Aos 70, pronto para outro “por acaso”

Por acaso, “papagaio de pirata” na Veja

Certamente não nasci por acaso. O Aparecido, que carrego no nome, comprova promessa materna para que eu nascesse. A mania de escrever, que trago da infância, é o que me leva a refletir e exercitar a memória.

Sempre fiquei irritado com a expressão “O Brasil não tem memória”. Até onde eu saiba o país é uma abstração social construída por um longo processo cultural. Sendo abstração, cabe a quem construiu e a quem nela vive registrar o que a faz ser, ou seja, lembranças e memórias. Em síntese: Não diga que o Brasil não tem memória se você não escreveu nem uma única linha sobre sua mãe. E, calminha, a mãe aqui não é apenas a genitora, mas a outra, a pátria, que pode ser mátria, aquela do poema do Vinícius de Moraes. A vida está cheia de mães: a dor, a rua, a necessidade, coisas que nos ensinam a sobreviver. Bom registrar que só a mãe mulher costuma dar a vida pelos filhos.

Uma distinção entre preservar a memória e ser conservador é necessária. Continuando na linha “mãe”, parece óbvio dizer que gostaria que mamãe tivesse uma vida melhor. Ela até que viu a reviravolta que a mulherada deu após o surgimento da pílula anticoncepcional, as ideias revolucionárias da década de 70 e pôde usar um monte de eletrodomésticos que tornaram menos pesadas as tarefas domésticas. Há uma imensa distinção entre conservar as mães dentro da cozinha, com tudo o que a tecnologia puder proporcionar, e lutar para que as tarefas – TODAS – do universo familiar sejam divididas, compartilhadas pelo casal.

Mamãe batalhou para que os filhos estudassem. Enquanto vivo serei grato; se escrevo foi por ter tido livros, revistas, gibis e uma mãe que insistiu para minha ida à escola. Ela queria para os filhos uma vida melhor. E o ideal é que esse melhor fosse planejado, ou seguisse uma onda que, lá em casa, vingou nas irmãs, todas professoras! Havia um papo que meninos deveriam ser engenheiros ou médicos, garantindo uma profissão sem patrão e com possibilidade de ganhar grana. Não rolou!

Por acaso, no Piauí, lá no Parque Nacional da Serra da Capivara (Foto: Cris Buco)

Meu irmão Valdonei tinha vocação para atividades autônomas. Foi o primeiro, talvez o único, a entrar em conflito com meus pais por preferir o trabalho ao estudo. Eu cresci em um momento em que a televisão se popularizava e, junto com o cinema, tive outros fascínios, outros desejos. Lá pelos cinco, seis anos de vida quis ser bailarino como os que via na tv. Não sendo russo, fui bastante criticado pela família. A primeira carga de preconceito das tantas que vieram pesar sobre o meu lombo. Carreira de bailarino ficou para uma próxima encarnação. Se reencarnar, escolherei nascer perto do Bolshoi.

No cinema conheci Joselito no primeiro filme que assisti, “O pequeno rouxinol”. Era um garoto espanhol com uma garganta privilegiada que fez sucesso lá e cá. A música entrou como perspectiva num dos “teatros da Belinha”, a moça que, na paróquia, fazia apresentações de pequenas peças, esquetes, números musicais para angariar fundos para as ações sociais. Eu devia cantar a “Canção do jornaleiro” e “O engraxate”. Músicas melosas de garotos de rua tentando sobreviver.

Eu cantava o dia inteiro. No telhado, em cima de árvores, no banheiro durante intermináveis banhos (para desespero do meu pai, preocupado com as contas de luz). Passei por programas infantis de rádio, cantei em serenatas com colegas do bairro, em missas, casamentos e botecos. Adulto, já dono de primeiras composições, gravei disco, fui cantar por aí até descobrir que odiava cantar profissionalmente. Em bares, era começar a cantar, sem aquele tradicional “silêncio que vai se ouvir o fado” dos portugueses, e já vinha o burburinho da plateia. Pior o bêbado chato, pedindo para você, que é barítono, cantar música de soprano. Ainda hoje não consigo acreditar que Roberto Carlos goste de cantar Emoções e não é à toa que Maria Bethânia canta Carcará com arranjos diferenciados.

Por acaso, via Pri Cirino, fui juiz de carnaval.

Os acontecimentos se entrelaçam, a vida segue. Até pensaram que eu faria engenharia e tive alguns problemas por querer estudar filosofia. “Não dá dinheiro!” era a frase para o cara que sonhava com uma vida franciscana. Mas veio o primeiro “por acaso” de alguns que norteariam minha vida.

Por acaso comecei a atuar em teatro, quando meu amigo Ronaldo precisou de alguém que escrevesse e dirigisse uma peça para encerrar um encontro de jovens. Começava ali uma trajetória de infinitos detalhes e quero ressaltar aqui o que me pega de jeito: redigi 48 peças. Dessas, 14 continuam inéditas. Caso você queira montar alguma, pagando direitos autorais, entre em contato pelo meu e-mail. Também escrevo sob demanda respeitando valores éticos. Sou de esquerda.

Também foi por acaso que um sujeito abriu um jornal em Santo André, no ABC. Entre os patrocinadores, uma agência de viagens. Maria da Penha, minha amiga, escreveria sobre os destinos oferecidos pela CVC e, percebendo a lacuna, informou ao proprietário que conhecia alguém que poderia escrever sobre teatro. Depois desse primeiro vieram outros três jornais, oito revistas, dois sites e alguns blogs. No mais longevo, este blog onde você lê este texto, contabilizo 1009 textos publicados desde 2011.

Por acaso, via Rafael Mendes, entrando no universo digital.

Lá pelas tantas já sabia das dificuldades de sobreviver trabalhando em teatro e, se sobrevivia com jornalismo, queria mais alguma coisa. Foi quando o Grupo Boi Voador foi fazer turnê em Portugal e um dos seus atores, Rossi, sendo professor, precisava de um substituto na escola. Domingos Quintiliano me indicou e lá começou uma atividade que mantive por 34 anos. Foram três colégios e duas universidades. Milhares de alunos, alguns grandes amigos.

Há diversos outros, no entanto desejo registrar o mais recente “por acaso”. A música que havia ficado em plano secundário voltou ao meu cotidiano. Sugestão e incentivo de Flávio Monteiro, fui parar no Madrigal Ars Viva. Estou lá, feliz da vida, estudando com afinco e aprendendo, aos 70, a cantar em latim, francês, italiano, alemão (alemão é foda!). E conhecendo pessoas incríveis, vivendo experiências especiais como cantar a Misa Creolla, primeiro com grupo de músicos e depois com a Orquestra Sinfônica de Santos.

Nas atividades principais desses anos todos é a escrita permeando tudo. A escrita não veio por acaso. Graças à minha mãe, às minhas professoras. De tudo o que faço – e fiz – na vida, a escrita permanece. Até onde vou, não sei. Segue a vida! O que virá? Certamente que, se lúcido, escreverei. Te convido a ler e, sobretudo, tento te estimular. Escreva sua história. Faça um vídeo, componha uma canção, um poema. Registre sua história e mande à merda essa falácia de o país não ter memória. O Brasil sou eu, somos nós (“Grande coisa”, “Bela bosta”, “Se achando”). Pois é, bom ou ruim, somos nós. Ah, e por escrever, me aguarde: novo romance vem por aí (aguarde o próximo post!).

Até!

“Es Sudamérica mi voz”

Neste último sábado formamos um enorme grupo sobre o palco do Teatro Sesc-Santos. Foi o encerramento da série Concertos Ibero-Americanos. O Maestro Ricardo Cardim, regente e idealizador da série (veja mais aqui), reservou para o concerto final a Misa Creolla, do argentino Ariel Ramirez.

“Meninos, eu estava lá!”. E aqui estão dois registros afetivos, ou seja, não são vídeos profissionais: são da perspectiva de quem estava na plateia e, assim, temos uma ideia de como fomos vistos e ouvidos. E queremos compartilhar com amigos, pessoas queridas e todos os interessados em música. Nas páginas sociais dos participantes estão outros momentos do concerto.

No primeiro vídeo, o Madrigal Ars Viva canta Niño Dios d’amor herido. É o grupo do qual faço parte e estou feliz e orgulhoso com o resultado.

No segundo vídeo, ápice do concerto, estão dois coros: O Ars Viva e o Coro Livre da Baixada, mais um grupo de músicos e solistas convidados cantam a Misa Creolla em cinco movimentos: Kyrie, Glória, Credo, Sanctus, concluindo com o Agnus Dei.

Não só nesse concerto, mas no cotidiano, o Maestro Ricardo Cardim é o regente dos dois coros e, certamente, todos os participantes agradecem-no pela atenção e infinita paciência em ensaios durante meses e meses.

Valeu, Maestro! Parabéns! Para todos os participantes!

Nota: o título deste post é de música de Ariel Ramirez e Félix Luna, que abre o disco Cantata Sudamericana, de Mercedes Sosa. Parceira de vários trabalhos com esses compositores, Mercedes é uma das intérpretes da Misa Creolla.

Boa semana para todos!