Quando começam as aulas?

Considero uma boa sorte ter ido para a escola aos sete anos. Os anos antecedentes me permitiram acordar com a casa em atividade, na cama chegando os sons e cheiros da cozinha, entremeados pelas vozes e canções vindas do rádio. Então caçula, dividia as manhãs com meus pais, os irmãos todos já estudando.

Mamãe tinha modo peculiar de me acordar, regulando o horário pelas novelas do rádio: “Cidinho! A novela das 10h já vai começar!” Acordar cedo, bem cedinho, só quando havia brinquedo novo, invariavelmente feito pelas mãos de meu pai. Papai, com espírito de professor Pardal, criava brinquedos. Guardo com precisão o olhar brilhante dele, satisfeito, vendo-me brincar com cada novidade.

Final da manhã voltavam da escola meu irmão mais velho mais as minhas três irmãs. A casa cheia, barulhenta, viva de atividades corriqueiras só quebradas no tempo de férias. Terminadas essas, começavam os preparativos para a escola. Uniformes, bolsas e mochilas, cadernos e livros. Um universo que precisei esperar para participar, o que veio a ocorrer só aos sete anos. Não tinha ideia do que eram férias, pois a vida era feita de tempo livre, visitas aos parentes, aos meus avós e viagens ocasionais. Única diferença era, nas férias, todos fazerem tudo juntos.

A rotina restaurada com o início do ano, em dia determinado e munida de listas enormes mamãe ia às compras. Voltava com um tesouro enorme, feito de canetas azuis e vermelhas, caixas de lápis de cor, compassos, esquadros, apontadores, cadernos de desenho e livros, muitos livros. Nada para o caçula que, com olhar invejoso, queria um caderno pra rabiscar, lápis coloridos para brincar. Ato contínuo, era de mamãe a tarefa de encapar os cadernos. Alguns com papel pardo, identificados em seguida pela letra de minha mãe, bonita e caprichada. Outros eram recobertos com plástico azul, transparente, bonitos de aumentar a inveja do caçula.

A escola era local cheio de histórias e aventuras. Surgiram nomes de professoras, primeiros amigos e desafetos dos irmãos. E os nomes das escolas iniciais: Guerra Junqueiro, Juscelino Kubitschek. Hoje me pergunto a razão para nomear uma escola no interior mineiro com o nome do poeta português… Vai saber! Juscelino era nome quase familiar. Em casa de mineiro era comum encontrar nas paredes retratos do governador, do presidente, todo pimpão e engalanado.

Desejei muito ir para a escola. Achava meu irmão muito bonito com seu uniforme, e queria uma pasta, de couro, com alça e fechos metálicos. Gostava dos casos trazidos por minhas irmãs e, único medo, receava ter que tomar vacina, já que eram dez agulhadas no braço da criança que voltava cheia de lágrimas para casa.  Ansioso, antes da escola rabisquei a primeira palavra no chão do quintal: Bino! E, foi assim que, aguardando com muita vontade, o dia chegou.

Os tempos são outros, as necessidades estão aí; as exigências de um mercado que absorveu pai e mãe também são realidade. Há um bom tempo que as crianças são colocadas, ainda bebês, em creches, pré-escolas. Nas grandes cidades os quintais são espaços de gente abastada. A escola, aquele lugar do sonho das crianças do meu tempo não existe mais. Parece que o prazer de aprender e fazer parte da escola foi substituído pela ânsia em formar, preparar para o mundo, garantir o futuro. Estar apto para concorrer!

Hoje sou capaz de perceber o quanto aprendi antes da pré-escola.  Poderia enumerar as atividades domésticas, plenas em aprendizado obtido na vivência, na observação. Por aqui, quero registrar exemplos de quando, ao lado do meu avô descobri o prazer de cultivar horta, cuidar de parreira, descobrir a origem do café comendo a fruta vermelha, porque madura, tirada do pé, muito doce e saborosa. Vi na oficina, papai criando dobradiças para porteiras, construindo portões para quintais e jardins, produzindo ferraduras e colocando-as nos cavalos, pacientes, bem ali no nosso quintal. Via com curiosidade a criação de porcos e galinhas, e recordo festas no trabalho conjunto de meus pais e vizinhos, quando um imenso porco era transformado em banha, linguiças e outros derivados do porquinho.

Mais que aprender por observação sobre as etapas de uma “pamonhada”, ou do trivial arroz com feijão, a faxina da casa, a organização de armários, a maior dádiva de estar em casa foi o convívio com meus pais, minha família. Convivência! Essa necessidade humana de estar e viver preferencialmente em harmonia. Até onde a pré-escola consegue resolver a questão da harmonia em convivência forçada é outra história. Creio que o maior desafio seja tornar a escola um lugar de desejo, esse mesmo desejo que nos leva a amar e valorizar as etapas e conquistas das nossas vidas.

Bom início de aulas para alunos e professores!

Nada mais universal que a memória


Por Flávio Monteiro

O livro “O vai e vem da memória” é uma coleção de crônicas e contos escritos por Valdo Resende sobre sua querida cidade natal, Uberaba, durante vários anos de vai-e-vens entre esta e São Paulo, onde fixou residência.

Os textos foram organizados sem ordem cronológica, hierarquias de importância ou grupos temáticos; assim como a memória, os textos fluem livremente e estabelecem entre si conexões, prováveis ou não.

O mesmo mecanismo da memória se manifesta, também, com fragmentos do texto que dá nome ao livro distribuídos como um quebra-cabeça ao longo de toda a obra, e diversas fotos que hora lembram textos passados, hora antecipam leituras posteriores. Vai e vem dos textos, das fotos… E da memória.

O leitor de Uberaba certamente vai se reconhecer nestas páginas, escritas de longe e de perto da cidade. O de São Paulo, talvez maior símbolo da (i)migração no Brasil – Paulicéia desvairada -, vai se identificar com tantas histórias sobre uma cidade que será sempre sua, ainda que o tempo transforme e afaste ambos. E os leitores do mundo terão um livro particular, porém universal – pois nada mais universal que a memória.

Serviço

O vai e vem da memória – Valdo Resende
Elipse, Arte e Afins Ltda.
312 páginas – R$ 65,00
Lançamento: 27 de novembro/2021 – 16h00
Barroco Arte Café – Rua João Pinheiro, 213 – Uberaba – MG

Memórias de Assis, o Santo e a Cidade

São Francisco, de Cimabue, em trabalho recriado por João Gilberto Falioni

Um dia estive em Assis. Queria conhecer a cidade do Santo, que conheci melhor e passei a amar depois de ver Irmão Sol, Irmã Lua, o filme de Zeffirelli.  É encantadora a história do jovem que renega os bens (Abaixo o capitalismo!) e abandona o conforto da casa paterna para cuidar dos mais necessitados (de forma similar ao Pe. Lancellotti). Que bom perceber que há “Franciscos” por aí!

No inverno italiano o bicho pega e só por isso recusamos visitar a Ilha de Capri. Água e chuva… Melhor seria ir atrás do sonho e conhecer a cidade do santo. Uma pequena aventura! Por conta do frio as excursões para Assis estavam suspensas e minha irmã Walcenis fazendo a linha “um brasileiro não desiste nunca” decidiu que iríamos de trem. – Qual o problema?

Que tal começar pela Stazione Termini, uma das maiores da Europa? “Íntimos” da cidade, tomamos o TRAM, tipo metrô de superfície, em seguida o metrô que nos deixou na Termini. Acostumados com as pequenas estações da Ferrovia Mogiana, nossa principal referência de viagens de trem, o primeiro susto veio com a quantidade de bilheterias. Se você não pegar uma senha, ninguém te responde e um italiano com frio, talvez por isso com humor gelado, indicou-nos, literalmente, qualquer uma entre as bilheterias. Ok! Solícito, um bilheteiro falou com a velocidade de uma metralhadora giratória. O trem estava de saída, era o único e a plataforma era… Algo para ser descoberto entre 32 plataformas!! Ah! Teríamos uma baldeação em Bérgamo.

Poxa, lá em Uberaba temos uma plataforma. São quatro na nossa querida estação da Luz, aqui em São Paulo. Aquelas centenas de plaquinhas, com dezenas de horários e destinos em cada uma delas, a gente com Assis na cabeça, mas procurando Bérgamo, onde tomaríamos outro trem para nosso destino. Tudo falado entre nós como se estivéssemos em casa! Vamos pegar qualquer fila, atravessar as roletas, sair atrás do trem, vamos perder essa merda… – Eu sei qual a estação. Mostro para vocês, disse uma brasileira sobre quem nada sabemos. Não deu tempo, exceto de agradecer.

Qual trem tomamos? Não sei. Qual o destino desse trem? Quem se importa, desde que ele nos deixasse, como o fez, em Bérgamo? A baldeação foi rápida e, no segundo trem rumo ao nosso destino estava uma australiana. Eu já era rabugento, do tipo não gosto de conversar com estranhos. Walcenis deu papo para, em seguida, ameaçar um bate-boca quando a moça, daqui pra frente nomeada imbecil ignorante disse não saber nada sobre o Brasil. O que é? Onde fica? O que você faz, senão rir, quando uma brasileira irada, minha irmã, resolve mostrar amor pela pátria frente à turista imbecil…

A Toscana é uma região linda até sob intenso frio. A estação de trens fica longe da cidadezinha e, mais um micro-ônibus que – Santa Clara! – começa a caminhar sob chuva. Sob chuva fina, fria, chegamos na cidade que, lamento a comparação, é uma Aparecida do Norte medieval. Ou seja, alguma religião e muito comércio. Todavia, graças a esse fomos atrás de um guarda-chuva. Outra brasileira no pedaço, daquele tipo que viaja para comprar coisas… – Há uma loja ali com preços melhores, nos informou com uma imagem do santo em mãos.

O túmulo de Francisco, circundado pelos túmulos de seus primeiros companheiros de Ordem.

Lembro um antigo templo grego tornado igreja – Santa Maria sopra Minerva – e depois um teatro, com o mesmo nome da praça, “Comune”. A casa onde morou São Francisco, cheia de histórias, precedeu nossa chegada à Basílica de Santa Clara. A santinha não, falhou:

Santa Clara, clareai

São Domingo alumiai

Sai chuva, vem sol

Sai chuva, vem sol…

As clarissas, freiras enclausuradas, herdeiras da missão de Clara, amiga pessoal de Francisco, são silenciosas, delicadas. O corpo da Santa está exposto em urna de vidro em área central da igreja, construída em 1257, com simplicidade que remete ao que ambos os santos pregaram. Ao fundo está a clausura e lá se tem contato com as irmãs, com seus pesados hábitos de inverno. Caminhando lentamente se aproximam perguntando apenas o país de origem do visitante para, em seguida, voltar ao fundo da sala para buscar lembranças gratuitas: “santinhos” impressos na língua do visitante. A tal brasileira, a das compras, estava lá. E perguntou para uma das donas da casa: – Quem é aquela ali na urna?

A Basílica de São Francisco, com duas naves sobrepostas, impressiona bastante. Gosto de pensar que a pintura de Cimabue retrata o santo com “fidelidade” e procurei trazer o máximo possível das imagens de Giotto contando passagens da vida de São Francisco. Contudo, nada impressionou mais que a visita à cripta do grande prédio onde está a tumba do santo e mais, outros quatro túmulos de amigos, primeiros franciscanos: Rufino, Angelo, Masseo e Leone. É poético, mais que qualquer coisa. E talvez por fixar ali os ideais do criador e dos primeiros seguidores da Ordem Franciscana, sente-se uma aura diferenciada, inesquecível.

Dia 4 de outubro. Dia de São Francisco. Bom lembrar e, mais que isso, cabe pensar no que é possível de São Francisco para se viver em nossos dias. Nada muito heroico ou impossível. É, para dizer o mínimo, dar uma força ao Padre Julio Lancellotti, por exemplo. Ou então, ouvir o que o Papa Chiquinho tem pra nos dizer. Não, não é erro nem intimidade forçada. Esse tal Francisco, que está em Roma, é digno representante do Santo e, por isso, lhe cai bem um Chiquinho! Bem carinhoso, como eu gostaria de me dirigir ao Santo, caso tivesse a oportunidade de encontrá-lo.

Boa semana!