
Quem mais se irrita quando apresentadores de telejornal dizem que “o mercado reagiu” a determinada situação? O mercado oscila, sobe, desce como ser vivo absolutamente dotado de vontade e determinação. O mesmo pode ser dito sobre a bolsa; não aquela da vovozinha querida que carrega doces e balas, mas uma outra, tenebrosa, que é domínio de investidores e economistas. O mercado, a bolsa, são expressões utilizadas pelo jornalismo que esconde os reais autores das altas da gasolina, do arroz, de tudo o mais.
Quis o destino que eu trabalhasse com um expoente do mercado e daí, toda vez que Dona Lo Prete me aparece com as condutas do “mercado”, recordo antigo patrão que tive lá pelos anos 80 do século passado. Era um sujeito interessantíssimo! Chegava bem cedo ao local de trabalho, munido de uma escova de dentes sem creme, sem nada. Passava uma hora ou mais escovando nervosamente os dentes, ritual repetido após o almoço. Era dono de dentes espetaculares e de uma garganta poderosa. Nunca usou interfone; gritava de sua sala para todo e qualquer setor da empresa.
O mercado, no caso: Uma imensa companhia, de uma única família que detinha uma das principais atacadistas brasileiras de tecidos, além de roupas e enxoval de cama, mesa e banho. Centrada em São Paulo, a empresa era dona de inúmeros prédios na região da Rua 25 de Março e possuía filiais em todas as regiões do país. Eu era funcionário do departamento de faturamento, um setor que, na real, controlava o sobe, nunca o desce, dos preços praticados pela empresa. O setor controlava é eufemismo, já que era o patrão quem cotidianamente subia os preços das mercadorias disponíveis.
Com mais três pessoas no setor tínhamos em arquivos uma quantidade imensa de fichas, cada uma destinada a um produto específico, com a quantidade disponível e o histórico dele dentro das lojas. Uma, às vezes duas vezes por semana, éramos chamados pelo patrão para remarcar os preços de uma categoria ou mais de produtos. Sempre para cima! Alterava-se dois, três centavos no metro do tecido ou da peça industrializada. Um trabalho insano, pois os responsáveis pelas vendas e pela elaboração das notas fiscais careciam de atenção máxima o tempo todo.
Vai saber o motivo das altas determinadas pelo patrão! Poderia ser algo no Oriente Médio, por exemplo. Um fato hilário: De origem síria, houve lá para aquelas bandas um quiproquó que carecia de manifestação da raça. O patrão não titubeou em descer as portas das lojas da empresa POR UM MINUTO, em protesto pelo problema de lá. Demorou-se mais para o fechar e abrir que o protesto em si. Mas foi uma reação do mercado, concordam? Tanto é que nesse dia, alterado e tenso, o patrão tratou de remarcar os preços de todos os produtos da empresa.
Outra manifestação do “mercado” ocorreu em consequência de uma mudança no trânsito. Quem anda pela região da 25 de Março sabe que a grande maioria das lojas são de “porta na rua”, sem estacionamentos ou pátios para carga e descarga. Nas ruas paralelas à famosa via que nomina a região utiliza-se a própria rua como estacionamento para as manobras necessárias. Até que um dia, pela madrugada, vieram funcionários do departamento de trânsito mudando tudo. Inverteram o sentido da rua e colocaram placas proibindo o estacionamento. O “mercado” reagiria violentamente!
Enlouquecido, a escova de dentes largada sobre a mesa, o mercado, ops, o patrão gritava ao telefone feito possesso. Sem perder tempo com arraia miúda – leia-se diretoria de trânsito e prefeitura – a ligação foi direta para o governador do Estado: “Escuta aqui, seu moleque, vagabundo! Quem mandou você fazer isso? Quem você pensa que é para mudar a minha rua? Vagabundo, ordinário, quem foi que te colocou aí? Quem paga a tua campanha?” Lembro-me bem que o moleque vagabundo, caso não estivesse informado, não tinha chance de saber que a chamada ocorria por conta da mudança no trânsito da rua.
Foi divertido ouvir o achincalhamento do governador e tivemos a certeza do real poder na situação quando, menos de uma hora depois, placas eram retiradas e tudo o mais voltando ao que estava antes. Já desconfiávamos que o “mercado” fazia o que bem entendia em toda e qualquer situação. Por exemplo: evitando pagar modelos profissionais, eu e uma colega, Neusa, magros e altos, éramos chamados para vestir as roupas que tentavam colocar no catálogo da companhia. Nós, sem atentar para o desvio de função, achávamos ótimo brincar de modelo, vestindo e nos exibindo para o fulano decidir se comprava ou não.
Bom salientar que o mercado nunca está só. No nosso caso eram três irmãos. O mais velho, o dos dentes perfeitos, decidia compras, vendas, preços. O segundo cuidava do dinheiro. Certamente estava entre os que fazem a “bolsa” rebolar sem o som da bateria de uma escola de samba. O terceiro, caçula da família cujas irmãs não apareciam por lá, era responsável pelas ações sociais da empresa, no caso, alugando apartamentos para os funcionários por valores bem acima do que recebiam, mas com a certeza de ter o olho da rua como resultado de inadimplência.
Em um dia de 1982 morreu Elis Regina. Soubemos durante o horário de almoço e voltamos ao trabalho consternados e tristes. O patrão, sabe-se lá por qual motivo, terminou o dia com mais uma remarcação de preços. Naquela noite nossa imprensa se esbaldou nos prováveis motivos que causaram a morte de Elis. Uma profundidade que nunca chega perto da “instabilidade na Argentina” levando o “mercado” à uma alta dos preços.
Ah, para concluir, se Dona Lo Prete não dá nome ao “mercado”, por que eu diria o nome do meu patrão? Mas, saibam, tem nome e sobrenome aqueles que sobem os preços, os juros e o que mais ferra a vida do trabalhador.
Até mais!

