O certo é que ninguém sabia de nada por inteiro. Um pouco daqui e uma história de trancoso dali; uma conversa ao pé do fogo e as coisas eram dadas como inteiras. Saber mesmo era vivido, e todos os mais velhos tinham muito o que contar. Volta e meia vinha a mesma questão. Como foram parar naquele pedaço de terra? Com tanto lugar de chuva farta, de chão bom para plantio logo ali, pararam por quê?
Perdeu-se no tempo as miudezas da viagem, o trajeto das mudanças. Tio Horácio gostava de apregoar que quando os portugueses chegaram por aqui não havia cartório. Se alguém se diz dono da terra, esse alguém tomou posse. Dos índios, primeiro. Depois de escravizado fugido que havia parado tentando se estabelecer. Deles mesmo, sabiam que tinham um pedacinho de terra, mas como chegaram… certamente vieram empurrados por alguém.
Dona Carolina, carola de tanto rezar, contava de quando tudo era da Igreja. “Toma conta desse pedaço!”, mandava o rei, lá em Portugal. E esse pedaço era destinado a um padroeiro! São João, Santo Antônio! Um moço sabido, de passagem, ensinou que os reis mandavam e desmandavam, nomeando bispos, cardeais, párocos. Isso era chamado padroado. Desde que os religiosos ficassem pianinho cuidando do povo, fazendo com que obedecessem ao rei. Quando resolveram colocar rei e rainha só em maracatu, fundando a República, isso tudo mudou.
“Os grandes brigam entre si, e se há guerras mandam pobres guerrear por eles. E os vencedores tomam tudo o que presta, e mandam os que antes ocupavam o território catar coquinho onde der”. Quem relatava revoluções e coquinhos era o velho Gaspar, preto velho, sabedor de coisas. “Só viemos parar aqui porque aqui não interessava para ninguém. Deixaram uns e outros pegarem um pedaço de chão seco, duro, mas bom quando chove. E a gente vai levando, dizia”.
Ela ainda hoje se lembra das histórias, dos casos e causos, tudo junto e misturado. Sem luz elétrica, as noites claras de lua cheia e calor intenso favoreciam a lerdeza sobre a rede, cada momento um tomando a palavra, lembrando um que morrera na luta, outro que fora embora. Retirante. Ela não queria ser retirante. O pedaço de chão que tinham era suficiente para a mandioca, o feijão. Também criavam um ou outro bicho útil para alimentar todo mundo. Salgavam a carne, durava mais tempo. Comiam com farofa.
Para a menina estava bem ter aquilo, para ela grande riqueza. Sendo mais velha de muitos irmãos a garota percebia as vantagens de ter algo que era da família, garantia de ter onde dormir, o que comer. Faltava água, a comida não era muita, mas a família era unida tanto na fartura quanto na fome. A menininha intuía naquilo uma grande força. Juntos trabalhavam, juntos colhiam, comiam e, às vezes, passavam forme. Vidas Secas, sabe ela agora, quando Graciliano contou a história dela, de toda gente como a família dela.
A escola chegou. Foi um mundo de coisas que D. Zilda, a primeira professora, contava. Quando terminou o primário não havia o que fazer, mas a menina queria mais, sentia que nos livros estava o mundo para ser descoberto, muito mais para ser desvendado. Se a boa vida era para os espertos, a escola ajudava na esperteza do conhecimento. Era preciso saber ler para fazer escritura, para saber-se realmente dono do que quer que fosse. Saber das novidades quando um jornal aparecia embrulhando coisas ou sob o sovaco de alguém.
Tio Horácio sacudia o jornal para o ar, feliz, apregoando o nome do governante que prometera e que agora iria cumprir. Iam construir um açude tão grande quanto a necessidade de todas as famílias, os donos de sítio, os meeiros e mesmo os ricos, que esses também têm sede. Viriam as máquinas para aprofundar o terreno, viriam os construtores para erguerem as barragens. Seria um açude imenso! E com a ajuda da Padroeira – tudo bem que fora imposta pelo padroado – nunca mais haveria de faltar água. Era deixar a chuva cair, encher o açude e rezar para que a cada estação de inverno o açude fosse abastecido.
O governo cumpriu a notícia e realizou a obra. Ela, bem menina ainda, não sabia que o dinheiro usado por todo e qualquer governo vinha de impostos da terra e do trabalho de gente como a família dela. Quando inauguraram o açude, coisa de Deus ou do Diabo, semanas antes choveu como nunca enchendo tudo, fazendo-a ter ideia do que seria o mar. O dia foi de festa com banda de música, benção de bispo, foguetório e comilança.
As autoridades foram embora e a menina, Luiza, percebeu a mudança brusca do dono do açude. Sim, do dono, pois o governo construíra o açude em latifúndio gigante, tudo terra de um único proprietário. E para poder usar a água, benção da terra e do céu, era como assinar promissória de dever favor ao “dono do açude”. Ai de quem não tocasse a música que ele mandasse! Aquilo não estava certo.
A consciência daquele momento, daquele instante, bateu forte no peito, no coração, no cérebro. De quem é a terra, senão de quem dela cuida e vive? De quem é a água, senão dos deuses das nascentes dos rios, córregos, das nuvens de chuva? Por que um governo constrói na terra de um único, fazendo todos os demais dependentes desse? Aquilo realmente e com certeza não estava certo. Ela iria brigar, dar trabalho para esses pretensos donos de tudo.
Décadas depois, agora com 89 anos, Luiza nos conta que esse fato deu origem à sua trajetória. Ali ela soube que iria lutar pela terra, pelo direito de todo ser humano em ter um pedaço de chão, poder beber e utilizar a água que é bem coletivo. “Começou ali”. Ela tem a memória lúcida, certa. Luiza nunca mais deixou de lutar.
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NOTA: Quase tudo acima é fictício, exceto a realidade das regiões do semiárido nordestino, a construção do açude em terras privadas e essa Luiza ser a Erundina, cujo fato narrado à Chico Pinheiro inspirou este texto. Para os que não a conhecem, começou ali a trajetória da mulher que veio a ser a primeira prefeita da cidade de São Paulo. Atualmente é deputada federal.

Salve, Luiza Erundina! Para ela minha humilde homenagem.



