“Do mundo não se leva nada!” E os jingles ficam.

A morte de Silvio Santos trouxe várias facetas e questões levantadas pela mídia. Pessoalmente recordei uma antiga aula que ministrei na universidade sobre jingles, quando usei como guia o trabalho do compositor Archimedes Messina, o criador da abertura do programa do comunicador.

Archimedes Messina (foto reprodução da internet)

Jingle, no idioma de origem tem o significado de tilintar. Como no despertador, a função é chamar a atenção, acordar, fixando o som de tal forma que, disparado, já sabemos que é hora de sair da cama. Na propaganda, a ideia é similar: uma música que fique na nossa cabeça, seja fácil e cativante. E um grande exemplo vem das criações de Archimedes Messina. Mesmo não o conhecendo, você conhece e canta uma música desse compositor:

Archimedes Messina (1932-2017) criou o seu trabalho mais longevo em 1965 por encomenda do próprio Silvio Santos. Tecnicamente a “música do Silvio” é o que se denomina prefixo de um programa, algo surgido desde os primórdios do rádio e nem sempre uma criação específica. Às vezes usam outra canção, ou parte dela. O caso mais emblemático de prefixos que temos é o que usa os acordes da ópera O Guarani, de Carlos Gomes abrindo o programa A Hora do Brasil.

Archimedes Messina, nos conta Fábio Barbosa Dias, sonhava em trabalhar no rádio e chegou a ser radioator, também sendo locutor da Rádio São Paulo e da TV Record. Paralelamente, veio a criar marchinhas para o carnaval, quando atingiu o sucesso e chamou a atenção do publicitário Jorge Adib, da Multi Propaganda, que o chamou para criar os jingles. As criações de Messina entraram para a história e são sempre referência para historiadores da publicidade e criadores musicais.

Os Jingles da Varig

Quem foi criança e cresceu durante a década de 60 ouviu e se encantou com esse jingle, a partir do carnaval de 1967:

O sucesso foi imenso e o Seu Cabral foi parar no Carnaval. Em 1968, Messina popularizou entre nós a lenda japonesa de Urashima ( a tartaruga que premia seu Salvador), torna-se Urashima Taro, no Brasil:

Deu saudade, volta de Varig era a conclusão desses dois jingles.

Conheça o Brasil

O processo de criação de Archimedes Messina partia do leve batuque em uma caixinha de fósforos e contando história ou descrevendo situações, criava seus jingles geniais. Do extenso trabalho do compositor está a campanha Conheça o Brasil pela Varig. São 12 composições, cada uma sobre um estado brasileiro e, é lógico, o mineiro que vos escreve vai puxar a sardinha para Minas Gerais:

De 1974 em diante, um jingle sobre o Café Seleto entrou na nossa memória. Segundo consta, o dono da empresa, Manoel da Silva fez a encomenda, mas sem nenhum “briefing”, o resumo da solicitação do que é para ser feito. Messina associa hábitos do brasileiro ao produto; uma obra-prima, com a abertura na voz de uma criança:

Ao longo de toda a sua vida, Archimedes Messina criou e deixou mais de duas mil músicas compostas. Nos últimos anos, já afastado do mercado publicitário, dedicou-se a colocar melodia em letras que havia deixado de lado por conta do trabalho publicitário. Faleceu em julho de 2017 e, certamente, “não levou nada”, mas nos deixou um trabalho primoroso que será sempre base para os atuais e futuros criadores em propaganda e publicidade.

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Ouça, abaixo, alguns vídeos com os jingles citados acima, todos de Archimedes Messina:

Um glossário pra mineiro viajar

Veja abaixo o link para acessar os textos de Ivan Mariano Silva, no Jornal de MOnte

Nas poucas vezes que estive fora do país chegava um determinado momento em que me dava um faniquito doido! A única coisa que sentia era a vontade de pegar mala e cuia e voltar ligeiro pra casa. É claro que chegar em um aeroporto de São Paulo já dava um certo alívio, aqueles sons múltiplos da diversidade paulistana. A questão é que quando se fala em “casa”, “a minha casa”, a gente está querendo é a infância, pai, mãe, os irmãos e, no meu caso, a casa é lá em Uberaba, Minas Gerais.

Imagina ganhar um presente que te leva de volta para essa casa! De quando você é criança e vai crescendo, ouvindo e gravando na memória a voz de seus pais, seus irmãos, os parentes todos, os vizinhos e as palavras que eles usavam. Você abre o presente, um livro, e o que você lê e a memória te traz é o som da voz da sua mãe que criou eufemismos pra saber se você limpou o butico direito, ou as risadas do seu pai, quando sua mãe ameaçava te dar uma surra: chama nas tabinhas, bobo! E foi assim, lendo e lembrando que fiz uma viagem ao mais profundo daquilo que nos traduz para a história: a nossa língua.

A mágica do livro, o “Glossário Monte-Sionês da Língua Portuguesa”, é imensa! A gente lê um verbete e se lembra de muitos outros. Só para clarear, butico e tabinhas é coisa dos meus pais, lá em Uberaba. Já o glossário é claro e específico da comunidade de Monte Sião, no sul de Minas. O livro recebi de presente do amigo Luiz Antônio Genghini. Um baita trabalho com mineirices reunidas por Ivan Mariano Silva, falecido em 2020. Do autor também recebi e estou lendo “Crônicas da minha gente”.

Ivan, que é como o escritor assinava seus textos no jornal, elaborou o “Glossário Monte-Sionês da Língua Portuguesa”, com a familiaridade de quem viveu na e com a comunidade enriquecida por inúmeros descendentes de italiano que nos legaram palavras deliciosas como carcamano, maledeto, impiasto! Tudo muito bom de dizer, de usar.

Essas expressões oriundas do italiano não conheci na infância. Meu pessoal, lá em Uberaba, tinha proximidade com portugueses, árabes, alguns espanhóis e poucos italianos. O trabalho localizado do Ivan nos dá a importância da pesquisa do autor e, simultaneamente, nos abre coração e memória para as possíveis expressões de cada uma das diversas regiões das Gerais.

A viagem linguística do Glossário é imensa. Tanto nos remete à infância, quando batíamos bafo ou quando nossa mãe nos advertia: “Lave direito esse pé, moleque, tá cheio de macuco!”, quanto nos faz lembrar momentos muito específicos, já na adolescência, quando a necessidade nos fez chapear a mão na cara do desafeto. E assim vai; leio as expressões e percebo palavras que já não uso, outras que me lembram pessoas, momentos, lugares. Não é um simples glossário, é um baú de falas, da nossa fala. A língua, que é culta, só se enriquece quando um sabereta se põe a usá-la.

Todo aquele que escreve tem amor pela palavra. Não basta saber escrevê-la, seu significado, os diferentes contextos em que podemos usá-la. Há que se pensar também na composição textual, no local preciso onde iremos colocá-la no parágrafo e, assim, atingirmos o efeito desejado. Dicionários são fontes inesgotáveis de relações, pois lemos uma palavra e nos vem à mente as diversas possibilidades de seu significado. Um trabalho que busca especificações de um determinado grupo social enriquece a língua, caso do Glossário Monte-Sionês, leva-nos imediatamente ao nosso grupo, ficando difícil não ocorrer envolvimento emocional.

Deus me permitiu andar por aí e conhecer gente de cá e de lá, de cima e de baixo, do meio, dos cafundós e outros, mais de perto. Uma vez funcionário de aeroporto me deliciava com os sons do mundo. Não só identificar o que estava sendo comunicado, mas reconhecer a melodia do som de cada língua, dos gestos do falante. Morando e andando por toda a grande São Paulo aprendi a identificar sotaques de todas as regiões do nosso país. Aquelas peculiaridades que diferenciam pernambucanos, cearenses, paranaenses, goianos, baianos, capixabas… e toda essa imensa variedade da nossa fala, tanto em som quanto em significado, nos dá a exata dimensão da riqueza da nossa língua.

O presente de Genghini (Obrigado!) e o trabalho do Ivan (Obrigado!) me permitiu recuperar, recordar, reviver faces da minha origem. Somos mineiros, e porque amamos Minas sabemos a diferença do sertanejo com o caipira, dos sujeitos todos das demais regiões não porque exigimos identidade ou outro documento qualquer. A gente começa por um “Tá bão?”, continuamos com um “d’onde que ocê é”, e após um “Cê é fio de quem?” já nos sentimos em casa. E se o sujeito tiver dificuldade em nos entender, tai o Glossário Monte-Sionês! Um ótimo começo para trilhar as imensas veredas do linguajar mineiro.

Notas:

1 – Ivan Mariano Silva (*1935 / +2020) tem seus trabalhos publicados no Jornal de Monte Sião, cujos números podem ser lidos clicando aqui.

2 – Glossário Monte-Sionês da Língua Portuguesa, reunido por Ivan Mariano Silva, com ilustrações de José Carlos Grossi. A capa é de Felipe C.P. Grossi. Monte Sião: Acervo Edições, 2010.

Trens de Minas! Trem de São João Del Rei

Bons sujeitos sabem que, para um mineiro, trem é aquilo que ele resolve denominar trem. Pega aquele trem ali! Viu que trem doido? Larga desse trem, meu filho! Cuidado com esse trem, cara… e os exemplos são variados ao infinito. E, fora do contexto, tente adivinhar qual o trem de cada frase! Todavia, de todos os trens de Minas, o melhor é mesmo o Trem de Ferro. Aquele da Maria Fumaça conduzindo vagões que nos levam para as mais ternas lembranças.

Outro dia estive em São João Del Rei, lá para os lados do Campo das Vertentes. Confesso não ter dormido toda a noite durante a viagem, admirando os contornos vistos pela janela do ônibus. Silhuetas, luzes esparsas fazendo perceber os contornos da minha terra. Longas horas curtidas com prazer que cresce com o raiar do dia. Nas beiras da estrada, pequenas capelas pra Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora Aparecida; no centro de um micro trevo, uma escultura de São Sebastião. Estamos em Minas! E se há alguma dúvida de estar em Minas ela se acaba quando passamos sobre o Córrego Cala-Boca (que história levou a esse nome?) ou divisamos o anúncio de um boteco qualquer: “A legítima empada!” Creiam-me, todas as outras são falsas.

Já estava distante, em outro município, uma ponte sobre o Rio Grande quando passamos por uma casa suspeitíssima, a Casa da Maria Rosa. A dona da casa pode ser uma santa, mas o visual da propriedade remete aos velhos e bons bordéis de beira de estrada. Será? Ao longo da estrada corre outro rio, o das Mortes. Minas, que logo em seguida anuncia um Trem Margoso que, ao que tudo indica, jamais saberei do que se trata. Estava lá, a plaquinha: trem margoso. Tudo rapidamente deixado para trás quando, já na rodoviária, antes de qualquer coisa comem-se dois pães de queijo para começar o dia. Dois! Poderia ter sido dez.

Quem quiser saber sobre identidade brasileira deve visitar nossas velhas cidades. Pode ser Marechal Deodoro, a primeira capital das Alagoas; ou então, um pouco mais perto de onde estou, pode ser São Luís do Paraitinga, no Estado de São Paulo. Cidades como essas exalam brasilidade. E me senti assim, caminhando pelas ladeiras de São João Del Rei, com seu casario na beira da calçada, sua gente cordial sempre disposta a dar passagem ao transeunte, sua comida que coloca qualquer regime para escanteio e, entre outras boas coisas, o seu Museu Ferroviário.

As igrejas locais são belíssimas e encantadoras. Bons mineiros se calam observando as majestosas Basílica Catedral de Nossa Senhora do Pilar, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a Igreja de Nossa Senhora das Mercês. A beleza da Igreja de São Francisco é ímpar e nos impõe respeitoso silêncio e admiração. O Barroco, o Rococó, a arquitetura do século XVIII embelezam a cidade dividida pelo Rio das Mortes, unida por diversas pontes. Fui recebido na casa de D. Bárbara Heliodora, a Bárbara Bela do poeta que hoje, através de um delicado busto, recebe os visitantes da Biblioteca Municipal de São João Del Rei, todos muito bem tratados pela coordenadora local.

É bom registrar que na cidade, durante a semana em que lá estive, aconteceu o XXXIII Congresso da Anppom – Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música. Um monte de gente fera no setor transitando e trocando conhecimento sobre a área. Música sacra na igreja, batucada na esquina, e outras tantas discussões e oficinas pela cidade, viva e atual. Só que cidades históricas nos levam para outros tempos, nossa ancestralidade. Parece que fantasmas ou espíritos, como queiram, estão ali ao nosso lado, contando de tudo quanto o que passaram antes de chegarmos ao século XXI. E, experiência muito pessoal, a cidade me propiciou revisitar um trem. Trem mesmo, sobre trilhos e puxado por uma Maria Fumaça.

Aqueles que conhecem a história da minha família sabem da importância da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, onde meu avô trabalhou por 45 anos. Tio João Batista outro tanto e mais outros tios e primos trabalharam como maquinistas, telegrafistas, chefes de trem, mestres de linha. A composição de São João Del Rei é outra, reminiscências da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas. Na inauguração da estrada, em 1858, a cidade se orgulha de ter recebido a visita de D. Pedro II. Quem é que se lembra disso ao iniciar uma nova viagem?

Com certeza, entrou no trem, rumo a Tiradentes, o menino que um dia eu fui. O garoto que corria apressado para uma janela, abrindo-a e se debruçando aguardando a partida e, de lá, voltando-se apenas para o lado, saudando o chefe do trem que verificava a passagem – normalmente um conhecido que conversava com minha mãe pedindo notícias do meu avô. Outro momento de grata memória era a vinda do garçom vendendo refrigerantes, sanduíches, geleia de mocotó. E as cidades, as turmas de estrada, os postos todos do percurso de Uberaba a Campinas, rumo à casa da avó materna, ou de Uberaba a Araguari, para visitar a avó paterna.

Eu e Flávio Monteiro nessa viagem que mistura passado e presente

Foi comovente ver a mudança de postura nos viajantes, meus companheiros no Trem de São João Del Rei. Feito crianças, alegres como tal, logo estavam acenando para estranhos que, com simpatia, respondiam da rua, das portas de suas casas, das janelas. “Adeus, adeus, vou me embora para Catende, vou me embora pra Catende…” Era o tempo voltando e ao mesmo tempo alertando para a possibilidade de convivência harmoniosa, mesmo que da janela de um trem. Pura poesia. E vieram pontes sobre rios e córregos, lagos, pastos com vaquinhas tranquilas, pássaros em revoada… E o trem apitando, a fumaça traçando outros rumos pelo céu. Foram apenas 45 minutos! Outro tanto para voltar. A eternidade das lembranças e dos afetos.

Quanto custa esse trem? Não tem preço. E não é caro o suficiente para que não haja outros. Lá em Uberaba, onde nasci, há uma linda Maria Fumaça na Praça da Mogiana, certamente “doidinha” para sair apitando por aí. Certamente também há muitas outras disponíveis para tornar a vida das pessoas mais felizes, através de passeios agradáveis e tranquilos. Que bom ter estado em São João Del Rei! Que bom voltar para Santos, onde bondes, esses “trens sem vagões” trafegam pelo centro da cidade. Que outras cidades sigam o exemplo de Santos e São João Del Rei, propiciando felicidade, revivendo lembranças e criando recordações para todos nós.

Até mais!

Deus não é brasileiro!

Por que raios Deus seria brasileiro? Se a gente parar um instante para pensar no tamanho do universo observável – 93 bilhões de anos-luz – e na quantidade provável de planetas – mais de cinco mil, segundo o deus Google – é muita pretensão querer que o onipotente e onisciente tenha tal nacionalidade. Quiçá haja algo que justifique uma atenção especial do Senhor para com esse país dentro desse planetinha. “Dá licença, ser, vá procurar tua turma!”, creio ter captado agora essa mensagem divina.

Pensar Deus nos moldes humanos significa que ele está atento aos puns que devem ser evitados, segundo a boa educação: “Graças a Deus segurei meu peido!” Euzinho já ouvi essa frase fantástica. Assim como nunca me esqueci de que, mediante todos os problemas do planeta, sem contar o universo, Deus costumava dar uma paradinha para aparecer para Senna em curvas de autódromos mundo afora. Lembram-se dessa?

Colocamos Deus diariamente em lados opostos. O exemplo mais contundente que me ocorre são as partidas de futebol. E me resta pensar no que o atleta pensa após a derrota do time, tendo ele pedido ajoelhado e publicamente. O craque do momento cogita que Deus não perdoa quem não paga impostos? O outro pensa ter perdido por ser um assediador babaca, estuprador criminoso? Sendo o futebol esporte coletivo é bem provável que o crédito do pecado vá para outro e, ao contrário, quando o time vence é por Deus ser generoso para com criminosos bons de bola.

Com absoluta certeza, Deus é mais paciente que Jó. Na recente manifestação oficial da democracia brasileira ele foi obrigado a ouvir preces desesperadas de gente pedindo interferência no resultado das eleições. Se eu fosse Deus, mandaria à merda. No entanto Ele prefere deixar essa gente por aí, rezando para o vazio, para que tenham a possibilidade de aprender a respeitar a vontade da maioria. Mas, Deus me perdoe, eles não vão aprender nada. E na oscilação de poder entre um lado e outro, cada lado continuará afirmando que o Senhor é brasileiro. Isso merecia punição!

O princípio de Deus está além da nossa pobre e precária percepção. Se Ele criou tudo, obviamente que Sua origem é outra. Provavelmente tenha nascido em algum lugar tão bonito quanto a Bahia, brincado em verdes montanhas como as de Minas Gerais, tomado banho em águas cristalinas como… Não tem muito mais água cristalina não. Estão praticamente contaminadas! Tomar banho, mesmo sendo Deus, e a pereba é certa. Há que tratar a água! E ele ficaria constrangido em ter como conterrâneo o baiano que se bronzeou para levantar mais grana para a campanha. O Falso Pardo Magalhães perdeu! E gosto de acreditar que tenha sido castigo de Deus. E as verdes montanhas, não só de Minas, estão sendo dizimadas por conta de extração de minério. Não há lugar para Deus e humano brincar.

Enquanto cismo com essas esquisitices, o Palmeiras acaba de ganhar um campeonato, estamos próximos de uma Copa e, Deus do Céu, estou adorando a ação das torcidas liberando estradas daqueles que, com certeza, estão rezando o “Pai Nosso” e, nesta oração, repetindo como bestas humanas que são um “Seja feita a tua vontade”. Sim, pior que tudo, ao invés do silêncio da meditação e de prece por inspiração para entender Seus desígnios, esses brasileiros acham que sabem qual é a Sua vontade. Algum esperto disse para que acreditassem e eles acreditam. Creem que a terra é plana, creem que vacina causa autismo, creem na mamadeira de piroca e que teremos que comer cachorro para sobreviver. – Não! Diz o senhor! – Vocês continuarão exterminando galinhas, vacas, porcos, patos! Cachorro, não!

Seja de onde for, do que ou de quem tenha herdado, a principal característica de Deus é a paciência. E é acreditando na paciência divina que eu, brasileiro, vou me deliciar com o momento em que Deus está do meu lado. Do nosso lado! Do lado da maioria de milhões de brasileiros que votaram em um nordestino porreta, pernambucano de Caetés. Ao outro lado resta dizer: rezem, mas não se esqueçam de que estão pedindo pela vontade divina, por justiça (essa também está do nosso lado, embora a gente saiba que marrecos andam por aí) e, sobretudo, rezem para que ele continue sendo paciente para com esse país problemático, esse planeta destemperado e louco. Basta uma piscada e Ele resolve tudo, transformando naquilo que está na Bíblia: do pó viemos, ao pó voltaremos.

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Nota: a imagem é detalhe da obra Os Amantes, de Magritte.

Na estica à beira-mar

Com frio ou calor, chuva ou sol, esse mineiro que vos escreve, morando em Santos, caminha cotidianamente pela orla atlântica. Invariavelmente esse passeio é feito sobre a calçada que limita jardim e praia. São sete quilômetros de jardim, praia e mar. Obviamente que não caminho tanto assim. Vou um cadiquim para cá, um cadiquim para lá, sento-me para ver navios, distraído em alguns momentos por pássaros e gente.

Não sei nadar. “Como assim?” já ouvi muitas vezes. Presumo com certeza não ser o único a dominar tal coisa, mas invariavelmente informo ser de Minas Gerais. Talvez por isso, pelo menos por enquanto, meus joelhos continuam virgens da água marinha. E vivo bem sem nadar. Sei andar, corro, já dancei muito, mas nadar… não nado. E tenho a quem puxar.

Ulysses e Bino

Este rapaz elegante, de terno claro, é o Bino, meu pai. Esteve assim aqui em Santos, lá pela primeira metade do século passado, antes de eu ter nascido. Veio em visita aos meus tios que, vindos de Portugal, moravam por aqui. Este, ao lado do meu pai, é o Tio Ulysses, casado com Isaura, irmã caçula de minha mãe. Tenho vaga lembrança de terem morado na Praia José Menino.

Sou capaz de apostar que nenhum santista viu as pernocas do meu pai. Nem os cariocas, pois quando papai visitava o Rio de Janeiro – uma dessas viagens me lembro bem – era nessa “estica” que ele caminhava por Copacabana e outras praias mais.

Não tenho nenhuma informação de meu pai tomando banho em lagos ou rios. E, todo mundo sabe, rio é o que não falta em Minas Gerais. Todavia, em um aspecto saí a meu pai. Nem rio, nem lago, nem mar, nem piscina. Chuveiro a gente gosta. Muito! Quanto a mares, rios e lagos, que fiquem lá com todo o respeito e cuidado que merecem. Gente como nós se contenta em olhar, sentir o cheiro, a brisa.

Poderia estender esse texto com mil razões, outro tanto de conjecturas sobre tal situação. Bobagem. Ou então que fique para outra hora. Só me incomoda quando alguém vem questionar por que vou de meias e sandálias nas caminhadas à beira-mar. Vou como quero, mas como nem tudo é tão rígido, celebro alguns avanços: tenho feito caminhadas molhando os pés naquele ponto em que as ondas se desmancham na areia. Às vezes, chegam até as canelas e até já chegaram bem próximas do joelho. Chupa, Michael Phelps!

Outro dia fiquei presenciando uma ressaca, admirando vários surfistas em ação. Deslizando sobre as ondas como seres mágicos, alguns terminando o trajeto me lembrando Charles Chaplin nas trapalhadas de Carlitos. Nesse mesmo dia um morador da praia – já percebi que há vários por aqui – foi resolutamente bêbado caminhando em direção ao mar. Passos trôpegos, transferi a preocupação para os companheiros do sujeito em caso de afogamento e fiquei observando. Ele caminhou até a água ir acima da cintura, pulando ondas e, de repente, retornando o corpo em viravoltas desconexas junto a uma onda mais forte. Levantou-se como se fosse um herói olímpico, gritou obscenidades para os colegas e retornou, calmamente, para o local de origem.

Naquele dia deixei surfistas, moradores e, como tenho feito, voltei para casa, sequinho, sequinho. Com certeza nadar deve ser muito bom. Mas, além de ser filho do Bino, não tenho pressa. Estou morando por aqui há tão pouco tempo! Quem sabe, em algum momento, eu não venha narrar algumas braçadas celebrando um dia de sol no mar?

Até mais!

Mineiro encantado, João Justino

João Carlos Justino

Há um tipo muito peculiar de mineiro que, me parece, está difícil de encontrar. Chegado em uma boa e longa prosa, disposto a encontrar os amigos na própria cidade para um café, ou reforçar laços visitando-os quando de passagem por locais distantes. Sujeitos como João Carlos Justino! Educado, respeitoso, alegre, receptivo, sobretudo cordial. “— Vamos conversar, Valdo! Falar até do que a gente não entende! Aproveitar a vida!” Essa vida que o deixou nesse dia 15 de maio, entristecendo familiares e amigos que muito o amaram.

Éramos muitos! Em determinado momento é certo que sessenta ou mais jovens frequentavam o grupo da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, em Uberaba – MG. Havia amizade, um sentimento geral unindo todos que, não raro, se intensificava em grupos menores extrapolando as reuniões semanais. Num momento em que dois, três anos de diferença de idade separam pessoas, o que unia mesmo eram afinidades, incorporadas no relacionamento sem que possamos, hoje, precisar como foi que ocorreu. Ficamos amigos! Somos amigos irmãos. E assim permanecendo vida adiante, mundo afora.

Pelo lado materno, João Justino vinha de uma imensa família, quase todos de Ponte Alta que, aos poucos, chegaram ao Boa Vista. Os Silveira! Família que teve músicos talentosos como a dupla Silveira e Silveirinha, os demais membros participando ativamente da vida do bairro, da paróquia. Sr. Claudionor, Sr. Euclides, Judite, D. Maria, Sr. Antônio…

Há um tipo de mineiro que adora conversar! De fala fluente, sempre pronto a esticar a conversa quando boa até o amanhecer. João era assim, cheio de filosofias, de frases calorosas, de efeito e simpatia. Em minha casa, tanto conversava comigo quanto com meus pais, D. Laura, ou o Seo Bino! Não o fazia por deferimento ou gentileza, mas por prazer, por entender que a amizade que tínhamos era sentimento extensivo aos nossos familiares.

Mineiro raro! Essa formalidade no trato social o levava a estar sempre vestido com camisas de manga comprida, calças sociais. Meu amigo era o homenzinho da casa, amando e sobretudo respeitando as irmãs Marilene e Marluce, protegendo os mais novos, Júlio e Maristela. Essa postura, assumida com tranquilidade pela educação recebida de D. Lourdes e Seo Antônio, afastou-o de farras comuns a jovens e adolescentes. Em pouco, João estava casado com Angelina, formando com esta uma bela família. Então, já estávamos morando bem distantes.

Mineiros gostam de ganhar o mundo. Um dia nos encontramos, caminhando pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo. João e eu em direções opostas. Paramos tudo, para colocar a conversa em dia. Recordar viagens para Goiânia, Ribeirão Preto, Ponte Alta, Santa Rosa de Lima, o Rio Uberaba… João logo estaria rumo ao centro-oeste, trabalhando em Brasília e nos Estados de Mato Grosso, Tocantins, Goiás. Em cada lugar, buscava reencontrar os amigos, sonhava reencontro geral daquele grupo em que, um dia, todos se conheceram.

De todos os lugares em que estivemos tínhamos um, muito especial. O alto da torre da igreja, o campanário da Paróquia de Nossa Senhora das Graças. Ali, por especial deferência do pároco de então, vimos o sol poente em várias oportunidades e, em noites de vigília pascal, presenciamos o nascer do sol. Outros momentos foram divididos com Ronaldinho, Fátima, Keila, Kaká, Paulinho, Sônia, Maria Amélia, os Padres Líbero e Américo… Na casa de D. Eponina Borges jogávamos cartas. João e Ronaldo se inflamavam. Quando o barulho extrapolava, bastava mencionar o nome da querida D. Nina para que os ânimos fossem serenados. Puro respeito e carinho para com a dona da casa.

João Justino teve filhos, netos. Esses conheço pouco. A distância e o tempo cobram seus preços. Todavia sei do afeto que os unia e deles o patriarca falava com orgulho, com imensa satisfação, como quando do nosso último encontro, em dezembro passado. Estive em Uberaba e fui visitá-lo, ele em plena luta com a doença que, como diria outro João, o Guimarães Rosa, o encantou. E agora, aqui recordando tal momento, quero registrar a força, a esperança, o bom-humor: “— Agora, você sabe onde me encontrar, Valdo! Pelo menos enquanto tiver desse jeito vou ficar por aqui!”, disse-me rindo da situação, da doença.

Há mineiros que trabalham por toda uma vida! João trabalhou com remédios, dominando o setor farmacêutico, abrindo frentes de trabalho. Sabia das composições, dos efeitos colaterais, dos resultados. Sabia o que cada remédio faria em seu corpo, o que seria possível resolver… ou não resolver. Penso que que tal conhecimento ganha uma dimensão trágica e, ao mesmo tempo, um teste de fé perante a vida. Creio que a fé prevaleceu, pois as últimas notícias que tive vieram da esposa, Angelina: “— Ele tá aqui, lutando para não ir!”.

Mineiros são gente de fé. Como a que uniu um imenso grupo lá no Boa Vista, em torno e sob a proteção de Nossa Senhora das Graças. O tempo levou esse pessoal para locais muito distantes; as tarefas cotidianas, a luta pela vida separou muita gente. Alguns permaneceram unidos, em contato, em amizade fraterna, acreditando e sonhando, como sei que João Justino sonhou, que um dia estaremos todos juntos. Que Deus o ouça!

Vila dos Confins e Chapadão do Bugre para as novas gerações

MARIO PALMERIO

É hoje, em Uberaba, Minas Gerais. O convite que recebi de João Eurípedes Sabino é também para todo o público:

“O relançamento dos livros: “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre” de Mário Palmério promete balançar as estruturas da terra de Major Eustáquio! 07/11-quinta-feira- 19:00h – no Centro Cultural Cecília Palmério- Av. Guilherme Ferreira,217-Uberaba/MG.

Aberto ao Público! Você está convidado(a) e estenda o convite a outras pessoas! A Academia de Letras do Triângulo Mineiro e a UNIUBE lhes receberão de braços abertos! Livros serão vendidos no local! O momento é esse! Vamos fazer bonito!”

Se eu estivesse aí não perderia, João! Mas, com certeza amigos e parentes estarão nesse evento e, oportunamente, terei exemplares dessas novas edições. Desejo todo o Sucesso!

Até mais!