Cariello e Cariello. Iguais e diferentes

Há muitos irmãos dentro de uma mesma atividade ou profissão. Certamente o ambiente familiar, a convivência, favorece o despertar de interesses similares; se esquecermos as artes, vamos encontrar gente em todas as áreas dividindo a profissão com os próprios irmãos. Todavia, dentro do universo artístico, nos encantamos quando há uma incontestável e imensa quantidade de membros talentosos em uma mesma família.

Chico Buarque, desenhado por Octavio Cariello, divide o palco com as irmãs Miucha e Cristina

A música é pródiga em propiciar trabalho para irmãos. Os irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Batista fizeram história com a banda Os Mutantes, assim como os baianos Caetano Veloso e Maria Bethânia têm uma carreira sólida marcada por inúmeros êxitos. Se dois é pouco, temos o “Trio Esperança”, formado por cantoras fantásticas; há outro trio, Caymmi, mais conhecido como Família Caymmi, formado por Dori, Danilo e Nana Caymmi. Sim, há que se atentar para o grande pai, Dorival. Ok; há todas as outras duplas, aquelas que se ligam via “&”; vou deixá-las para outro momento, pois há uma certa peculiaridade entre os artistas abordados neste post.

Provavelmente há muitos artistas plásticos dentro de uma mesma família. Desenhistas, designers, ilustradores… A cidade de São Paulo é o berço dos gêmeos Paulo e Chico Caruso, que já entraram para a história, destacando-se entre os cartunistas brasileiros.  Recife é o berço dos irmãos Octavio e Sergio Cariello. Como todos os artistas citados acima, os irmãos Cariello trafegam pelas mesmas formas expressivas em vias muito distintas. Esta, talvez, seja a característica mais impressionante de toda essa gente. Abençoados com os mesmos dons, traçam os próprios passos.

Não conheço Sergio Cariello e não tenho receio em afirmar que sou o melhor amigo de Octavio Cariello. O primeiro mudou-se para os EUA, lá desenvolveu uma carreira de sucesso e, de lá, seu trabalho ganhou outras praças, chegando ao Brasil. Nos próximos dias Sergio Cariello estará em São Paulo e no Rio de Janeiro em eventos que destacarão, provavelmente, a maior empreitada do artista. Sergio Cariello ilustrou nada mais, nada menos do que a Bíblia.

Projeto desenvolvido pela David C. Cook, a “Bíblia em Ação” foi totalmente ilustrada pelo artista brasileiro que, hoje, reside na Flórida. São 750 páginas com mais de 200 narrativas, na mesma ordem do original sagrado. Antes de chegar a esse projeto, Sergio Cariello ganhou o respeito dos americanos trabalhando para as gigantes editoras Marvel e DC Comics.

Octavio Cariello saiu de Recife para São Paulo. Chegando por aqui logo conquistou admiração e respeito, sendo eleito por seus pares como um dos maiores desenhistas brasileiros. Ficou conhecido nacionalmente desenhando novas charges para o “Amigo da Onça” e ganhou o mundo em publicações internacionais, chegando a desenhar parte da saga “Entrevista com o Vampiro”, original de Anne Rice.

Pude contar com o talento de Octavio Cariello quando dirigi a peça “A História de Lampião Jr. e Maria Bonitinha”, original de Januária Alves, produzido pela Kavantan & Associados. Foi ele o responsável por toda a programação visual da montagem – cartazes, convites, programa, anúncios – o que contribuiu para o sucesso do nosso trabalho. Os caminhos de Octavio conduziram-no para a literatura e, meses atrás, escrevi sobre o lançamento de Tueris, o romance escrito por ele. Antes, Octávio foi o responsável pela minha estréia em livro, quando organizou a coletânea Alterego, onde participei com um conto.

Os caminhos desses irmãos são brilhantes. Com capacidade expressiva similar, cada um percorreu um caminho peculiar, único. Pessoas iguais, com os mesmos talentos, oriundas de um mesmo lar, tiveram a possibilidade de buscar um caminho próprio, onde se realizam e são felizes. Isso é muito bom!

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Bom feriado!

Notas:

Octávio Cariello divide o que sabe com seus alunos na Quanta, academia de artes. Anote informações sobre a vinda de Sergio ao Brasil:

Bethânia, oásis da música brasileira

O lançamento do 50º álbum de Maria Bethânia celebra a carreira de uma das mais importantes cantoras da nossa história. “Oásis de Bethânia” é o título do novo trabalho, que tem na capa uma imagem do semi-árido brasileiro, em pleno sertão nordestino. Para a imprensa justificou a capa: “- Preciso lembrar que existe esse lugar no meu país. Isso me coloca do tamanho que eu sou”. Essa é a Bethânia, a mulher admirável, a mulher brasileira.

Ouvindo as dez faixas do cd,  reforço a certeza de que a discografia de Maria Bethânia sintetiza toda a música do país. Não é exagero afirmar que conhecer Bethânia é conhecer nossa música. Nos discos da cantora todos os ritmos, todas as regiões, todos os maiores compositores de nossa história. De Noel Rosa a Chico Buarque, Bethânia, que lançou em disco o irmão Caetano Veloso, canta Pixinguinha, Dorival Caymmi, Ari Barroso, Herivelto Martins, Lupicínio Rodrigues, D. Ivone Lara, Joyce, Edu Lobo, Alceu Valença…

Poxa, são 50 álbuns. A lista desse Oásis de qualidade que é a carreira de Maria Bethânia cabe muito mais nomes. De Luiz Gonzaga a Gonzaguinha, tem também Djavan, Gilberto Gil, João Bosco e Aldir Blanc, Milton Nascimento, Roberto Mendes, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Haroldo Barbosa, Moraes Moreira, Dominguinhos e, que me perdoem todos os outros, vou encerrar essa lista primária com Vinícius de Moraes e Tom Jobim.

Além dos maiores compositores brasileiros, Maria Bethânia celebrou, em seus discos, as grandes cantoras do país, sempre respeitosamente reverenciadas por ela. As duas cantoras mais presentes em seus discos são Gal Costa e Dalva de Oliveira. Com a amiga Gal, muitas gravações em dupla, com sucessos memoráveis, como “Sonho Meu”. De Dalva, Bethânia resgatou boa parte do repertório da mais notável cantora da era do rádio; inclusive no presente álbum, Dalva de Oliveira é lembrada através de “Calúnia” (Marino Pinto e Paulo Soledade).

Muitas outras cantoras estão nos discos, álbuns ou DVDs de Maria Bethânia. Nara Leão, Alcione, Miúcha, Sandra de Sá, Wanderléa, a cubana Omara Portuondo, a francesa Jeanne Moreau, Dona Ivone Lara e, entre muitas outras, Ângela Maria e a divina Elizeth Cardoso. Como fez com Dalva de Oliveira, Maria Bethânia relembrou em outros discos as canções de Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Maysa, Isaura Garcia, Elis Regina…

Minha cantora preferida é incansável. Além dos próprios discos, Bethânia produziu outras cantoras, como D. Edith do Prato e a jovem Martinália e prepara, para breve, um Songbook com oito CDs dedicados à obra de Chico Buarque. Este sempre esteve nos discos da cantora. No atual, ela gravou “O Velho Francisco” com Lenine, um dos grandes momentos do álbum. Apesar de tudo o que já gravou de Chico Buarque, Maria Bethânia quer mais. Pretende abordar todas as diferentes faces do grande compositor brasileiro.

O trabalho constante de Maria Bethânia é o que faz da “Senhora do Engenho” a menina baiana que roda a saia pelos palcos do mundo todo, com uma graça e presença inconfundíveis. Estou, propositalmente, falando pouco sobre o atual disco, pois o lançamento do 50º álbum de Maria Bethânia é fato para lembrar aspectos de uma carreira brilhante, única.

Oásis é onde o caminhante do deserto mata a sede. Oásis é o lugar agradável, paradisíaco, pleno de água e sombra e conforto. O “Oásis de Bethânia” é a caatinga nordestina, o pampa gaúcho, a chapada mineira, a mata e o sertão brasileiro. A obra de Bethânia é o oásis de qualidade das nossas canções.

Maria Bethânia incomoda muita gente. Quando todo mundo engole, economiza palavras, Bethânia nos brinda com a poesia de Fernando Pessoa, Castro Alves e torna populares os densos temas de Clarice Lispector. Incomoda, porque enquanto incontáveis artistas se rendem as leis de consumo, Bethânia grava Villa Lobos, revive Catulo da Paixão Cearense, e torna populares os pontos de Oxossi, Iansã.

Enfim, se milhares de brasileiros entregam-se a uma aposentadoria precoce, vivendo apaticamente em função de um copo de cerveja, um jogo de futebol ou um ordinário programa de televisão, de outro lado, uma jovem senhora baiana,  de 65 anos, nos dá claros sinais de que está longe de parar. Gravou o 50º e prepara oito novos álbuns para o próximo ano. Depois; bom, depois virão outros e mais outros e, tomara, muitos outros!

Que bom poder beber no seu Oásis, Maria Bethânia!

Bom final de semana!