Dona Assunta, a soprano

Quem frequentava a paróquia já sabia de algumas regras que regiam o local. Havia uma certa hierarquia entre as carolas e os candidatos a beatos. Na ânsia de ganhar o céu, já aqui na terra, havia aqueles que tratavam de marcar presença de maneira inequívoca nas cerimônias litúrgicas e nos festejos adjacentes.

O decoro era fundamental, então nada de roupas justas e curtas para ambos os sexos; que ninguém se atrevesse a incitar o outro com volumes insinuados por debaixo dos panos. Dona Ednéa tratava de garantir a compostura das beatas. Portava sempre uma enorme bolsa e, dentro desta, lenços, véus e até mantilhas. Tudo de cor leve e neutra. Ela não gostava de decotes, saias curtas, peitos exuberantes. Sem pedir licença tirava o necessário da bolsa e limitava-se a dizer, ao colocar o tecido cobrindo a parte evidente: “É preciso estar bem composta!”. Fim da missa recuperava o tecido e passava um sermão nas desinibidas.

Seu Lázaro, já na casa dos setenta, estava sempre vestido com um paletó preto cheio de medalhas de santas e santos. Faria inveja aos militares folclóricos de ditaduras sul-americanas. No pescoço pendurava três fitas com as preferências de sua devoção. Uma, azul, ostentava imensa medalha que parecia um pires com a imagem do sagrado coração de Maria. Outra, vermelha, com o Cristo, o coração sangrando e exposto. A terceira, amarela, tinha uma imagem de São Mateus, o padroeiro dos banqueiros.

Encarregado de receber as ofertas em cada missa, Seu Lázaro tinha comportamento inequívoco conforme a data em cada mês. No primeiro domingo após o quinto dia útil, quando supostamente todos os paroquianos já haviam recebido o salário ele ia, de banco em banco, oferecendo a sacola aberta e olhando firmemente para a cédula dada. Nessa data não aceitava menos que dez reais de um, cinquenta reais de outro. Conhecedor de cada fiel, sabia quem podia dar o quanto ele estipulava. Chegava na frente da “vítima” e sussurrava: “50”! Menos que isso, insistia levantando a voz. Quem iria passar tal vergonha?

Pessoa notória e alvo da inveja de muitos era Dona Assunta. A preferida do pároco, de nome Domênico. Ele havia estipulado lugar fixo para a mulher, no quinto banco, na extrema esquerda do assento, pois de acordo com ele era o local ideal para que Dona Assunta puxasse o canto, segurando ritmo e afinação. Quando ela faltava ele subia ao altar com cara fechada, mal humorado e, sem pestanejar, reclamava quando o cântico não saia bom: “Vocês estão desafinadas!”.

Se cantora de ópera, Dona Assunta seria páreo para Jessie Norman, Maria Callas. Cantava com a força necessária para garantir a audição de todos não só nas cerimônias internas, mas nas procissões onde reinava absoluta. Podia atrasar o quanto fosse – e contam que em algumas ocasiões atrasou para mostrar seu poder – que o padre não tirava o pé do lugar, chamando por ela com seu megafone. “Dona Assunta já chegou? Quando ela chegar a procissão sai”. O recorde de atraso da beata foi de uma hora e dez minutos.

Dona Assunta tinha uma inimiga não declarada, Dona Tereza. Com voz miúda e sem graça, ela ardia de inveja da outra, fato confessado por ela, o que deixava o Padre Domênico irritado. Era sagrado, uma vez por semana lá estava Dona Tereza ajoelhada no confessionário contando desejar que a outra ficasse rouca, engasgasse, ficasse muda. Após cada confissão de Tereza era o padre quem sentia necessidade de também se confessar, cheio de raiva da pecadora reincidente.

Noite de Natal, a paróquia de Santa Luzia resolveu reativar a velha tradição da missa do galo, à meia-noite. Tudo deveria correr bem! As mulheres bem compostas com seus trajes noturnos, os homens com as notas separadas conforme o aviso de Lázaro, que não queria demora na recolha do dindim. Todavia, na hora da missa, Dona Tereza não escondia ser aquela a sua noite feliz. Dona Assunta não chegou. Marcada para iniciar às 23h00, passados trinta minutos da meia-noite o burburinho aumentou, a pressão venceu e o padre iniciou a missa sem sua cantora preferida.

Dez quadras dali, Dona Assunta havia enfrentado um entrevero com o marido que, sonolento, se recusou a sair de casa. Ela o deixou, ciente de sua importância na cerimônia de gala. Caminhando pela rua com seu porte volumoso, italiana que era cheia de dotes, foi abordada por um gatuno querendo levar-lhe a bolsa. Nesta estava um escapulário, presente do padre, e uma medalha benta pelo próprio Papa, ela acreditava. Entrou em luta com o assaltante e levou a melhor, mantendo a bolsa, mas ficando com o vestido rasgado, o cabelo desgrenhado, o rosto arranhado.

Após a comunhão era hábito do padre pedir uma canção à Dona Assunta. Sem esconder a frustração, ele informou que faria a benção final dada à ausência da cantora. E iniciou a benção quando, lá de fora se ouviu um poderoso “noite feliz, noite feliz”. E Dona Assunta entrou, recomposta, poderosa feito a soprano Montserrat Caballé. Só justificaria ao padre o motivo do atraso. Ao passar por Dona Teresa respondeu com desdém ao olhar de inveja da outra. E seguiu até seu lugar, de onde ordenou ao menino Deus: “Dorme em paz, ó Jesus!”.

Valdo Resende

Dez/2024

Nota: imagem criada com IA.

O Museu do Theatro Municipal sintetiza a cultura paulistana

Em tempos de chuva, uma tarde ou manhã no museu é garantia de passeio tranqüilo e divertido. De quebra, aprende-se muito. Sob o Viaduto do Chá há, por enquanto, duas instituições fundamentais para a vida cultural de São Paulo: a Escola Municipal de Bailados e o Museu do Theatro Municipal. Por enquanto, pois logo estarão em outro espaço, em construção, no Vale do Anhangabaú. Uma dica para o final de semana: conhecer ou visitar o Museu do Theatro Municipal.

A atual exposição, “Museu do Theatro Municipal Ícone e Memória”, possibilita uma ampla viagem. Há a lembrança de eventos como a “Semana de 1922” e de grandes montagens e apresentações marcantes de companhias nacionais e estrangeiras. A mostra evidencia, através de painéis e de objetos pertinentes ao universo do espetáculo cênico, a história da cultura paulistana pelos mais de 100 anos da história do principal teatro da cidade.

As visitas ao museu podem ser feitas de terça a domingo, das 10h às 18h e o espaço ainda oferece a oportunidade para pesquisadores, de terça a sexta, das 10h às 17h. Procurei sintetizar em imagens os principais itens da exposição em cartaz. Um estímulo e um convite para este mês de férias.

Começando pela música, forma artística primordial na história do Theatro Municipal. A ópera é reverenciada com fotos dos principais cantores líricos que se apresentaram no palco do Municipal. Também maestros, instrumentistas diversos, orquestras e cantores de jazz estão presentes.

Uma síntese dos principais itens pertinentes à ópera pode ser lida, em pequeno glossário exposto. Há também grandes vitrines com croquis de vestuários feitos especialmente para as montagens da casa; além das próprias peças confeccionadas, há  adereços diversos que evidenciam o trabalho cuidadoso de profissionais que atuam nos bastidores dos grandes espetáculos.

De um espetáculo teatral, uma ópera ou um balé participam iluminadores, engenheiros de som, arquitetos e cenógrafos, além de muitos outros, conforme a necessidade da montagem em questão. Assim, outros grandes expoentes da arte brasileira estão presentes, como exemplo, nas maquetes que estão na exposição: as cores empregadas pelo cenógrafo Carlos Jacchieri, na ópera Werther, de Massenet, contrastam com a obra limpa da pintora Tomie Othake, descrita abaixo.

O balé é outra forma com participação marcante na história do Municipal. A Escola Municipal de bailados surgiu para garantir a presença de bailarinos acompanhando os espetáculos de grandes estrelas. Hoje, o Municipal tem corpo estável de baile, ou seja, companhias com vida própria, trabalho criativo. Pelo palco paulistano passaram as maiores estrelas do balé mundial.

Vitrines com os principais cartazes criados para os eventos produzidos, ou apresentados no Municipal permitem a avaliação dos avanços e das transformações do design nos últimos cem anos. Nestes também a presença de trabalhos realizados por grandes artistas gráficos ou outros, pintores, que deixaram seu talento registrado em produções do Theatro Municipal.

Finalmente, mas não menos importante, o teatro em si. A exposição “Museu do Theatro Municipal Ícone e Memória” reverencia os maiores nomes do teatro brasileiro. Procópio Ferreira, Itália Fausta, Fernanda Montenegro, Paulo Autran e Maria Della Costa estão entre os grandes ícones do teatro brasileiro. Há lembranças da passagem de astros estrangeiros como Vivien Leigh, que prestigiaram o palco da cidade.

A exposição está aí. Visite antes que acabe. O museu tem previsão de ser fechado no final do mês, quando será transferido para uma única sala, segundo informou uma funcionária da instituição: “O prefeito Kassab está acabando com tudo; o museu ficará em um espaço mínimo e certamente não teremos exposições como esta.”

O museu aguarda sua visita!

Bom final de semana.

Nota: As fotos originais tem seus respectivos autores; aqui, realizei montagens fotografando os painéis expostos, além de registrar algumas imagens do local.