O Inventor de Histórias

Terceiro dos cinco textos do projeto Arte na Comunidade 2 que estou publicando neste blog, “O Inventor de Histórias” faz referências e singela homenagem a Monte Alegre de Minas. O intérprete da história foi MARCELO RIBAS e as imagens são de THANERESSA LIMA e do meu arquivo pessoal.

Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, peço a gentileza da citação da origem.

Organizado pela Kavantan & Associados, o projeto Arte na Comunidade 2 foi patrocinado pela Alupar e Cemig, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e contou com o apoio das prefeituras de Ituiutaba, Canápolis, Monte Alegre de Minas e Prata.

O Inventor de Histórias

Original de Valdo Resende

MÚSICA SUAVE. O CONTADOR ENTRA EMPURRANDO SUA MALA-BIBLIOTECA MANUSEANDO UMA MATRACA ENQUANTO PREPARA O AMBIENTE PARA CONTAR SUAS HISTÓRIAS. ABRE A MALA PARA SI, PROCURANDO OCULTAR O INTERIOR DA MESMA. TOCA A MATRACA E PARA, ABRUPTAMENTE, TIRANDO DA CAIXA UM “COLAR” COM DIFERENTES NARIZES.

 

Marcelo Ribas em foto de Thaneressa Lima (divulgação)
Marcelo Ribas e sua coleção de narizes em foto de Thaneressa Lima (divulgação)

– Ah, olá! Todos estão bem? Olhem o que achei hoje nos meus guardados. Parte da minha pequena coleção de narizes. Eu coleciono Narizes! Esse aqui, por exemplo, é de Cyrano de Bergerac, um cara muito feio, mas muito feio mesmo! Escondia-se da moça que amava, com vergonha do nariz, mas conquistou a moça com poesia. Poesia! (pega outro nariz, de palhaço) Este seria um simples nariz de palhaço, não tivesse pertencido ao Arrelia, o melhor palhaço de todos os tempos. E este (pegando um terceiro, enorme) é o de Pinóquio. O boneco que virou menino, de quem todos sabem a história. Esse nariz bem que poderia ter sido de Alfredo, um garoto meu amigo, que conheci quando estive não faz muito tempo, em Monte Alegre de Minas.

(VOLTA A MÚSICA)

Senhoras e senhores, meninas e meninos de Monte Alegre! (PARA DE TOCAR A MATRACA E FAZ MESURAS, ENQUANTO PROSSEGUE A AUTOAPRESENTAÇÃO) Meu nome é Murilo Rosa Dourado! Obrigado pela simpática acolhida! Estou feliz com a atenção e o carinho de todos. Com grande prazer quero apresentar a vocês a verdadeira fortuna de um ser humano: uma biblioteca! (PEGA UM LIVRO DE AVENTURAS) Com Júlio Verne percorri as Vinte Mil Léguas Submarinas e após descansar com Monteiro Lobato (MOSTRA O SEGUNDO LIVRO) no Sítio do Pica-pau Amarelo voltei para minhas queridas viagens, dando a volta ao mundo em oitenta dias. Conheço todos os grandes heróis (SEMPRE MOSTRANDO LIVROS): Ulysses, Robin Wood, Batman e Macunaíma! E é, claro, nosso pequeno Alfredo. Aquele que poderia ter recebido o nariz de Pinóquio, mas não por mentir, por inventar histórias!

Detalhe da Praça Nicanor Parreira. Arquivo pessoal.
Detalhe da Praça Nicanor Parreira. Arquivo pessoal.

Imaginem o menino Alfredo, no coreto da Praça Nicanor Parreira, encarando toda a cidade. Veio de casa já vestido de índio e foi contando esse fato: (IMITANDO O MENINO, CONTA RAPIDAMENTE) “- Sou um Índio Tupi, irmão de Mani, a menina que tinha a pele mais branca de toda a tribo. Mani era uma menina feliz, mas ficou doente. O pajé não curou, nenhum ritual curou e, para tristeza de todos, Mani veio a falecer. Meus pais resolveram enterrar minha irmãzinha dentro da oca; passado alguns dias, a cova sendo regada a lágrimas, nasceu uma planta. A raiz da planta era marrom por fora e branquinha, muito branquinha por dentro, como Mani. Os índios da nossa tribo passaram a usar a raiz para fazer farinha. A raiz branquinha é a nossa mandioca, uma junção de Mani – minha irmãzinha – com oca, a nossa casa.”

O pessoal ficou olhando Alfredo e, lógico, duvidaram do menino, dizendo-se irmão de Mani “- Isso é mentira! Que mentiroso” é o que murmuravam. E o menino, com toda convicção do mundo respondeu: “- Eu afirmo que é verdade!”. O mestre de cerimônias, que estava conduzindo a apresentação, percebendo que Alfredo estava contando uma lenda como se fosse história dele, resolveu ver até onde o menino chegaria, perguntando: “- Pois então, senhor Índio Tupi, irmão de Mani; e agora, hoje, onde o senhor mora?” Alfredo, não titubeou! “- Eu moro no poço sem fundo!”

A biblioteca ambulante. Marcelo Ribas em foto de Thaneressa Lima. (divulgação)
A biblioteca ambulante. Marcelo Ribas em foto de Thaneressa Lima. (divulgação)

A praça caiu na gargalhada com a mentira do menino, que assegurou a todos: “- Eu afirmo que é verdade!”. Como que alguém pode morar em um poço onde nunca foi encontrado o fundo? Que mentira! E Alfredo, ali, sempre com convicção: “- Eu afirmo que é verdade!”. O mestre de cerimônias exigiu: – Você pode nos explicar como é isso, Sr. Alfredo?” E o menino: “- Alfredo, não, homem branco. Sou Quati, irmão de Mani.” Quati é um bichinho, parente do guaxinim, que tem um narigão! Quati! Como alguém pode se chamar Quati? “- Quati afirma que é verdade!”. Pois o Alfredo, digo, Quati, continuou sua história:

Detalhe do monumento em homenagem aos soldados que lutaram na Guerra do Paraguai. Foto arquivo pessoal.
Detalhe do museu em homenagem aos soldados que lutaram na Guerra do Paraguai. Foto arquivo pessoal.

“Há muito tempo vieram parar nessas terras muitos soldados. Vinham da guerra e estavam muito doentes. Era a bexiga. Mais tenebrosa que arma de guerra, a doença matou dezenas de soldados”. E o mestre, alimentando a história: “- Então, Quati viu os soldados da Retirada da Laguna, durante a guerra do Paraguai quando passaram por aqui?”. Alguém do público não se aguentou, falando baixinho, “- Que mentira” e antes de responder ao mestre, Quati, olhando para o dito cujo: “- Quati afirma que é verdade! Vi todos eles. Um por um e não peguei a doença porque sou protegido de Tupã. Mas muita gente da tribo foi infestada por doença de branco. Não podíamos ficar por aqui. Passou o tempo, acabou a guerra, e o homem branco foi tomando posse da terra, transformando mata em lavoura. A caça ficou escassa. O povo de Quati teve que buscar proteção, moradia em outro lugar”. A plateia era puro riso e burburinho. Que mentira! Aquilo era uma festa do folclore e não um festival de mentira. E Alfredo, mantendo a fé:  “- Quati afirma que é verdade!”.

O cemitério onde enterraram soldados vitimados pela varíola. Parte do monumento em memória à Retirada de Laguna. Foto arquivo pessoal.
O cemitério onde enterraram soldados vitimados pela varíola. Parte do monumento em memória à Retirada da Laguna. Foto arquivo pessoal.

“- Meu caro Quati, disse o apresentador da festa, como a tribo se protege da invasão do homem branco? Não seria melhor conviver? Onde seus irmãos foram morar?” E o menino: “- Estamos na floresta, que o homem branco pensa ser amaldiçoada! Somos nós que iluminamos a mata, para fazer que o homem branco pense em fantasmas, almas penadas. Assim ficam longe da floresta que nos resta e assim nos deixam em paz”.  Um menino gaiato, amigo de Alfredo, não se conteve: “- Escuta aqui, Quati, vocês usam lanterna ou luz elétrica na floresta?” E Quati, sério: “- Usamos tochas, pequeno bacuri. Apenas tochas!”.

Aos poucos, a plateia foi rendendo-se à história de Quati, quer dizer, de Alfredo, ou é de Quati? Bom, a história de Quati contada por Alfredo, reunindo algumas das mais gostosas histórias de Monte Alegre em uma única história. Do poço sem fundo, das luzes na floresta assombrada… e até histórias reais, como a passagem dos soldados na Guerra do Paraguai. Uma boa história, a gente sabe, tem que ter lógica. Não pode ser assim, sem pé nem cabeça. Tem que ter começo, meio, fim. E foi buscando toda a lógica da história de Quati, que uma pergunta se fez necessária: “Quati, onde fica o poço sem fundo? Ninguém mais diz onde ele está!” O menino, em tom de confidência, contou: “- Fica no meio, bem no meio da floresta amaldiçoada”. E em tom ameaçador: “E não adianta procurar que ninguém achará esse poço. Só pode ver quem é da família de Quati. E para evitar que alguém descubra, nunca entramos pelo poço, mas por outras entradas que há na região.”

Marcelo Ribas em foto de Thaneressa Lima (divulgação)
Marcelo Ribas em foto de Thaneressa Lima (divulgação)

Como? Então há outras entradas para o poço sem fundo? “- Quati afirma que é verdade!”. Segundo narrou Quati, essas entradas ficam em uma das cachoeiras do município. Pode ser a Cachoeira do Rio Piedade, a Esperança, ou a cachoeira da Usina Velha no Rio Babilônia. Por trás da queda d’água fica a entrada que conduz ao acampamento da família de Quati.

 

Acontece que revelando o segredo, Quati colocava a família em apuros. É claro que todo mundo iria tentar encontrar os índios que iluminam a floresta nas noites escuras, sem lua. Muita gente iria atrás desse poço, desses índios, saber como é que vivem lá, distantes de todos. Houve até quem propôs irem todos imediatamente. “- Nunca!” Gritou Quati, ameaçador! “-Nosso segredo está garantido e ninguém, nunca, encontrará o poço, nem chegará perto das luzes da floresta! Nem mesmo as almas penadas que vagam por essa cidade. Ninguém! Adeus! Vocês nunca mais encontrarão Quati!” E Quati, jogando uma bomba de fumaça, desapareceu do palco na frente de todos.

Quati saiu do coreto e nunca mais voltou. Quem voltou, rapidamente, já sem as roupas de indiozinho foi o Alfredo. Imenso aplauso ecoou por toda a praça Nicanor Parreira. Sem dúvida aquela era a melhor história contada na praça. Alfredo era justo merecedor do grande prêmio para contadores de histórias. Alguém, entre brincalhão e invejoso, não se aguentou: “Como esse Alfredo conta mentira! Merecia um nariz de Pinóquio!” E é claro, que Alfredo respondeu: “- Eu afirmo que é verdade!”.

 

Marcelo Ribas em foto de Thaneressa Lima (divulgação)
Marcelo Ribas em foto de Thaneressa Lima (divulgação)

(O CONTADOR TOCA A MATRACA E ENCERRA SUA APRESENTAÇÃO COM UM AGRADECIMENTO. VOLTA A MEXER NOS LIVROS, ANTES DE CONTINUAR SEU TRABALHO).

Monte Alegre de Minas e Canápolis Recebem Mostra Teatral do Projeto Arte na Comunidade 2

CONHEÇA A PROGRAMAÇÃO DE ENCERRAMENTO DO PROJETO ARTE NA COMUNIDADE 2:

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Ronan Vaz e Marcelo Ribas em “Histórias do Pontal de Minas”, foto by Thaneressa Lima

MONTE ALEGRE DE MINAS

Conheça as atrações do dia 5 de setembro sexta, às 18h00, na Praça Nicanor Parreira, em Monte Alegre de Minas.

Apresentação da Banda Municipal Maestro Victal Reis, sob a regência do Maestro Leonardo Reis, e da dupla Zé Bicho de Pé e Diva Bela.

Espetáculos
A peça “Histórias do Pontal de Minas”, de Valdo Resende, foi criada exclusivamente para compor o projeto Arte na comunidade 2. É o próprio autor quem dirige os atores José Luiz Filho, Marcelo Ribas e Ronan Vaz e a atriz Lilia Pitta.
“Balaio Popular”, do Grupontapé de Uberlândia, mostra as tradições populares e a religiosidade com enfoque no universo mineiro.

CANÁPOLIS

Em Canápolis, dia 7, domingo, às 16h00, na Praça 14 de Julho, uma tarde divertida, cheia de arte e histórias. Conheça a programação:

Apresentações de artistas locais: 
Roda de Capoeira
Banda Municipal José Alexandre da Silva
Dança: “Minha 1º Valsa” e “A Boneca Encantada” – 2º colocada no 14º DANÇARAXÁ (Araxá/ MG), com os alunos da Oficina de Ballet da Casa de Cultura

Espetáculos
A peça “Histórias do Pontal de Minas”, de Valdo Resende,  criada exclusivamente para compor o projeto Arte na comunidade 2. É o próprio autor quem dirige os atores José Luiz Filho, Marcelo Ribas, Ronan Vaz e Lilia Pitta.
Já “A História da Menina que Falava Muito e…” descobrimos com Falância – uma menina de nove anos como outra qualquer, com seus sonhos, vontades e uma energia típica dessa faixa etária e que não gosta de estudar – a importância da leitura e da busca pelo conhecimento.

Organizado pela Kavantan & Associados, o projeto Arte na Comunidade 2 é patrocinado pela Alupar e Cemig, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e conta com o apoio das Prefeituras de Canápolis, Monte Alegre, Ituiutaba e de Prata. Para mais informações, acesse a página no Facebook http://facebook.com/artenacomunidade e fique por dentro de toda a programação.

 

Aguardamos todos vocês!

“Arte na Comunidade 2” em Ituiutaba

Neste sábado, dia 30, às 19 horas, na Praça Getúlio Vargas, em Ituiutaba, teremos a Mostra Teatral que é parte da programação do projeto ARTE NA COMUNIDADE 2. Além das escolas participantes do projeto, serão apresentadas duas outras peças:

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Lilia Pitta e Ronan Vaz, Histórias do Pontal de Minas.

– “Histórias do Pontal de Minas”, de Valdo Resende, criada exclusivamente para o projeto Arte na comunidade 2. Fatos reais e fictícios das cidades participantes do projeto estão nas aventuras vividas pelas crianças da região, contadas e interpretadas pelos atores José Luiz Filho, Marcelo Ribas, Ronan Vaz e Lilia Pitta. É o próprio autor quem dirige a montagem.

– “Mágico de Oz”, musical com o Grupo Ciranda de Cena de Uberlândia, Minas Gerais,  resgata valores como a amizade, os ideais da família e a valorização da cultura popular. A trama conta a história de Dorothy, que vivia feliz com seus tios até ser levada por um furacão a outro mundo. Na tentativa de voltar para casa ela sai à procura do grande OZ, o único que poderá lhe ajudar. Nesta busca, Dorothy encontrará muitos perigos e desafios.

José Luiz Filho e Marcelo Ribas, Histórias do Pontal de Minas
José Luiz Filho e Marcelo Ribas, Histórias do Pontal de Minas

Após as apresentações haverá sorteio de prêmios para o público presente. Organizado pela Kavantan & Associados, o projeto Arte na Comunidade 2 é patrocinado pela Alupar e Cemig, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e conta com o apoio das prefeituras de Ituiutaba, Canápolis, Monte Alegre de Minas e Prata. Para mais informações, acesse a página do projeto no Facebook e fique por dentro de toda a programação.

Ficaremos honrados com a presença de toda a população de Ituiutaba e região. Compareçam!

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Obras de arte, vibradores e skank

Convite, por ocasião da entrega do quadro de Portinari ao MNBA
Convite, por ocasião da entrega do quadro de Portinari ao MNBA

 

O país segue em frente, mesmo em tempos de Copa do Mundo. Dois exemplos contundentes: as eleições, aonde o “café com leite” vem com tudo e algumas ações da Receita Federal garantindo tributos devidos aos cofres públicos. “Café com leite”, para os mais jovens, é quando os estados de São Paulo e Minas aliam-se em propósitos políticos. Aécio, de Minas, e Aloysio, paulista de São José do Rio Preto tentarão o lugar de Dilma. Já tributos, quando não pagos, é assunto para a Receita Federal.

A vida de um agente da Receita Federal fica distante do árido discurso político e, me parece, ser bem excitante. É bem verdade que sobram muambas paraguaias no cotidiano desses profissionais; a frequência é tanta que deve ser rotina apreender bebidas, roupas, perfumes e cacarecos para consumo ordinário. Já obras de arte…

O Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, receberá em doação várias obras de arte apreendidas pela Receita Federal. Avaliadas em R$ 10 milhões, as obras são de autoria de artistas nacionais (Cildo Meireles, Jorge Guinle, Daniel Senise, Beatriz Milhazes) e internacionais (Niki de Saint-Phalle e Michelangelo Pistoletto)e em breve estarão expostas para todo o público. Não é esta a primeira doação deste tipo que o museu recebe. Já tive a oportunidade de visitá-lo e conheci, lá, uma obra de Portinari, “Caçador de Passarinho” que foi apreendida e doada ao Belas Artes em 2006.

Ao ler a boa notícia – penso que grandes obras de arte devem permanecer em espaços públicos – deparei-me com outra; a inusitada apreensão de cem vibradores e outros duzentos massageadores eróticos em Foz do Iguaçu, no Paraná. O material estava com um cidadão que embarcava para Fortaleza. Fico imaginando a situação: o agente abre a mala, depara-se com dezenas de vibradores e encara o cearense, cabra macho, e indaga: – É para uso pessoal, senhor?

Animado pelo flagra erótico voltei para mais notícias do setor. Estão lá outras apreensões inusitadas: 160kg de cabelos, sete jatos de luxo, mil réplicas da Taça Fifa (Santo Deus, vários países brigando por uma quando há milhares por aí…) e, entre todas as apreensões, aquela que levou-me a abrir o link: “Receita apreende skank no aeroporto do Galeão”.

Será que a Receita Federal confundiu o grupo mineiro com droga? Pensaram que o vocalista Samuel tenha sido o responsável pelo tráfico dos 160 kg de cabelos? A banda também seria responsável pelas mil réplicas da taça, buscando lançar um novo hit tipo “É uma partida de futebol”?

O bom de certas notícias é não ir direto, desvendando o mistério. Há certo prazer em saborear possibilidades, buscando as causas para tal situação. Se a polícia confundiu a banda mineira Skank com droga, como deixaram de fora a Jota Quest? E seria um absurdo prender o Samuel e deixar o Dinho falando merda no programa dominical da Globo. Será que a manchete estaria errada?

A Skank apreendida pela Receita Federal é uma “supermaconha, cultivada em laboratório, também conhecida como skunk”… Hein? Ufa! Entendi. Então percebi nunca ter buscado a origem da Skank, nem ligado isso ao fato da banda tentar, como está no site oficial, “transportar o clima do dancehall jamaicano para a tradição pop brasileira”. Jamaica? Entendi. Acho…

Enfim, o país caminha com eleições e ações diversas de todos os setores. Mais que impostos retidos na fonte, mordidas do leão, na importante Secretaria há skank, obras de arte, jatos, cabelos, vibradores e, para quem tem, anualmente encontramos a notícia de restituição do IR. Bons e divertidos motivos para ficar atento às ações da Receita Federal.

Até mais!

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As cinzas e os homens

O escritor e o médium

A imprensa noticiou a possibilidade de divisão das cinzas de Gabriel García Márquez entre México e Colômbia. Os dois países reivindicam a “posse” dos restos mortais do autor de “Cem Anos de Solidão”. Também não duvido de que a Argentina entre na briga, já que foi lá que um editor acreditou na viabilidade da obra e publicou o êxito maior do autor colombiano. Fiquei pensando se partiriam o corpo ao meio caso o escritor não tivesse sido cremado, ou em três partes; quem ficaria com os membros, ou o tronco, ou a cabeça? O que diria Gabriel García Márquez de tudo isso? Ah, os seres humanos!

Recordei a pinimba entre duas cidades mineiras, Uberaba e Pedro Leopoldo, sobre o legado de Chico Xavier. Os ânimos de ambas as cidades ficaram exaltados, simultaneamente velados, na disputa pela herança do médium. Uberaba constrói um memorial e , por lá, virou museu a casa onde Chico morou. Pedro Leopoldo transformou em memorial a casa onde Chico nasceu; lá estão expostos todos os livros psicografados pelo médium e centenas de biografias do mesmo. Quando as prefeituras tratam do assunto é preponderante nas avaliações e ponderações das mesmas o potencial turístico, ou seja, a possibilidade de levantar grana em cima da lembrança de Chico Xavier.

Quem deve ficar com as cinzas de Gabriel García Márquez? Qual cidade merece os rendimentos sobre a memória de Chico Xavier?  Não sei. Essas discussões são inevitáveis já que os principais envolvidos, até onde eu saiba, não deixaram nenhuma instrução ou registro de decisão sobre essas questões. O que é certo é que o escritor nunca voltou para a Colômbia, mesmo com uma doença letal, e nem Chico, também doente, manifestou desejo de retornar para a cidade onde nasceu.

Tudo ficaria mais simples se planejássemos também nossa pós-morte. Não estou dizendo aqui dos meros interesses materiais – testamento, seguro de vida e similares – mas, além desses, também dos interesses afetivos e até mesmo religiosos. Como os egípcios! Qual razão para não pensar em nosso túmulo e no local onde queremos o mesmo? Registrar o tipo de funeral que pretendemos evitaria especulações e discussões sobre imagens, flores, velas e rituais funerários. Escolher a foto – para os túmulos que levarão fotos – e o epitáfio para a lápide. Como seria o anúncio do velório, da missa de sétimo dia? Havendo cerimônia religiosa, como seria esta, que imagem e qual texto estariam naqueles pequenos folhetos de lembrança e pedido de oração?

Vivemos preferencialmente ignorando a morte seja como algo definitivo ou como término da passagem pelo planeta. Vivemos a ilusão da eternidade, do infinito, entrando em parafuso perante uma doença qualquer. Ignoramos a marcha do tempo e negamos os sinais deste, às vezes de forma absurdamente radical; adotamos plásticas e outras práticas que deformam ou expõem a precariedade humana perante o tempo. A morte vem, inexorável, e os primeiros legados são os dilemas para os sobreviventes próximos. Com qual roupa vestir o defunto? Quais os rituais religiosos? O que fazer com os cacarecos todos? Afinal, ninguém discute o que fazer com joias e saldo bancário; mas e as cartas, os álbuns de retratos, as lembranças de viagem?

Conheço pessoas que são categóricas quando este tipo de assunto é abordado: “- Não é problema meu”, brincam, fugindo do assunto. Há outras que não revelam testamento; garantem com isso um melhor tratamento dos possíveis herdeiros. Todavia, me parece, a maioria das pessoas morre deixando um monte de situações para que outros solucionem; exemplo claro disso são as disputas como essas, envolvendo Gabriel García Márquez e Chico Xavier e milhares de outras, de pessoas comuns, mas que também deixaram coisas e cinzas.

Decisões e desejos de futuros defuntos, penso eu, devem ser discretas, íntimas, para pequenos círculos. De qualquer forma seria engraçado ver socialites disputando nas “caras” da vida as cerimônias mais sofisticadas para si mesmas; mas, insisto que é melhor que sejam discretas, sem grandes alardes. O máximo que permito publicar sobre meu fim, que espero esteja bem distante e que seja bem suave, tomo emprestado de um poeta maior:

… Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

(Fernando Pessoa – em “O guardador de rebanhos”)

Até mais!

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“O dia D” voltar para Minas

anhanguera/valdoresende

Todo aquele que é da minha geração, tendo saído da casa dos pais e vindo para longe, trouxe na bagagem da memória duas canções; uma que nos afasta das origens colocando-nos reféns do destino; desnudando vontades, anseios e escancarando uma felicidade como prêmio nos versos finais:

Eu por aqui vou indo muito bem, de vez em quando brinco Carnaval
E vou vivendo assim: felicidade na cidade que eu plantei pra mim
E que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim.

Quando jovem ostentamos uma coragem farsesca e somos portadores de grandes doses de petulância e autossuficiência. A canção acima começa assim:

Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu fui embora
Mamãe, mamãe não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí
Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu quero mesmo é isto aqui…

“Mamãe, coragem” é de Caetano Veloso e Torquato Neto. Este mesmo Torquato Neto escreveu os versos de “Todo dia é dia D”, praticamente antítese da primeira canção, também guardada na bagagem da memória. Os versos são fortes em contraponto com uma melodia suave, criada por Carlos Pinto:

Desde que saí de casa
trouxe a viagem da volta
gravada na minha mão
enterrada no umbigo
dentro e fora assim comigo
minha própria condução
todo dia é dia dela
pode não ser, pode ser
abro a porta e a janela
todo dia é dia D.

Saí de casa com 17 anos, 1972, mesmo ano em que Torquato Neto ligou o gás e suicidou-se. Ele estava com 28 anos. Eu já conhecia a música “Mamãe, coragem”, do disco “Tropicália ou panis et circensis”, de 1968. Um tempo depois de levar as primeiras aulas de “a vida como ela é”, ouvi “Todo dia é dia D”, música que saiu em um compacto simples, em 1973, junto com o livro “Os últimos dias de Paupéria”, coletânea de textos de Torquato Neto organizada por Waly Salomão e Ana Maria Duarte (essa foi esposa do compositor).

Eis que o tempo passou e continuei, sempre, cantarolando as duas canções. Sempre Gal Costa em “Mamãe, Coragem”, sempre Gilberto Gil em “Todo dia é dia D”. De repente, do inesperado vem uma proposta de trabalho e me chega um “dia D” voltar para Minas Gerais.

“…todo dia é dia dela
pode não ser, pode ser…”

Este 2014 é para muitos o ano que começa agora, depois do carnaval; o ano de Copa do Mundo, de eleições. Na minha história é o ano de voltar e realizar um trabalho em minha terra. E este é o x da questão: voltar e realizar um trabalho em Minas Gerais. Nos próximos meses estarei geminianamente dividindo-me entre lá e aqui. O que farei? Depois eu conto. Tenham paciência; a mesma que tive durante todos esses anos aguardando a hora de voltar.

Boa semana para todos.

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