Negros e alvos

O escritor e compositor Monahyr Campos, próximo convidado do Trem das Lives, atua também em teatro. Publicou um texto teatral, Negros e alvos, pela Giostri Editora, na coleção Dramaturgia Brasileira.

Da capa do livro extraímos um trecho que apresenta o autor: “Sua carreira no teatro começou com o ator e diretor Celso Frateschi, tendo estudado posteriormente com Jaime Compri e Eugênio Barba, participando do 4° Festival Internacional de Artes e Ciências de São Paulo, com o Grupo Americano Bread and Puppet, e do congresso da International School of Theatre Antropology (ISTA), no Festival Internacional de Londrina, em 1994”.

Sobre o texto, também está descrito no livro:

“Para enfrentar a ordinária e corriqueira estupidez racista, esta, até certo ponto, propositalmente caricatural na peça, a personagem desenvolve e acredita em um modo de vida que supera as questões raciais.

A palavra “alvo” é polissêmica, às vezes querendo dizer o contrário de negro, pois, teoricamente, o contrário de branco é preto; em outros momentos revelando um norte para rompimento da estrutura sólida da sociedade, que é o sucesso meritocrático, independente de ser preto ou branco; há também a questão do próprio negro ser o alvo, pois a manutenção da sociedade tal como esta passa necessariamente pela imobilidade social e cultural dos negros, daí a fomentação de estruturas midiáticas que reforçamos preconceitos arraigados há séculos neste país; por fim, alvo também significa a identificação daquele que oprime e, por esta razão deve ser vencido.”

O teatro é uma arte efêmera. Existe no palco, no exato momento em que os atores entram em cena, luzes acesas, iniciando a ação. O texto permanece e pode ser montado em diferentes épocas, por diferentes grupos ou companhias. Do trabalho de Monahyr Campos temos esse registro que leva uma temática contundente, ainda atual e, por isso, merece novas abordagens, a visão de outros atores, conduzidos por outro diretor, ou pelo próprio autor.

Espero, sinceramente, que Alvos e Negros volte a ser montado e, assim, possamos ver toda a arte teatral de Monahyr Campos. Sobre dramaturgia, também falaremos no Trem das Lives desse domingo, dia 8, 18h, no www.instagram.com/tremdaslives.

Todos estão convidados!

Para os interessados em adquirir o livro, cliquem aqui.

Ponto de honra, de Monahyr Campos

Nosso convidado do Trem das Lives, Monahyr Campos lançou recentemente, pela Editora Patuá, o livro de contos COLO. Conheça abaixo um dos textos da obra, Ponto de Honra. Neste conto Monahyr entra no universo de uma violência presente, ignorada por muitos, preocupação de outros, evidenciada e caracterizada em uma linguagem peculiar, aproximando o leitor do ambiente, cenário e modo de vida das personagens envolvidas.

O link para a aquisição do livro está no final do conto. O Trem das Lives, com Monahyr Campos será no próximo domingo, dia 8, 18h, no instagram.com/tremdaslives.

PONTO DE HONRA

Acordei de madrugada com o sistema nervoso, pregado na intuição: o Travoso, comandante da ala ia me pedir antes da visita, daqui a dois dias! Acabou que eu tava mordido, na fissura de ficar bicudaço, mas careta que tava, num parava num pensamento. Mil fita na cabeça, mil treta. Todo o falatório por causa de uma brizola miúda, mó merreca, e agora, os perdigão aprontando a bicuda e eu no fim do carretel.

Precisando dar um pino, precisando dar um pino, psôr. Tá ligado? Eu jurado só porque num entrei na fita e deu zica. Aí, do nada aparece uns passarinho e assopra meu nome. Aê, psor, o senhor tem que por um pano! O senhor tem deus no coração, num vai quebrar a perna!

Eu sentindo toda aquela aflição, sabia que tinha que me manter a uma distância segura. Por outro lado, como ignorar um pedido de alguém naquela condição?

Eu não posso entrar na frente, entende? Se der pra conversar, lógico que eu faço um corre, mas não dá pra garantir. Cê tá ligado que se eu firmar contigo, viro adubo na mesma lampiana que você. Quando eu for lá no xis eu dou a letra. Segura a onda, aí.

Dois anos e dois meses de trabalho aqui na penitenciária e já estou quase insensível a essas confusões. A princípio, era pra ser apenas seis meses de trabalho forçado, mas fui me meter a besta de dar minha contrapartida social, de fazer a minha parte. Agora sou refém de mim mesmo, dentro de um episódio do Hannibal, visto com desconfiança pelos presos; com desdém pelos funcionários; como louco por meus colegas de profissão; e nunca mais fui visto de forma nenhuma por minha mulher, nem meu filho… A mulher é ex, mas o filho é pra sempre.

No começo eu ficava desesperado, achava que tinha obrigação de ajudar esses coitados. Só aos poucos fui me dando conta de que, se bobear, muitos deles nem sabem o que é esse sentimento de empatia – apelam por minha intersecção justamente por saberem que eu prezo por meu sentimento de humanidade, que eu os vejo a todos como meus iguais, mas eles sabem porque estão aqui – eu não.

Hoje é o Carqueja. Semana passada, foi o coitado do Apendicite. Antes, o Buti. Teve também o caso do Timba, do Sprite. A lista é infinita… Tudo história mal contada, diz-que-me-disse; um, porque dizem que talaricou a feinha do outro; aquele porque era jacaré… Pessoas com problemas seríssimos em lidar com autoridade e, de repente, condenadas a viver sob um regramento extremamente rígido.

Aqui a vida é no limite o tempo todo. É no limiar do julgamento que o mais forte organiza a convivência, verbalizando as regras, que são invariavelmente aceitas por consenso. Não faria sentido questionar qualquer lei, simplesmente porque cada norma num ambiente primitivo é a consagração de um modo de viver, é sempre ponto de honra!

As paralelas encontram-se no infinito. Na teoria funciona muito bem essa afirmação, mas aqui, vivo diariamente a experiência de estar numa realidade paralela, beirando o absurdo pelo lado de dentro. Qual a vantagem de poder sair, se a sensação de desconforto levo comigo: a minha e a deles? “Aqui a vida é no limite o tempo todo”. O refrão do MC Louva-a-Deus não me dá descanso, vinte e quatro horas por dia martelando a britadeira nos neurônios.

Lembro de ter lido, há um bom tempo, num livro bastante badalado, que para se constatar se uma pessoa está viva, o meio mais fácil é colocar um espelho em suas narinas e observar: enquanto estiver respirando, a superfície ficará embaçada, sempre. Se a imagem refletida permanecer límpida, é porque não há mais vida. Sabedoria dos antigos que eu tive que aprender nos livros.

Feliz de quem vive “pregado na intuição”, como diria o Carqueja, mas eu, preciso de livros pra aprender até o que a vida ensina. E eu sei que estou vivo, eu existo, porque em minha vida, sempre vejo tudo embaçado. Visão límpida, só quando a gente encara a morte de perto, no susto, no choque! Quando a pancada te arranca do confortável e te empurra pro precipício, você enxerga longe, o fundo do poço fica cristalino, mesmo se a água for turva.

E eu sobrevivendo neste inferno, como se existir me bastasse, como se a satisfação fosse duradoura cada vez que tenho notícias de algum ex-interno recuperado. Como se a gratidão fosse uma qualidade que se possa esperar de quem teve sua humanidade arrancada junto com a placenta, como se…

  • Tá morgando, fessor?! O senhor é o maior responsa, mas num dá brecha. O Carqueja vai cair e é hoje! O presidente já deu a letra, aqui mancoso num tem vez. O senhor num sabe de nada, né não? Fica pianinho que a gente dá a letra quando for chacoalhar o colégio. Lembra quando o ganso falou pro senhor faltar? Ninguém avisou o otário do nervosinho… agora ele tá o maior groselha.

Eles me avisaram quando teve rebelião. Simplesmente faltei. O Alemão não teve a mesma sorte, agora não é nem de longe o arrogante de tempos atrás. Tiraram toda a petulância dele aos berros. Passou mais de duas horas, pendurado, de ponta-cabeça, no telhado do presídio, sendo ameaçado, correndo o risco de escapar das mãos daquela gente ensandecida, completamente animalizada.

Infelizmente o Carqueja vai ser triturado. Perdeu.

A cada vez que tentava dormir, me vinha a imagem daqueles olhos estatelados feito jaca madura, caindo no terreno baldio de minha insônia, me pedindo socorro. Coitado. Eu era sua derradeira esperança. Eu, de mãos completamente imobilizadas, totalmente impotente. Disposto a resgatar algumas individualidades através do conhecimento, percebi que nem mesmo o meu melhor, nem minha dedicação ao máximo grau pode interferir na dinâmica daquele lugar.

Qualquer texto, poema ou discurso que lhes apresento, sempre vai transitar na possibilidade de se tornar uma extrema unção. “Pra morrer, basta estar vivo”, nunca minha mãe teve tanta razão! E quem me garante que a qualquer hora, não vai aparecer um “passarinho” para assoprar o meu nome?

MONAHYR CAMPOS

PARA ADQUIRIR “COLO acesse aqui o site da editora.

Monahyr Campos no Trem das Lives

Mestre em Linguística, professor e compositor. Monahyr Campos é criativo e combativo. Coloca seus múltiplos talentos a serviço de preservar a cultura negra, da luta contra o racismo, para fazer desse um mundo mais harmônico, humano e bonito.

Escritor, é autor de Negros e Alvos – A exceção não pode servir para exemplo, publicado pela Ed. Giostri; e Colo – Contos e Novelas, em 2020, pela editora Patuá (SOBRE ESTE LANÇAMENTO LEIA AQUI).

Nesse domingo, dia 8, Monahyr dividirá conosco um pouco da sua carreira e das suas lutas. O encontro será às 18h no Instagram.com/tremdaslives.

Não perca!

Colo, novo livro de Monahyr Campos

monahyr

Conheci Monahyr Campos na universidade onde fui professor. Temporariamente distantes pela atual situação, fico feliz em poder divulgar Colo, novo livro em pré-lançamento, exclusivamente virtual. Formado em Letras e mestre em Linguística, Discurso e Mídia, Monahyr tem intensa atividade cultural. Compositor e intérprete, também atua como colunista da Rádio Baruk, Programa Podcasts Literários.

“Em Colo, Monahyr Campos cria conexões com o público, ora expondo questões sociais, ora refletindo a partir do cotidiano subjetivo de pessoas comuns, tecendo suas tramas com as diferentes linhas que contribuíram para o enraizamento da cultura brasileira”.

colo monahyr (2)

Leia abaixo um dos contos publicados no livro:

Cerimônia da Partilha!

Havia uma colmeia dentro da caverna,

Com abelhas inofensivas.

Precisa paciência para extrair inteira,

mas compensa retirá-las vivas.

Uma roda de ciranda com sete meninos e sete meninas cantava interminavelmente esse mantra segurando firmemente nas mãos uns dos outros. Davam passos firmes e ritmados, em perfeita sincronia, em sentido horário e anti-horário. A cada repetição da estrofe, um garoto e uma garota, cortavam a roda, indo a direções opostas, ocupando o lugar deixado pela pessoa que o havia saudado com reverência, no centro da circunferência.

Às vezes, aparentemente de improviso, o casal interagia entre si com uma dança diferente: imitando as abelhas, ou os mais velhos, ou criando coreografias inusitadas.

Com a chegada dos mais velhos, eu entre eles, imaginei que a dinâmica fosse ser alterada, porém, abriu-se uma segunda roda, em torno da primeira, engrossando o coro e acrescentando o som das palmas ao ritmo dos pés batendo forte no chão. – Eu queria apenas observar, comentei com D. Meninge, mãe venerável daquele povo de felicidade. – É assim que observamos o mundo: participando dele. Vocês, cientistas, param de respirar quando estudam respiração?

Neste momento, uma garota canta mais alto e seu gesto foi imediatamente compreendido como sinal para dar-lhe a palavra. Todos silenciam e sentam-se mantendo a forma circular. Pia inicia sua narrativa cantada lembrando que é tradição milenar de seu povo receber estrangeiros ávidos por conhecimento. Todos a acompanharam no refrão:

A aranha quando tece

A teia do conhecimento

O inseto aceita

É puro arrebatamento

Ela retoma a palavra e me apresenta, em versos, contando fatos de minha vida como se Ney Lopes tivesse composto minha biografia, tamanha a beleza na escolha das palavras. Retornam ao refrão. Após finalizar D. Meninge assume a palavra:

– É uma benção inigualável podermos manter nossa tradição, mesmo com todo retrocesso que vem ocorrendo no mundo dito civilizado. Todo conhecimento que cultivamos, nossas histórias e experiências, justificam sua existência quando temos a honra de fazer acréscimos a nossos irmãos menos abençoados. Quando nossos sábios foram visitar esses povos, tiveram que utilizar nomes populares, falar por parábolas, respeitando suas dificuldades em compreender os fatos mais evidentes, mais triviais. Soltemos um pombo branco em homenagem a estes corajosos que assumiram essa missão suicida, de equilibrar um pouco mais a elevação espiritual dos povos espalhados pelo planeta.

Da mesma forma, devemos dar toda honraria a este destemido cientista por dar sua vida em troca do conhecimento. Sua abnegação em busca de sabedoria é notória, assim como a doação de sua juventude, das horas de sono perdidas, tudo pelo bem maior. Fomos agraciados com sua companhia por 14 dias de generosidade, nos quais este ser humano de grande valor pode subir ao topo mais alto, de onde pode ver com mais lucidez toda a história da vida no planeta.

É chegada a hora da partilha. Todo sacrifício pela ciência, pela consciência e transcendência nos une, nos alimenta o corpo e a água. Eu declaro iniciada a cerimônia da partilha!

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Desejo ao Monahyr boa sorte e sucesso nessa nova empreitada.

Até mais!