas canções.

Outra história na mesma linha: Luiz Gonzaga tem passagem por Minas Gerais. Para ser mais preciso foi na cidade de Ouro Fino. Alguém do exército reprovou Lua em um concurso para músico, pois o candidato não conhecia a escala musical. Minha mãe, que não desculpa fácil, dirá ao ler isto: “- Um mineiro besta!”. Sem querer justificar o conterrâneo devo reiterar que há um monte de metido a sabichão que impede gente talentosa com alguma picuinha. Temos instrumentistas maravilhosos por aí e um monte de idiotas que torcem o nariz porque esses instrumentistas não sabem o que é um pentagrama, uma clave disso ou daquilo (O tal sabichão costuma não tocar nadica de nada!).

Tem o lado melhorzinho… O Exército, em Minas Gerais, pode orgulhar-se de ter tido um soldado-corneteiro, chamado Luiz Gonzaga, depois criador do Baião. Também lá em Minas aprende a tocar sanfona de 120 baixos, toca em festas nas horas vagas e, certamente, apreende o espírito da toada mineira. Sem querer forçar a barra pra minha terra, mas “Asa Branca” é uma toada. Assim que foi gravada: uma toada interpretada por um músico pernambucano, que passou a apresentar-se com chapéu de couro, lembrando o cangaceiro Lampião.

Muitas histórias de Gonzaga. Sempre que possível serão lembradas por aqui. Principalmente neste ano do centenário do nosso Rei do Baião, nascido em 13 de dezembro de 1912. Por enquanto, vamos lembrando fatos e divulgando lançamentos que prestam homenagem a Gonzaga, como o disco do Falamansa, “As Sanfonas do Rei”.

O CD em homenagem a Gonzaga

Oitavo disco do Falamansa, o CD “As Sanfonas do Rei” reúne grandes sucessos, além de lembrar outras canções, não menos belas, mas de fases mais obscuras do compositor, nas décadas de 1970 e de 1980, quando a música brasileira já enfrentava as leis mercadológicas de multinacionais que tomaram conta dos programadores musicais em nossas emissoras.

O Falamansa resgata, por exemplo, Xote Ecológico, onde Luiz Gonzaga mostra-se antenado com questões atuais, ao cantar as mazelas provocadas pela poluição. A música é dada como de 1989, ano em que Gonzaga faleceu. Além do repertório, o álbum conta com participações destacadas de Dominguinhos, Elba Ramalho e Janaína Pereira. Vale conhecer, lembrar e, com a banda, reverenciar o mestre Luiz Gonzaga.

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Bom final de semana!

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Jorge Amado ou Luiz Gonzaga?

Imaginem Jorge Amado e Luiz Gonzaga no sambódromo carioca. Junto com eles um imenso show de morenas vindas das praias de Salvador, ou dos belos recantos de Ilhéus, embaladas na avenida pela lembrança do baião pernambucano, misturando forró e samba. Eita! Pernambuco e Bahia, romance e forró! Grandes demais para virem juntos, Jorge Amado e Luiz Gonzaga serão homenageados pelos sambistas cariocas, em escolas distintas.

Luiz Gonzaga nasceu em Exu, Pernambuco, em 13 de dezembro de 1912. Jorge Amado nasceu em Itabuna, Bahia, em 10 de agosto de 1912. Este será um ano de grandes festas e homenagens no centenário desses dois homens, que são motivo de orgulho para todos nós. A escola de samba Unidos da Tijuca virá com “O dia em que toda a realeza desembarcou na avenida para coroar o rei Luiz do Sertão”. Já a Imperatriz Leopoldinense apresentará o enredo “Jorge, Amado Jorge”. Páreo duro para qualquer coração. Como escolher?

Quando criança, muito criança, mamãe cantava enquanto cuidava de mim:

Tava na peneira, eu tava peneirando

Eu tava no namoro, eu tava namorando… 

Lá nos rincões de Minas fui embalado com canções de Luiz Gonzaga. Depois, já adolescente, a literatura entrou definitivamente em minha vida com “Os Capitães da Areia”. Fiquei, desde então, apaixonado pela Bahia, com seus orixás poderosos e sua gente morena. Através da literatura de Jorge Amado sonhei ser escritor.

No próximo desfile das escolas de samba teremos a história desses dois ídolos contadas pelo carnaval do Rio de Janeiro.  Os compositores do samba da Unidos da Tijuca são: Vadinho, Josemar Manfredine, Jorge Callado e Silas Augusto. Certamente terão o samba de enredo comparado com as inesquecíveis criações de Luiz Gonzaga. Já os compositores da Imperatriz Leopoldinense, Jeferson Lima, Ribamar, Alexandre D’Mendes, Cristovão Luiz e Tuninho Professor serão julgados pela capacidade em sintetizar a magia de Jorge Amado nos versos do samba da escola. Um páreo duro, difícil.

O pavilhão da Unidos da Tijuca

O samba, a bateria, as alegorias, as baianas, as passistas; muitos e variados elementos para narrar a trajetória vitoriosa de Jorge Amado e Luiz Gonzaga. Provavelmente serão décimos que decidirão a escola vencedora. E se a dificuldade fosse escolher apenas entre Jorge Amado e Luiz Gonzaga… O carnaval carioca ainda terá Portinari, pela Mocidade Independente de Padre Miguel, e Romero Brito será lembrado pelo G.R.E.S. Renascer de Jacarepaguá, só para ficar nas personalidades que serão homenageadas pelas escolas. Tem mais, muito mais… Vamos torcer para que este seja um grande e inesquecível carnaval.

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Até!

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