Uma Estreia em Sapopemba

 

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Neusa de Souza, Roberto Arduin, Conrado Sardinha, Rogério Barsan e Isadora Petrin. Foto: João Caldas

Dia 12 próximo vamos estrear UM PRESENTE PARA RAMIRO em Sapopemba. São Paulo é uma cidade imensa e, por exemplo, só estive uma única vez em Jaçanã, nunca estive no bairro Cangaíba e o Grajaú continua sendo, na minha cabeça, citação de canção interpretada por Carmen Miranda. Não conheço o Sapopemba e lá vou eu, certamente “com a roupa encharcada, a alma repleta de chão”.

Eu estava com 26 anos quando Milton Nascimento gravou Nos Bailes da Vida, a belíssima canção feita em parceria com Fernando Brant. Tateando profissionalmente eu tinha um imenso desejo: seguir firme no propósito de que “todo artista tem de ir aonde o povo está”.  Havia começado assim, lá em Uberaba, com o grupo da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, quando comecei a fazer teatro. Meu primeiro palco foram mesas encostadas umas nas outras e, tempos depois, percorríamos os bairros da cidade no Circo do Povo.  Depois vim para Santo André, no ABC, e o destino quis que meu primeiro trabalho fosse em palco e plateia improvisados na Vila Luzita.

Minha trajetória teatral tem estreias incomuns se considerarmos a carreira de autores e diretores nacionais. Sapopemba entra no capítulo em que já se encontram outras localidades.

Castanhal, no Pará, fica a 68 quilômetros da capital, Belém. E foi lá a estreia de VAI QUE É BOM, O CASAMENTO DO PARÁ COM O MARANHÃO, peça que fez extensa temporada em cidades dos dois estados do título.

Prata, no Pontal do Triângulo Mineiro, foi a cidade que recebeu a estreia de “O ATAQUE DOS TITANOSSAUROS”, abrindo a série de estreias do Arte Na Comunidade 2, com textos que escrevi, dirigindo montagens também em Canápolis, Ituiutaba e Monte Alegre de Minas.

Do litoral guardo com carinho um local aparentemente inusitado, a Casa de Frontaria Azulejada, onde estreamos “NENÊ CAMBUQUIRA, UM MINEIRO EM SANTOS” e depois fomos para praças públicas e escolas dos municípios de Praia Grande, Guarujá, São Vicente, Cubatão e, claro, a própria Santos. Em cada cidade uma estreia, um espetáculo diferente.

Pará, Maranhão, Minas Gerais, Baixada Santista, Vale do Paraíba… Sempre com Sonia Kavantan! Em projetos como o Arte na Comunidade há uma viagem preliminar, onde fazemos reconhecimento básico dos locais onde poderão ocorrer nossas apresentações. Com Sonia já estive em uma pequena cidade onde, sem restaurante, viajamos 50 quilômetros para um simples almoço. De outra feita, recordo a estradinha entre a linha de trem e o Rio Paraíba, uma ponte sobre o rio e, no outro lado, um salão onde encerraríamos o nosso trabalho na região. As estreias, no Vale do Paraíba, ocorreram em salas de aula das cidades de Cruzeiro, Lavrinhas e Queluz.

São muitos os teatros na região central da cidade e na Bela Vista, onde moro, há quantidade suficiente para que alguns entusiastas a chamem de Broadway Paulistana. Tendo já me apresentado na vizinhança, nunca estreei no Bixiga. Sabe-se lá o que nos reserva o futuro, por enquanto nosso destino é a Fábrica de Cultura de Sapopemba (R. Augustin Luberti, 300 – Fazenda da Juta, São Paulo – SP).

Sonia Kavantan, ao que tudo indica, não pensa em parar e muito menos eu. Para onde iremos da próxima vez? Deixa a resposta para depois. Toda nossa energia agora vai para Sapopemba! Para lá irão Rogério Barsan e Conrado Sardinha, com quem já dividimos outras praças e palcos e, também, Roberto Arduin, Neusa de Souza e Isadora Petrin, novos companheiros de jornada. Em Sapopemba cantaremos canções de Flávio Monteiro, que começou conosco trabalhando uma canção de Milton Nascimento, esse Milton que não me sai da cabeça à cada Sapopemba da minha vida: “Se foi assim, assim será, cantando me desfaço e não me canso de viver, nem de cantar”.

Até mais!

SERVIÇO:

“Um Presente Para Ramiro” será apresentado na Fábrica de Cultura  Sapopemba, dia 12 de outubro, às 16h30. ““Ramiro, ao completar 12 anos, aprende , com a ajuda da família, que para realizar os desejos e necessidades é necessário organização e planejamento. Com muito humor e com ajuda da imaginação e da tecnologia o garoto viaja no tempo e tem um aniversário bem diferente”. Classificação livre. Entrada Franca. 290 ingressos serão distribuidos gratuitamente uma hora antes do evento. Patrocinado pela Visa, “Um Presente Para Ramiro” é uma realização da Kavantan, Projetos e Eventos Culturais, Ministério da Cultura e Governo Federal.

 

Inhotim, Arte Contemporânea em Minas Gerais

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Inhotim reúne botânica, arquitetura e arte contemporânea

Quem primeiro me falou sobre Inhotim? Será que li em alguma revista, jornal? Fica lá em Minas Gerais; “um grande museu a céu aberto” foi a expressão mais frequente e, obviamente, gerando possibilidades visionárias partindo-se do que entendemos por museu, por obras expostas em espaços abertos, públicos ou privados. Depois vieram outras informações: o local, imenso, tem a arte contemporânea como prioridade e jardins inspirados em ideias de Burle Marx.

Inhotim está no município de Brumadinho, a sessenta quilômetros de Belo Horizonte. A cidade é banhada pelo Rio Paraopeba, cujo vale serpenteia pela Serra do Rola Moça. Sim, a mesma Rola Moça imortalizada no poema de Mário de Andrade. Serra e rio são responsáveis pela bruma que deu origem ao nome do local. Tanto a cidade quanto Inhotim, volta e meia, estão envoltas em neblina suave. No verão, constatado, chove muito.

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Detalhe da galeria Adriana Varejão

Ficou no tempo o motivo de não ter ido a Inhotim na primeira tentativa; na segunda, foram chuvas fortes por toda Minas Gerais, danificando as estradas e causando caos temporário. Neste janeiro foi possível visitar o Instituto Inhotim. Houve chuva no primeiro dia; um mero detalhe que contribuiu para deixar o local mais bonito.

Inhotim concretiza em um único espaço três áreas absolutamente distintas e totalmente entrelaçadas: Botânica (floresta e jardim), arquitetura e arte contemporânea ocupando uma área de 110 hectares. A beleza exuberante explode ao primeiro contato e a primeira constatação é que o tempo destinado à visitação do local deve ser grande.

Flores e folhagens, árvores de pequeno e grande porte, gramíneas e parasitas formam o entorno de obras, galerias e demais construções do Instituto. Brilhantes sob a chuva, as plantas exalam perfumes distintos, suaves e, sem chuva permitem a visão de pássaros, borboletas, entre outros, que colaboram para a beleza do lugar. Caminhando pelo meio da floresta ou percorrendo vias pavimentadas (a distância pode ser suavizada utilizando-se carros elétricos que transportam visitantes entre os principais pontos do local) chega-se a pavilhões cuja arquitetura harmoniza com o ambiente.

É possível caminhar livremente por todo o espaço ou, então, seguir o mapa fornecido pela instituição e percorrer, no mínimo, três eixos distintos: O eixo laranja é tão grande quanto o eixo rosa. No amarelo concentram-se serviços locais como restaurantes, lojas e outros. Tudo com uma atenciosa recepção dos funcionários que só faz valorizar a tradicional hospitalidade mineira.

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Da série Portret ale Medeii, 1979, de Geta Bratescu

Nos próximos posts volto ao tema. Para falar de Tunga, Adriana Varejão, Cildo Meireles, Doug Aitken, Hélio Oiticica… E até do significado da palavra Inhotim. Por enquanto, quero terminar este texto homenageando Bernardo de Mello Paz, o idealizador de Inhotim. Um mineiro nascido em Belo Horizonte que transformou o próprio sonho em realidade. Minas Gerais, já  reconhecida pela arte colonial de suas cidades históricas, pela literatura de Guimarães Rosa, a poesia de Drummond de Andrade ou pela música de Milton Nascimento, entrou, com Inhotim, para o seleto grupo dos grandes centros mundiais da arte contemporânea.

Obrigado, senhor Bernardo Paz!

Uma canção com Elis Regina

Ouvir Elis Regina é um grande privilégio. Os meios de reprodução do som garantem a qualidade e a sobrevivência da arte daquela que está entre as maiores cantoras de todos os tempos. Hoje, 19 de janeiro, lembramos a morte da cantora, em 1982, e no dia 17 de março o seu nascimento (1945).

É difícil escolher qual a melhor interpretação de Elis. Optei por fazer uma pequena homenagem através da gravação que ela fez, cantando com Milton Nascimento, de “O Que Foi Feito Deverá” (Milton Nascimento e Fernando Brant).

Ao invés de propagar que o Brasil não tem memória, sugiro e peço aos que por aqui passam que escolham e postem uma canção, entre tantas gravadas por Elis para manter viva a memória dessa grande cantora brasileira.

Até mais!

Elis Regina no Carnaval de São Paulo

O carnaval de São Paulo e Rio de Janeiro já tornou público o resultado dos desfiles. Vai-Vai e Beija-Flor são as escolas de samba campeãs do carnaval de 2015. Trabalhando no sambódromo paulistano, pouco vi dos desfiles no Rio, exceto alguns momentos e, entre esses, tive o privilégio de assistir a apresentação da comissão de frente da Salgueiro. Algo para guardar “no lado esquerdo do peito”.

A citação de “Canção da América”, acima, não é por acaso. O ápice do samba de enredo da Vai-Vai, campeã paulista, é um vocalise de “Maria, Maria” cantada de forma emocionante pela plateia presente. As duas canções são de Milton Nascimento e Fernando Brant. Elis Regina, mais uma vez, foi devidamente homenageada pelo povo de São Paulo.

O embate no Sambódromo paulistano foi duro. Dragões da Real, Acadêmicos do Tucuruvi e Gaviões da Fiel estão entre as escolas memoráveis deste carnaval. O embate maior foi entre a Vai-Vai, com enredo homenageando Elis Regina e a Mocidade Alegre que levou Marília Pêra para receber merecidos aplausos pela longa e brilhante carreira.

Vou ficar nas duas mulheres. Duas grandes estrelas. Levarei por todo o sempre a lembrança de Marília Pêra, soberba, acenando e agradecendo ao público. Estava linda, majestosa, buscando dirigir-se para todas as direções, saudando toda a plateia. Uma mulher e tanto! Uma atriz cujos trabalhos e personagens identificavam carros alegóricos e alas inteiras.

Lá pelas tantas da madrugada anunciaram a entrada da Vai-Vai. A voz de Elis Regina tomou conta do ambiente e só depois entrou o samba de enredo. Não mostraram toda a cena na TV. A televisão busca “famosos” e “desnudos”, irritando muito ao colocar um espectador qualquer ou uma agressiva e desrespeitosa mensagem comercial enquanto passa uma escola. Gravei, mesmo que precariamente, para presentear uma amiga e pude registrar os momentos iniciais quando, mesmo com a passarela vazia, reviveu-se o mito e Elis Regina tomou conta do Sambódromo.

Creio que Marília Pera, sábia como é, deve estar feliz com a disputa, ponto a ponto, com Elis Regina. Penso que a cantora Marília reverencie a cantora Elis e a memória de tudo o que ela representa para o Brasil. Espero que passadas as emoções do resultado permaneça o reconhecimento de toda São Paulo para com a grande cantora brasileira.

O vídeo acima registra o momento em que os portões do Sambódromo foram abertos e a Vai-Vai cantou, com todo o povo, “Simplesmente Elis – A fábula de uma voz na transversal do tempo”.  O próximo, para terminar este post, registra a passagem de Elis, ao lado de Adoniran Barbosa, pelas ruas da Bela Vista, o nosso adorado Bexiga.

E agora sim, passado o carnaval, Feliz Ano Novo!

Até mais.

ELIPSE (Abecedário do Vava)

Αcalanto para o mundo,

Coro à capela, 59 velas acesas.

Graças, bom Deus, pela minha vida.

 Boa Vista, Bela Vista.

Nasci no Boa, na Bela moro.

Vista. Nem bela, nem boa: uso óculos.

Confiança e carinho

Meus pais, meus irmãos…

Afeto pouco é bobagem.

 Desafio: Desvelem-me!

Nem sei quem sou.

Faço-me em palavras e constato:

São só palavras.

Entreatos alegres,

Entreatos dolorosos

E a vida segue seu curso,

Feiticeiros nada transformam.

Cartas escondem causas, motivos.

E as mãos, calejadas, emitem sinais obscenos.

gemeos

 – Help!

E os Beatles repetiam: – Heeeeeelp!

Não entendia patavina.

Sabe-se lá de onde vem – e fica – a paixão.

“When I was Young…”

Íntimo; o ser com quem falo.

Uma voz jamais exteriorizada

Muitas, muitas intenções!

Tai o porquê de infernos.

Jaculatória para Aurora,

Joãozim, Bino e Donei…

Por todos os que se foram!

Pelo-sinal, guarde-os. Amém.

Kitchenette

Onde ganhei um joanete

Enquanto mascava chiclete…

Liberdade,

Minha quimera desfeita

Neste abecedário de carcereiros.

Mineiro, basta-me um queijo

A voz de Milton, os fantasmas de Ouro Preto

Os versos de Drummond, o céu de Uberaba

Os sertões de Rosa… muitos doces.

Tudinho dentro de casa, em São Paulo.

Nonato, São Raimundo.

Sol escaldante queima mágoas

Espinhos dispersos no pó da caatinga.

Ofício meu, depende da época.

Aos 59, não sei o que serei

Quando crescer.

Perdão!

Quem você levaria para uma ilha deserta?

– Parceiro de pipoca, poesia

E música!

Querelle, quo vadis?

Ao quarup? Fazer o que?

Quintuplicar quiosques com “q”?

Leve quibes e quiabos!

Ranzinza precoce, ranheta.

Tem cura? O humor compensa?

Também, guardo lembrança de radionovelas…

Sonho sempre; tenho saudade.

Manga no pé, uma sabiá

“Sei que ainda vou voltar…”

Titular, na nossa casa

É banana no prato

Fritinha da silva.

Uberaba dos casarões da praça

Córregos a céu aberto, charretes na Mogiana

Reinações no Boa Vista.

Tempo e espaço perdidos

Sonhos guardados.

Vadio, Vadinho, vagabundo

Vagar no mundo sem W. Vava!

Qual nada! Trabalho feito uma besta.

Xereta, xexelento, até xucro!

Um tanto xenófobo

Raramente xambregado.

Autorretrato xixilado…

Yang quando não yin

Prefiro yellows em Van Gogh

Digerindo Yakisoba.

Zabumba na cartilha

Bino feito a giz na calçada.

Minhas primeiras escritas.

D. Zilda: “A” na lousa

Abençoada seja!

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Maio, gado zebu e os cavaleiros do céu em Uberaba

Expozebu by valdoresende.com

 

Com sete, oito anos, o maior evento da minha terra era sinônimo de mexericas. Lembro-me de caixas e mais caixas de poncãs postas à venda nas imediações e dentro do PARQUE FERNANDO COSTA, em Uberaba, MG. Desde então, maio é sinônimo de mexericas com suas cores vivas, o cheiro delicioso, o sabor de infância. Para alguns uberabenses pode ser um acinte, mas é a pura verdade. Minhas primeiras recordações da Exposição de Gado Zebu – EXPOZEBU – são de mexericas. Junto com elas, a voz de CARLOS GONZAGA, cantando “Cavaleiros do Céu”.

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Vaqueiro do Arizona, desordeiro e beberrão

Seguia em seu cavalo pela noite do sertão

No céu, porém, a noite ficou rubra num clarão

E viu passar num fogaréu, um rebanho no céu

Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô, correndo pelo céu…

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É difícil expressar o quanto uma música reaviva nossos sentimentos, nossas lembranças. Nos finais de tarde, dos primeiros dias de maio, o rodeio era a atração final das atividades da Exposição Agropecuária. No colo, ou sobre os ombros de meu pai, eu ganhava altura para ver os poucos segundos em que um cavaleiro conseguia manter-se sobre a cela de cavalos muito bravos. Torcia para que conseguissem; ao mesmo tempo, ria muito com os tombos homéricos que levavam. A música de GONZAGA indicava o fim da festa.

Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô, correndo pelo céu…

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Zebu, Nelore, Guzerá… Os galpões cheios com as cabeças de gado mais valiosas do país. Desfiles intermináveis dos animais e, hoje em dia, recordes anuais nos diversos leilões durante a EXPOZEBU.  É muito difícil encontrar alguém que não saiba o que é, onde fica Uberaba. Há décadas o evento vem dando notoriedade para a cidade, sempre prestigiado por governadores de estado e presidentes da república. Essas autoridades, frequentando a cidade, contribuíram para torná-la conhecida por meio mundo.

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As rubras ferraduras punham brasas pelo ar
E os touros como fogo galopavam sem cessar
E atrás vinham vaqueiros como loucos a gritar
Vermelhos a queimar também, galopando para o além
Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô, seguindo para o além

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Nunca fui ao Baile do Governador, ou do Presidente, ou qualquer outro. Eu era criança. Esses bailes foram parar na literatura brasileira como, por exemplo, no romance “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino; também ficou nacionalmente conhecido um caso amoroso de Juscelino Kubitschek, iniciado nos salões de Uberaba, através da minissérie global. Na trilha sonora da época, CARLOS GONZAGA imperava.

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Sem saudosismos, mas em outros tempos, a festa no Parque me parecia maior. Havia desfile de fanfarras dos Colégios Cristo Rei, Diocesano e, lembro-me bem de um ano, quando por lá foram os Maristas, de Ribeirão Preto. Eram verdadeiras batalhas daqueles grupos musicais, formados basicamente por percussão e instrumentos de sopro, com seus uniformes de gala. Acho que hoje a expressão “uniforme de gala” virou coisa de museu…

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Centelhas nos seus olhos e o suor a escorrer
Sentindo o desespero da boiada se perder
Chorando a maldição de condenados a viver
A perseguir, correndo ao léu, um rebanho no céu
Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô, correndo pelo céu

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Guardo também com nitidez a lembrança dos desfiles das rainhas da exposição; moças da cidade, cada uma representando um clube local. Desfilavam em carros alegóricos, vestidas com trajes típicos representativos do clube ou do evento. Ah! A memória… Lembro-me bem de Dilma Jacinto Xavier, uma loira linda, com olhos muito verdes, irmã de uma colega que estudou comigo no Cristo Rei, e de Mara Lúcia Fontoura, uma moça belíssima, representante do Jockey Club.

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A EXPOZEBU permitiu-me ver de perto, durante todo o tempo em que morei em Uberaba, Governadores e Presidentes. Até fui parar nas páginas da revista Veja, em foto que me tornou popular perante os colegas, em reportagem sobre o evento (na foto eu estava de “bicão”, é claro!). Anos depois, meu irmão caçula foi parar no colo do então governador Aureliano Chaves. A criança e meu pai, ambos sorridentes, sem considerar o ato populista do político. Era apenas festa.

Sempre estive mais perto dos bifes...

Hoje, me parece, a festa agropecuária voltou-se mais para os negócios, os leilões, a feira propriamente dita. Em outros tempos o Parque Fernando Costa apresentava grandes astros, como Roberto Carlos. Atualmente parece que os eventos que marcam os mais jovens são as grandes festas com DJs e um atrativo open bar: Whisky, vodca, cerveja, caipiroska, água, refrigerantes e frutas! (Será que tem mexericas?).

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Faz tempo, talvez nove anos e, mais uma vez, ocorreu um acontecimento, uma experiência divertida que marcou minha vida e a de meus irmãos. Um parque de diversões instalado no recinto da EXPOZEBU estava com uma tentadora “montanha-russa”. Fomos, eu e todos os meus irmãos, para a grande aventura. Cheios de uma coragem, vinda sabe-se lá de onde, os seis filhos de D. Laura e Seu Bino, mais próximos da terceira que da primeira idade, subiram na geringonça para sair do outro lado, trôpegos, pernas bambas, corações acelerados, rindo como crianças travessas.

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Um dos vaqueiros, ao passar, gritou dizendo assim

Cuidado, companheiro, ou tu virás pra onde eu vim

Se não mudas de vida tu terás o mesmo fim

Querer pegar num fogaréu, um rebanho no céu

Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô, correndo pelo céu.

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Hoje somos cinco irmãos. Tudo muda, é inevitável; mas, graças a Deus, há ótimas recordações. Somo a essas boas lembranças, o sincero desejo de que minha cidade faça todo o sucesso do mundo, nesses primeiros dez dias de maio, com sua grande festa que, espero sinceramente, venha com muita grana para os criadores de gado, tenha muitas mexericas para o deleite de todos e, quem sabe, até passe por lá um cavaleiro do céu.

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Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô, correndo pelo céu.

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Até!

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Notas:

A primeira versão deste texto foi publicada em 2009, no Papolog. Os versos acima são da canção Cavaleiros do Céu (Ghost Riders in the Sky, Stan Jones); versão feita por Haroldo Barbosa, com gravação mais recente de Milton Nascimento, como podemos ouvir abaixo:

 

 

 

 

 

Canta Brasil!

Esperar destaque para a música brasileira de um programa denominado The Voice é chover no molhado. Somos colonizados e há muitos, entre nós, que pensam que “gritar” em inglês faz do sujeito um grande cantor. O certo é que há um número considerável de brasileiros que entendem parcamente o que diz – canta – cada candidato; assim, pouco importa se o indivíduo pronuncia parcamente ou porcamente.

Nossa música é sofisticada; muito sofisticada! O suficiente para avaliar qualquer cantor, qualquer tipo em qualquer região vocal e sob diferentes aspectos. Por exemplo: quantos concorrentes do The Voice cantariam bem o “Brasileirinho” (Waldir Azevedo – Pereira da Costa) ou o “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu – Eurico Barreiros)? Sem firulas, sem exageros, pois não há necessidade disso. Precisa ter folego, dicção privilegiada, capacidade de interpretação acima do comum para interpretar tais canções.

Os concorrentes, dizem, gostam de mostrar extensão vocal. Bom, para esses, há ótimas possibilidades: “Na baixa do sapateiro” (Ary Barroso), “Carinhoso” (Pixinguinha – João de Barro) e “Rebento” (Gilberto Gil) são apenas algumas possibilidades. Entre as mais difíceis considero “Rosa-dos-Ventos”(Chico Buarque), “Sabiá” (Tom Jobim – Chico Buarque), “Eu te amo” (Caetano Veloso) e entre muitas canções de Milton Nascimento, gostaria de ver alguém encarando “Saudade dos aviões da Panair”. (Dele, Milton, com Fernando Brant, também conhecida como “Conversando no bar”).

 

Estou comemorando antecipadamente o “dia do samba” (dia 2 próximo) e quero mais samba, mais chorinho, samba-canção, enfim, de mais música brasileira. Em se tratando de samba, por exemplo, os candidatos de concursos vocais – se querem mostrar que realmente cantam – deveriam arriscar um “Cai dentro” (Baden Powell e Paulo César Pinheiro) que, por sinal, só ficou excelente na voz de Elis Regina.

Sinto que esta é uma batalha perdida (apenas uma batalha!). O tempo costuma vencer todos os candidatos que, com suas músicas estrangeiras, caem no esquecimento. Sempre lembraremos Ney Matogrosso, Elza Soares (Hoje lembrada no The Voice pela excelente Cristal), Vicente Celestino, Gal Costa, Maria Bethânia, Nelson Gonçalves, Tom Zé, Maysa e, é claro, João Gilberto. Estou lembrando alguns grandes interpretes brasileiros que, com toda a certeza, em um ou outro momento cantaram música estrangeira. Todavia, gente como Maria Bethânia não será lembrada por “What is new”; esses intérpretes formidáveis (e podem aumentar a lista!) serão lembrados por sussurros afinados cantando Bossa Nova ou pela voz colocada com perfeição na personalíssima cadência do samba.

Há muito tempo um grande cantor, tão grande que foi chamado de “Rei da Voz”, gravou “Canta Brasil”. O nome desse cantor é Francisco Alves. Depois, veio a gravação de Ângela Maria e, bem depois, Gal Costa regravou a mesma canção, que é de Alcyr Pires Vermelho e David Nasser. Vou concluir este post com a letra deste samba exaltação, pois sinto muita falta dessas canções na nossa televisão; quem sabe, em algum programa, o nosso Brasil musical possa ser prioridade!

As selvas te deram nas noites teus ritmos bárbaros E os negros trouxeram de longe reservas de pranto Os brancos falaram de amor em suas canções E dessa mistura de vozes nasceu o teu canto

 

Brasil, minha voz enternecida Já dourou os teus brasões Na expressão mais comovida Das mais ardentes canções

 

Também, na beleza deste céu Onde o azul é mais azul Na aquarela do Brasil Eu cantei de norte a sul

 

Mas agora o teu cantar Meu Brasil quero escutar Nas preces da sertaneja Nas ondas do rio-mar

 

Oh! Este rio turbilhão Entre selvas e rojão Continente a caminhar No céu, no mar, na terra! Canta Brasil!!

 

Bom final de semana para todos!